Poemas neste tema

Estações do Ano (Primavera, Verão, Outono, Inverno)

Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXXIII

Quem trabalha mais na terra,
o homem ou o sol ceresino?

Entre o abeto e a papoula
a quem a terra quer mais?

Entre as orquídeas e o trigo
para qual é a preferência?

Para uma flor para que tanto luxo
e um ouro sujo para o trigo?

Entra o outono legalmente
ou é uma estação clandestina?
1 057
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXXII

Se todos os rios são doces
de onde tira sal o mar?

Como sabem as estações
que devem mudar de camisa?

Por que tão lentas no inverno
e tão palpitantes depois?

E como sabem as raízes
que devem subir para a luz?

Sempre é a mesma primavera
a que repete seu papel?

E logo saudar o ar
com tantas flores e cores?
1 040
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLVI

E como se chama esse mês
que está entre dezembro e janeiro?

Com que direito numeraram
as doces uvas do racimo?

Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?

Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?
1 108
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Epitalâmio

Lembras-te de quando
no inverno
chegámos à ilha?
O mar erguia em nossa direcção
uma taça de frio.
Nas paredes as vides
sussurravam deixando
cair folhas obscuras
à nossa passagem.
Tu eras também uma folhinha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
Num princípio não te vi: não soube
que ias andando comigo
até que as tuas raízes
furaram o meu peito,
uniram-se aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
Assim foi a tua presença inadvertida,
folha ou ramo invisível,
e depressa se povoou
o meu coração de frutos e sons.
Habitaste a casa
que te esperava obscura
e acendeste então as luzes.
Lembras-te, meu amor,
dos nossos primeiros passos na ilha?
As pedras cinzentas reconheceram-nos,
as fendas da chuva,
os gritos do vento na sombra.
Mas foi o fogo
o nosso único amigo,
junto dele abraçámos
o doce amor de inverno
a quatro braços.
O fogo viu crescer o nosso beijo nu
até tocar estrelas escondidas,
e viu nascer e morrer a dor
como uma espada quebrada
contra o amor invencível.
Lembras-te,
oh adormecida na minha sombra,
de como em ti crescia
o sonho,
do teu peito nu
aberto com as suas cúpulas gémeas
até ao mar, até ao vento da ilha,
e de como eu no teu sonho navegava
livre, no mar e no vento
embora preso e submerso
ao volume azul da tua doçura?
Oh doce, minha doçura,
a primavera mudou
os muros da ilha.
Apareceu uma flor como uma gota
de sangue alaranjada,
e logo as cores descarregaram
todo o seu peso puro.
O mar reconquistou a sua transparência,
no céu a noite
separou os seus cachos
e já todas as coisas sussurraram
o nosso nome de amor, pedra a pedra,
disseram o nosso nome e o nosso beijo.
A ilha de pedra e musgo
ressoou no segredo das suas grutas
como na tua boca o canto,
e a flor que nascia
entre os interstícios da pedra
com a sua secreta sílaba
ao passar disse o teu nome
de planta abrasadora
e o escarpado rochedo erguido
como o muro do mundo
reconheceu o meu canto, bem amada,
e todas as coisas disseram
o teu amor, o meu amor, amada,
porque a terra, o tempo, o mar, a ilha,
a vida, a maré,
o gérmen que entreabre
os lábios na terra,
a flor devoradora,
o movimento da primavera,
tudo nos reconhece.
O nosso amor nasceu
fora das paredes,
no vento,
na noite,
na terra,
e por isso a argila e a corola,
o barro e as raízes
sabem como te chamas,
e sabem que a minha boca
se juntou com a tua
porque juntos fomos semeados na terra
sem que alguma vez o soubéssemos
e juntos crescemos
e juntos florescemos
e por isso
quando passamos,
o teu nome está nas pétalas
da rosa que cresce na pedra,
o meu nome está nas grutas.
Tudo isto eles o sabem,
não temos segredos,
juntos crescemos
mas não o sabíamos.
O mar conhece o nosso amor, as pedras
do cume rochoso
sabem que os nossos beijos floresceram
com pureza infinita,
como nos interstícios uma boca
escarlate amanhece:
tal como o nosso amor e o beijo
que reúne a tua boca e a minha
numa flor eterna.
Meu amor,
a primavera doce,
flor e mar, rodeiam-nos.
Não a trocamos
pelo nosso inverno,
quando o vento
começou a decifrar o teu nome
que hoje a toda a hora repete,
quando
as folhas não sabiam
que eras uma folha,
quando
as raízes
não sabiam que me procuravas
no meu peito.
Amor, amor,
a primavera
oferece-nos o céu,
mas a terra obscura
é o nosso nome,
o nosso amor pertence
a todo o tempo e à terra.
Amando-nos, o meu braço
sob o teu pescoço de areia,
iremos esperar
como mudam a terra e o tempo
na ilha,
como caem as folhas
das taciturnas vides,
como parte o outono
pela janela partida.
Mas nós
vamos esperar
pelo nosso amigo,
o nosso amigo de olhos vermelhos,
o fogo,
quando de novo o vento
sacudir as fronteiras da ilha
e não saiba o nome
de todos,
o inverno
irá procurar-nos, meu amor,
sempre
irá procurar-nos, porque o conhecemos,
porque não o tememos,
porque temos
connosco
o fogo
para sempre,
temos
a terra connosco
para sempre,
a primavera connosco
para sempre,
e quando se desprender
das vides
uma folha,
tu sabes, meu amor,
que nome vem escrito
nessa folha,
um nome que é o teu e é o meu,
o nosso nome de amor, um único
ser, a flecha
que atravessou o inverno,
o amor invencível,
o fogo dos dias,
uma folha
que me caiu no peito,
uma folha da árvore
da vida
que fez ninho e cantou,
que criou raízes,
que deu flores e frutos.
E assim vês, meu amor,
como ando
pela ilha,
pelo mundo,
seguro no meio da primavera,
louco de luz no frio,
caminhando tranquilo no fogo,
erguendo o teu peso
de pétala nos meus braços
como se nunca tivesse andado
senão contigo, minha alma,
como se não soubesse andar
senão contigo,
como se não soubesse cantar
senão quando tu cantas.
2 428
Pablo Neruda

Pablo Neruda

A nostalgia

Daquelas aldeias que cruzam o inverno e as ferrovias
invicto saía apesar dos anos meu escuro relâmpago
que ainda ilumina as ruas adversas onde se uniram o frio
e a lama como as duas asas de uma ave terrível:
agora ao chegar à minha vida teu aroma escarlate
tremeu minha memória na sombra perdida como se no bosque
rompesse um elétrico canto a palpitação da terra.
1 171
Nana Corrêa de Lima

Nana Corrêa de Lima

Outono

Outono

No outono,
quando abril abriu
suas portas para
as folhas amarelas,
azulei-te, esverdeando...

963
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto VI - América, não invoco o teu nome em vão

I
De cima (1942)

O percorrido, o ar
indefinível, a lua das crateras,
a seca lua derramada
sobre as cicatrizes,
o calcário buraco da túnica rota,
a ramagem de veias congeladas, o pânico do quartzo,

do trigo, da aurora,
as chaves estendidas nas rochas secretas,
a aterradora linha
do sul despedaçado,
o sulfato dormido em sua estatura
de longa geografia,
e as disposições da turquesa
girando em torno da luz cortada,
do acre ramo sem cessar florido,
da espaçosa noite de espessura.




II
Um assassino dorme

A cintura manchada pelo vinho
quando o deus tabernário
pisa os copos rotos e desgrenha
a luz da alva desencadeada:
a rosa umedecida no soluço
da pequena prostituta, o vento dos dias febris
que entra pela janela sem vidraças
onde o vingado dorme com os sapatos postos
em um odor amargo de pistolas,
em um a cor azul de olhos perdidos.




III
Na costa

Em Santos, entre o odor doce-agudo das bananeiras
que, como um rio de ouro brando, aberto nas costas,
deixa nas margens a estúpida saliva
do paraíso desengonçado,
e um clamor férreo de sombras, de água e locomotiva,
uma corrente de suor e plumas,
algo que baixa e corre do fundo das folhas ardentes
como de um sovaco palpitante:
uma crise de vôos, uma remota
espuma.




IV
Inverno no sul, a cavalo

Eu transpassei a cortiça mil
vezes agredida pelos golpes austrais:
senti o cachaço do cavalo dormir
sob a pedra fria da noite do sul,
tiritar na bússola do monte desfolhado,
ascender na pálida face que começa:
eu conheço o final do galope na névoa,
o farrapo do pobre caminhante:
e para mim não há deus senão a areia escura,
o lombo interminável da pedra e a noite,
o insociável dia
com um advento
de roupa ruim, de alma exterminada.




V
Os crimes

Talvez tu, das noites escuras percorreste
o grito com punhal, a pisada no sangue:
o solitário fio de nossa cruz mil vezes
pisoteada,
as grandes pancadas na porta calada,
o abismo ou o raio que tragou o assassino
quando ladram os cães e a violenta polícia
chega entre os adormecidos
a torcer com força os fios da lágrima
arrancando-os da pálpebra aterrada.




VI
Juventude

Um perfume como uma ácida espada
de cerejas num caminho,
os beijos do açúcar nos dentes,
as gotas vitais resvalando nos dedos,
a doce polpa erótica,
as eiras, os paióis, os incitantes
lugares secretos das casas amplas,
os colchões dormidos no passado, o acre vale verde
olhado de cima, da vidraça escondida:
toda a adolescência molhando-se e ardendo
como uma lâmpada derrubada na chuva.




VII
Os climas

Caem do álamo no outono
as altas flechas, o renovado olvido:
fundem-se os pés em puro cobertor:
o frio das folhas irritadas
é um espesso manancial de ouro,
e um esplendor de espinhos põe perto do céu
os secos candelabros de estatura eriçada,
e um jaguar amarelo, entre as unhas,
cheira uma gota viva.




VIII
Varadero em Cuba

Fulgor de Varadero desde a costa elétrica
quando, despedaçando-se, recebe nas ancas
a Antilha, o maior golpe de vaga-lume e água,
o sem-fim fulgurante do fósforo e a lua,
o intenso cadáver da turquesa morta:
e o pescador escuro retira dos metais
uma cauda eriçada de violetas marinhas.




IX
Os ditadores

Ficou um aroma entre os canaviais:
uma mescla de sangue e corpo, uma penetrante
pétala nauseabunda.

Entre os coqueiros os túmulos estão cheios
de ossos demolidos, de estertores calados.

O delicado sátrapa conversa
com taças, pescoços e cordões de ouro.

O pequeno palácio brilha como um relógio
e os rápidos risos enluvados
atravessam às vezes os corredores
e se reúnem às vozes mortas
e às bocas azuis frescamente enterradas.

O pranto está escondido como uma planta
cuja semente cai sem cessar sobre o chão
e faz crescer sem luz suas grandes folhas cegas.

O ódio se formou escama por escama,
golpe por golpe, ria água terrível do pântano,
como um focinho cheio de lodo e silêncio.




X
América Central

Que lua como uma culatra ensangüentada,
que ramagem de látegos,
que luz atroz de pálpebra arrancada
te fazem gemer sem voz, sem movimento,
rompem teu padecer, sem voz, sem boca,
ó, cintura central, ó, paraíso
de chagas implacáveis.

Noite e dia vejo os martírios,
dia e noite vejo o acorrentado,
o rubro, o negro, o índio
escrevendo com mãos batidas e fosfóricas
nas intermináveis paredes da noite.




XI
Fome no sul

Vejo o soluço no carvão de Lota
e a enrugada sombra do chileno humilhado
picar a amarga veia da entranha, morrer,
viver, nascer na dura cinza
agachados, caídos como se o mundo
entrasse assim e saísse assim
entre pó negro, entre chamas,
e só acontecesse
a tosse no inverno, o passo
de um cavalo na água negra, onde caiu
uma folha de eucalipto como faca morta.




XII
Patagônia

As focas estão parindo
na profundidade das zonas geladas,
nas crepusculares grutas que formam
os últimos focinhos do oceano,
as vacas da Patagônia
se destacam do dia
como um tumulto, como um vapor pesado
que levanta no trio sua quente coluna
para as solidões.


Deserta és, América, como um sino:
cheia por dentro dum canto que não se eleva,
o pastor, o llanero, o pescador
não têm uma mão, nem uma orelha, nem um piano,
nem um rosto perto: a lua os vigia,
a extensão os aumenta, a noite os espreita,
e um velho dia, lento como os outros, nasce.




XIII
Uma rosa

Vejo uma rosa junto à água, uma pequena taça
de pálpebras vermelhas,
sustentada na altura por um som aéreo:
uma luz de folhas verdes toca os mananciais
e transfigura o bosque com solitários seres
de transparentes pés:
o ar está povoado de claras vestimentas
e a árvore estabelece sua magnitude adormecida.




XIV
Vida e morte de uma mariposa

Voa a mariposa de Muzo na tormenta:
todos os fios equinociais,
a pasta gelada das esmeraldas,
tudo voa no raio
são sacudidas as últimas conseqüências da aragem
e então uma chuva de estames verdes
o pólen das esmeraldas sobe;
seus grandes veludos de fragrância molhada
caem nas ribas azuis do ciclone,
unem-se aos tombados fermentos terrestres,
regressam à pátria das folhas.




XV
O homem enterrado no pampa

De tango em tango, se conseguisse
riscar o domínio, as pradarias,
se já adormecido
saindo de minha boca o cereal selvagem,
se eu escutasse nas planuras
um trovão de cavalos,
uma furiosa tempestade de patas
passar sobre os meus dedos enterrados,
beijaria sem lábios a semente
e amarraria nela os vestígios
de meus olhos
para ver o galope que amou minha turbulência:
mata-me, vidalita,
mata-me e que minha substância se derrame
como o rouco metal das guitarras.




XVI
Operários marítimos

Em Valparaíso, os operários do mar
me convidaram: eram pequenos e duros,
e seus rostos queimados eram a geografia
do oceano Pacífico: eram uma corrente
por dentro das imensas águas, uma onda muscular,
um ramo de asas marinhas na tormenta.

Era formoso vê-los como pequenos deuses pobres,
semidesnudos, malnutridos, era formoso
vê-los lutar e palpitar com outros homens além do oceano,
com outros homens de outros portos miseráveis, e ouvi-los,
era a mesma linguagem de espanhóis e chineses,
a linguagem de Baltimore e Kronstadt,
e quando cantaram A internacional cantei com eles:
um hino me subia do coração, quis dizer-lhes: “Irmãos”,
mas tive apenas a ternura que se me fazia canto
e que ia com o seu canto de minha boca até o mar.

Eles me reconheciam, me abraçavam com seus poderosos olhares
sem dizer-me nada, olhando-me e cantando.




XVII
Um rio

Quero ir pelo Papalopán
como tantas vezes pelo terroso espelho,
tocando com as unhas a água poderosa:
quero ir a matrizes, à contextura
de suas originais ramagens de cristal:
ir, molhar meu rosto, mergulhar na secreta
confusão do orvalho
a pele, a sede, o sonho.

O sável saindo da água
como um violino de prata,
e na margem as flores atmosféricas
e as asas imóveis
num calor de espaço defendido
por espadas azuis.




XVIII
América

Estou, estou rodeado
por madressilva e páramo, por chacal e centelha,
pelo acorrentado perfume dos lilases:
estou, estou rodeado
por dias, meses, águas que só eu conheço,
por unhas, peixes, meses que só eu estabeleço,
estou, estou rodeado
pela delgada espuma combatente
do litoral povoado de sinos.

A camisa escarlate do vulcão e do índio,
o caminho, que o pé descalço levantou entre as folhas
e os espinhos entre as raízes,
chega a meus pés à noite para que o caminhe.

O escuro sangue como num outono
derramado no solo,
o temível estandarte da morte na selva,
os passos invasores se desfazendo, o grito
dos guerreiros, o crepúsculo das lanças adormecidas,
o sobressaltado sonho dos soldados, os grandes
rios em que a paz do caimão chapinha,
tuas recentes cidades de alcaides imprevistos,
o coro dos pássaros de costume indomável,
no pútrido dia da selva, o fulgor
tutelar do vaga-lume,
quando em teu ventre existo, em tua tarde
de almenaras, em teu descanso, no útero de teu nascimento,
no terremoto, no diabo dos camponeses, na cinza
que cai das nevadas, no espaço,
no espaço puro, circular, inatingível,
na garra sangrenta dos condores, na paz humilhada
da Guatemala, nos negros,
nos cais de Trinidad, na Guayra:
tudo é minha noite, tudo
é meu dia, tudo
é meu ar, tudo
é o que vivo, sofro, levanto e agonizo.

América, nem da noite
nem do dia estão feitas as sílabas que eu canto.

De terra é a matéria apoderada
do fulgor e do pão de minha vitória,
e não é sonho meu sonho porém terra.

Durmo rodeado de espaçosa argila
e por minhas mãos corre quando vivo
um manancial de caudalosas terras.

E não é vinho o que bebo porém terra,
terra escondida, terra de minha boca,
terra de agricultura com orvalho,
vendaval de legumes luminosos,
estirpe cereal, adega de ouro.




XIX
América, não invoco o teu nome em vão

América, não invoco o teu nome em vão.

Quando sujeito ao coração a espada,
quando agüento na alma a goteira,
quando pelas janelas
um novo dia teu me penetra,
sou e estou na luz que me produz,
vivo na sombra que me determina,
durmo e desperto em tua essencial aurora:
doce como as uvas, e terrível,
condutor do açúcar e o castigo,
empapado em esperma de tua espécie,
amamentado em sangue de tua herança.
1 519
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLVII

Ouves em meio do outono
detonações amarelas?

Por que razão ou sem razão
chora a chuva sua alegria?

Que pássaros ditam a ordem
da bandada quando voa?

De que suspende o beija-flor
sua simetria deslumbrante?
962
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Meio-Dia - XLI

Desventuras do mês de janeiro quando o indiferente
meio-dia estabelece sua equação no céu,
um ouro duro como o vinho de uma taça repleta
satura a terra até seus limites azuis.


Desventuras deste tempo semelhantes a uvas
pequenas que agruparam verde amargo,
confusas, escondidas lágrimas dos dias,
até que a intempérie publicou seus cachos.


Sim, germes, dores, tudo o que palpita
aterrado, à luz crepitante de janeiro,
madurará, arderá como arderam os frutos.


Divididos serão os pesares: a alma
dará um golpe de vento, e a morada
ficará limpa como o pão novo na mesa.
1 096
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ilha

Amor meu, na Ilha Saint-Louis escondeu-se o outono
como um urso de circo, sonâmbulo, coroado pelos guizos
que caem do plátano, em cima do rio, chorando:
cruzou o crepúsculo a Ponte do Arcebispado,
pé ante pé, detrás da Igreja que mostra suas graves costelas,
e tu e eu regressamos de um dia que não teve nada
a não ser esta dor e este amor disperso nas ruas,
o amor de Paris ataviado como uma estação cinzenta,
a dor de Paris com sua faixa de pranto enrolada à sua insigne cintura
e esta noite, fechando os olhos, guardaremos um dia como uma moeda
que já não se aceita na loja, que brilhou e consumou seu tesouro:
estendidos, caídos no sono, seguindo o imóvel caminho,
com um dia a mais ou a menos que agregou a teu vestuário
um fulgor de ouro inútil que, sem dúvida, ou talvez, é a vida.
505
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Tarde - LVI

Acostuma-te a ver detrás de mim a sombra
e que tuas mãos saiam do rancor, transparentes,
como se na manhã do mar fossem criadas:
o sal te deu, amor meu, proporção cristalina.


A inveja sofre, morre, se esgota com meu canto.
Um a um agonizam seus tristes capitães.
Eu digo amor, e o mundo se povoa de pombas.
Cada sílaba minha traz a primavera.


Então tu, florescida, coração, bem-amada,
sobre meus olhos como as folhagens do céu
és, e eu te fito recostada na terra.


Vejo o sol transmigrar cachos a teu rosto,
olhando para a altura reconheço teus passos.
Matilde, bem-amada, diadema, bem-vinda!
1 103
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Manhã - VIII

Senão fosse porque têm cor de lua teus olhos,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionada tens a agilidade do ar,
se não fosse porque uma semana és de âmbar.


se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua fragrante
elabora passeando sua farinha pelo céu,


oh, bem-amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,


e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo:
vejo em tua vida todo o vivente.
1 243
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Tarde - LXXIV

O caminho molhado pela água de agosto
brilha como se fosse cortado em lua cheia,
em plena claridade da maçã,
em metade da fruta do outono.


Neblina, espaço ou céu, a vaga rede do dia
cresce com frios sonhos, sons e pescados.
O vapor das ilhas combate a comarca,
palpita o mar sobre a luz do Chile.


Tudo se reconcentra como o metal, se escondem
as folhas, o inverno mascara sua estirpe
e só cegos somos, sem cessar, somente.


Somente sujeitos ao leito sigiloso
do movimento, adeus, da viagem, do caminho:
adeus, da natureza caem as lágrimas.
925
Guerra-Duval

Guerra-Duval

Versos da Noite Má

Desmaiam alegrias e açucenas,
primaveras e rosas rosicler;
já autuneja o verde das verbenas
e o perfume pueril do vetiver.

Abrem os goivos tristes, goivos roxos,
como o viúvo pio roxo de mochos;
roreja sonolenta, lenta a chuva,
— triste noivado roxo de viúva...

A Noite cega, a imensa Noite impura
cobre a Luxúria e o Crime pelos mundos.
(A sombra desleal da Noite escura
lembra os teus olhos fúnebres, profundos!)

No campanário da última esperança
dobra a mortos o sino da Lembrança.
..........................................................
— É noite de assassinos esta noite,
E a minhalma não tem onde se acoitei

914
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Noite - LXXXVIII

O mês de março volta com sua luz escondida
e deslizam peixes imensos pelo céu,
vago vapor terrestre progride sigiloso,
uma por uma caem ao silêncio as coisas.


Por sorte nesta crise de atmosfera errante
reuniste as vidas do mar com as do fogo,
o movimento cinza da nave de inverno,
a forma que o amor imprimiu à guitarra.


Oh amor, rosa molhada por sereias e espumas,
fogo que dança e sobe a invisível escada
e desperta no túnel da insônia ao sangue


para que se consumam as ondas no céu,
esqueça o mar seus bens e leões
e caia o mundo dentro das redes escuras.
1 165
Lalla Romano

Lalla Romano

O outono é um rei que dá sua última festa

Desbotaram-se os tapizes e os brocados
se desfazem, lânguido é o lampejar
dos ouros
mas que importa?
pois que o rei a cada um já deu sua quota
distribuiu os frutos e as sementes

e desta riqueza é hora agora de gozar:
Nada será guardado
na solidão
do recolhimento e na pobreza deseja o rei
esperar a morte

:

L'autunno è un re che dà l'ultima festa

Sono stinti gli arazzi e ormai consunti
i bei broccati, languido è il brillìo
degli ori
ma che importa?
poichè già diede il re a ciascuno il suo
distribuì i frutti e le seminagioni

e di questa ricchezza ora si goda:
Nulla sarà riposto
in solitario
raccoglimento e in povertà la morte
vuole aspettare il re



817
Lalla Romano

Lalla Romano

Se é verdade que o gelo

Se é verdade que o gelo
suplantará o tímido calor
de nossas mãos agarradas
e que outro destino não teremos
na terra banhada da chuva
das folhas do outono
é certo então que ao pó retornam os mundos

As eras se abaterão sem rumor
como castelos de cinzas
sobre a lareira que já ninguém toca
na casa desabitada
só o vento fará gemer as portas
até que apodreçam sob o céu
quando até mesmo o teto tenha desabado

Eis tudo o que restará da casa
e do Eterno se dirá o Ausente


:


Se è vero che il gelo
soppianterà il timido calore
delle nostre mani avvinte
e noi non avremo altra sorte
nella terra bagnata dalla pioggia
delle foglie d'autunno
è vero che andranno in polvere i mondi

Le ere franeranno senza rumore
come castelli di cenere
sul focolare che nessuno smuove
nella casa disabitata
solo il vento farà gemere le porte
finchè imputridiranno sotto il cielo
quando anche il tetto si sarà scoperchiato

Questo e non altro rimarrà della casa
e l'Eterno sarà detto l'Assente



849
Orides Fontela

Orides Fontela

Poemetos

a) manhã
Ninguém ainda. As rosas me saúdam
e eu saúdo o silêncio
das rosas.

b) ausência
Aqui ninguém
e nuvens.

c) ave
Asas suspensas em
instanteluz.

d) lua
Integralidade.
Fixidez.

e) Narciso
A flor a água a face
a flor a água
a flor.

f) primavera
Da não-espera
acontecem as
flores.

g) lago
Tensão
fria
da água: paz - em - ser.

h) espera
As janelas abertas.
A porta apenas encostada...

i) vaso
mas incomunicante.

j) fim
A ausência das rosas. O caminho
Já sem ninguém, para o silêncio.


Publicado no livro Helianto (1973).

In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 769
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Barrio recuperado

Nadie vio la hermosura de las calles
hasta que pavoroso en clamor
se derrumbó el cielo verdoso
en abatimiento de agua y de sombra.
El temporal fue unánime
y aborrecible a las miradas fue el mundo,
pero cuando un arco bendijo
con los colores del perdón la tarde,
y un olor a tierra mojada
alentó los jardines,
nos echamos a caminar por las calles
como por una recuperada heredad,
y en los cristales hubo generosidades de sol
y en las hojas lucientes
dijo su trémula inmortalidad el estío.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 28 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 584
Iacyr Anderson Freitas

Iacyr Anderson Freitas

Elegia

o inverno quer ficar contigo
neste jardim,
onde um velho dorme.
ainda não são seis horas
e a nuvem
que outrora te acusava
some no azul, desfeita
por teu brilho
que envelhece,
é certo,
sem o alarde
dos ventos mesmos
de outrora.

o que procura estar contigo
não te envolve:
espera, agudo, neste jardim
inaugural
entre formigas,
jornais
e o que resta de setembro.

vives uma infância transitória
e teus cabelos cingem,
na cintura, o esboço
de um adeus
que a tua própria ausência configura.

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Hildeberto Abreu Magalhães

Hildeberto Abreu Magalhães

Neurônios

Não seria capaz de te escrever um poema confesso,
um poema capaz de autenticidade e odor?
Fico onde estou, mascarando o sofrimento, sozinho,
sem necessitar da simplicidade da saudação triste;
corro o olhar, à vista de um olho vermelho, todo
segredo binário transforma-se em conto...

Será que lhe roubei o sossego? Meu corpo vertido em fumaça,
movimentando-se como bailarina, roçando teu ventre:
apresentas-te sofreguidão e descaso, re-flexo opaco;
como vou olhar-te sem desejar-te o contato caro,
o sussurro perto da nuca, teu cheiro que me corta.
Penso antes que roubaste-me a paz e nada de bom
restou desta história morta.

Em pleno meio-dia, parado aqui, nesta rua, aguardando um
beijo indeciso, estás querendo derreter-me; verás
como se comporta um triste ice cub orvalhado,
umedecendo o vale entre teus seios belos e pequenos,
descendo por tua barriga como uma língua ardente.
Custa-me pensar que do teu lado sou uma criança tola...

Quando penso em ti, minha cabeça dói; como fosses
sair de lá, por acreditar-me afim a Zeus: mas
que vão apelo à Natureza. Revelo-me miserável!
A vontade necessária para tanto não é consistente!
Antes, zelo por estares aconchegada e quente, então,
nos pequenos fios condutores de minha parca luz.

Ah! como quero poder descrever e dissertar, e assim
escrever-te um romance para as horas fúteis, mas
tenho pouca memória (pouca vitamina, talvez) e
sintetizo a vida analisando o dia por vez.
Teria que ser um conto, ainda que aprecies o canto.
Teria que ser uma curta história, que deixa saudade;

Miss me? Eu sinto tanta falta, me falta força para
seguir-me fartando a vida, na falta e na tortura;
fazer-te nova escultura, servir-me-ás como modelo.
Mas estou longe e tua imagem é vaga e sombria.
Quero lançar-me às pedras, ou antes, fazer delas
talismãs, teus voodoos secretos, uma fruta saborosa.

Quero me lambuzar de cores variadas e pintar-te
o corpo, quem sabe deixar de ser tão cínico.
O amor de Prometeu, o amor de Dioniso, o amor de Zeus,
que mais posso desejar-te como signo fatal?
"Demos as mão e ao correr juntos, esbarramos em fórmulas
mal-ditas e satíricas, de refrões seculares".

Já vimos juntos o arrebol? É um risco a mais;
metáforas espessas, o que podem expressar?
Pergunta-se do que "sub-jaz" ou do que "aparece"?
Tento acreditar em "Lethes", deixar-te na memória,
escorregarem-se os dias nestes rios fluentes;
estamos navegando à deriva de uma intersecção de setas.

E ainda a alma rebelde que me cospe o rosto:
constrange-me o suicídio, por ser uma utilidade inútil.
O sonho está diminuindo; a estrada, eu sempre
retorno àquele mesmo ponto, encruzilhada de
escolhas, no mais das vezes, interpeladas pela barbaridade.
Tenho medo do exílio de teus olhos, no assalto ao céu...

Assim quer o Deus? Desenhos de fumaça, crianças brincam,
a vida correndo mais um setembro, construindo o caráter
da prima-vera, sob auspícios diversos e be careful!.
Acredito realmente na guerra e na morte, mas não
na dor. Como se estivesse perdido no caminho,
mesmo sabendo exatamente onde me encontro.

Mesmo pre-sentindo que tudo correrá como antes e
poderei beijar-te cálida ou calorosamente, assim
exijo uma seta para o arco que curva sóbrio:
teu suor em minha boca, teus sais para salvar-me
da solidão, teu sexo para energizar minhas glândulas.
Ou somente o teu cheiro, teu olhar, e go away alone.

Veja, os animais, todos se soltaram: veja o coelho
Bob Dylan e a galinha Janis, o porco Rotten;
corra, ou vamos perdê-los! Agora, pastor!
Traga-me o vinho do odre mais antigo, comemore
comigo o brotar da estação, dilacera-me com
teu punhal, pareço anestesiado? Serei símbolo-diverso?

Deita do meu lado esquerdo, cobre-me com teu corpo,
para sentir-lhe o peso; diga-me apenas querido e
já a música inquietante absorve-nos em cristais.
Lamento não poder gritar! Lamento a guerra e o
rosto no espelho. O que estou fazendo? Nada.
"Não é nada orgânico, obrigado". Ecos primaveris.

Passa o passo rápido no
auge do contraste que
sobe ou desce e que
seca e umedece agora...
Alçou vôo e desapareceu,
roçou o enjôo e vomitou,
olvidou voar como pássaro...

Um vento que rodeia minha amada, um vento quente
do norte, aliás, tórrido e puro éter, e mudança
de modo-contínuo, mesmo sendo um e o mesmo,
movimento ávido do mesmo calor, estátua na chuva!

Preciso preencher uma ânsia de vacuidade e dispersão,
para arrebatar a lâmina de tua mão, naquele dia,
quando os medos e paixões subsistiram num gesto;
quando mudas o fim do poema e descubro que foi

antigamente projetado e me vejo nele feliz e
absorto por ser divinamente dirigido a ti,
em todas as súplicas surdas e canções, em

novas re-edições de línguas mortas, que não se tocam
mais, que feneceram por falta de uso devido
ou mesmo impróprio. Não houve o fato. Ridículo?

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Manuscrito hallado en un libro de Joseph Conrad

En las trémulas tierras que exhalan el verano,
el día es invisible de puro blanco. El día
es una estría cruel en una celosía,
un fulgor en las costas y una fiebre en el llano.

Pero la antigua noche es honda como un jarro
de agua cóncava. El agua se abre a infinitas huellas,
y en ociosas canoas, de cara a las estrellas,
el hombre mide el vago tiempo con el cigarro.

El humo desdibuja gris las constelaciones
remotas. Lo inmediato pierde prehistoria y nombre.
El mundo es unas cuantas tiernas imprecisiones.
El río, el primer río. El hombre, el primer hombre.


"Luna de enfrente"


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 72 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Jônatas Batista

Jônatas Batista

Alegria do Céu

Maio... junho...
os raios do sol chegam mais livres e mais rápidos.
A luz das estrelas, mais intensa e mais viva, se derrama
pelas dobras da noite.
A lua... Nem um trapo de nuvem, nem um farrapo de sombra!
Céu descascado. Céu do Nordeste.
À nossa vista sempre dá mostra "a pálida e romântica enamorada
dos poetas vagabundos".
Quando os ventos gerais arrancam as primeiras folhas...
a gente tem gana de viver e de amar!
As violas acordam e os terreiros se espanejam.
O engenho de madeira canta, rouquenho, ao ritmo pesado e lerdo
dos bois vagarosos e sonolentos.
O caititu raspa a mandioca sumarenta e a farinha cheirosa
é remexida no forno de pedra.
Os riachos valentes se transformam em longas e estreitas
fitas de prata.
Os sambas se animam e os cantores se defrontam para
o desafio costumeiro.
A jurema de desata em flores e o perfume vai longe
em busca das abelhas.
As morenas se alindam e os namorados se comprometem.
O vaqueiro abóia, ao fim do dia, na quebrada da serra,
e o touro escarva o chão, desafiando no pátio da fazenda.
A égua nova, que ainda não deu cria, curveteia, no tabuleiro verde,
e a raposa uiva e gargalha, na encruzilhada do caminho.
As ovelhas, em ranchos, se agasalham fora dos currais,
e as cabras pinoteiam, ariscas, nas fraldas dos morros.
O caboré geme com frio e o cabeça-vermelha acorda
o galo preguiçoso, que se retarda no toque da alvorada.
O inverno vai longe,
A seca não chegou ainda,
Ah! nesse tempo, nesse tempo, baixam aos campos da minha terra
A bênção de Deus!
A alegria do Céu!

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Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

guarda-roupa

seu vestido de verão
sem você dentro
não é um vestido de verão
porque no vestido o verão
era você


Da série “Arquitetura de interiores”
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