Poemas neste tema
Esperança e Otimismo
Walter Queiroz
Retalhos de Hoje
Na confluência das horas
germinarão as manhãs
no esquecimento das cores
gestando flores letais
as margaridas sangrando
no tombamento dos corpos
arribação dos canteiros
habitação nos fuzis
eu sei de loucas bandeiras
subindo o mastro dos sonhos
como notícias estampadas
informando os alumínios
quando as crianças passaram
louvando a festa do sol
eis que o olhar tão ferido
nem soube do feito azul
nem houve tato ao formato
da nave antiga em regresso
as impressões marinheiras
no baile branco das velas
pediu entrada na roda
para brincar de inventor
em silente artesanato
dos ritos para o encontro
porém a mão estendida
girou no ar (só... sobrou)
os gestos estão cravados
nos quinhões já repartidos
na confluência das horas
correm sonoras de fogo
no pavilhão indefeso
bandeiras de ocupação
com notícias estampadas
faca/navalha/cinzel
hábeis de corte fundando
trabalho de sangue novo
a cruz gravada no peito
tem raiz no coração
nos braços um gesto abraço
preparando a comunhão
junto os retalhos de hoje
e não direi da esperança
tornar bandeiras de fogo
em estandartes de paz
germinarão as manhãs
no esquecimento das cores
gestando flores letais
as margaridas sangrando
no tombamento dos corpos
arribação dos canteiros
habitação nos fuzis
eu sei de loucas bandeiras
subindo o mastro dos sonhos
como notícias estampadas
informando os alumínios
quando as crianças passaram
louvando a festa do sol
eis que o olhar tão ferido
nem soube do feito azul
nem houve tato ao formato
da nave antiga em regresso
as impressões marinheiras
no baile branco das velas
pediu entrada na roda
para brincar de inventor
em silente artesanato
dos ritos para o encontro
porém a mão estendida
girou no ar (só... sobrou)
os gestos estão cravados
nos quinhões já repartidos
na confluência das horas
correm sonoras de fogo
no pavilhão indefeso
bandeiras de ocupação
com notícias estampadas
faca/navalha/cinzel
hábeis de corte fundando
trabalho de sangue novo
a cruz gravada no peito
tem raiz no coração
nos braços um gesto abraço
preparando a comunhão
junto os retalhos de hoje
e não direi da esperança
tornar bandeiras de fogo
em estandartes de paz
893
1
Antônio Chaves
A Vida
Dizem que a vida é um favo bem pequeno
Que às vezes tem dulçor e às vezes, travo...
Se assim é, sorve o teu com espírito sereno,
Sim, o teu, que é de mel,
Sem ao menos pensar que desse favo
Possa a última gota ter veneno
E amargar com fel.
A vida é triste, minha amiga! A vida,
Em sendo, como é, uma noite comprida,
E também a assassina da ilusão...
Não há quem, no melhor dos seus caminhos
Não encontre o pior de todos os espinhos...
Mas, não te importes, não!
Goza-a, sem procurares, todavia,
Tenta saber se, porventura, um dia,
Ela venha sangrar teu coração.
Goza-a, crendo no amor! E se em teu peito
Um sonho, pálido e desfeito,
Cair ferido pelo sofrimento,
Reage com o fulgor da tua graça,
Sê forte para que não se desfaça
O belo encantamento.
Encara a vida como se ela fosse
Eternamente doce,
Como um beijo do Céu que te bendiz;
A vida tem odor? Aspira-o se puderes,
Sê a mais otimista das mulheres
E serás sempre feliz.
Que às vezes tem dulçor e às vezes, travo...
Se assim é, sorve o teu com espírito sereno,
Sim, o teu, que é de mel,
Sem ao menos pensar que desse favo
Possa a última gota ter veneno
E amargar com fel.
A vida é triste, minha amiga! A vida,
Em sendo, como é, uma noite comprida,
E também a assassina da ilusão...
Não há quem, no melhor dos seus caminhos
Não encontre o pior de todos os espinhos...
Mas, não te importes, não!
Goza-a, sem procurares, todavia,
Tenta saber se, porventura, um dia,
Ela venha sangrar teu coração.
Goza-a, crendo no amor! E se em teu peito
Um sonho, pálido e desfeito,
Cair ferido pelo sofrimento,
Reage com o fulgor da tua graça,
Sê forte para que não se desfaça
O belo encantamento.
Encara a vida como se ela fosse
Eternamente doce,
Como um beijo do Céu que te bendiz;
A vida tem odor? Aspira-o se puderes,
Sê a mais otimista das mulheres
E serás sempre feliz.
924
1
Ana Maria Ramiro
Esperanças
A ânsia do ser humano
consiste em poder calar
do coração, as mágoas vividas
as traições, os desamores, as feridas
que por toda a vida, ano após ano,
insistem em latejar.
E a cada novo ciclo
Mais se aprende, à novas cores:
Renovam-se as esperanças,
Esvaem-se as lembranças,
Conquistam-se novos amores.
Ontem, as folhas de outono
Hoje, o sol de verão,
e meu coração embarcação,
também mudou de rumo.
Segue a brisa sem destino
Vagando, procurando um caminho,
persegue o futuro.
Ansiando lá no fundo
Por terra firme, ancoradouro
E porto seguro.
consiste em poder calar
do coração, as mágoas vividas
as traições, os desamores, as feridas
que por toda a vida, ano após ano,
insistem em latejar.
E a cada novo ciclo
Mais se aprende, à novas cores:
Renovam-se as esperanças,
Esvaem-se as lembranças,
Conquistam-se novos amores.
Ontem, as folhas de outono
Hoje, o sol de verão,
e meu coração embarcação,
também mudou de rumo.
Segue a brisa sem destino
Vagando, procurando um caminho,
persegue o futuro.
Ansiando lá no fundo
Por terra firme, ancoradouro
E porto seguro.
844
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Revolução
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
27 de Abril de 1974
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
27 de Abril de 1974
4 924
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Erros
A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos
Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado a abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?
1975
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos
Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado a abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?
1975
2 428
1
Henriqueta Lisboa
Ciranda de Mariposas
Vamos todos cirandar
ciranda de mariposas.
Mariposas na vidraça
são jóias, são brincos de ouro.
Ai! poeira de ouro translúcida
bailando em torno da lâmpada.
Ai! fulgurantes espelhos
refletindo asas que dançam.
Estrelas são mariposas
(faz tanto frio na rua!)
batem asas de esperança
contra as vidraças da lua.
Publicado no livro O Menino Poeta (1943).
In: LISBOA, Henriqueta. O menino poeta. Ed. esp. ampl. Introd. Alaíde Lisboa de Oliveira. Il. Odila Fontes. Belo Horizonte: Impr. Oficial, 1975. p.129
ciranda de mariposas.
Mariposas na vidraça
são jóias, são brincos de ouro.
Ai! poeira de ouro translúcida
bailando em torno da lâmpada.
Ai! fulgurantes espelhos
refletindo asas que dançam.
Estrelas são mariposas
(faz tanto frio na rua!)
batem asas de esperança
contra as vidraças da lua.
Publicado no livro O Menino Poeta (1943).
In: LISBOA, Henriqueta. O menino poeta. Ed. esp. ampl. Introd. Alaíde Lisboa de Oliveira. Il. Odila Fontes. Belo Horizonte: Impr. Oficial, 1975. p.129
2 762
1
Soares Bulcão
Parêmias
Quem muito quer do futuro
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.
A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.
Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.
Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.
Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.
Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.
Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.
A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.
Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.
Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.
Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.
Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.
Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...
1 281
1
João Maimona
Poema para Carlos Drummond de Andrade
No meio do caminho tinha uma pedra.
C.D.A.
É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.
Fechaste os teus dois olhos
ao bouquet de palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.
Anuviaste a linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.
Fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste apenas uma pedra
no meio do caminho.
No caminho doloroso das coisas.
C.D.A.
É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.
Fechaste os teus dois olhos
ao bouquet de palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.
Anuviaste a linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.
Fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste apenas uma pedra
no meio do caminho.
No caminho doloroso das coisas.
1 736
1
Egito Gonçalves
Cadernos de Poesia
Difícil é esperar
quando nada sabemos
nada haver a esperar.
O eco de uma lágrima não basta
para dar vento à sementeira
1 746
1
Deborah Brennand
Meu Bem
A noite não é uma vela
negra e sem lume,
não é um cacho de uvas
sombrio no parreiral.
Não é aquela borboleta
com asas escuras na mata,
menos ainda é um túmulo
com estrelas douradas.
A noite é, meu bem,
só a origem da claridade.
negra e sem lume,
não é um cacho de uvas
sombrio no parreiral.
Não é aquela borboleta
com asas escuras na mata,
menos ainda é um túmulo
com estrelas douradas.
A noite é, meu bem,
só a origem da claridade.
1 377
1
José Albano
Prece
Bom Jesus, amador das almas puras
Bom Jesus, amador das almas mansas,
De ti vêm as serenas esperanças,
De ti vêm as angélicas doçuras.
Em toda parte vejo que procuras
O pecador ingrato e não descansas,
Para lhe dar as bem-aventuranças
Que os espíritos gozam nas alturas.
A mim, pois, que de mágoa desatino
E, noite e dia, em lágrimas me banho,
Vem abrandar o meu cruel destino,
E terminado este degredo estranho,
Tem compaixão de mim, pastor divino,
Que não falte uma ovelha ao teu rebanho!
Bom Jesus, amador das almas mansas,
De ti vêm as serenas esperanças,
De ti vêm as angélicas doçuras.
Em toda parte vejo que procuras
O pecador ingrato e não descansas,
Para lhe dar as bem-aventuranças
Que os espíritos gozam nas alturas.
A mim, pois, que de mágoa desatino
E, noite e dia, em lágrimas me banho,
Vem abrandar o meu cruel destino,
E terminado este degredo estranho,
Tem compaixão de mim, pastor divino,
Que não falte uma ovelha ao teu rebanho!
1 406
1
Antônio Mendes Cardoso
Autocrítica
Aqui, a sós.
Entre mim e o sonho
De cantar-te,
A voz
De que disponho
Sem engenho e arte...
Fraca e mal nascida,
Nasce,
E nunca digo de nós,
Da vida.
Do Sol
Que prossigo,
Com palavras-não-gastas...
Nasce,
E fica-se (tece)
A tristeza mole da derrota
Pelo mal que digo,
(Canto!)
A certeza da vitória
Nesta rota...
Espanto sem história
Neste esforço
De cantar-te?
Se és tão simples água
Ou sol nas veias,
Simples olhar límpido
De criança perpétua
Sem a primeira mágoa?!
Simples leveza de amar-te,
Simples esperança simples,
Maré-cheia e horizonte,
Escorço de linhas
Com o SOL lá, PÃO e FONTE!...
– ah! minhas palavras minhas!
Entre mim e o sonho
De cantar-te,
A voz
De que disponho
Sem engenho e arte...
Fraca e mal nascida,
Nasce,
E nunca digo de nós,
Da vida.
Do Sol
Que prossigo,
Com palavras-não-gastas...
Nasce,
E fica-se (tece)
A tristeza mole da derrota
Pelo mal que digo,
(Canto!)
A certeza da vitória
Nesta rota...
Espanto sem história
Neste esforço
De cantar-te?
Se és tão simples água
Ou sol nas veias,
Simples olhar límpido
De criança perpétua
Sem a primeira mágoa?!
Simples leveza de amar-te,
Simples esperança simples,
Maré-cheia e horizonte,
Escorço de linhas
Com o SOL lá, PÃO e FONTE!...
– ah! minhas palavras minhas!
1 065
1
Leda Costa Lima
Trabalhando a Terra
Descendo o barranco,
trilhando o caminho
— caminho de barro,
poeira, cascalho,
vou rumo ao trabalho,
ó vale deserto,
ó vale coberto,
por nuvens de fé!
Porei grãos no seio
da terra-promessa,
da terra-esperança!
Meus campos cultivo,
eu planto, semeio,
trabalho cativo!
Enterro a semente
— semente tão frágil
que quer germinar!
Na minha labuta,
meu corpo na luta,
cavando, cavando,
assim vai jorrando,
suor do meu rosto!
Incrível batalha!
Trabalho com gosto,
o arado trabalha
a terra que geme,
a terra que trema,
que quer florescer!
E a máquina ágil
trabalha feroz,
febril, tão veloz!
O solo enobrece
e a planta floresce!
trilhando o caminho
— caminho de barro,
poeira, cascalho,
vou rumo ao trabalho,
ó vale deserto,
ó vale coberto,
por nuvens de fé!
Porei grãos no seio
da terra-promessa,
da terra-esperança!
Meus campos cultivo,
eu planto, semeio,
trabalho cativo!
Enterro a semente
— semente tão frágil
que quer germinar!
Na minha labuta,
meu corpo na luta,
cavando, cavando,
assim vai jorrando,
suor do meu rosto!
Incrível batalha!
Trabalho com gosto,
o arado trabalha
a terra que geme,
a terra que trema,
que quer florescer!
E a máquina ágil
trabalha feroz,
febril, tão veloz!
O solo enobrece
e a planta floresce!
1 171
1
Ada Ciocci
Minha casa
Minha casa hoje,
tem janelas abertas para o nascente,
para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite,
pela frente.
Minha casa solitária,
Branca e alta,
embora esteja plantada em estéril campo,
é toda circundada de verde, paz e silêncio.
Nova e antiga casa,
onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.
tem janelas abertas para o nascente,
para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite,
pela frente.
Minha casa solitária,
Branca e alta,
embora esteja plantada em estéril campo,
é toda circundada de verde, paz e silêncio.
Nova e antiga casa,
onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.
1 211
1
Leda Costa Lima
Meu Nome é Esperança
Eu sou aquela que afasta
a sombra que passa
para dar luz ao teu sonho.
Sou a mão que te conduz,
nos momentos mais sombrios,
em que se delineia
o quadro do desalento.
Sou a voz que te soergue
e faz assomar o teu riso.
Sou sussurro aos teus ouvidos,
murmurando a palavra mágica
no momento preciso.
Eu sou a taça
transbordante de vinho
de sabor inebriante.
Eu sou o bálsamo
para os corações vazios,
pobres de amor,
carentes de afeto,
de sonhos e de ilusões.
Eu sou o vitral translúcido,
música em compassos uníssonis.
Por onde passo
as luzes se acendem
e surge um arco-íris.
Expulso o desânimo
para os longes do infinito.
Sou o sopro vital energizante.
Enquanto há vida
estou sempre presente.
Meu nome é esperança!
a sombra que passa
para dar luz ao teu sonho.
Sou a mão que te conduz,
nos momentos mais sombrios,
em que se delineia
o quadro do desalento.
Sou a voz que te soergue
e faz assomar o teu riso.
Sou sussurro aos teus ouvidos,
murmurando a palavra mágica
no momento preciso.
Eu sou a taça
transbordante de vinho
de sabor inebriante.
Eu sou o bálsamo
para os corações vazios,
pobres de amor,
carentes de afeto,
de sonhos e de ilusões.
Eu sou o vitral translúcido,
música em compassos uníssonis.
Por onde passo
as luzes se acendem
e surge um arco-íris.
Expulso o desânimo
para os longes do infinito.
Sou o sopro vital energizante.
Enquanto há vida
estou sempre presente.
Meu nome é esperança!
985
1
Amândio César
Caminhada
Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
1 045
1
Adalgisa Nery
A Espera
Amado... Por que tardas tanto?
As primeiras sombras se avizinham
E as estrelas iniciam a noite.
Vem...
Pois a esperança que se acolheu em meu coração
Vai deixá-lo como um ninho abandonado nos penhascos.
Vem...Amado..
Desce a tua boca sobre a minha boca.
Para a tua alma levar a minha alma
Pesada de sofrimento!
Vem...
Para que, beijando a minha boca
Eu receba a sensação de uma janela aberta.
Amado meu...
Por que tardas tanto?
Vem...
E serás como um ramo de rosas brancas
Pousando no túmulo da minha vida...
Vem amado meu...
Por que tardas tanto?
(Adalgisa Nery)
As primeiras sombras se avizinham
E as estrelas iniciam a noite.
Vem...
Pois a esperança que se acolheu em meu coração
Vai deixá-lo como um ninho abandonado nos penhascos.
Vem...Amado..
Desce a tua boca sobre a minha boca.
Para a tua alma levar a minha alma
Pesada de sofrimento!
Vem...
Para que, beijando a minha boca
Eu receba a sensação de uma janela aberta.
Amado meu...
Por que tardas tanto?
Vem...
E serás como um ramo de rosas brancas
Pousando no túmulo da minha vida...
Vem amado meu...
Por que tardas tanto?
(Adalgisa Nery)
2 093
1
Angela Santos
Transparências
Na
bruma
de um qualquer horizonte
não me quero perder
pelo sonho se vislumbra já
novo oriente das descobertas.
Pedras raras, essências,
sedas naturais num corpo
porto e navio…
ò transparências matinais
aqui vos aguardo…
levantar ferros, navegar
esse é o destino.
bruma
de um qualquer horizonte
não me quero perder
pelo sonho se vislumbra já
novo oriente das descobertas.
Pedras raras, essências,
sedas naturais num corpo
porto e navio…
ò transparências matinais
aqui vos aguardo…
levantar ferros, navegar
esse é o destino.
720
1
Lauro Leite
Ironia Lúcida
Agora é tempo de sorrir
e ser de novo
o garoto das compras e dos recados
Agora é tempo de fingir
que nada valem
os eternos fundilhos remendados,
Agora é tempo de esquecer as lágrimas
— engoli-las de uma vez! —
e voltar à surdez da ignorância,
pois já me afogo em tanta ironia,
pois não suporto ter-me em consciência
e já não quero amar-me em lucidez.
Vinde a mim
as velas coloridas
que aportam às prostitutas
do Desterro.
Abram os caminhos:
quero falar com a Mãe de Deus
e receber a unção
da ansiedade
e da poesia.
Calem, por favor,
as radiolas regueiras;
quero ouvir o boi-bumbá
e o criola,
quero rodopiar o corpo
no balé negreiro.
Agora, tragam a rede
que o poeta vai dormir
com o sonhar afoito
das gentes maranhenses
e o cor o cansado do viver intenso.
e ser de novo
o garoto das compras e dos recados
Agora é tempo de fingir
que nada valem
os eternos fundilhos remendados,
Agora é tempo de esquecer as lágrimas
— engoli-las de uma vez! —
e voltar à surdez da ignorância,
pois já me afogo em tanta ironia,
pois não suporto ter-me em consciência
e já não quero amar-me em lucidez.
Vinde a mim
as velas coloridas
que aportam às prostitutas
do Desterro.
Abram os caminhos:
quero falar com a Mãe de Deus
e receber a unção
da ansiedade
e da poesia.
Calem, por favor,
as radiolas regueiras;
quero ouvir o boi-bumbá
e o criola,
quero rodopiar o corpo
no balé negreiro.
Agora, tragam a rede
que o poeta vai dormir
com o sonhar afoito
das gentes maranhenses
e o cor o cansado do viver intenso.
378
1
Bruno Kampel
Solitude
Após algemar os pés da realidade
às cicatrizes da esperança vitalícia
fui procurar a felicidade insubornável
e num gesto imprudente de ternura
desativei o sofrimento e a tristeza
e tendendo uma armadilha ao infortúnio
decapitei o dissabor do desengano
enquanto a melancolia como sempre
desfraldando suas dúvidas ao vento
deitava-se no leito ambíguo da memória
ao passo que a saudade penetrava
como faca nas ausências mais sentidas
e mar adentro feito sangue navegava
pelas veias das lembranças de outros dias.
às cicatrizes da esperança vitalícia
fui procurar a felicidade insubornável
e num gesto imprudente de ternura
desativei o sofrimento e a tristeza
e tendendo uma armadilha ao infortúnio
decapitei o dissabor do desengano
enquanto a melancolia como sempre
desfraldando suas dúvidas ao vento
deitava-se no leito ambíguo da memória
ao passo que a saudade penetrava
como faca nas ausências mais sentidas
e mar adentro feito sangue navegava
pelas veias das lembranças de outros dias.
814
1
Carla Bianca
Ceia
Trago mel nas mãos,
afagos na boca,
cheiros em meus lábios,
sonhos nos olhos;
tudo para um amor
que não sei qual;
tudo pronto a esperar
conviva para a ceia,
companhia para minha sede,
apetite,
emoção,
brindados em vinho branco,
acalentados
no aconchego da paz.
afagos na boca,
cheiros em meus lábios,
sonhos nos olhos;
tudo para um amor
que não sei qual;
tudo pronto a esperar
conviva para a ceia,
companhia para minha sede,
apetite,
emoção,
brindados em vinho branco,
acalentados
no aconchego da paz.
874
1
Nuno Júdice
Carta (esboço)
Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.
in "Poesia Reunida"
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.
in "Poesia Reunida"
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Wisława Szymborska
Vermeer
Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tijela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
“Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tijela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
“Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011
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Oliveira Neto
O Parnaíba
Águas turvas, imenso, vagaroso,
O Parnaíba desce para o mar.
Qual um molusco, lerdo, preguiçoso,
parece sem vontade de chegar!
Sereno, vai andando, majestoso,
o aguaceiro barrento a deslizar...
E nas margens um bando vaporoso
de garças cor de neve a esvoaçar...
Ó velho Parnaíba dos poetas!
O progresso mudou o teu destino
e te deu novas e importantes metas!
És portador de um mundo de esperanças
E o povo do Nordeste canta o hino
do sonhado futuro de bonanças...
O Parnaíba desce para o mar.
Qual um molusco, lerdo, preguiçoso,
parece sem vontade de chegar!
Sereno, vai andando, majestoso,
o aguaceiro barrento a deslizar...
E nas margens um bando vaporoso
de garças cor de neve a esvoaçar...
Ó velho Parnaíba dos poetas!
O progresso mudou o teu destino
e te deu novas e importantes metas!
És portador de um mundo de esperanças
E o povo do Nordeste canta o hino
do sonhado futuro de bonanças...
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