Poemas neste tema
Educação e Conhecimento
Pablo Neruda
IX - Palavras À Europa
Eu, americano das terras pobres,
das metálicas mesetas,
onde o golpe do homem contra o homem
se reúne ao da terra sobre o homem.
Eu, americano errante,
órfão dos rios e dos
vulcões que me procriaram,
a vós, simples europeus
das ruas tortuosas,
humildes proprietários da paz e o azeite,
sábios tranquilos como o fumo,
eu vos digo: aqui vim
aprender de vós,
de uns e outros, de todos,
porque de que me serviria
a terra, para que se fizeram
o mar e os caminhos,
senão para ir olhando e aprendendo
de todos os seres um pouco.
Não me fecheis a porta
(como as portas negras, salpicadas de sangue
de minha materna Espanha).
Não me mostreis a gadanha inimiga
nem o esquadrão blindado,
nem as antigas forcas para o novo ateniense,
nas amplas vias gastas
pelo resplendor das uvas.
Não quero ver um soldadinho morto
com os olhos comidos.
Mostra-me de uma pátria a outra
o infinito fio da vida
cosendo o traje da primavera.
Mostra-me uma máquina pura,
azul de aço sob o grosso azeite,
lesta para avançar nos trigais.
Mostra-me o rosto cheio de raízes
de Leonardo, porque esse rosto
é vossa geografia,
e no alto dos montes,
tantas vezes descritos e pintados,
vossas bandeiras juntas
recebendo
o vento eletrizado.
Trazei água do Volga fecundo
à água do Arno dourado.
Trazei sementes brancas
da ressurreição da Polônia,
e de vossas vinhas levai
o doce fogo rubro
ao norte da neve!
Eu, americano, filho
das mais largas solidões do homem,
vim aprender a vida de vós
e não a morte, e não a morte!
Eu não cruzei o oceano,
nem as mortais cordilheiras,
nem a pestilência selvagem
das prisões paraguaias,
para vir ver
junto aos mirtos que só conhecia
nos livros amados,
vossas órbitas sem olhos e vosso sangue seco
nos caminhos.
Eu ao mel antigo e ao novo,
esplendor da vida, vim.
Eu a vossa paz e a vossas portas,
a vossas lâmpadas acesas,
a vossas bodas vim.
A vossas bibliotecas solenes
de tão longe vim.
A vossas fábricas deslumbrantes
chego a trabalhar um momento
e a comer entre os trabalhadores.
Em vossas casas entro e saio.
Em Veneza, na Hungria a bela,
em Copenhague me vereis,
em Leningrado, conversando
com o jovem Pushkin, em Praga
com Fucik, com todos os mortos
e todos os vivos, com todos
os metais verdes do Norte
e os cravos de Salerno.
Eu sou a testemunha que vem
visitar vossa morada.
Oferecei-me a paz e o vinho.
Amanhã cedo me vou.
Me está esperando em toda parte a primavera.
das metálicas mesetas,
onde o golpe do homem contra o homem
se reúne ao da terra sobre o homem.
Eu, americano errante,
órfão dos rios e dos
vulcões que me procriaram,
a vós, simples europeus
das ruas tortuosas,
humildes proprietários da paz e o azeite,
sábios tranquilos como o fumo,
eu vos digo: aqui vim
aprender de vós,
de uns e outros, de todos,
porque de que me serviria
a terra, para que se fizeram
o mar e os caminhos,
senão para ir olhando e aprendendo
de todos os seres um pouco.
Não me fecheis a porta
(como as portas negras, salpicadas de sangue
de minha materna Espanha).
Não me mostreis a gadanha inimiga
nem o esquadrão blindado,
nem as antigas forcas para o novo ateniense,
nas amplas vias gastas
pelo resplendor das uvas.
Não quero ver um soldadinho morto
com os olhos comidos.
Mostra-me de uma pátria a outra
o infinito fio da vida
cosendo o traje da primavera.
Mostra-me uma máquina pura,
azul de aço sob o grosso azeite,
lesta para avançar nos trigais.
Mostra-me o rosto cheio de raízes
de Leonardo, porque esse rosto
é vossa geografia,
e no alto dos montes,
tantas vezes descritos e pintados,
vossas bandeiras juntas
recebendo
o vento eletrizado.
Trazei água do Volga fecundo
à água do Arno dourado.
Trazei sementes brancas
da ressurreição da Polônia,
e de vossas vinhas levai
o doce fogo rubro
ao norte da neve!
Eu, americano, filho
das mais largas solidões do homem,
vim aprender a vida de vós
e não a morte, e não a morte!
Eu não cruzei o oceano,
nem as mortais cordilheiras,
nem a pestilência selvagem
das prisões paraguaias,
para vir ver
junto aos mirtos que só conhecia
nos livros amados,
vossas órbitas sem olhos e vosso sangue seco
nos caminhos.
Eu ao mel antigo e ao novo,
esplendor da vida, vim.
Eu a vossa paz e a vossas portas,
a vossas lâmpadas acesas,
a vossas bodas vim.
A vossas bibliotecas solenes
de tão longe vim.
A vossas fábricas deslumbrantes
chego a trabalhar um momento
e a comer entre os trabalhadores.
Em vossas casas entro e saio.
Em Veneza, na Hungria a bela,
em Copenhague me vereis,
em Leningrado, conversando
com o jovem Pushkin, em Praga
com Fucik, com todos os mortos
e todos os vivos, com todos
os metais verdes do Norte
e os cravos de Salerno.
Eu sou a testemunha que vem
visitar vossa morada.
Oferecei-me a paz e o vinho.
Amanhã cedo me vou.
Me está esperando em toda parte a primavera.
622
Affonso Romano de Sant'Anna
Escavações
O que sei eu dos etruscos?
Suas artes, seus arados
seu comércio de além-mar?
O que sei eu dos etruscos?
Devo descer neste Poço de San Patrício, em Orvieto
e iniciar o aprendizado?
Ali, a 200 metros, acabam
de encontrar nas tumbas
mais profundas
vestígios
vestígios
– dos pré-etruscos.
– O que sei eu
– dos pré-etruscos?
Suas artes, seus arados
seu comércio de além-mar?
O que sei eu dos etruscos?
Devo descer neste Poço de San Patrício, em Orvieto
e iniciar o aprendizado?
Ali, a 200 metros, acabam
de encontrar nas tumbas
mais profundas
vestígios
vestígios
– dos pré-etruscos.
– O que sei eu
– dos pré-etruscos?
1 071
Pablo Neruda
I - Terra E Céu
Alturas da Mongólia,
desérticas alturas,
de repente avistei minha pátria,
o Norte Grande, Chile,
a pele seca, arranhada
da terra nos limites do céu.
Vi os montes de areia,
a extensão taciturna:
me recolhi escutando
o vento terrível de Gobi,
as tormentas
no “teto do mundo”
tudo tão parecido
com as regiões
de cobre e sal e céu
de meu país andino.
Depois o vento
trouxe cheiro de camelo,
uma brisa queimada
se transformou em incenso,
a luz deteve
um dedo
sobre a seda
de uma bandeira rubra,
e vi que estava longe
de minha pátria.
Os mongóis já não eram
os errantes
ginetes
do vento e da areia:
eram meus camaradas.
Mostraram-me
seus laboratórios.
Doce ali em cima era
a palavra
metalurgia.
Ali onde os magos
teceram
sabedoria e teias de aranha,
em Durga, negra Durga,
agora reluzia
o novo nome,
Ulan Bator,
o nome
de um capitão do povo.
E era tudo
tão simples.
Os jovens,
os universitários do deserto,
inclinados
sobre os microscópios.
Nas areias frias
da altura reluziam
os novos institutos,
as minas eram perfuradas,
os livros e a música
cantavam no coro
do vento
e o homem
renascia.
1 289
Pablo Neruda
O Grande Amor
No entanto,
Inglaterra,
há algo de caoba
em tua cintura,
velha madeira usada
pela mão do homem,
banco de igreja, coro
de catedral na névoa.
Algo
a ti nos une,
há algo
contido
detrás de tuas janelas,
um vento brusco, uma ave
de litoral selvagem,
uma melancolia matutina,
algo impossivelmente solitário.
Amei a vida
de teus homens, falsos
conquistadores conquistados,
derramados rumo aos quatro ventos do planeta
para encher teu cofre. No entanto,
se o ouro os moveu com sua onda negra
não só foram isso
mas seres,
tímidos seres em trevas, sós,
enquanto o estandarte com leões
sufocava a luta dos povos.
Pobres meninos ingleses, amos pobres
de um mundo debulhado,
eu sei que entre vós
é natural
o rouxinol terrestre.
Shelley canta na chuva
e decora a chuva
sua citara escarlate.
Nasce em teu litoral o agressivo
punhal de proa rumo a todos os mares,
mas em tua areia o perseguido
encontrou o pão e construiu sua casa.
Lenin sob a névoa
entrando no Museu
em busca de uma linha,
de uma data, de um nome,
enquanto toda a terra
parecia oprimida,
solidão sozinha, etapa impenetrável,
ali, com seus óculos
e seu livro,
Lenin,
mudando em luz a névoa.
E então, isso eras,
Inglaterra,
torre de asilo,
catedral de refúgio,
e os que agora
fecham com a polícia
as linhas, as palavras,
o tesouro
das sabedorias que resguardas,
os que recusam tua areia
ao peregrino da luz errante,
não são dignos
de tua antiga verdade, de tua madeira,
mas te esfaqueiam,
matam em ti o que te resguardava,
não coração, mas o decoro.
Pátria de aves marinhas,
me ensinaste
quanto sei dos pássaros.
Mostraste-me a escama
polida dos peixes,
o tesouro plenário
da natureza,
foste catalogando rios, flores,
moluscos e vulcões.
Nas encarniçadas
regiões de minha pátria
chegou Darwin o jovem,
com sua lâmpada
e sua luz alumiou sob a terra
e sob o mar profundo
tudo o que temos:
plantas, metais, vidas
que tecem a estrutura
de nossa obscura estrela.
Mais tarde Hudson
nas campinas
se ocupou dos pássaros que haviam
sido esquecidos pelos livros
e com eles
encheu a geografia
que nos está parindo pouco a pouco.
Inglaterra,
és doce
descobridora
de plumas e raízes,
pudeste
ser o conhecimento enamorado,
e agora
por que permites
que em tua beira
vivam os destruidores de aves,
os rapaces, os enterradores?
Foste
penetradora
do mais secreto
labirinto
da vida e as vidas,
e agora,
quando escutamos
tua voz
ouvimos a cinza,
a destruição do pó, a agonia.
Eu sei que cantas
e és
singela como tua perdida gente
de subúrbios e minas,
grave e crepitante
como o carvão que escavas.
Peço-te,
Inglaterra,
que voltes
a ser
inglesa,
me ouves?
Sim, que sejas
inglesa,
que não te macaquizem,
que não te policiem, que respires,
que sejas e que sejas
o que tens sido
em teu campo e teus povoados,
horto frutal de pássaros e gentes,
humanidade simples,
refugio dos homens perseguidos,
descobridora de aves.
Inglaterra,
peço-te
que sejas uma rainha das ilhas,
não uma vassala insular,
que obedeças
a teu coro de pássaros marinhos,
a tua simples estirpe
mineira e marinheira.
Eu vou dizer-te em segredo
que desejamos amar-te.
E difícil,
tu sabes
quantas coisas ocorreram
nos distantes territórios,
sangue, explorados,
etcetera e etcetera.
E então, agora,
na hora do amor
te queremos amar.
Prepara-te como antes
para o amor que volta,
para o amor que sobe
na onda mais alta
do oceano humano.
Prepara-te
na paz,
e então,
volta a ser o que amamos,
homens como nós,
terra como a nossa,
isso é o que desejamos.
Todos
vivemos
na terra
sob os mesmos bosques,
sobre a mesma areia.
Não podemos
contrariar o outono,
ou lutar
contra a primavera,
temos
que viver
sobre as mesmas ondas.
São nossas, dos homens,
dos meninos.
Todas
as ondas,
não têm selo algum,
nem a terra
tem selo,
por isso
homens de tantas raças e regiões
nesta época
da fertilidade, dos destinos
e das invenções,
podemos descobrir
o grande amor
e implantá-lo
sobre os mares e sobre a terra.
Inglaterra,
há algo de caoba
em tua cintura,
velha madeira usada
pela mão do homem,
banco de igreja, coro
de catedral na névoa.
Algo
a ti nos une,
há algo
contido
detrás de tuas janelas,
um vento brusco, uma ave
de litoral selvagem,
uma melancolia matutina,
algo impossivelmente solitário.
Amei a vida
de teus homens, falsos
conquistadores conquistados,
derramados rumo aos quatro ventos do planeta
para encher teu cofre. No entanto,
se o ouro os moveu com sua onda negra
não só foram isso
mas seres,
tímidos seres em trevas, sós,
enquanto o estandarte com leões
sufocava a luta dos povos.
Pobres meninos ingleses, amos pobres
de um mundo debulhado,
eu sei que entre vós
é natural
o rouxinol terrestre.
Shelley canta na chuva
e decora a chuva
sua citara escarlate.
Nasce em teu litoral o agressivo
punhal de proa rumo a todos os mares,
mas em tua areia o perseguido
encontrou o pão e construiu sua casa.
Lenin sob a névoa
entrando no Museu
em busca de uma linha,
de uma data, de um nome,
enquanto toda a terra
parecia oprimida,
solidão sozinha, etapa impenetrável,
ali, com seus óculos
e seu livro,
Lenin,
mudando em luz a névoa.
E então, isso eras,
Inglaterra,
torre de asilo,
catedral de refúgio,
e os que agora
fecham com a polícia
as linhas, as palavras,
o tesouro
das sabedorias que resguardas,
os que recusam tua areia
ao peregrino da luz errante,
não são dignos
de tua antiga verdade, de tua madeira,
mas te esfaqueiam,
matam em ti o que te resguardava,
não coração, mas o decoro.
Pátria de aves marinhas,
me ensinaste
quanto sei dos pássaros.
Mostraste-me a escama
polida dos peixes,
o tesouro plenário
da natureza,
foste catalogando rios, flores,
moluscos e vulcões.
Nas encarniçadas
regiões de minha pátria
chegou Darwin o jovem,
com sua lâmpada
e sua luz alumiou sob a terra
e sob o mar profundo
tudo o que temos:
plantas, metais, vidas
que tecem a estrutura
de nossa obscura estrela.
Mais tarde Hudson
nas campinas
se ocupou dos pássaros que haviam
sido esquecidos pelos livros
e com eles
encheu a geografia
que nos está parindo pouco a pouco.
Inglaterra,
és doce
descobridora
de plumas e raízes,
pudeste
ser o conhecimento enamorado,
e agora
por que permites
que em tua beira
vivam os destruidores de aves,
os rapaces, os enterradores?
Foste
penetradora
do mais secreto
labirinto
da vida e as vidas,
e agora,
quando escutamos
tua voz
ouvimos a cinza,
a destruição do pó, a agonia.
Eu sei que cantas
e és
singela como tua perdida gente
de subúrbios e minas,
grave e crepitante
como o carvão que escavas.
Peço-te,
Inglaterra,
que voltes
a ser
inglesa,
me ouves?
Sim, que sejas
inglesa,
que não te macaquizem,
que não te policiem, que respires,
que sejas e que sejas
o que tens sido
em teu campo e teus povoados,
horto frutal de pássaros e gentes,
humanidade simples,
refugio dos homens perseguidos,
descobridora de aves.
Inglaterra,
peço-te
que sejas uma rainha das ilhas,
não uma vassala insular,
que obedeças
a teu coro de pássaros marinhos,
a tua simples estirpe
mineira e marinheira.
Eu vou dizer-te em segredo
que desejamos amar-te.
E difícil,
tu sabes
quantas coisas ocorreram
nos distantes territórios,
sangue, explorados,
etcetera e etcetera.
E então, agora,
na hora do amor
te queremos amar.
Prepara-te como antes
para o amor que volta,
para o amor que sobe
na onda mais alta
do oceano humano.
Prepara-te
na paz,
e então,
volta a ser o que amamos,
homens como nós,
terra como a nossa,
isso é o que desejamos.
Todos
vivemos
na terra
sob os mesmos bosques,
sobre a mesma areia.
Não podemos
contrariar o outono,
ou lutar
contra a primavera,
temos
que viver
sobre as mesmas ondas.
São nossas, dos homens,
dos meninos.
Todas
as ondas,
não têm selo algum,
nem a terra
tem selo,
por isso
homens de tantas raças e regiões
nesta época
da fertilidade, dos destinos
e das invenções,
podemos descobrir
o grande amor
e implantá-lo
sobre os mares e sobre a terra.
1 312
Charles Bukowski
Educação
naquela pequena mesa com tinteiro embutido
eu quebrava minha cabeça com as palavras
sing e sign.*
não sei por que
mas
sing e sign:
elas
me
incomodavam.
os outros prosseguiram e aprenderam
coisas novas
mas eu fiquei ali sentado
pensando sobre
sing e sign.
havia algo ali
que eu não conseguia
superar.
o que aquilo me deu foi uma
dor de barriga enquanto
eu olhava as nucas de todas aquelas
cabeças.
a professora tinha um
rosto muito feroz
ele convergia rispidamente até um
ponto
sob grossa camada de pó
branco.
certa tarde
ela pediu à minha mãe para vir
conversar
e eu me sentei com elas
na sala de aula
enquanto elas
conversavam.
“ele não está aprendendo
nada”, a professora
disse à minha
mãe.
“por favor dê uma chance
a ele, sra. Sims!”
“ele não está se esforçando, sra.
Chinaski!”
minha mãe começou a
chorar.
a sra. Sims ficou imóvel
encarando
a minha mãe.
aquilo durou alguns
minutos.
então a sra. Sims disse:
“bem, veremos o que
podemos fazer...”
depois eu estava andando com
a minha mãe
estávamos andando na
frente da escola,
havia bastante grama verde
e depois a
calçada.
“ah, Henry”, minha mãe disse,
“seu pai está tão desapontado com
você, eu não sei o que vamos
fazer!”
pai, minha mente dizia,
pai e pai e
pai.
palavras assim.
decidi não aprender nada
naquela
escola.
minha mãe caminhava
ao meu lado.
ela não era nada em
absoluto.
e eu tinha uma dor de barriga
e até mesmo as árvores sob as quais
caminhávamos
pareciam não ser exatamente
árvores
mas antes qualquer outra
coisa.
* Respectivamente “cantar” e “assinar”. (N.T.)
eu quebrava minha cabeça com as palavras
sing e sign.*
não sei por que
mas
sing e sign:
elas
me
incomodavam.
os outros prosseguiram e aprenderam
coisas novas
mas eu fiquei ali sentado
pensando sobre
sing e sign.
havia algo ali
que eu não conseguia
superar.
o que aquilo me deu foi uma
dor de barriga enquanto
eu olhava as nucas de todas aquelas
cabeças.
a professora tinha um
rosto muito feroz
ele convergia rispidamente até um
ponto
sob grossa camada de pó
branco.
certa tarde
ela pediu à minha mãe para vir
conversar
e eu me sentei com elas
na sala de aula
enquanto elas
conversavam.
“ele não está aprendendo
nada”, a professora
disse à minha
mãe.
“por favor dê uma chance
a ele, sra. Sims!”
“ele não está se esforçando, sra.
Chinaski!”
minha mãe começou a
chorar.
a sra. Sims ficou imóvel
encarando
a minha mãe.
aquilo durou alguns
minutos.
então a sra. Sims disse:
“bem, veremos o que
podemos fazer...”
depois eu estava andando com
a minha mãe
estávamos andando na
frente da escola,
havia bastante grama verde
e depois a
calçada.
“ah, Henry”, minha mãe disse,
“seu pai está tão desapontado com
você, eu não sei o que vamos
fazer!”
pai, minha mente dizia,
pai e pai e
pai.
palavras assim.
decidi não aprender nada
naquela
escola.
minha mãe caminhava
ao meu lado.
ela não era nada em
absoluto.
e eu tinha uma dor de barriga
e até mesmo as árvores sob as quais
caminhávamos
pareciam não ser exatamente
árvores
mas antes qualquer outra
coisa.
* Respectivamente “cantar” e “assinar”. (N.T.)
1 344
Charles Bukowski
Um Cara Engraçado
Schopenhauer não suportava as massas,
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
1 127
Charles Bukowski
A Química Das Coisas
sempre achei que Mary Lou era magrinha e
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.
eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.
tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio
e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.
ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”
“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”
“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.
“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”
no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.
“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”
“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”
Mary Lou foi embora
chorando...
bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.
depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”
“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.
eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.
o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.
eu disse não, obrigado, e muita
sorte.
nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.
de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.
eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.
tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio
e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.
ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”
“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”
“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.
“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”
no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.
“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”
“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”
Mary Lou foi embora
chorando...
bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.
depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”
“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.
eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.
o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.
eu disse não, obrigado, e muita
sorte.
nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.
de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
1 085
Charles Bukowski
Escuridão
a escuridão cai sobre a Humanidade
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
797
António Ramos Rosa
3. o Pudor Produz o Seio
3
O pudor produz o seio
e toda a celeste curva a flexão azul
a incorrupta brevidade todavia longa.
Sempre a adoração da árvore
e sempre o sangue da taça não e sim
hão-de dar a dádiva e a dúvida
na dívida celeste devida ao seio terrestre.
Quando cessar a torrente quando
soubermos que a torrente do sangue é a torrente
esqueceremos a torre do saber saberemos só.
O pudor produz o seio
e toda a celeste curva a flexão azul
a incorrupta brevidade todavia longa.
Sempre a adoração da árvore
e sempre o sangue da taça não e sim
hão-de dar a dádiva e a dúvida
na dívida celeste devida ao seio terrestre.
Quando cessar a torrente quando
soubermos que a torrente do sangue é a torrente
esqueceremos a torre do saber saberemos só.
976
António Ramos Rosa
71. Eis a Frescura No Côncavo Das Pedras
71
Eis a frescura no côncavo das pedras
e a fábula dos insectos na folhagem
eis o sinal da manhã e a invenção
da mão na água e o sopro subtil.
Tudo isto eu saberia, eu vou saber, eu sei
porque não sei na procura dos sinais
a maravilha no limiar das formas
em que aprendo a ser o que já sou.
Eu aprenderei a partir sem conhecer
para onde vou nem olharei atrás
eu aprenderei que o presente é o presente.
Eis a frescura no côncavo das pedras
e a fábula dos insectos na folhagem
eis o sinal da manhã e a invenção
da mão na água e o sopro subtil.
Tudo isto eu saberia, eu vou saber, eu sei
porque não sei na procura dos sinais
a maravilha no limiar das formas
em que aprendo a ser o que já sou.
Eu aprenderei a partir sem conhecer
para onde vou nem olharei atrás
eu aprenderei que o presente é o presente.
1 030
Reinaldo Ferreira
Esboço para a invenção de uma poetisa
De que me serviram as tranças,
Minha mãe, com que sonhavas
Conservar-me a inocência
Que eu não tinha?
Para quê a vigilância
Das leituras que eu fizesse
Que eu fizesse e que eu faria
No prazer entrecortado
Do pecado vigiado?
Que é do marido perfeito,
Feito dos restos do outro
Que sonhaste
E não achaste
E julgaste que me estava reservado?
Onde estão a segurança,
O sossego, a plenitude
Da mulher que fabricaste
Como quem põe a pousada
Na paisagem da altitude?
De que serviu tanta hora
A guiar-me,
A desviar-me,
Senão também,
Minha mãe!
Para que eu misto de esperança
E, como tu, de vingança
Não deixasse
Que a filha da minha carne
As suas tranças cortasse,
Sua leitura escolhesse,
E com firmeza afastasse
O marido que eu lhe desse.
Minha mãe, com que sonhavas
Conservar-me a inocência
Que eu não tinha?
Para quê a vigilância
Das leituras que eu fizesse
Que eu fizesse e que eu faria
No prazer entrecortado
Do pecado vigiado?
Que é do marido perfeito,
Feito dos restos do outro
Que sonhaste
E não achaste
E julgaste que me estava reservado?
Onde estão a segurança,
O sossego, a plenitude
Da mulher que fabricaste
Como quem põe a pousada
Na paisagem da altitude?
De que serviu tanta hora
A guiar-me,
A desviar-me,
Senão também,
Minha mãe!
Para que eu misto de esperança
E, como tu, de vingança
Não deixasse
Que a filha da minha carne
As suas tranças cortasse,
Sua leitura escolhesse,
E com firmeza afastasse
O marido que eu lhe desse.
1 929
Adrienne Rich
Instantâneos de Uma Nora
1.
Você, uma vez a bela de Shreveport,
cabelos tingidos de hena, a pele como pêssego,
ainda manda fazer vestidos como os que se usavam então,
e toca um prelúdio de Chopin
chamado por Cortot: “Deliciosas reminiscências
flutuam como perfume pela memória”.
Sua mente agora, mofando como bolo de casamento,
pesada de experiências inúteis, pródiga
em suspeitas, rumores, fantasias,
desmoronando sob o fio
do mero fato. Na primavera da vida.
Inquieta, o olhar faiscante, sua filha
limpa as colheres de chá, cresce para outro lado.
2.
Dando com a cafeteira na pia
ela escuta o reproche dos anjos, e fita
o céu desgrenhado para além de jardins impecáveis.
Não faz mais de uma semana desde que disseram:Não tenha paciência.
Da próxima foi: Seja insaciável.
E depois:Salve-se. Aos demais, não poderá salvar.
Por vezes tem deixado a água da torneira lhe escaldar o braço,
um fósforo queimar-lhe a unha do dedão,
ou posto a mão sobre a chaleira
bem na lã do vapor. São provavelmente anjos
posto que já nada a magoa, excetuando
a areia de cada manhã indo de encontro aos olhos.
3.
Uma mulher pensante dorme com monstros.
O bico que a agarra, ela se torna. E a Natureza,
este ainda cômodo, destampado baú
cheio detempora e mores
enche-se de tudo:…………… as flores de laranjeira cobertas de orvalho,
os contraceptivos, os terríveis seios
de Boadiceia sob orquídeas e cabeças chatas de raposa.
Duas belas mulheres, trancadas em discussão,
ambas orgulhosas, argutas, sutis, ouço que gritam
por sobre a maiólica e os cacos de vidro
como Fúrias encurraladas para longe de suas presas:
A discussãoad feminam, todos os velhos punhais
que enferrujaram em minhas costas, o seu adentro
ma semblable, ma soeur!
IV.
Conhecendo-se bem demais uma na outra
seus dons sem puro desfrute, mas espinhos
a agulha afiada contra uma ponta de escárnio…
Lendo enquanto espera
aquecer o ferro,
escrevendo,Minha vida – encostada pelos cantos
naquela despensa em Amherst enquanto as geleias fervem e escumam,
ou, com maior frequência,
de olhos fitos e embicada e obstinada como uma ave,
tirando poeira a todo o triquetraque da vida cotidiana.
5.
Dulce ridens, dulce loquens
ela depila as pernas até brilharem
como petrificadas presas de mamute.
6.
Quando canta Corina a seu alaúde
não são dela nem letra nem música;
somente os longos cabelos descaindo-se
sobre a bochecha, somente a canção
da seda contra os joelhos,
e mesmo estes
ajustam-se nos reflexos de um olho.
Empertigada, trêmula e insatisfeita, ante
uma porta destrancada, a jaula das jaulas,
diga-nos, sua ave, sua trágica máquina –
será istofertilisante douleur? Esmagada
pelo amor, para ti a única reação natural,
estarás acirrada a ponto
de arrombar os segredos do cofre? a Natureza,
nora, mostrou-te enfim os livros de contabilidade
que seu próprio filho sempre ignorou?
7.
Ter neste incerto mundo alguma posição
inabalável é
da maior importância.
…………………………………….Assim escreveu
uma mulher, em parte boa e em parte audaz,
que lutou com o que não compreendia de todo.
Poucos homens a seu redor teriam feito mais,
portanto a rotularam puta, megera, engodo.
8.
“Morreis todos aos quinze anos”, disse Diderot,
mudando-se metade em lenda, metade em convenção.
No entanto, olhos sonham equivocamente
por detrás de janelas fechadas, empastadas de vapor.
Deliciosamente, tudo o que poderíamos ter sido,
tudo o que fomos – fogo, lágrimas,
espírito, gosto, ambição martirizada –
agita-se como a lembrança do adultério recusado
o seio murcho e esvaziado de nossa “meia idade”.
9.
Não que se faça bem, mas
que se faça e ponto? Pois bem, pense
nas possibilidades! ou ignore-as para sempre.
Estes luxos da criança precoce,
a querida inválida do Tempo –
abdicaríamos, minhas caras, se nos fosse dado?
Nossa praga foi também nossa sinecura:
mero talento nos bastava –
brilho em rascunhos e fragmentos.
Não mais suspirem, minhas senhoras.
………………………………………………………..O tempo é macho
e em suas taças bebe ao belo.
Divertidas pelo galanteio, ouvimos
enquanto nos louvam as mediocridades,
indolência lida como abnegação,
desleixo lido como intuição refinada,
cada deslize perdoado, o único crime sendo
estampar uma sombra demasiado notável
ou sumariamente destruir o molde.
Para isso, a solitária,
o gás lacrimogênio, os estilhaços.
Poucas pleiteam este tipo de honra.
13.
……………………………………………………….Bom,
ela posterga sua chegada, que lhe deve parecer
tão pouco clemente quanto a própria história.
A mente cheia ao vento, vejo-a mergulhar
de seios e relanceando pelas correntezas,
tomando a luz sobre si,
pelo menos tão bela quanto qualquer menino
ou helicóptero,
…………………………………………..empertigada, chegando ainda,
suas finas hélices fazendo o ar recuar
mas sua carga
já nenhuma promessa:
entregue
palpável
nossa.
1958 – 1960
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
1 105
Poemas Sânscritos
DE BARTRHARI
1
Com pouco se contenta o que não sabe
e a uma razão se rendem logo os sábios.
Mas nem dos deuses toda a ciência basta
para a um pedante envergonhar os lábios.
Com pouco se contenta o que não sabe
e a uma razão se rendem logo os sábios.
Mas nem dos deuses toda a ciência basta
para a um pedante envergonhar os lábios.
839
Mário Hélio
Nota biográfica:
Mário Hélio nasceu em Sapé (PB) no dia 16 de abril de 1965. Publicou: Livrório/Opuszero, separata da Revista Arrecifes, do Conselho Municipal de Cultura da Prefeitura do Recife. Em 1984, ganhou o primeiro lugar no Concurso Nacional de Poesia Carlos Pena Filho, promovido pelo Bar Savoy, com "As Oito Fauces do Poema", e, em 1990, venceu o concurso de moonografia "O Recife na Poesia de João Cabral". É jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Desde 1984 escreve no Jornal do Commercio, do Recife. Em 1993, é Mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco, com dissertação sobre a obra de Gilberto Freyre. É atualmente editor de literatura do Jornal do Commercio, editor do Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco e professor de História Antiga na Universidade Federal de Pernambuco.
1 006
Luiz Moraes
A Morte de Nel
Virgem santa ignorância
onde só viram o ABC,
De doença estoporada
Muitos lá vivem a morrer.
Foi mais um fato concreto
Pois muitos viram de perto
o que aqui vou descrever.
Lá pras bandas onde nasci
Morava um NEL bom de cana,
Uma mulher e três filhos
Em uma pobre choupana.
Se houvesse todo dia
Aguardente ele bebia
Como achava isso bacana.
Um dia uma simples febre
Causando-lhe alguma dor,
Falaram logo é mulesta
Com o ramo de estopor,
Se escapar fica imperfeito
Aí só pode dar jeito
Se for um bom benzedor.
Vá chamar seu Filomeno
Pra benzer não tem melhor,
Tem também João Cachoeira
Que curou a minha vó,
Corre depressa menino
Se não achar trás Orcino
Que o homem já está pior.
Um dos mateiro confirma
Isso é mulesta do ar,
Só cristé de pino roxo
Bota água pra mornar
Enquanto o remédio apronta
Azeite e dez pílula contra
Dão logo pra ele tomar.
Depois de tudo tomado
Ele foi se esmorecendo,
Todo comê vinha fora
E a barriga crescendo,
Deram outra misturada
Não demorou a zoada
Meu Deus, o NEL tá morrendo!
E assim muitos perecem
Enganados pela crença,
Sob o mal sem lenitivo
Onde a cura é uma sentença.
De purgante e de cristé
Intoxicaram mané
Sem acertar com a doença.
onde só viram o ABC,
De doença estoporada
Muitos lá vivem a morrer.
Foi mais um fato concreto
Pois muitos viram de perto
o que aqui vou descrever.
Lá pras bandas onde nasci
Morava um NEL bom de cana,
Uma mulher e três filhos
Em uma pobre choupana.
Se houvesse todo dia
Aguardente ele bebia
Como achava isso bacana.
Um dia uma simples febre
Causando-lhe alguma dor,
Falaram logo é mulesta
Com o ramo de estopor,
Se escapar fica imperfeito
Aí só pode dar jeito
Se for um bom benzedor.
Vá chamar seu Filomeno
Pra benzer não tem melhor,
Tem também João Cachoeira
Que curou a minha vó,
Corre depressa menino
Se não achar trás Orcino
Que o homem já está pior.
Um dos mateiro confirma
Isso é mulesta do ar,
Só cristé de pino roxo
Bota água pra mornar
Enquanto o remédio apronta
Azeite e dez pílula contra
Dão logo pra ele tomar.
Depois de tudo tomado
Ele foi se esmorecendo,
Todo comê vinha fora
E a barriga crescendo,
Deram outra misturada
Não demorou a zoada
Meu Deus, o NEL tá morrendo!
E assim muitos perecem
Enganados pela crença,
Sob o mal sem lenitivo
Onde a cura é uma sentença.
De purgante e de cristé
Intoxicaram mané
Sem acertar com a doença.
1 024
João Linneu
Meu Pai
Algo mais lento,um tanto mais sábio,com setenta e setetalvez chegue ao cento. E se o fizer,quem saberia ao certo?Íntimo dos números,tímido, mas nem tanto;se algarismo fosse, pimo entre os primoscom certeza seria.Vagando entre fórmulas,curvas, retas e abcissas;deriva do sólido e perde a raiz.Pairando no ar, sonhacom ângulos, senos e co-senos.Se por vezes é distante,mesmo estando sempre presente;impassível,manda recadosvia sarça ardente.Sua verve é rara,um par de vezes, ímpar. Cáspite!Quantas virtudes,(-não aquelas nas lápides vulgarizadas-)tem meu pai!
837
Angela Santos
Do Livro e do Saber
na Era Comunicacional
Na era da Comunicação
global, do derrube de fronteiras imposto pelas sociedades da informação,
em que o poder prevalecente é o da imagem, coloca-se a questão
de saber que lugar ocupa a palavra escrita e consequentemente o livro,
nas culturas de massificação.
O
acervo de informação à disposição
de uma considerável parte da humanidade, pelo menos da que vive
em sociedades que dispõe de condições que permitem
aos seus cidadãos o acesso aos meios massificados da informação,
não nos pode fazer esquecer que uma outra fatia, não menos
considerável da humanidade, das estepes à Ásia
e ao grande continente africano, permanece analfabeta.
A
universalização e democratização do ensino,
tendo diminuído o fosso entre letrados e iletrados, não
nos conduziu necessariamente a um estágio de maior conhecimento:
a humanidade não se revela mais sábia, apesar de termos
as mais consagradas bibliotecas ao alcance da mão, na comodidade
de nossas casas, os museus mais conceituados do mundo ou os dados mais
recentes da ciência, disponíveis nas redes informáticas
e a que acedemos através de um simples click.
Em
grandes discursos de meras intenções políticas,
os que governam os destinos do mundo elevam suas vozes, tanto em defesa
do ambiente que ao ritmo de poluição a que está
sujeito, acabará sufocando e nós com ele, como da necessidade
de tornar universal o acesso ao conhecimento, e da escola como meio
privilegiado da formação dos indivíduos, portanto
de cidadãos. Educar para a cidadania, implicaria dar de novo
ênfase e importância a determinadas áreas de formação,
que tanto gregos como romanos – para de algum modo apelar a dois dos
grandes pilares de nossa estrutura civilizacional – sublinhavam como
as traves-mestras do edifício educacional do habitante da "polis".
As áreas de formação cívica, ao longo das
ultimas décadas foram sendo despromovidas em favor das áreas
tecnológicas e cientificas, sem sombra de dúvida caminhos
de evolução e progresso, para a humanidade, mas não
os únicos.
Pensar
que no dealbar do um novo milênio, as manchas de pobreza no planeta
se alargam, que o anafabetismo, não foi irradicado, que os nacionalismos
mais ferozes ainda matam, que a carta magna dos Direitos Universais
do Homem, é letra morta, para milhares de homens, mulheres e
crianças que conhecem a condição infra-humana da
existência, deveriam fazer pensar. Progresso é um
conceito que nos traz à memória um processo de eliminação
da bárbarie, e por todo o planeta há sinais de que ela
tende a crescer e de que os conceitos de progresso e evolução
deveriam ser revistos.
Educar
para a cidadania deveria ser o lema de quem dirige os destinos de um
país, porque é no ensino que se aposta positivamente no
futuro, ou pelo contrário o individamos. Progresso está
intimamente ligado a um outro conceito: EDUCAR!
Porque
falamos de ensino, é pertinaz lembrar que em nossas escolas parece
surgir como um verdadeiro drama as relações quase traumáticas
que uma elevada percentagem de alunos vive com algumas disciplinas,
nomeadamente a matemática e a língua materna. De uma forma
geral as pessoas falam cada vez pior, e a formação de
uma mente racional e lógica também se perde, pelas dificuldades
que enfrentam nossos estudantes.
O
sucesso escolar, e a aquisição do conhecimento, que se
realiza durante a passagem pela escola, ou faculdade, está diretamente
ligado à boa preparação dos docentes, que mais
do que ensinar se deveriam preocupar com a capacidade de incutir o gosto
por aprender e o insucesso escolar liga-se quer a fraca preparação
dos professores como á escolha de um conjunto de matérias
ministradas aos vários níveis do ensino que desmotivam
o aluno pela fraca relação que estabelecem entre a escola
e a vida. Motor por excelência da formação dos indivíduos,
a escola veio gradualmente desvalorizando as disciplinas das áreas
ditas cívicas ou humanistas ao longo das últimas décadas
em favor das tecnologias e áreas cientificas. Desde quando a
ética, o conhecimento, formação do indivíduo
para a cidadania, e formação de um espirito abrangente
e critico sobre o seu meio, se revelou incompatível com o ensino
das ciências? Porquê então a excessiva cientifização
do curriculuns escolares em detrimento da formação humanistica
dos alunos? Exigências de uma sociedade, que deixou de colocar
o Homem no seu centro. A crise de valores de que tanto se fala, poderá,
quem sabe de algum modo explicar-se à luz da questão acabada
de colocar.
Uma
sociedade crescendo em globalização, promovendo métodos
de organização cada vez mais uniformizadores, e contraditoriamente
parecendo dar uma ênfase particular ao indivíduo, vem criando
condições para a produção de um homem-padrão,
essencialmente movido pela idéia de sucesso, que se tornou um
dos ícones endeusados de nossos tempos. Os mídia e os
interesses por si veiculados têm operado "maravilhas" no tocante
a esta questão: o bombardeio diário da falácia
de um mundo de bem-estar ao alcance de todos, a velocidade vertiginosa
a que a informação corre sem permitir uma digestão
crítica das mensagens subliminares, a desvirtualização
da função primeira dos meios de comunicação,
informar, vai-nos transformando em meros receptores passivos e prontos
para a filosofia consumista e as sociedades do "Fast".
Mais
do que servir os públicos e informar, a televisão que
dispõe de um meio de incomensurável poder, quer pelos
públicos que atinge, quer pela influencia que exerce sobre eles,
se parece preocupar mais com os picos de audiências. Neste jogo
do vale tudo, a imagem "shock" vence ao knock-out a palavra,
ou não fosse tão popular, e certamente eficaz, a expressão
corrente: "uma imagem vale por mil palavras". Parece, pois, que os meios
que por excelência poderiam estar ao serviço da informação
e formação dos indivíduos, se encontram enredados
numa lógica de sobrevivência, em que os fins justificam
os meios.
Seria
importante lembrar que nossas sociedades e nossas culturas se ergueram
e mantiveram pela palavra: pela oralidade que durante milhares de anos
foi passando de homem a homem, tribo a tribo os conhecimentos dos mais
velhos, a memória e a História ciosamente guardadas pela
escrita, em pedras, papiros, e papel. A palavra, desde os tempos dos
cidadãos livres helênicos ao "corner speacher" do Hide
Park em Londres, tem sido utensílio de explicitação
do mundo, de expressão livre de idéias, de passagem de
testemunhos e de saber ao longo do tempo.
Sabemos
que o domínio da palavra, a capacidade de "manipular" e concatenar
conceitos é sobremaneira revelador de inteligência e que
a verborreia, o lugar comum que nada traduzem de novo, antes
reproduzem a mesmidade e a uniformização, em si mesmos
são empobrecedores. O fenômeno da globalização
e a atual caraterística das sociedades atuais me parecem estar
contribuindo de forma rápida e decisiva para este estado de coisas.
E
é neste contexto das sociedades "Fast", que vamos perdendo a
capacidade de entender a história que perpassa cada contexto
ou conjuntura temporal, e de ao jeito de Janus, com sua cabeça
bifurcada, encarar o futuro sem deixar de olhar para o passado que nos
explica o presente.
É
um momento único na História da
Na era da Comunicação
global, do derrube de fronteiras imposto pelas sociedades da informação,
em que o poder prevalecente é o da imagem, coloca-se a questão
de saber que lugar ocupa a palavra escrita e consequentemente o livro,
nas culturas de massificação.
O
acervo de informação à disposição
de uma considerável parte da humanidade, pelo menos da que vive
em sociedades que dispõe de condições que permitem
aos seus cidadãos o acesso aos meios massificados da informação,
não nos pode fazer esquecer que uma outra fatia, não menos
considerável da humanidade, das estepes à Ásia
e ao grande continente africano, permanece analfabeta.
A
universalização e democratização do ensino,
tendo diminuído o fosso entre letrados e iletrados, não
nos conduziu necessariamente a um estágio de maior conhecimento:
a humanidade não se revela mais sábia, apesar de termos
as mais consagradas bibliotecas ao alcance da mão, na comodidade
de nossas casas, os museus mais conceituados do mundo ou os dados mais
recentes da ciência, disponíveis nas redes informáticas
e a que acedemos através de um simples click.
Em
grandes discursos de meras intenções políticas,
os que governam os destinos do mundo elevam suas vozes, tanto em defesa
do ambiente que ao ritmo de poluição a que está
sujeito, acabará sufocando e nós com ele, como da necessidade
de tornar universal o acesso ao conhecimento, e da escola como meio
privilegiado da formação dos indivíduos, portanto
de cidadãos. Educar para a cidadania, implicaria dar de novo
ênfase e importância a determinadas áreas de formação,
que tanto gregos como romanos – para de algum modo apelar a dois dos
grandes pilares de nossa estrutura civilizacional – sublinhavam como
as traves-mestras do edifício educacional do habitante da "polis".
As áreas de formação cívica, ao longo das
ultimas décadas foram sendo despromovidas em favor das áreas
tecnológicas e cientificas, sem sombra de dúvida caminhos
de evolução e progresso, para a humanidade, mas não
os únicos.
Pensar
que no dealbar do um novo milênio, as manchas de pobreza no planeta
se alargam, que o anafabetismo, não foi irradicado, que os nacionalismos
mais ferozes ainda matam, que a carta magna dos Direitos Universais
do Homem, é letra morta, para milhares de homens, mulheres e
crianças que conhecem a condição infra-humana da
existência, deveriam fazer pensar. Progresso é um
conceito que nos traz à memória um processo de eliminação
da bárbarie, e por todo o planeta há sinais de que ela
tende a crescer e de que os conceitos de progresso e evolução
deveriam ser revistos.
Educar
para a cidadania deveria ser o lema de quem dirige os destinos de um
país, porque é no ensino que se aposta positivamente no
futuro, ou pelo contrário o individamos. Progresso está
intimamente ligado a um outro conceito: EDUCAR!
Porque
falamos de ensino, é pertinaz lembrar que em nossas escolas parece
surgir como um verdadeiro drama as relações quase traumáticas
que uma elevada percentagem de alunos vive com algumas disciplinas,
nomeadamente a matemática e a língua materna. De uma forma
geral as pessoas falam cada vez pior, e a formação de
uma mente racional e lógica também se perde, pelas dificuldades
que enfrentam nossos estudantes.
O
sucesso escolar, e a aquisição do conhecimento, que se
realiza durante a passagem pela escola, ou faculdade, está diretamente
ligado à boa preparação dos docentes, que mais
do que ensinar se deveriam preocupar com a capacidade de incutir o gosto
por aprender e o insucesso escolar liga-se quer a fraca preparação
dos professores como á escolha de um conjunto de matérias
ministradas aos vários níveis do ensino que desmotivam
o aluno pela fraca relação que estabelecem entre a escola
e a vida. Motor por excelência da formação dos indivíduos,
a escola veio gradualmente desvalorizando as disciplinas das áreas
ditas cívicas ou humanistas ao longo das últimas décadas
em favor das tecnologias e áreas cientificas. Desde quando a
ética, o conhecimento, formação do indivíduo
para a cidadania, e formação de um espirito abrangente
e critico sobre o seu meio, se revelou incompatível com o ensino
das ciências? Porquê então a excessiva cientifização
do curriculuns escolares em detrimento da formação humanistica
dos alunos? Exigências de uma sociedade, que deixou de colocar
o Homem no seu centro. A crise de valores de que tanto se fala, poderá,
quem sabe de algum modo explicar-se à luz da questão acabada
de colocar.
Uma
sociedade crescendo em globalização, promovendo métodos
de organização cada vez mais uniformizadores, e contraditoriamente
parecendo dar uma ênfase particular ao indivíduo, vem criando
condições para a produção de um homem-padrão,
essencialmente movido pela idéia de sucesso, que se tornou um
dos ícones endeusados de nossos tempos. Os mídia e os
interesses por si veiculados têm operado "maravilhas" no tocante
a esta questão: o bombardeio diário da falácia
de um mundo de bem-estar ao alcance de todos, a velocidade vertiginosa
a que a informação corre sem permitir uma digestão
crítica das mensagens subliminares, a desvirtualização
da função primeira dos meios de comunicação,
informar, vai-nos transformando em meros receptores passivos e prontos
para a filosofia consumista e as sociedades do "Fast".
Mais
do que servir os públicos e informar, a televisão que
dispõe de um meio de incomensurável poder, quer pelos
públicos que atinge, quer pela influencia que exerce sobre eles,
se parece preocupar mais com os picos de audiências. Neste jogo
do vale tudo, a imagem "shock" vence ao knock-out a palavra,
ou não fosse tão popular, e certamente eficaz, a expressão
corrente: "uma imagem vale por mil palavras". Parece, pois, que os meios
que por excelência poderiam estar ao serviço da informação
e formação dos indivíduos, se encontram enredados
numa lógica de sobrevivência, em que os fins justificam
os meios.
Seria
importante lembrar que nossas sociedades e nossas culturas se ergueram
e mantiveram pela palavra: pela oralidade que durante milhares de anos
foi passando de homem a homem, tribo a tribo os conhecimentos dos mais
velhos, a memória e a História ciosamente guardadas pela
escrita, em pedras, papiros, e papel. A palavra, desde os tempos dos
cidadãos livres helênicos ao "corner speacher" do Hide
Park em Londres, tem sido utensílio de explicitação
do mundo, de expressão livre de idéias, de passagem de
testemunhos e de saber ao longo do tempo.
Sabemos
que o domínio da palavra, a capacidade de "manipular" e concatenar
conceitos é sobremaneira revelador de inteligência e que
a verborreia, o lugar comum que nada traduzem de novo, antes
reproduzem a mesmidade e a uniformização, em si mesmos
são empobrecedores. O fenômeno da globalização
e a atual caraterística das sociedades atuais me parecem estar
contribuindo de forma rápida e decisiva para este estado de coisas.
E
é neste contexto das sociedades "Fast", que vamos perdendo a
capacidade de entender a história que perpassa cada contexto
ou conjuntura temporal, e de ao jeito de Janus, com sua cabeça
bifurcada, encarar o futuro sem deixar de olhar para o passado que nos
explica o presente.
É
um momento único na História da
710
Fernando Pessoa
Bem sei que estou endoidecendo.
Bem sei que estou endoidecendo.
Bem sei que falha em mim quem sou.
Sim, mas, enquanto me não rendo,
Quero saber por onde vou.
Inda que vá para render-me
Ao que o Destino me faz ser,
Quero, um momento, aqui deter-me
E descansar a conhecer.
Há grandes lapsos de memória
Grandes paralelas perdidas,
E muita lenda e muita história
E muitas vidas, muitas vidas.
Tudo isso; agora me perco
De mim e vou a transviar,
Quero chamar a mim, e cerco
Meu ser de tudo relembrar.
Porque, se vou ser louco, quero
Ser louco com moral e siso.
Vou tanger lira como Nero.
Mas o incêndio não é preciso.
15/09/1934
Bem sei que falha em mim quem sou.
Sim, mas, enquanto me não rendo,
Quero saber por onde vou.
Inda que vá para render-me
Ao que o Destino me faz ser,
Quero, um momento, aqui deter-me
E descansar a conhecer.
Há grandes lapsos de memória
Grandes paralelas perdidas,
E muita lenda e muita história
E muitas vidas, muitas vidas.
Tudo isso; agora me perco
De mim e vou a transviar,
Quero chamar a mim, e cerco
Meu ser de tudo relembrar.
Porque, se vou ser louco, quero
Ser louco com moral e siso.
Vou tanger lira como Nero.
Mas o incêndio não é preciso.
15/09/1934
4 178
Angelo Augusto Ferreira
Compasso da Canção
A vida bate sem dó
Tocando a canção do aprendizado
Devagar
Notas contadas
No compasso de sustos
Vezes sem afetos
Desorientados
Cautelosos
Expectáveis no porvir!
A vida bate sem dó
Caminhar louco
Todo cuidado é pouco.
O bem maior perdeu-se
Sem explicação
Desapareceu na fumaça dos fatos
Nas risadas do chopp
Perdidos nos esgotos da vida.
A vida bate sem dó
Sem avisar
Nos sustos
Nos beijos
Abraços
Alegrias
Dos risos.
Flores que persistem
Nos corações
Mentes infinitas
Supridos nos choques da saudade!
Tocando a canção do aprendizado
Devagar
Notas contadas
No compasso de sustos
Vezes sem afetos
Desorientados
Cautelosos
Expectáveis no porvir!
A vida bate sem dó
Caminhar louco
Todo cuidado é pouco.
O bem maior perdeu-se
Sem explicação
Desapareceu na fumaça dos fatos
Nas risadas do chopp
Perdidos nos esgotos da vida.
A vida bate sem dó
Sem avisar
Nos sustos
Nos beijos
Abraços
Alegrias
Dos risos.
Flores que persistem
Nos corações
Mentes infinitas
Supridos nos choques da saudade!
870
Castro Alves
Aos Estudantes Voluntários
(RECITATIVO)
Poesia recitada no Teatro Santa Isabel
na noite do oferecimento da Academia.
O CÉU é alma... O relâmpago
É uma idéia de luz,
Que pelo crânio do espaço
Perpassa, brilha e reluz...
Depois o trovão — é o verbo.
Segue-o o raio — gládio acerbo,
Que se desdobra soberbo
Pelos páramos azuis.
Ação e idéia — são gêmeos,
Quem as pudera apartar?...
O fato — é a vaga agitada
Do pensamento — que é o mar...
Cisma o oceano curvado,
Mas da procela vibrado,
Solta as crinas indomado,
Parece o espaço escalar.
Assim sois vós!... Nem se pense
Que o livro enfraquece a mão.
Troca-se a pena com o sabre,
Ontem — Numa... Hoje — Catão...
É o mesmo... Se a pena é espada
Por mão de Homero vibrada,
Com o gládio — epopéia ousada
Traça mundos — Napoleão...
Que importa os raios trovejem
Nas florestas do existir
Parti, pois! Homens do livro!
Podeis ousados partir!
Pois sereis. . ., vindo com glória,
Ou morrendo na vitória...
Homens do livro da História
Dessa Bíblia do porvir!
Poesia recitada no Teatro Santa Isabel
na noite do oferecimento da Academia.
O CÉU é alma... O relâmpago
É uma idéia de luz,
Que pelo crânio do espaço
Perpassa, brilha e reluz...
Depois o trovão — é o verbo.
Segue-o o raio — gládio acerbo,
Que se desdobra soberbo
Pelos páramos azuis.
Ação e idéia — são gêmeos,
Quem as pudera apartar?...
O fato — é a vaga agitada
Do pensamento — que é o mar...
Cisma o oceano curvado,
Mas da procela vibrado,
Solta as crinas indomado,
Parece o espaço escalar.
Assim sois vós!... Nem se pense
Que o livro enfraquece a mão.
Troca-se a pena com o sabre,
Ontem — Numa... Hoje — Catão...
É o mesmo... Se a pena é espada
Por mão de Homero vibrada,
Com o gládio — epopéia ousada
Traça mundos — Napoleão...
Que importa os raios trovejem
Nas florestas do existir
Parti, pois! Homens do livro!
Podeis ousados partir!
Pois sereis. . ., vindo com glória,
Ou morrendo na vitória...
Homens do livro da História
Dessa Bíblia do porvir!
1 895
Nuno Guimarães
Pela Escrita
Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
1 268
Padre Francisco de Faria
Soneto
Tal Inscrição, tal Prólogo fizestes,
tanto em ponto nenhum vos descuidasses;
que retocando a Lira pelos trastes
menos dissera Orfeu, do que dissesses.
Em tudo, o que dizer-nos entendesses,
tende a Glória, Tavares, que acertasses:
se jurista severo principiasses,
logo em toda Ciência provas destes.
Deixais à imitação tão novas formas,
que cessarão de todo os desconcertos,
se de Vós aprendermos as reformas.
Pondes ao mundo culto em tais apertos,
que, ou se hão de seguir as vossas normas,
ou ninguém poderá lograr acertos.
tanto em ponto nenhum vos descuidasses;
que retocando a Lira pelos trastes
menos dissera Orfeu, do que dissesses.
Em tudo, o que dizer-nos entendesses,
tende a Glória, Tavares, que acertasses:
se jurista severo principiasses,
logo em toda Ciência provas destes.
Deixais à imitação tão novas formas,
que cessarão de todo os desconcertos,
se de Vós aprendermos as reformas.
Pondes ao mundo culto em tais apertos,
que, ou se hão de seguir as vossas normas,
ou ninguém poderá lograr acertos.
346
Orides Fontela
Hamlet
...mais filosofias
que coisas !
que coisas !
1 370
Rogério Bessa
Ciranda da Vida
10
faz da forma o formão
pinta / carpe a empreita
faz da lima o limão
firma / malha / corre ponto
faz da liça a lição
logra / liga a espreita
faz do fuso a fusão
quinas / cana / fusa fuzuê
e a gana de ensinar
faz do fogo o fogão
bota / joga / faz o jogo
e o bota-tira botijão
faz da fila o filão
fila / finta / dribla o jogo
o dia crê e tenta ação.
faz da forma o formão
pinta / carpe a empreita
faz da lima o limão
firma / malha / corre ponto
faz da liça a lição
logra / liga a espreita
faz do fuso a fusão
quinas / cana / fusa fuzuê
e a gana de ensinar
faz do fogo o fogão
bota / joga / faz o jogo
e o bota-tira botijão
faz da fila o filão
fila / finta / dribla o jogo
o dia crê e tenta ação.
834