Poemas neste tema
Dor e Desespero
Afonso Lopes de Baião
Madre, Des Que Se Foi Daqui
Madre, des que se foi daqui
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
722
Fernando Pessoa
PITY? NO!
Pity? No! I wish not pity.
That were but a bitterer scorn,
Disdain ruthlessly made witty
With a serious look to strain
Its awful joke. No; let me mourn
In peace. Pity me not again!
Pity? No! Let more scorn come,
More indifference, more disdain:
These are the conforts of my home.
To change their look to pity were too far
To make me feel a direr pain.
Pretend not good: it cannot be.
Let evils all seem as they are.
To mask them were a mockery
Heartless and evilly rare.
That were but a bitterer scorn,
Disdain ruthlessly made witty
With a serious look to strain
Its awful joke. No; let me mourn
In peace. Pity me not again!
Pity? No! Let more scorn come,
More indifference, more disdain:
These are the conforts of my home.
To change their look to pity were too far
To make me feel a direr pain.
Pretend not good: it cannot be.
Let evils all seem as they are.
To mask them were a mockery
Heartless and evilly rare.
1 428
Afonso Mendes de Besteiros
Coitado Vivo, Há Mui Gram Sazom
Coitado vivo, há mui gram sazom,
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
679
Afonso Mendes de Besteiros
Per Boa Fé, Nom Sabem Nulha Rem
Per boa fé, nom sabem nulha rem
das mias coitas os que me vam poer
culpa de m'eu mui cativo fazer
em meus cantares, tanto sei eu bem;
nem sabem qual coita mi faz sofrer
esta senhor que me tem em poder.
[...]
das mias coitas os que me vam poer
culpa de m'eu mui cativo fazer
em meus cantares, tanto sei eu bem;
nem sabem qual coita mi faz sofrer
esta senhor que me tem em poder.
[...]
555
Afonso Mendes de Besteiros
Que Sem Meu Grado Me Parti
Que sem meu grado me parti
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
570
Armando Cortes-Rodrigues
Ergo Meus Olhos
Ergo meus olhos vagos, na distância
Da sombra do meu Ser...
Pairam de mim além, e a minha Ânsia
Cansa de me viver.
Meus olhos espectrais de comoção,
Olhos da alma, olhando-se a si,
Nimbam de luz a longa escuridão
Da vida que vivi.
Auréola de Dor, que finaliza
Na noite do abismo do meu nada;
Silêncio, prece, comunhão sagrada,
Sombra de luz que em Ti me diviniza,
Tortura do meu fim,
Alma ungida
E perdida
Na grandeza de Si. E já sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
Agonizo de Ser-me.
Da sombra do meu Ser...
Pairam de mim além, e a minha Ânsia
Cansa de me viver.
Meus olhos espectrais de comoção,
Olhos da alma, olhando-se a si,
Nimbam de luz a longa escuridão
Da vida que vivi.
Auréola de Dor, que finaliza
Na noite do abismo do meu nada;
Silêncio, prece, comunhão sagrada,
Sombra de luz que em Ti me diviniza,
Tortura do meu fim,
Alma ungida
E perdida
Na grandeza de Si. E já sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
Agonizo de Ser-me.
898
Júlio Maria dos Reis Pereira
Sangue
Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...
É só com sangue que se escrevem versos.
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...
É só com sangue que se escrevem versos.
770
Sérgio Milliet
Revolta
Em que pese a nossa revolta...
mas que somos nós!
mas que somos nós!
Terror dos olhos que se voltam para dentro,
impotência das mãos presas à vida.
Jamais aceitaremos essa lei terrível!
Mas que somos nós!
Mas que somos nós!
Pobre cousa agora sorridente
nesse descanso que não queria,
já sem problemas,
sem perspectivas,
já sem gritos para dizer do inconformismo,
barro que torna ao barro
em que pese a nossa revolta!
Como uma estufa se constrói um cérebro
e dentro desabrocha um pensamento,
flor de requinte
e se afinam as células sensíveis,
os olhos vêem mais longe
e fundo,
os ouvidos ouvem melhor,
distinguem Bach, Noel Rosa,
as narinas se adelgaçam
o tato se faz ligeiro
abre-se o coração em simpatia,
mas a morte está de atalaia
e eis que tudo se afoga em um pouco de sangue...
E que se creia em Deus!
E que se creia em Deus!
Mas Deus chama os melhores
em que pese a nossa revolta...
Ele se cerca dos mais puros
dos mais fortes e perspicazes,
Ele quer tropas aguerridas
de lúcidas almas que lhe possam ouvir
e entender os desígnios inescrutáveis.
Sim Deus chama os melhores
porque os criou para si próprio
frágeis mudas para o jardim celeste.
Ele os arranca desta terra negra e suja
nessa hora exata em que começam a florescer...
Ah! que somos nós!
apenas recipientes.
potes de faiança ou porcelana
e se vinga a semente plantada.
Ele colhe a flor
e transplanta a muda
em que pese a nossa revolta.
Jamais aceitaremos essa lei terrível,
essa lei inumana,
e que só justifica a metafísica.
Jamais a aceitaremos.
nós que somos de carne, ossos, sangue e vísceras,
nós que somos fraquezas e imperfeições,
solidão, angústias, esperanças malogradas.
Jamais aceitaremos o destino subalterno
de instrumentos de sua vontade.
Mas que somos nós!
Mas que somos nós!
Imagem - 01660007
In: MILLIET, Sérgio. Poema do trigésimo dia: versos... Il. Samson Flexor. São Paulo: Ind. Gráf. Brasileira, 1950
mas que somos nós!
mas que somos nós!
Terror dos olhos que se voltam para dentro,
impotência das mãos presas à vida.
Jamais aceitaremos essa lei terrível!
Mas que somos nós!
Mas que somos nós!
Pobre cousa agora sorridente
nesse descanso que não queria,
já sem problemas,
sem perspectivas,
já sem gritos para dizer do inconformismo,
barro que torna ao barro
em que pese a nossa revolta!
Como uma estufa se constrói um cérebro
e dentro desabrocha um pensamento,
flor de requinte
e se afinam as células sensíveis,
os olhos vêem mais longe
e fundo,
os ouvidos ouvem melhor,
distinguem Bach, Noel Rosa,
as narinas se adelgaçam
o tato se faz ligeiro
abre-se o coração em simpatia,
mas a morte está de atalaia
e eis que tudo se afoga em um pouco de sangue...
E que se creia em Deus!
E que se creia em Deus!
Mas Deus chama os melhores
em que pese a nossa revolta...
Ele se cerca dos mais puros
dos mais fortes e perspicazes,
Ele quer tropas aguerridas
de lúcidas almas que lhe possam ouvir
e entender os desígnios inescrutáveis.
Sim Deus chama os melhores
porque os criou para si próprio
frágeis mudas para o jardim celeste.
Ele os arranca desta terra negra e suja
nessa hora exata em que começam a florescer...
Ah! que somos nós!
apenas recipientes.
potes de faiança ou porcelana
e se vinga a semente plantada.
Ele colhe a flor
e transplanta a muda
em que pese a nossa revolta.
Jamais aceitaremos essa lei terrível,
essa lei inumana,
e que só justifica a metafísica.
Jamais a aceitaremos.
nós que somos de carne, ossos, sangue e vísceras,
nós que somos fraquezas e imperfeições,
solidão, angústias, esperanças malogradas.
Jamais aceitaremos o destino subalterno
de instrumentos de sua vontade.
Mas que somos nós!
Mas que somos nós!
Imagem - 01660007
In: MILLIET, Sérgio. Poema do trigésimo dia: versos... Il. Samson Flexor. São Paulo: Ind. Gráf. Brasileira, 1950
1 489
Menotti del Picchia
Germinal - 5
Juca Mulato cisma. Olha a lua e estremece.
Dentro dele um desejo abre-se em flor e cresce
e ele pensa, ao sentir esses sonhos ignotos,
que a alma é como uma planta, os sonhos como brotos,
vão rebentando nela e se abrindo em floradas...
Franjam de ouro, o ocidente, as chamas das queimadas
Mal se pode conter de inquieto e satisfeito.
Adivinha que tem qualquer coisa no peito
e, às promessas do amor, a alma escancara ansiado
como os áureos portais de um palácio encantado!...
Mas a mágoa que ronda a alegria de perto
entra no coração sempre que o encontra aberto...
Juca Mulato sofre... Esse olhar calmo e doce
fulgiu-lhe como a luz, como luz apagou-se.
Feliz até então tinha a alma adormecida...
Esse olhar que o fitou o acordou para a vida!
A luz que nele viu deu-lhe a dor que ora o assombra
como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra...
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.21. (Prestígio
Dentro dele um desejo abre-se em flor e cresce
e ele pensa, ao sentir esses sonhos ignotos,
que a alma é como uma planta, os sonhos como brotos,
vão rebentando nela e se abrindo em floradas...
Franjam de ouro, o ocidente, as chamas das queimadas
Mal se pode conter de inquieto e satisfeito.
Adivinha que tem qualquer coisa no peito
e, às promessas do amor, a alma escancara ansiado
como os áureos portais de um palácio encantado!...
Mas a mágoa que ronda a alegria de perto
entra no coração sempre que o encontra aberto...
Juca Mulato sofre... Esse olhar calmo e doce
fulgiu-lhe como a luz, como luz apagou-se.
Feliz até então tinha a alma adormecida...
Esse olhar que o fitou o acordou para a vida!
A luz que nele viu deu-lhe a dor que ora o assombra
como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra...
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.21. (Prestígio
1 765
Afonso Mendes de Besteiros
Amigos, Nunca Mereceu
Amigos, nunca mereceu
homem, com'eu mereci, mal,
em meu cuidar, ca nom em al;
mais ando-me por en sandeu:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Mais leixade-mi andar assi!
Pero vós hajades poder,
meus amigos, de me valer,
sol nom vos doades de mi:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca sei que per nẽum logar,
amigos, que nom haverei
dela bem, por quanto cuidei;
mais leixade-m'assi andar:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca o sandeu, quanto mais for
d'amor sandeu, tant'é milhor.
homem, com'eu mereci, mal,
em meu cuidar, ca nom em al;
mais ando-me por en sandeu:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Mais leixade-mi andar assi!
Pero vós hajades poder,
meus amigos, de me valer,
sol nom vos doades de mi:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca sei que per nẽum logar,
amigos, que nom haverei
dela bem, por quanto cuidei;
mais leixade-m'assi andar:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca o sandeu, quanto mais for
d'amor sandeu, tant'é milhor.
811
Júlio Maria dos Reis Pereira
Sofro de não te ver
Sofro
de não te ver,
de perder
os teus gestos
leves, lestos,
a tua fala
que o sorriso embala,
a tua alma
límpida, tão calma…
Sofro
de te perder,
durante dias que parecem meses,
durante meses que parecem anos…
Quem vem regar o meu jardim de enganos,
tratar das árvores de tenrinhos ramos?
de não te ver,
de perder
os teus gestos
leves, lestos,
a tua fala
que o sorriso embala,
a tua alma
límpida, tão calma…
Sofro
de te perder,
durante dias que parecem meses,
durante meses que parecem anos…
Quem vem regar o meu jardim de enganos,
tratar das árvores de tenrinhos ramos?
592
Fernando Pessoa
Dois horrores
Dois horrores
Me esmagam, cada um dos quais parece
O maior dos horrores que há maiores:
Um, o horror da morte, outro, o horror
De não poder evitar encontrar
Esse horror — ter que morrer. Dois...
Dois só horrores? Não. À roda destes
Giram milhares, interpenetrantes,
Complexos, uns dos outros produzidos
E nessa treva hedionda, nesse inferno
Que me tem lugar n'alma o pensamento
E o sentimento, horrorosamente
Conscientes e agudos cambaleiam,
Mergulham, desvariam, gritam, sangram,
Mas sempre claros, sempre conscientes,
Sempre em cada parcela desse horror,
Medindo todo o horror e descobrindo
Os outros e os outros e os outros
E assim sempre, assim sempre, sem parar,
Arrasto, em agonia inconcebida
De qualquer agonia imaginante
Doutros homens, a vida torturada,
Esta vida que a dor me faz eterna
E o horror da morte fugidia e mínima
Em toda a parte, todo o mundo, o horror.
Me esmagam, cada um dos quais parece
O maior dos horrores que há maiores:
Um, o horror da morte, outro, o horror
De não poder evitar encontrar
Esse horror — ter que morrer. Dois...
Dois só horrores? Não. À roda destes
Giram milhares, interpenetrantes,
Complexos, uns dos outros produzidos
E nessa treva hedionda, nesse inferno
Que me tem lugar n'alma o pensamento
E o sentimento, horrorosamente
Conscientes e agudos cambaleiam,
Mergulham, desvariam, gritam, sangram,
Mas sempre claros, sempre conscientes,
Sempre em cada parcela desse horror,
Medindo todo o horror e descobrindo
Os outros e os outros e os outros
E assim sempre, assim sempre, sem parar,
Arrasto, em agonia inconcebida
De qualquer agonia imaginante
Doutros homens, a vida torturada,
Esta vida que a dor me faz eterna
E o horror da morte fugidia e mínima
Em toda a parte, todo o mundo, o horror.
1 430
Fernando Pessoa
Do horror do mistério são talvez
Do horror do mistério são talvez
Símbolos grosseiros esses horrendos
Gorgona e Demogórgon fabulosos,
Fatais um pelo aspecto outro no nome.
Neles se vê a ávida ansiedade
De dar em concepção que torturasse
De terror, isso que de vago e estranho,
Atravessando como um arrepio
Do pensamento a solidão, integra
Em luz parcial (...) a negra lucidez
Do mistério supremo. É conhecer,
O erguer desses ídolos de horror,
A existência daquilo que, pensado
A fundo, redemoínha o pensamento
Por loucos vãos, declives de loucura
Despenhadeiros de aflição, confusos
Torturamentos, e o que mais d'angústia
E pavor não se exprime sem que falhe
Na própria concepção o conceber.
É o horror dos horrores esse horror
De haver d'alma um estado, aquele estado
Em que o mistério lhe penetra o abismo,
E não haver palavras ou ideias
Que atinjam esse estado ou comuniquem
D'ideias a ideias o que passa
De vago e horroroso. Do mistério
O pavor é duplo — é o horror em si
O horror que sentimos ao senti-lo.
Este que torna alegre e descuidosa
A loucura, ao seu lado, que ligeiro
Faz parecer tudo que de pavor
Confrange, ou (...), enlouquece,
Esta vacuidade angustiosa
Do pensamento prenhe — quando tento
Lembrar-me que a uma Cousa, Ser real
Corresponde — só essa ideia possível
Me gela a consciência de existir
E me entupe de pavor o fundo
Sentimento do mundo e de mim mesmo.
Símbolos grosseiros esses horrendos
Gorgona e Demogórgon fabulosos,
Fatais um pelo aspecto outro no nome.
Neles se vê a ávida ansiedade
De dar em concepção que torturasse
De terror, isso que de vago e estranho,
Atravessando como um arrepio
Do pensamento a solidão, integra
Em luz parcial (...) a negra lucidez
Do mistério supremo. É conhecer,
O erguer desses ídolos de horror,
A existência daquilo que, pensado
A fundo, redemoínha o pensamento
Por loucos vãos, declives de loucura
Despenhadeiros de aflição, confusos
Torturamentos, e o que mais d'angústia
E pavor não se exprime sem que falhe
Na própria concepção o conceber.
É o horror dos horrores esse horror
De haver d'alma um estado, aquele estado
Em que o mistério lhe penetra o abismo,
E não haver palavras ou ideias
Que atinjam esse estado ou comuniquem
D'ideias a ideias o que passa
De vago e horroroso. Do mistério
O pavor é duplo — é o horror em si
O horror que sentimos ao senti-lo.
Este que torna alegre e descuidosa
A loucura, ao seu lado, que ligeiro
Faz parecer tudo que de pavor
Confrange, ou (...), enlouquece,
Esta vacuidade angustiosa
Do pensamento prenhe — quando tento
Lembrar-me que a uma Cousa, Ser real
Corresponde — só essa ideia possível
Me gela a consciência de existir
E me entupe de pavor o fundo
Sentimento do mundo e de mim mesmo.
1 309
Fernando Pessoa
BE IT SO!
Be it so; we are sundered for ever -
I and life's happy and sane.
My nature and theirs did us sever;
Nought can unite us again.
Again? We were never unparted,
Differently destined and born -
They born to be light and stout‑hearted,
I to be pained and worn.
Be it so; we for ever are sundered!
What would the normal with me?
My own inner reason hath wondered
Trembling at its misery.
I give me all over to terror
All unto madness and woe;
I yield up my thoughts unto error.
'Twas to be so; be it so!
Of my thoughts I no longer am master,
Ceasing is now all control.
My mind doth decay: take your pasture
Ravings, ye worms of the soul!
I and life's happy and sane.
My nature and theirs did us sever;
Nought can unite us again.
Again? We were never unparted,
Differently destined and born -
They born to be light and stout‑hearted,
I to be pained and worn.
Be it so; we for ever are sundered!
What would the normal with me?
My own inner reason hath wondered
Trembling at its misery.
I give me all over to terror
All unto madness and woe;
I yield up my thoughts unto error.
'Twas to be so; be it so!
Of my thoughts I no longer am master,
Ceasing is now all control.
My mind doth decay: take your pasture
Ravings, ye worms of the soul!
1 226
Fernando Pessoa
UMA VOZ NA ESCURIDÃO: Melodia vaga,
Melodia vaga,
Para ti se eleva
E chorando, leva
O teu coração,
Já de dor exausto,
E sonhando o afaga.
Os teus olhos, Fausto,
Não mais chorarão.
Para ti se eleva
E chorando, leva
O teu coração,
Já de dor exausto,
E sonhando o afaga.
Os teus olhos, Fausto,
Não mais chorarão.
1 598
Fernando Pessoa
Morrer — esta palavra toda horror —
Morrer — esta palavra toda horror —
Repito-a e re-repito-a para ver
Se aumenta em mim 'té à compreensão
O pensamento e sentimento vagos
Que produz, e dos quais a intensidade
Em contraste com esse vago imenso
Faz dum horror um horror supremo;
Repito sim — Morrer — e não obtenho
Uma qualquer nitidificação
Do desolado caos do meu ser.
Agonia suprema! Suma dor
Não poder eu — sem morte, sem (...)
Tornar-me em um estranho inanimado
D'inconcebida essência que encontrasse
O impensável desejo da minha alma.
Tudo é mistério e o mistério é tudo
E a mais próxima forma, essa mais nossa
A sua forma mais (...)
É a morte.
Uns têm — e é sofrer — o duvidar:
Há Deus ou não há Deus? Há alma ou não?
Eu não duvido, ignoro. E se o horror
De duvidar é grande o de ignorar
Não tem nome nem entre os pensamentos.
Hesitar: «Há Deus ou não há?» é triste
Mas saber: «Não há Deus» e perguntar
«O que há então?» Aqui dúvida e ânsia
Por humildes em dor não se concebem.
Eu, Fausto, achei a ciência suprema
Que o homem pode ter; nela encontrei
O (...) de desolação
D'ânsia, d'horror, de medo, de delírio,
De hesitação, de estranheza na terra,
De vacuidade em mim e em todo o mundo,
E em todo o pensamento e em todo o Ser.
Repito-a e re-repito-a para ver
Se aumenta em mim 'té à compreensão
O pensamento e sentimento vagos
Que produz, e dos quais a intensidade
Em contraste com esse vago imenso
Faz dum horror um horror supremo;
Repito sim — Morrer — e não obtenho
Uma qualquer nitidificação
Do desolado caos do meu ser.
Agonia suprema! Suma dor
Não poder eu — sem morte, sem (...)
Tornar-me em um estranho inanimado
D'inconcebida essência que encontrasse
O impensável desejo da minha alma.
Tudo é mistério e o mistério é tudo
E a mais próxima forma, essa mais nossa
A sua forma mais (...)
É a morte.
Uns têm — e é sofrer — o duvidar:
Há Deus ou não há Deus? Há alma ou não?
Eu não duvido, ignoro. E se o horror
De duvidar é grande o de ignorar
Não tem nome nem entre os pensamentos.
Hesitar: «Há Deus ou não há?» é triste
Mas saber: «Não há Deus» e perguntar
«O que há então?» Aqui dúvida e ânsia
Por humildes em dor não se concebem.
Eu, Fausto, achei a ciência suprema
Que o homem pode ter; nela encontrei
O (...) de desolação
D'ânsia, d'horror, de medo, de delírio,
De hesitação, de estranheza na terra,
De vacuidade em mim e em todo o mundo,
E em todo o pensamento e em todo o Ser.
1 122
Fernando Pessoa
Quando às vezes eu penso em meu futuro,
Quando às vezes eu penso em meu futuro,
Abre-se de repente (...) abismo
Perante o qual me cambaleia o ser.
E ponho sobre os olhos as mãos da alma
Para esconder aquilo que não vejo.
— Oh lúgubres gracejos de expressão!
Estorce-se-me a alma sacudida e louca
Até parecer rindo.
Abre-se de repente (...) abismo
Perante o qual me cambaleia o ser.
E ponho sobre os olhos as mãos da alma
Para esconder aquilo que não vejo.
— Oh lúgubres gracejos de expressão!
Estorce-se-me a alma sacudida e louca
Até parecer rindo.
1 535
Fernando Pessoa
IV - A QUEDA
IV
A QUEDA
Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser. .
Escada absoluta sem degraus..
Visão que se não pode ver
Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido..
A QUEDA
Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser. .
Escada absoluta sem degraus..
Visão que se não pode ver
Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido..
1 682
Manuel Bandeira
Mar Bravo
Mar que ouvi sempre cantar murmúrios
Na doce queixa das elegias,
Como se fosses, nas tardes frias
De tons purpúreos,
A voz das minhas melancolias:
Com que delícia neste infortúnio,
Com que selvagem, profundo gozo,
Hoje te vejo bater raivoso,
Na maré-cheia de novilúnio,
Mar rumoroso!
Com que amargura mordes a areia,
Cuspindo a baba da acre salsugem,
No torvelinho de ondas que rugem
Na maré-cheia,
Mar de sargaços e de amuragem!
As minhas cóleras homicidas,
Meus velhos ódios de iconoclasta,
Quedam-se absortos diante da vasta,
Pérfida vaga que tudo arrasta,
Mar que intimidas!
Em tuas ondas precipitadas,
Onde flamejam lampejos ruivos,
Gemem sereias despedaçadas,
Em longos uivos
Multiplicados pelas quebradas.
Mar que arremetes, mas que não cansas,
Mar de blasfêmias e de vinganças,
Como te invejo! Dentro em meu peito
Eu trago um pântano insatisfeito
De corrompidas desesperanças!...
1913
Na doce queixa das elegias,
Como se fosses, nas tardes frias
De tons purpúreos,
A voz das minhas melancolias:
Com que delícia neste infortúnio,
Com que selvagem, profundo gozo,
Hoje te vejo bater raivoso,
Na maré-cheia de novilúnio,
Mar rumoroso!
Com que amargura mordes a areia,
Cuspindo a baba da acre salsugem,
No torvelinho de ondas que rugem
Na maré-cheia,
Mar de sargaços e de amuragem!
As minhas cóleras homicidas,
Meus velhos ódios de iconoclasta,
Quedam-se absortos diante da vasta,
Pérfida vaga que tudo arrasta,
Mar que intimidas!
Em tuas ondas precipitadas,
Onde flamejam lampejos ruivos,
Gemem sereias despedaçadas,
Em longos uivos
Multiplicados pelas quebradas.
Mar que arremetes, mas que não cansas,
Mar de blasfêmias e de vinganças,
Como te invejo! Dentro em meu peito
Eu trago um pântano insatisfeito
De corrompidas desesperanças!...
1913
1 604
Fernando Pessoa
...Como condenado
...Como condenado
Que ligado (...) vê avançar
Qualquer tormento atroz, qualquer horror,
Eu, ligado à vida, vejo avançar
A morte para mim; mas ao condenado,
Inda no seu horror, lhe luz ao menos
Uma sombra desesperada d'esperança,
Inda o horror que espera não é aquele
Horror da morte — não tem o intenso
Carácter de inevitabilidade
Que a morte tem. A mim nem esperança
Nem suspeita de sombra de esperança
Ocorre, mas o horror completo e negro.
Isso que lhe aparece por resgate
É o que eu temo!
Que ligado (...) vê avançar
Qualquer tormento atroz, qualquer horror,
Eu, ligado à vida, vejo avançar
A morte para mim; mas ao condenado,
Inda no seu horror, lhe luz ao menos
Uma sombra desesperada d'esperança,
Inda o horror que espera não é aquele
Horror da morte — não tem o intenso
Carácter de inevitabilidade
Que a morte tem. A mim nem esperança
Nem suspeita de sombra de esperança
Ocorre, mas o horror completo e negro.
Isso que lhe aparece por resgate
É o que eu temo!
1 537
Fernando Pessoa
MY LIFE
I
Duty calls on me; I must fight against
That which 'tis duty unto all to fight.
Therefore, oh, illness of my will that stain'st
My mind - oh, leave me free to seek the right!
Take me from the vile sleep of purpose cold,
Give me an impulse to do good, to make
A struggle for the new against the old
Ere time my useless life away may take.
Keen is my feeling of the suffering
Of men and nations, keen into despair;
But not a will to speak it doth it bring,
Moveless I rest, not like a thing too fair,
But like a stagnant water full of filth,
A bog of will, inactive and alone,
Unopen unto Learning's fresh and tilth
And locked from doing good as men have done.
Pain ever, pain for ever! pain, oh pain!
Pain filling all my life like time or change.
Woe that goes from an inner waking strain
Unto the sleepiness of fears most strange.
Despair and horror, madness lone that feels
Its own too bitter taste until it quails,
The horror of a mind that fails and reels
And knows full well how far it reels and fails.
I sorrow for the past and at the future,
On that which never was I weep and pine,
Upon the things that never were in Nature,
On those that are and never shall be mine.
The sadness of the pleasure that has been,
The sorrow of the pain that once we had,
The ache of that which in dim visions seen
Leaves but an echo to make itself sad.
The knowledge that a dream is nothing more,
The science that our life is less than this:
It passes as it, and the bliss it wore
Was at its best the shadow of a bliss.
I ponder on the fates of men and things,
Thereat my soul grows dark and feeble grows,
To find Thought's body weighing on the wings
Which Fancy opens over fields and snows.
I ponder upon evil and on good
And both in life irrational I see,
One because it exists not, yet it should,
The other since it is and should not be.
Nothing is clear unto me; all is dark,
All is confusion to my Thought's o'er‑much;
Alas for him who thinks in life to work
Having cast far away Convention's crutch.
He finds that Custom, the least thing of all,
Is king and queen and law and creed and faith,
That Custom goes not further than our pall,
That Custom is with us past our own death.
I mourn that there are thrones, prisons and tumbs,
And yet to see all ill I am half glad:
That there are deaths, decays and rots and dooms,
A gladness whose eyes sparkle, because mad.
I weep all times the limits close that must
Deep souls ununderstood in living pen,
But weeping deeply wake to the disgust
That I weep for myself in other men.
My tears are for myself; so that they teach
To know men's ineradicable woe,
What matter what high point of pain they reach?
Haply their birth one day they 'll cease to know.
And that I shall forget this pain of mine
Forget myself - ah, would that it could be!
Forgotten like the drunkard in his wine
Or like the pauper in his misery.
'Twere madness, but sweet madness, better than
The waking, fully living consciousness
That unto a full unity doth span
The many woes and throes of my distress.
'Twere madness but 'twere better than to know
That evil is the source of life and thought,
For to feel madness is the greatest woe
That upon human consciousness is wrought.
To feel excluded, miserable, lone,
A leper deep at heart, having for sore
His being, is a misery past moan
'Tis better all to have and to ignore.
'Tis better? - nay, who knows? the mystery
Of consciousness and knowledge who can find?
In madness and in thought what things may be?
How far is horror deep within the mind?
II
This is my life; what will the future be?
With horror I grow sick past sighs and tears,
To think how life is torture unto me,
How Thought is father of strange cares and fears.
Yesterday one spoke to me of my youth.
Youth? Life? Twelve years I had of happiness;
The seven since then have been without ruth -
Twelve years of sleep and seven of distress.
Time, I grow sick of thee! Sounds, motions, things,
I feel a tiredness before your eyes...
Give me, oh Dream of mine! thy purest wings
That I may take from solitude my cries,
That I may seek the Heaven of this life -
Death, mother of hall things that seem to be.
Die thus the hand that could not serve for strife,
The brain that strained and toiled with misery!
III
Life - what is Life? Death - what is Death? My brain
Feels as I think on this, as one that reads
Far into dusk lifts up his eyes with pain,
Aching and dim; and my heart slowly bleeds.
IV
To work? I cannot. To be gay? I've lost
Long, long ago all laughter save a base
Mirth where Despair with Apathy incrust,
That has the scent of rots and of decays.
To do good? all desire tends unto it
But al1 my will is feeble before all:
I am become a bult for my Thought's wit
Which is no wit but Consciousness all gall.
And what avails it e'er to toil or trouble,
To make my torture of my life and thought?
Is not all life the slander‑fair soap‑bubble
That by a child in empty mind is wrought?
And what avails all verse, all art and song,
All that doth make a body for itself?
My heart is keen to feel al1 human wrong,
I careless, as one born to ease and pelf.
And what avails it ever to grow pale
Over the mute and endless lore of old
Until the wearied senses strain and fail
And the worn heart is passionless and cold?
Avails it anything? It avails not.
Let me sleep then: give me a grave for bed
In the earth's heart where I not life nor thought
But rottenness and peace my have instead.
Duty calls on me; I must fight against
That which 'tis duty unto all to fight.
Therefore, oh, illness of my will that stain'st
My mind - oh, leave me free to seek the right!
Take me from the vile sleep of purpose cold,
Give me an impulse to do good, to make
A struggle for the new against the old
Ere time my useless life away may take.
Keen is my feeling of the suffering
Of men and nations, keen into despair;
But not a will to speak it doth it bring,
Moveless I rest, not like a thing too fair,
But like a stagnant water full of filth,
A bog of will, inactive and alone,
Unopen unto Learning's fresh and tilth
And locked from doing good as men have done.
Pain ever, pain for ever! pain, oh pain!
Pain filling all my life like time or change.
Woe that goes from an inner waking strain
Unto the sleepiness of fears most strange.
Despair and horror, madness lone that feels
Its own too bitter taste until it quails,
The horror of a mind that fails and reels
And knows full well how far it reels and fails.
I sorrow for the past and at the future,
On that which never was I weep and pine,
Upon the things that never were in Nature,
On those that are and never shall be mine.
The sadness of the pleasure that has been,
The sorrow of the pain that once we had,
The ache of that which in dim visions seen
Leaves but an echo to make itself sad.
The knowledge that a dream is nothing more,
The science that our life is less than this:
It passes as it, and the bliss it wore
Was at its best the shadow of a bliss.
I ponder on the fates of men and things,
Thereat my soul grows dark and feeble grows,
To find Thought's body weighing on the wings
Which Fancy opens over fields and snows.
I ponder upon evil and on good
And both in life irrational I see,
One because it exists not, yet it should,
The other since it is and should not be.
Nothing is clear unto me; all is dark,
All is confusion to my Thought's o'er‑much;
Alas for him who thinks in life to work
Having cast far away Convention's crutch.
He finds that Custom, the least thing of all,
Is king and queen and law and creed and faith,
That Custom goes not further than our pall,
That Custom is with us past our own death.
I mourn that there are thrones, prisons and tumbs,
And yet to see all ill I am half glad:
That there are deaths, decays and rots and dooms,
A gladness whose eyes sparkle, because mad.
I weep all times the limits close that must
Deep souls ununderstood in living pen,
But weeping deeply wake to the disgust
That I weep for myself in other men.
My tears are for myself; so that they teach
To know men's ineradicable woe,
What matter what high point of pain they reach?
Haply their birth one day they 'll cease to know.
And that I shall forget this pain of mine
Forget myself - ah, would that it could be!
Forgotten like the drunkard in his wine
Or like the pauper in his misery.
'Twere madness, but sweet madness, better than
The waking, fully living consciousness
That unto a full unity doth span
The many woes and throes of my distress.
'Twere madness but 'twere better than to know
That evil is the source of life and thought,
For to feel madness is the greatest woe
That upon human consciousness is wrought.
To feel excluded, miserable, lone,
A leper deep at heart, having for sore
His being, is a misery past moan
'Tis better all to have and to ignore.
'Tis better? - nay, who knows? the mystery
Of consciousness and knowledge who can find?
In madness and in thought what things may be?
How far is horror deep within the mind?
II
This is my life; what will the future be?
With horror I grow sick past sighs and tears,
To think how life is torture unto me,
How Thought is father of strange cares and fears.
Yesterday one spoke to me of my youth.
Youth? Life? Twelve years I had of happiness;
The seven since then have been without ruth -
Twelve years of sleep and seven of distress.
Time, I grow sick of thee! Sounds, motions, things,
I feel a tiredness before your eyes...
Give me, oh Dream of mine! thy purest wings
That I may take from solitude my cries,
That I may seek the Heaven of this life -
Death, mother of hall things that seem to be.
Die thus the hand that could not serve for strife,
The brain that strained and toiled with misery!
III
Life - what is Life? Death - what is Death? My brain
Feels as I think on this, as one that reads
Far into dusk lifts up his eyes with pain,
Aching and dim; and my heart slowly bleeds.
IV
To work? I cannot. To be gay? I've lost
Long, long ago all laughter save a base
Mirth where Despair with Apathy incrust,
That has the scent of rots and of decays.
To do good? all desire tends unto it
But al1 my will is feeble before all:
I am become a bult for my Thought's wit
Which is no wit but Consciousness all gall.
And what avails it e'er to toil or trouble,
To make my torture of my life and thought?
Is not all life the slander‑fair soap‑bubble
That by a child in empty mind is wrought?
And what avails all verse, all art and song,
All that doth make a body for itself?
My heart is keen to feel al1 human wrong,
I careless, as one born to ease and pelf.
And what avails it ever to grow pale
Over the mute and endless lore of old
Until the wearied senses strain and fail
And the worn heart is passionless and cold?
Avails it anything? It avails not.
Let me sleep then: give me a grave for bed
In the earth's heart where I not life nor thought
But rottenness and peace my have instead.
1 660
José Echegaray
La lucha eterna
Oye: yo te he querido con locura,
y aquí en mi corazón fuiste señora;
yo cifré en tu cariño mi ventura,
y has alumbrado mi existencia obscura
con reflejos dulcísimos de aurora.
Tú llenaste mi pecho de consuelo,
y aún por tí el alma a mi pesar suspira;
tuve en tí tanta fe como en el cielo,
y busqué tu cariño con anhelo,
y me juraste amor... ¡y fue mentira!
Mira, ve lo que has hecho:
aquí hubo un corazón dentro del pecho
que latió para tí, para tí sola,
y hoy tu gran ingratitud me inmola,
te lo vengo a pedir, y está deshecho.
Escucha: has sido infiel, me has engañado;
hay huellas en tu faz que te delatan
y que van pregonando tu pecado.
Vé por qué vengo a hablarte con enojos,
y vé por qué mis penas se desatan,
pues comprendí la vida por tus ojos,
y ahora tus ojos son los que me matan.
¡Aparta!... ¡Huye de mí! No quiero verte.
¡Déjame, que no puedo!
Yo debo aborrecerte,
y tus ojos me impulsan a quererte,
y miro al corazón... ¡y tengo miedo!
¡Huye!... Comprende lo que estoy penando,
y perder este amor lo que me cuesta...
¿Ves? Te quiero olvidar, y estoy llorando;
¡que la razón, que es fuerte, te detesta,
pero te quiere el corazón que es blando!
y aquí en mi corazón fuiste señora;
yo cifré en tu cariño mi ventura,
y has alumbrado mi existencia obscura
con reflejos dulcísimos de aurora.
Tú llenaste mi pecho de consuelo,
y aún por tí el alma a mi pesar suspira;
tuve en tí tanta fe como en el cielo,
y busqué tu cariño con anhelo,
y me juraste amor... ¡y fue mentira!
Mira, ve lo que has hecho:
aquí hubo un corazón dentro del pecho
que latió para tí, para tí sola,
y hoy tu gran ingratitud me inmola,
te lo vengo a pedir, y está deshecho.
Escucha: has sido infiel, me has engañado;
hay huellas en tu faz que te delatan
y que van pregonando tu pecado.
Vé por qué vengo a hablarte con enojos,
y vé por qué mis penas se desatan,
pues comprendí la vida por tus ojos,
y ahora tus ojos son los que me matan.
¡Aparta!... ¡Huye de mí! No quiero verte.
¡Déjame, que no puedo!
Yo debo aborrecerte,
y tus ojos me impulsan a quererte,
y miro al corazón... ¡y tengo miedo!
¡Huye!... Comprende lo que estoy penando,
y perder este amor lo que me cuesta...
¿Ves? Te quiero olvidar, y estoy llorando;
¡que la razón, que es fuerte, te detesta,
pero te quiere el corazón que es blando!
769
Fernando Pessoa
UMA VOZ: Dorme grande inconsolável
Dorme grande inconsolável
Da vida, na escuridão.
Não chores — que nada é estável...
Não sentes a minha mão,
Calma sobre a tua fronte?
Dorme, e que a noite te conte
Ilusões ao coração!
Dorme, dorme, eu vou cantar-te
Melodias d'além-céu,
E a solidão há-de amar-te
Que por enquanto és só meu...
Dorme e apaga o pensamento...
Se pensar é um tormento,
Ninguém como tu sofreu.
Hei-de envolver-te no manto
Que a Dor teceu para ti;
A Vida causa-te espanto
E a Morte não te sorri.
Deixa, deixa que assim seja:
Minha boca, quando beija,
Chama o coração a si.
Da vida, na escuridão.
Não chores — que nada é estável...
Não sentes a minha mão,
Calma sobre a tua fronte?
Dorme, e que a noite te conte
Ilusões ao coração!
Dorme, dorme, eu vou cantar-te
Melodias d'além-céu,
E a solidão há-de amar-te
Que por enquanto és só meu...
Dorme e apaga o pensamento...
Se pensar é um tormento,
Ninguém como tu sofreu.
Hei-de envolver-te no manto
Que a Dor teceu para ti;
A Vida causa-te espanto
E a Morte não te sorri.
Deixa, deixa que assim seja:
Minha boca, quando beija,
Chama o coração a si.
1 378
Manuel Bandeira
Gesso
Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
— O gesso muito branco, as linhas muito puras —
Mal sugeria imagem de vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina...
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.
— O gesso muito branco, as linhas muito puras —
Mal sugeria imagem de vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina...
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.
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