Poemas neste tema

Dor e Desespero

Adélia Prado

Adélia Prado

O Poder da Oração

Em certas manhãs desrezo:
a vida humana é muito miserável.
Um pequeno desencaixe nos ossinhos
faz minha espinha doer.
Sinto necessidade de bradar a Deus.
Ele está escondido, mas responde curto:
‘brim coringa não encolhe’.
E eu entendo comprido
o comovente esforço da humanidade
que faz roupa nova para ir na festa,
o prato esmaltado onde ela ama comer,
um prato fundo verde imenso mar cheio de estórias.
A vida humana é muito miserável.
‘Brim coringa não encolhe’?
Meu coração também não.
Quando em certas manhãs desrezo
é por esquecimento,
só por desatenção.
1 315
Herberto Helder

Herberto Helder

4O

É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
1 086
Helga Moreira

Helga Moreira

Ao rimar dor com pensamento

Ao rimar dor com pensamento
escrevo ternura, afecto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto

um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina

Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige

em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo
1 002
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Amigos, Nunca Mereceu

Amigos, nunca mereceu
homem, com'eu mereci, mal,
em meu cuidar, ca nom em al;
mais ando-me por en sandeu:
       por quanto mi faz cuidador
       d'haver eu bem de mia senhor.

Mais leixade-mi andar assi!
Pero vós hajades poder,
meus amigos, de me valer,
sol nom vos doades de mi:
       por quanto mi faz cuidador
       d'haver eu bem de mia senhor.

Ca sei que per nẽum logar,
amigos, que nom haverei
dela bem, por quanto cuidei;
mais leixade-m'assi andar:
       por quanto mi faz cuidador
       d'haver eu bem de mia senhor.

Ca o sandeu, quanto mais for
d'amor sandeu, tant'é milhor.
810
Herberto Helder

Herberto Helder

78

e a única técnica é o truque repetido de escrever entre o agraz e o lírico,
como com raios de lixa,
sentado sobre o sangue amarrado dos testículos,
abrindo do táctil para o intáctil,
como que às faíscas estilísticas,
um pouco como que ríspido,
como que rútilo,
como que revulsivo,
como que passado de passivo para activo,
como ser a obra de como que isso,
oh maravilha da frase corrigida pelos erros,
estrela a sair por todos os lados da cabeça doendo com um brilho de
pregos,
em nenhum écran do Deus descontínuo,
a frase rítmica e restrita que não pode ser posta em língua,
elíptica,
a frase de que sou filho
925
José Saramago

José Saramago

2

Os habitantes da cidade doente de peste estão reunidos na praça grande que assim ficou conhecida porque todas as outras se atulharam de ruínas

Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu

Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes

Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior

Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera

E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo

Qualquer fuga composta há duzentos e cinquenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig

É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça

Enquanto a música se afasta e voa sobre os campos devastados
968
Adélia Prado

Adélia Prado

Um Silêncio

Ela descalçou os chinelos
e os arrumou juntinhos
antes de pôr a cabeça nos trilhos
em cima do pontilhão,
debaixo do qual passava um veio d’água
que as lavadeiras amavam.
O barulho do baque com o barulho do trem.
Foi só quando a água principiou a tingir
a roupa branca que dona Dica enxaguava
que ela deu o alarme
da coisa horrível caída perto de si.
Eu cheguei mais tarde e assim vi para sempre:
a cabeleira preta,
um rosto delicado,
do pescoço a água nascendo ainda alaranjada,
os olhos belamente fechados.
O cantor das multidões cantava no rádio:
“Aço frio de um punhal foi teu adeus pra mim”.
1 449
D. Dinis

D. Dinis

Vai-S'o Meu Amig'alhur Sem Mi Morar

Vai-s'o meu amig'alhur sem mi morar
e, par Deus, amiga, hei end'eu pesar,
porque s'ora vai, eno meu coraçom,
tamanho que esto nom é de falar:
ca lho defendi, e faço gram razom.

Defendi-lh'eu que se nom fosse daqui,
ca todo meu bem perderia per i,
e ora vai-s[e] e faz-mi gram traiçom;
e des oimais nom sei que seja de mim,
nem vej[o] i, amiga, se morte nom.
729
Herberto Helder

Herberto Helder

Astro Assoprado

Astro assoprado, sombria ligeireza, dom: eu sei.
Nada me toca.
Apenas um dedo de mármore na cabeça.
Trespassa-a, têmpora a têmpora, coroa de uma agonia
na escuridão das camas. Para dançar.
A roupa treme ao choque do sangue,
magnetizada,
viva repentinamente. Ninguém me diz como
se tece o casulo, e a seda
transpira de si mesma. O arpão de mármore traz,
directa do coração,
a ferida. Depois danço, e carne e roupa
são a mesma coisa, a coisa que dança, a chaga
dessa leveza. Prodígio
do talento pontuado à força de branca pedra
demoníaca.

Que me dê essa coroa, que me levante
da sonolência, da obscura inocência
que em mim corre também, entre os lençóis e o tremendo
esplendor das vísceras. Das partes negras,
da queimadura
na boca, os intestinos onde brilha o alimento,
o ânus que me fundamenta
nas trevas, e
dentre a raiz dos membros — arranca
um planeta que dance, limpo, apenas com um anel
saturnino à volta. E o eixo
de mármore implacável.

Que tenha Deus um sonho em carne viva.
Uma noite que trema pelo poder astronómico.
Mas que me poupe assim concêntrico
ao campo, e divagante, a curva
tensa:
o arco, o braço.
E as chispas súbitas, frechas
tão ferozmente pela carne dentro até ao escuro
do próprio astro, deixando um orifício
fulgurante:
um tubo de som,
sopro de ponta a ponta
— aquela baixa música mortal.
Vêm os animais, alvorecendo, os cornos a rasgarem a cabeça
outra espécie de luxo,
de melancolia.
E o corpo é uma harpa de repente.

Animal de Deus, eu.

Uma ferida.
1 132
D. Dinis

D. Dinis

Amiga, Quem Vos [Ama

Amiga, quem vos [ama
e por] vós é coitado
e se por vosso chama,
des que foi namorado
nom viu prazer, sei-o eu;
       por en já morrerá
e por aquesto m'é greu.

Aquel que coita forte
houve des aquel dia
que vos el viu, que morte
lh'é, par Santa Maria,
nunca viu prazer, nem bem;
       por en já morrerá
[e] a mim pesa muit'en.
386
D. Dinis

D. Dinis

Ou É Meliom Garcia Queixoso

Ou é Meliom Garcia queixoso
ou nom faz come home de parage
escontra duas meninhas que trage,
contra que[m] nom cata bem nem fremoso:
ca lhas vej'eu trager, bem des antano
ambas vestidas de mui mao pano,
nunca mais feo vi nem mais lixoso.

Andam ant'el chorando mil vegadas,
por muito mal que ham com el levado;
[e] el, come home desmesurado
contra elas, que andam mui coitadas,
nom cata rem do que catar devia;
e poilas [el] tem sigo noit'e dia,
seu mal é tragê-las mal lazeradas.

E pois el sa fazenda tam mal cata
contra elas, que faz viver tal vida,
que nem del nem d'outrem nom ha[m] guarida,
eu nom lho tenho por bõa barata
de as trager como trag', em concelho,
chorosas e minguadas de conselho,
ca Demo lev'a prol que xi lh'en ata.
656
Herberto Helder

Herberto Helder

3

que um nó de sangue na garganta,
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma onda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta,
um nó apenas duro
1 092
D. Dinis

D. Dinis

Nom Sei Hoj', Amigo, Quem Padecesse

Nom sei hoj', amigo, quem padecesse
coita qual padesco que nom morresse,
senom eu coitada, que nom nacesse,
       porque vos nom vejo com'eu queria;
e quisesse Deus que m'escaecesse
       vós que vi, amig[o], em grave dia.

Nom sei, amigo, molher que passasse
coita qual eu passo que já durasse,
que nom morress[e] ou desasperasse,
       porque vos nom vejo com'eu queria;
e quisesse Deus que me nom nembrasse
       vós que vi, amig[o], em grave dia.

Nom sei, amigo, quem o mal sentisse
que eu senço, que o sol encobrisse,
senom eu coitada, que Deus maldisse,
       porque vos nom vejo com'eu queria;
e quisesse Deus que nunca eu visse
       vós que vi, amig[o], em grave dia.
659
José Saramago

José Saramago

16

Podia ter acontecido a qualquer hora do dia

Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície

Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes

Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço

Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens

Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen

E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios

Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler

Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória

Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse

Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal

Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado

O homem sentou-se no chão dobrado como um feto

E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
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Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Sou Náufrago Solitário

Não vejo,
não ouço,
não sinto.
Sou cálice de absinto
bebido no meu naufrágio...

Horas para sonhar
tempo sem dimensão...

Não vejo,
não ouço,
não sinto.
E com certeza não minto
ao cantar minha evasão!...

Sou náufrago solitário
na ilha da solidão...

778
Herberto Helder

Herberto Helder

Queria Tocar Na Cabeça de Um Leopardo Louco

Queria tocar na cabeça de um leopardo louco, no luxo
mandibular. Sentir os dedos tornarem-se
de granito. Sentir a deslumbrante
ressaca de pêlo
baixo arrebatar-me furiosamente os cinco dedos.
Como cinco balas de granito.
Uma estrela voltaica.
E tragá-la. E de súbito toda aquela púrpura nocturna
entrar por mim dentro, da mão à cara.
Ou uma ferida que me apanhasse de perna a perna.
Entrar em mim
a fábula da demência e da animal
elegância. Sei que o sangue me pontua, e estremeço
de poro em poro
com tanto ouro suado que me envenena.

Sei que toco.
Que há uma combustão nas partes sexuais
da minha morte. E se olho esse espelho exalado
de mim mesmo, vejo
pérolas, a anestesia das pérolas. Mas
o fósforo precipita-se onde
arrefece a carne, e se torna ligeira. E uma dor
instrumental, a minha própria música
descoberta, enreda-me como o som enreda
os tubos de um órgão.
E então nenhuma razão me escurece além do crime,
da metáfora directa
de um leopardo aluado como uma jóia. E ele levanta
a constelação craniana. Aboca avança, límpida
chaga
até ao meu rosto. E neste espelho das coisas de repente
unidas todas, beija-me por mim dentro até
ao coração.
No meio.
Onde se morre do silêncio central
da terra.
997
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Caminho

assassinado nos becos da terra
congelado à morte contra mastros de bandeiras
penhorado por mulheres
educado na escuridão para a escuridão
vomitando em privadas entupidas
em quartos de aluguel tomados por ratos e baratas
não surpreende que raramente cantemos
dia ou tarde ou noite
as guerras inúteis
os anos inúteis
os amores inúteis
e eles nos perguntam,
por que você bebe tanto?
bem, suponho que os dias sejam feitos
para serem desperdiçados
os anos e os amores são feitos
para serem desperdiçados.
não podemos chorar, e ajuda sorrir –
é como deixar brotar
sonhos, ideais
venenos
não nos peça para cantar,
as risadas cantam por nós,
você percebe, era uma piada de mau gosto
Cristo deveria ter rido na cruz
isto teria petrificado seus assassinos
agora há mais assassinos do que nunca
e eu escrevo poemas para eles.
1 148
D. Dinis

D. Dinis

Deus! Com'ora Perdeu Joam Simiom

Deus! Com'ora perdeu Joam Simiom
três bestas - nom vi de maior cajom,
nem perdudas nunca tam sem razom:
ca, teendo-as sãas e vivas
e bem sangradas com [boa] sazom,
morrerom-lhi toda[s] com olivas.

Des aquel[e] dia em que naci
nunca bestas assi perdudas vi,
ca as fez ant'el sangrar ante si;
e ante que saíssem daquel mês,
per com'eu a Joam Simiom oí,
com olivas morrerom todas três.

Ben'as cuidara de morte guardar
todas três, quando as fez[o] sangrar;
mais havia-lhas o Dem'a levar,
pois se par [a]tal cajom perderom;
e Joam Simiom quer-s'ora matar
porque lhi com olivas morrerom.
658
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Amor

amor, ele disse, gás
me beije todo
beije meus lábios
beije meus cabelos
meus dedos
meus olhos meu cérebro
faça-me esquecer
amor, ele disse, gás
ele tinha um quarto no terceiro andar,
rejeitado por uma dúzia de mulheres
35 editores
e por meia dúzia de agências de serviços,
agora eu não estou dizendo que ele valesse alguma
coisa
ele abriu todas as bocas
sem acendê-las
e foi para a cama
algumas horas depois um cara a caminho
do quarto 309
acendeu um charuto no
corredor
e um sofá voou pela janela
uma parede chacoalhou feito areia molhada
uma chama púrpura bailou doze metros no ar
o cara na cama
não se importou ou deu bola pra isso
mas eu precisava dizer
que ele esteve muito bem
naquele dia
1 218
Herberto Helder

Herberto Helder

Um Espelho

Um espelho, uma trama de diamante onde a cabeça
friamente brilhasse.
— O fulgor molecular de uma imagem.
Arde alto como as torres de calcário.
Como arde um animal, a sua coroa, a rosa
entranhada na carne.
A rosa.
Esse terrífico volume, esse
cometa fundo
à cara. Que luzisse como um braço no espectáculo
do corpo. O corpo minado pelo
sistema do sono. E nesta luz, a fronte com o corno
soldada ao rosto. Os tremendos domínios do sangue, massa
fechada com uma áscua no centro.
A cabeça que emerge de um esplendor
tumultuoso, um
estrangulamento. E em baixo o coração bombeia
a água
estancada no escuro. O pavor do mundo.
“La beauté sbuvre les veines
et en meurt.” Uma estrela enorme, um sorvo.
O inferno é branco, tem um espelho dentro.
1 225
Herberto Helder

Herberto Helder

Lenha

Lenha — e a extracção de pequenos astros,
áscuas. De poro a poro,
os electrões das corolas. Somente no mais escuro
não há nada. No escuro, a carne é um buraco
invisual, e o que arde é o pão
no estômago, e nos brônquios
cortadamente
o ar. E o carbono devora sono a sono a inocência
das imagens. O que toca o órgão mais profundo
do sopro não é música
nem chama: apenas um dedo de mármore entre
as têmporas como
uma bala. E enquanto pontas de fogo marcam
aboca, morremos afogados,
no espelho, no rosto. E se a loucura um instante
levanta as pálpebras.
A grande válvula do corpo.
A escuridão, aterra.


Abril, 1980.
1 096
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

Ora, Senhor, Tenho Muit'aguisado

Ora, senhor, tenho muit'aguisado
de sofrer coita grand'e gram desejo,
pois d'u vós fordes eu for alongado
e vos nom vir, como vos ora vejo;
e, mia senhor, éste gram mal sobejo
meu e meu gram quebranto:
seer eu de vós, por vos servir quanto
posso, mui desamado.

Desej'e coita e [mui] gram soidade
convém, senhor, de sofrer todavia,
pois, d'u vós fordes i, a gram beldade
voss'eu nom vir, que vi em grave dia;
e, mia senhor, em gram bem vos terria
de me darde'la morte
ca de viver eu em coita tam forte
e em tal estraĩdade.

Nom fez Deus par a desejo tam grande,
nem a qual coita sof'rei , des u me
partir de vós; ca, per u quer que ande,
nom quedarei ar, meu bem e meu lume,
de chorar sempre e com mui gram queixume
maldirei mia ventura:
ca de viver eu em tam gram tristura
Deus, senhor, non'o mande!

E queira El, senhor, que a mia vida,
pois per vós é, cedo sej'acabada,
ca pela morte me será partida
gram soidad[e] e vida mui coitada;
de razom é d'haver eu desejada
a morte, pois entendo
de chorar sempre e andar sofrendo
coita desmesurada.
741
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mineração do Outro

Os cabelos ocultam a verdade.
Como saber, como gerir um corpo
alheio?
Os dias consumidos em sua lavra
significam o mesmo que estar morto.

Não o decifras, não, ao peito oferto,
monstruário de fomes enredadas,
ávidas de agressão, dormindo em concha.
Um toque, e eis que a blandícia erra em tormento,
e cada abraço tece além do braço
a teia de problemas que existir
na pele do existente vai gravando.

Viver-não, viver-sem, como viver
sem conviver, na praça de convites?
Onde avanço, me dou, e o que é sugado
ao mim de mim, em ecos se desmembra;
nem resta mais que indício,
pelos ares lavados,
do que era amor e, dor agora, é vício.

O corpo em si, mistério: o nu, cortina
de outro corpo, jamais apreendido,
assim como a palavra esconde outra
voz, prima e vera, ausente de sentido.
Amor é compromisso
com algo mais terrível do que amor?
— pergunta o amante curvo à noite cega,
e nada lhe responde, ante a magia:
arder a salamandra em chama fria.
1 934
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Visão Vertical

A pressão contínua, a falta de ar, o moinho dilacerante. As sombras soçobram, um exército de mãos incendeia-se a um canto, as novas configurações saem do solo, em grandes torvelinhos de pó, em rendas, sinais vivos duma fome de olhos e dedos. Lucidez penetrante, incandescência duma só cor de terra, embriaguez sólida.
1 213