Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Super-Homem
Onde está ele o super-homem? Onde?
— Encontrei-o na rua ia sozinho
Não via a dor nem a pedra nem o vento
Sua loucura e sua irrealidade
Lhe serviam de espelho e de alimento
— Encontrei-o na rua ia sozinho
Não via a dor nem a pedra nem o vento
Sua loucura e sua irrealidade
Lhe serviam de espelho e de alimento
1 491
1
Viriato Gaspar
Voluntários da Pátria
perdemos a tarde
o ônibus
a paciência
e a vida
perdemos a cor
a calma
a voz
o voto
a vergonha
e agora
voltamos pela rua lentamente
livres do peso da nossa dignidade
— sobrevivemos a mais um dia —
o ônibus
a paciência
e a vida
perdemos a cor
a calma
a voz
o voto
a vergonha
e agora
voltamos pela rua lentamente
livres do peso da nossa dignidade
— sobrevivemos a mais um dia —
1 073
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Três Parcas
As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.
Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.
E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério
Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.
Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.
E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério
Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.
2 902
1
Wisława Szymborska
Na torre de Babel
— Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.
1 500
1
Eudoro Augusto
Luna de Lupe
Quero mais não.
Estou meio over de emoção.
Estou sem aquilo que chamam estrutura
pra amortecer esta aflição,
esta fissura.
Meu corpo é um barco sonolento
e falta vento
pra me levar a outra ilha.
Outra razão, outro delírio,
outro luar de vampiro
à procura de um irmão.
Pode parar: a noite é escura.
Não quero o copo de água pura
que você bebe em minha turva solidão.
Quero mais não.
Hoje me sobra emoção.
Sobra verdade, falta força, sobra sangue.
Hoje eu vou dormir no mangue
que outros chamam coração.
Pode parar.
Virou bocejo, era tesão.
Você jamais deu boa vida ao meu desejo,
foi pouco sim pra muito não.
E agora chega.
Deixa rolar mas nunca esqueça
de virar minha cabeça:
eu amo sempre o lado errado da paixão.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
Estou meio over de emoção.
Estou sem aquilo que chamam estrutura
pra amortecer esta aflição,
esta fissura.
Meu corpo é um barco sonolento
e falta vento
pra me levar a outra ilha.
Outra razão, outro delírio,
outro luar de vampiro
à procura de um irmão.
Pode parar: a noite é escura.
Não quero o copo de água pura
que você bebe em minha turva solidão.
Quero mais não.
Hoje me sobra emoção.
Sobra verdade, falta força, sobra sangue.
Hoje eu vou dormir no mangue
que outros chamam coração.
Pode parar.
Virou bocejo, era tesão.
Você jamais deu boa vida ao meu desejo,
foi pouco sim pra muito não.
E agora chega.
Deixa rolar mas nunca esqueça
de virar minha cabeça:
eu amo sempre o lado errado da paixão.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
1 205
1
Frederico Valério
Confesso
Confesso que te amei, confesso
Não coro de o dizer, não coro
Pareço outra mulher, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro
Fugir do amor tem seu preço
E a noite em claro atravesso
Longe do meu travesseiro
Começo a ver que não esqueço
Mas lá perdão não te peço
Sem que me peças primeiro
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida
Não penses mais em mim, não penses
Não estou nem pra te ouvir por carta
Convences as mulheres, convences
Estou farta de o saber, estou farta
Não escrevas mais nem me incenses
Quero que tu me diferences
Dessas que a vida te deu
A mim já não me pertences
Mas lá vencer-me não vences
Porque vencida estou eu
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida.
Não coro de o dizer, não coro
Pareço outra mulher, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro
Fugir do amor tem seu preço
E a noite em claro atravesso
Longe do meu travesseiro
Começo a ver que não esqueço
Mas lá perdão não te peço
Sem que me peças primeiro
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida
Não penses mais em mim, não penses
Não estou nem pra te ouvir por carta
Convences as mulheres, convences
Estou farta de o saber, estou farta
Não escrevas mais nem me incenses
Quero que tu me diferences
Dessas que a vida te deu
A mim já não me pertences
Mas lá vencer-me não vences
Porque vencida estou eu
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida.
1 003
1
Pedro de Alcântara
Soneto
Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que seja e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade
Quando a dois passos só estou da morte!
Do pego das paixões minha alma forte
Conhece a fundo a triste realidade,
Pois se agora nos dá felicidade
Amanhã tira o bem, que nos conforte.
Mas a dor que excrucia, a que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora
Que fere o coração e quase o mata,
É ver da mão fugir à extrema hora
A mesma boca lisonjeira e ingrata
Que tantos beijos nela pôs outrora!
Por mais atroz que seja e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade
Quando a dois passos só estou da morte!
Do pego das paixões minha alma forte
Conhece a fundo a triste realidade,
Pois se agora nos dá felicidade
Amanhã tira o bem, que nos conforte.
Mas a dor que excrucia, a que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora
Que fere o coração e quase o mata,
É ver da mão fugir à extrema hora
A mesma boca lisonjeira e ingrata
Que tantos beijos nela pôs outrora!
1 257
1
Renata Pallottini
Através da Vida
Através da vida o homem
vai sendo ludibriado.
Deitando-se em qualquer porta
o homem percebe que ficou de lado.
E depois constatando
que a mulher não lhe foi dada
para amá-lo, como está dito.
Foi-lhe dada para nada.
A mulher ao longo da vida
percebe que foi sendo usada
e que agora está no fim.
E que nunca recebeu um sim.
Os filhos que ali estão
estão ali porque estão.
Não tinham sido queridos.
Tinham só acontecido.
E os filhos que ali estão,
não sabem de coisa alguma.
Vão à escola se vão à escola.
Se não vão, inventam uma.
Depois que morre a gente descansa
e a terra é quente, mesmo na morte.
Depois da morte eu descansarei
e não terei medo da morte.
E não olharei para o alto, temendo
o alto peso da terra.
Mas estarei dormindo e dormindo.
De forma eterna e só então eterna.
Publicado no livro Os Arcos da Memória (1971).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.17
vai sendo ludibriado.
Deitando-se em qualquer porta
o homem percebe que ficou de lado.
E depois constatando
que a mulher não lhe foi dada
para amá-lo, como está dito.
Foi-lhe dada para nada.
A mulher ao longo da vida
percebe que foi sendo usada
e que agora está no fim.
E que nunca recebeu um sim.
Os filhos que ali estão
estão ali porque estão.
Não tinham sido queridos.
Tinham só acontecido.
E os filhos que ali estão,
não sabem de coisa alguma.
Vão à escola se vão à escola.
Se não vão, inventam uma.
Depois que morre a gente descansa
e a terra é quente, mesmo na morte.
Depois da morte eu descansarei
e não terei medo da morte.
E não olharei para o alto, temendo
o alto peso da terra.
Mas estarei dormindo e dormindo.
De forma eterna e só então eterna.
Publicado no livro Os Arcos da Memória (1971).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.17
1 423
1
Pedro Kilkerry
Cérbero
É, não vens mais aqui... Pois eu te espero,
Gele-me o frio inverno, o sol adusto
Dê-me a feição de um tronco, a rir, vetusto
- Meu amor a ulular... E é o teu Cérbero!
É, não vens mais aqui... E eu mais te quero,
Vago o vergel, todo o pomar venusto
E a cada fruto de ouro estendo o busto,
Estendo os braços, e o teu seio espero.
Mas como pesa esta lembrança... a volta
Da aléia em flor que em vão, toda transponho,
E onde te foste, e a cabeleira solta!
Vais corações rompendo em toda a parte!
Virás, um dia... E à porta do meu Sonho
Já Cérbero morreu, para agarrar-te.
Gele-me o frio inverno, o sol adusto
Dê-me a feição de um tronco, a rir, vetusto
- Meu amor a ulular... E é o teu Cérbero!
É, não vens mais aqui... E eu mais te quero,
Vago o vergel, todo o pomar venusto
E a cada fruto de ouro estendo o busto,
Estendo os braços, e o teu seio espero.
Mas como pesa esta lembrança... a volta
Da aléia em flor que em vão, toda transponho,
E onde te foste, e a cabeleira solta!
Vais corações rompendo em toda a parte!
Virás, um dia... E à porta do meu Sonho
Já Cérbero morreu, para agarrar-te.
2 490
1
Mariazinha Congílio
Autorização
Se for
preciso
Pode mentir para mim.
Não se preocupe.
Console-se sabendo
Que por toda a minha vida
Tenho afirmado
Inverdades
Ou -pior ainda-
Tenho silenciado
Covardemente.
É justo que seja castigada.
Pode mentir para mim.
Mas
se algum dia você sentir
que já não me quer
conscientemente
plenamente
se perceber que o amor
está partindo
de mansinho
sorrateiramente
como fumaça
Se isso acontecer
Diga a verdade.
Você não deve mentir para mim.
preciso
Pode mentir para mim.
Não se preocupe.
Console-se sabendo
Que por toda a minha vida
Tenho afirmado
Inverdades
Ou -pior ainda-
Tenho silenciado
Covardemente.
É justo que seja castigada.
Pode mentir para mim.
Mas
se algum dia você sentir
que já não me quer
conscientemente
plenamente
se perceber que o amor
está partindo
de mansinho
sorrateiramente
como fumaça
Se isso acontecer
Diga a verdade.
Você não deve mentir para mim.
898
1
Raimundo Bento Sotero
O Sem-Terra do amor
Quase posseiro do teu coração,
Assim como um Sem-Terra resoluto,
Que se arrancha num sítio devoluto
E, depois, requer junto à União,
Pelo processo de Usucapião,
O direito de posse e usufruto;
Também o requeri e ainda luto
Nos tribunais do Amor em petição!
Entretanto, não fui bem sucedido,
Pois o meu rogo foi indeferido
Sob falsa alegação de invasor.
Mesmo expulso das terras do teu peito,
Prossigo em luta pelo meu direito
De entrar na posse do teu vago amor.
Assim como um Sem-Terra resoluto,
Que se arrancha num sítio devoluto
E, depois, requer junto à União,
Pelo processo de Usucapião,
O direito de posse e usufruto;
Também o requeri e ainda luto
Nos tribunais do Amor em petição!
Entretanto, não fui bem sucedido,
Pois o meu rogo foi indeferido
Sob falsa alegação de invasor.
Mesmo expulso das terras do teu peito,
Prossigo em luta pelo meu direito
De entrar na posse do teu vago amor.
970
1
Geraldo Bessa-Victor
Não venhas mais ao cais, menina negra
Não venhas mais ao cais, menina negra.
Que esperas tu ainda?
Já sabes a tua sina:
o branco que partiu não volta mais!
E tu, olhando o cais,
menina negra linda,
vês o teu lindo sonho que já finda...
Cantaram o feitiço do teu corpo,
nessa noite sensual em que tiveste
por lençol nupcial uma folha de palma;
cantaram o feitiço do teu corpo,
mas não sabias nem soubeste
que o branco tem feitiço na alma.
Habituada ao balouço da canoa
nas margens do rio Dande,
e depois embalada pelo amor,
sonhaste viajar num enorme vapor
que navega no mar grande
e vai para Lisboa!
Ouve, menina negra: mato não é cidade,
oceano não é rio, dongo não é navio
e o sonho que sonhaste não é sonho, é saudade...
Não venhas mais ao cais,
que o branco não volta mais!
Que esperas tu ainda?
Já sabes a tua sina:
o branco que partiu não volta mais!
E tu, olhando o cais,
menina negra linda,
vês o teu lindo sonho que já finda...
Cantaram o feitiço do teu corpo,
nessa noite sensual em que tiveste
por lençol nupcial uma folha de palma;
cantaram o feitiço do teu corpo,
mas não sabias nem soubeste
que o branco tem feitiço na alma.
Habituada ao balouço da canoa
nas margens do rio Dande,
e depois embalada pelo amor,
sonhaste viajar num enorme vapor
que navega no mar grande
e vai para Lisboa!
Ouve, menina negra: mato não é cidade,
oceano não é rio, dongo não é navio
e o sonho que sonhaste não é sonho, é saudade...
Não venhas mais ao cais,
que o branco não volta mais!
1 325
1
Afrânio Peixoto
Herança
Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
1 498
1
Florbela Espanca
Para quê?!
Tudo é vaidade neste mundo vão...
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...
Beijos d’amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!
Só acredita neles quem é louca!
Beijos d’amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...
Beijos d’amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!
Só acredita neles quem é louca!
Beijos d’amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...
3 188
1
Florbela Espanca
Vão Orgulho
Neste mundo vaidoso o amor é nada,
É um orgulho a mais, outra vaidade,
A coroa de loiros desfolhada
Com que se espera a Imortalidade.
Ser Beatriz! Natércia! Irrealidade...
Mentira... Engano de alma desvairada...
Onde está desses braços a verdade,
Essa fogueira em cinzas apagada?...
Mentira! Não te quis... não me quiseste...
Eflúvios subtis dum bem celeste?
Gestos... palavras sem nenhum condão...
Mentira! Não fui tua... não! Somente...
Quis ser mais do que sou, mais do que gente,
No alto orgulho de o ter sido em vão!...
É um orgulho a mais, outra vaidade,
A coroa de loiros desfolhada
Com que se espera a Imortalidade.
Ser Beatriz! Natércia! Irrealidade...
Mentira... Engano de alma desvairada...
Onde está desses braços a verdade,
Essa fogueira em cinzas apagada?...
Mentira! Não te quis... não me quiseste...
Eflúvios subtis dum bem celeste?
Gestos... palavras sem nenhum condão...
Mentira! Não fui tua... não! Somente...
Quis ser mais do que sou, mais do que gente,
No alto orgulho de o ter sido em vão!...
1 872
1
Venceslau Queiroz
Gelo Polar
Role do tempo na limosa penha
Um ano mais, e venha mais um ano,
Role este ainda, e mais um outro venha...
Que importa! se no seio teu não medra
Desengano nenhum, nenhum engano,
Pois que ele abriga um coração de pedra.
A indiferença é tanta, é tanta a neve
Que no teu seio álgido se acama,
Do teu amor é tão gelada a chama,
Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve...
E se eu te desse o meu amor, em breve
Sei que se tornaria, altiva dama,
O meu amor, a minha ardente chama,
— Um urso branco uivando sobre a neve.
Um ano mais, e venha mais um ano,
Role este ainda, e mais um outro venha...
Que importa! se no seio teu não medra
Desengano nenhum, nenhum engano,
Pois que ele abriga um coração de pedra.
A indiferença é tanta, é tanta a neve
Que no teu seio álgido se acama,
Do teu amor é tão gelada a chama,
Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve...
E se eu te desse o meu amor, em breve
Sei que se tornaria, altiva dama,
O meu amor, a minha ardente chama,
— Um urso branco uivando sobre a neve.
927
1
Golgona Anghel
Quando sair daqui
Quando sair daqui,
arranco-te com os meus próprios dentes
as unhas dos pés, essas manias
e as chaves do carro,
sua ordinária, pensei, sua mentirosa, pensei,
sua puta, pensei,
mas pensei baixinho e com pouco entusiasmo:
era difícil sujar a minha mulher
sem rebaixar-me ainda mais.
Tens sorte, pensei.
Podia imaginar o teu futuro liso e bem esticado
como a pele de um leopardo
à entrada de uma loja de antiguidades.
Admito até provar o teu amargo sangue,
para lembrar-me que antes fui um escravo,
mas não consigo fazer de ti,
assim obesa e malcheirosa como andas,
o móbil de um crime passional.
arranco-te com os meus próprios dentes
as unhas dos pés, essas manias
e as chaves do carro,
sua ordinária, pensei, sua mentirosa, pensei,
sua puta, pensei,
mas pensei baixinho e com pouco entusiasmo:
era difícil sujar a minha mulher
sem rebaixar-me ainda mais.
Tens sorte, pensei.
Podia imaginar o teu futuro liso e bem esticado
como a pele de um leopardo
à entrada de uma loja de antiguidades.
Admito até provar o teu amargo sangue,
para lembrar-me que antes fui um escravo,
mas não consigo fazer de ti,
assim obesa e malcheirosa como andas,
o móbil de um crime passional.
1 248
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Jardim E a Noite
Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.
Entre os canteiros cercados de buxo
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos foram gestos de bruxedo.
Foram os gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra dos canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.
Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente
Calaram-se os meus sonhos perdidos.
Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.
Docemente a sonhar entre a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e inatingível
Sem me deixar penetrar no seu segredo.
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.
Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.
Só o vento passou pesado e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.
Entre os canteiros cercados de buxo
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos foram gestos de bruxedo.
Foram os gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra dos canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.
Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente
Calaram-se os meus sonhos perdidos.
Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.
Docemente a sonhar entre a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e inatingível
Sem me deixar penetrar no seu segredo.
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.
Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.
Só o vento passou pesado e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.
4 635
1
Flora Figueiredo
Enlevo
Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce
e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce
e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.
2 116
1
Dorothy Parker
Ser mulher
Por que será que quando estou em Roma
daria tudo para estar em casa na redoma
mas se estou na minha terra americana
minha alma deseja a cidade italiana?
E quando com você, meu amor, meu remédio,
fico espetacularmente cheia de tédio
Mas se você se levantar e me deixar
Grito para você voltar?
daria tudo para estar em casa na redoma
mas se estou na minha terra americana
minha alma deseja a cidade italiana?
E quando com você, meu amor, meu remédio,
fico espetacularmente cheia de tédio
Mas se você se levantar e me deixar
Grito para você voltar?
1 624
1
Juan Gelman
gotán
Essa mulher se parecia à palavra nunca,
de sua nuca subia um encanto particular
uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,
essa mulher se instalava em meu lado esquerdo.
Atenção atenção eu gritava atenção
mas ela invadia como o amor, como a noite,
os últimos sinais que fiz para o outono
deitaram-se tranquilos debaixo da maré de suas mãos.
Dentro de mim explodiram ruídos secos,
caíam aos pedaços a fúria, a tristeza,
a senhora chovia docemente
sobre meus ossos parados na solidão.
Quando partiu eu tiritava feito um condenado,
com um punhal brusco me matei,
vou passar a morte inteira estendido com seu nome,
ele moverá minha boca pela última vez.
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Paulo Leminski
Amor, então,
Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
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Madi
Oásis
Oásis
Faço do meu amor um oásis
E ele faz dele um deserto
Ao seu lado, vivo como os beduínos
-- morta de sede
Faço do meu amor um oásis
E ele faz dele um deserto
Ao seu lado, vivo como os beduínos
-- morta de sede
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Auta de Souza
Nunca Mais
...Il n'est plus dans mon coeur
Une fibre que n'ait résonné sa Douleur.
LAMARTINE - Harmonies
Que é feito de meu sonho, um sonho puro
Feito de rosa e feito de alabastro,
Quimera que brilhava, como um astro,
Pela noite sem fim do meu futuro?
Que é feito deste sonho, o cofre aberto
Que recebia as gotas de meu pranto,
Bagas de orvalho, folhas de amaranto,
Perdidas na solidão de meu deserto?
Ele passou como uma nuvem passa,
Roçando o azul em flor do firmamento...
Ele partiu, e apenas o tormento,
Sobre minh'alma triste, inda esvoaça.
Meu casto sonho! Lá se foi cantando,
Talvez em busca de uma pátria nova.
Deixou-me o coração como uma cova,
E, dentro dele, o meu amor chorando.
Nunca mais voltará... Pois, que lhe importa
Esta morada lúgubre e sombria?
Não pode agasalhar uma alegria
Minh'alma, pobre morta!
In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
Une fibre que n'ait résonné sa Douleur.
LAMARTINE - Harmonies
Que é feito de meu sonho, um sonho puro
Feito de rosa e feito de alabastro,
Quimera que brilhava, como um astro,
Pela noite sem fim do meu futuro?
Que é feito deste sonho, o cofre aberto
Que recebia as gotas de meu pranto,
Bagas de orvalho, folhas de amaranto,
Perdidas na solidão de meu deserto?
Ele passou como uma nuvem passa,
Roçando o azul em flor do firmamento...
Ele partiu, e apenas o tormento,
Sobre minh'alma triste, inda esvoaça.
Meu casto sonho! Lá se foi cantando,
Talvez em busca de uma pátria nova.
Deixou-me o coração como uma cova,
E, dentro dele, o meu amor chorando.
Nunca mais voltará... Pois, que lhe importa
Esta morada lúgubre e sombria?
Não pode agasalhar uma alegria
Minh'alma, pobre morta!
In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
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