Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Mauro Mota
A divina mentira
Eu dizia:
“Quando ela partir eu hei de chorar tanto…
Serei a imagem da melancolia
toda cheia de pranto…”
No entanto,
uma lágrima, sequer, dos meus olhos caiu…
Eu não senti saudade — a mais leve emoção! —
— Quando ela partiu
levou meu coração!…
“Quando ela partir eu hei de chorar tanto…
Serei a imagem da melancolia
toda cheia de pranto…”
No entanto,
uma lágrima, sequer, dos meus olhos caiu…
Eu não senti saudade — a mais leve emoção! —
— Quando ela partiu
levou meu coração!…
708
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
Vôo
Voei em mim, voei. Meu vôo se perdeu
Num fatigante abraço. Um beijo que me deste
Me conduziu a um mundo, a um mundo de além-Eu.
Onde voei sem ti, onde tu me perdeste.
Há quantos anos já!... Há quantos anos foi!...
Lembro-me que lutei coum vento de agonia
Uma ilusão perdida, um fenecer do dia,
E lembro-me que fui da minha vida herói.
Ó mãe do meu amor sempre pra mim perdida!
Eu sinto-me cansado, eu vivo numa vida
Onde não canta a Alma, onde não sei viver!
Quando passaste em mim, um beijo me deixaste
Na sombra do meu peito, em Dor o emolduraste...
Ó ilusão de mim! Ó névoa do meu Ser!
Num fatigante abraço. Um beijo que me deste
Me conduziu a um mundo, a um mundo de além-Eu.
Onde voei sem ti, onde tu me perdeste.
Há quantos anos já!... Há quantos anos foi!...
Lembro-me que lutei coum vento de agonia
Uma ilusão perdida, um fenecer do dia,
E lembro-me que fui da minha vida herói.
Ó mãe do meu amor sempre pra mim perdida!
Eu sinto-me cansado, eu vivo numa vida
Onde não canta a Alma, onde não sei viver!
Quando passaste em mim, um beijo me deixaste
Na sombra do meu peito, em Dor o emolduraste...
Ó ilusão de mim! Ó névoa do meu Ser!
716
Afonso Lopes de Baião
Fui eu, fremosa
Fui eu, fremosa, fazer oraçom,
nom por mia alma, mas que viss'eu aí
o meu amigo, e, poilo nom vi,
vedes, amigas, se Deus mi perdom,
gram dereit'é de lazerar por en, (é muito justo que sofra por isso)
pois el nom vẽo, nem haver meu bem.
porque fui eu chorar dos olhos meus,
mias amigas, e candeas queimar,
nom por mia alma, mais polo achar,
e, pois nom vẽo nen'o trouxe Deus,
gram dereit'é de lazerar por en,
pois el nom vẽo, nem haver meu bem.
Fui eu rogar muit'a Nostro Senhor,
nom por mia alma, e candeas queimei,
mais por veer o que eu muit'amei
sempr', e nom vẽo, o meu traedor:
gram dereit'é de lazerar por en,
pois el nom vẽo, nem haver meu bem.
nom por mia alma, mas que viss'eu aí
o meu amigo, e, poilo nom vi,
vedes, amigas, se Deus mi perdom,
gram dereit'é de lazerar por en, (é muito justo que sofra por isso)
pois el nom vẽo, nem haver meu bem.
porque fui eu chorar dos olhos meus,
mias amigas, e candeas queimar,
nom por mia alma, mais polo achar,
e, pois nom vẽo nen'o trouxe Deus,
gram dereit'é de lazerar por en,
pois el nom vẽo, nem haver meu bem.
Fui eu rogar muit'a Nostro Senhor,
nom por mia alma, e candeas queimei,
mais por veer o que eu muit'amei
sempr', e nom vẽo, o meu traedor:
gram dereit'é de lazerar por en,
pois el nom vẽo, nem haver meu bem.
682
Mário Cláudio
Feles
Por todo um Inverno,
O amor lhe dilacerou o ventre,
Com fundas garras de gelo.
E a Primavera zumbiu,
Sobre sua cabeça,
Numa vertigem de pólen.
Senta-se agora,
Junto à lareira do Outono,
E é um bule de porcelana.
O amor lhe dilacerou o ventre,
Com fundas garras de gelo.
E a Primavera zumbiu,
Sobre sua cabeça,
Numa vertigem de pólen.
Senta-se agora,
Junto à lareira do Outono,
E é um bule de porcelana.
1 233
Paio Soares de Taveirós
Cantiga de amor
Como morreu quem nunca amar
se faz pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem foi amar
quem nunca bem lhe quis fazer,
e de quem Deus lhe fez saber
que a morte havia de alcançar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Igual ao homem que endoideceu
com a grande mágoa que sentiu,
senhora, e nunca mais dormiu,
perdeu a paz, depois morreu,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem amou tal
mulher que nunca lhe quis bem
e a viu levada por alguém
que a não valia nem a vale,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Português antigo
Como morreu quen nunca ben
houve da ren que máis amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por én:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Com'home que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valía, nen a val:
ai mia senhor, assí moir'eu!
se faz pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem foi amar
quem nunca bem lhe quis fazer,
e de quem Deus lhe fez saber
que a morte havia de alcançar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Igual ao homem que endoideceu
com a grande mágoa que sentiu,
senhora, e nunca mais dormiu,
perdeu a paz, depois morreu,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem amou tal
mulher que nunca lhe quis bem
e a viu levada por alguém
que a não valia nem a vale,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Português antigo
Como morreu quen nunca ben
houve da ren que máis amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por én:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Com'home que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valía, nen a val:
ai mia senhor, assí moir'eu!
3 546
Fernando Pessoa
Não tenho que sonhar que possam dar-me
Não tenho que sonhar que possam dar-me
Um dia, vero ou falso, as rosas vãs
Entre que em sonhos mortos fui achar-me
No alvorecer de incógnitas manhãs.
Não tenho que sonhar o que renego
Antes do sonho e o recusar a ter,
Sou no que sou como na vida é um cego
A quem causou horror o poder ver.
Isto, ou quase isto... Só do sonho morto
Me fica uma imprecisa hesitação –
como se a nau (...)
22/11/1934
Um dia, vero ou falso, as rosas vãs
Entre que em sonhos mortos fui achar-me
No alvorecer de incógnitas manhãs.
Não tenho que sonhar o que renego
Antes do sonho e o recusar a ter,
Sou no que sou como na vida é um cego
A quem causou horror o poder ver.
Isto, ou quase isto... Só do sonho morto
Me fica uma imprecisa hesitação –
como se a nau (...)
22/11/1934
4 189
Fernando Pessoa
Era isso mesmo
Era isso mesmo –
O que tu dizias,
E já nem falo
Do que tu fazias...
Era isso mesmo...
Eras outra já,
Eras má deveras,
A quem chamei má...
Eu não era o mesmo
Para ti, bem sei.
Eu não mudaria,
Não – nem mudarei...
Julgas que outro é outro.
Não: somos iguais.
06/10/1934
O que tu dizias,
E já nem falo
Do que tu fazias...
Era isso mesmo...
Eras outra já,
Eras má deveras,
A quem chamei má...
Eu não era o mesmo
Para ti, bem sei.
Eu não mudaria,
Não – nem mudarei...
Julgas que outro é outro.
Não: somos iguais.
06/10/1934
4 878
Aldir Blanc
Lamas
Da série "Árias para folha de fícus" - II
Ter coragem de olhar
pela última vez
e mentir calmamente:
quem sabe?... Talvez...
como se a última vez
ficasse pra outra vez
Ter coragem de olhar
pela última vez
e mentir calmamente:
quem sabe?... Talvez...
como se a última vez
ficasse pra outra vez
1 380
Aldir Blanc
Desencontro Marcado
Da série "Árias para folha de fícus" - I
É, não vem,
não vou.
Deixa pra lá,
depois se vê.
Você queima
e eu não ponho
a mão no fogo por você.
É, não vem,
não vou.
Deixa pra lá,
depois se vê.
Você queima
e eu não ponho
a mão no fogo por você.
1 569
Joaquim Azinhal Abelho
Comoção Rural
Já não há quem queira dar
uma filha a um ganhão…
Senhor Pai, senhora mãe,
que grande desolação.
Já bati a sete portas
por mais de mil e uma vez;
Vá-se embora seu ganhão,
disseram com altivez…
A minha filha é prendada,
não é para qualquer tunante,
sabe ler, sabe escrever
e todo o seu consoante.
O que é que tem um ganhão?
Um azinho dum pau torto;
só vive das tristes ervas,
não tem onde cair morto.
Os olhos já não são olhos,
estão estão desfeitos em chorar,
porque a um pobre ganhão
já não há quem queira dar
nem mulher para dormir
nem a filha para mulher;
nem quem o ajude a vestir,
nem quem o ajude a morrer.
Ramos secos, estéreis flores,
pedras de arestas cortantes
perdidas num vendaval,
perdidas numa aflição…
Eu já não posso gritar;
Senhor Pai, senhora Mãe,
que grande desolação
nestes matagais com longes,
aonde os anjos se afundam
em humus e punição!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
uma filha a um ganhão…
Senhor Pai, senhora mãe,
que grande desolação.
Já bati a sete portas
por mais de mil e uma vez;
Vá-se embora seu ganhão,
disseram com altivez…
A minha filha é prendada,
não é para qualquer tunante,
sabe ler, sabe escrever
e todo o seu consoante.
O que é que tem um ganhão?
Um azinho dum pau torto;
só vive das tristes ervas,
não tem onde cair morto.
Os olhos já não são olhos,
estão estão desfeitos em chorar,
porque a um pobre ganhão
já não há quem queira dar
nem mulher para dormir
nem a filha para mulher;
nem quem o ajude a vestir,
nem quem o ajude a morrer.
Ramos secos, estéreis flores,
pedras de arestas cortantes
perdidas num vendaval,
perdidas numa aflição…
Eu já não posso gritar;
Senhor Pai, senhora Mãe,
que grande desolação
nestes matagais com longes,
aonde os anjos se afundam
em humus e punição!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
435
Abdias Sá
Os Sonhos
De repente acordo e vejo bem perto
De mim, colado quase ao meu, desnudo,
Também, cansado, inerte no veludo,
O corpo dela, sem censura, aberto
O coração, de sentimento incerto,
Às vezes, mesmo, indiferente a tudo.
De tanto vê-la assim me desiludo
E me entristeço sempre que desperto.
Sem esperança de acordar com ela,
Eu fico preso ao meu amor constante
E paro, e penso e sinto, num instante,
Quando ela dorme, assim, imóvel, bela:
...Eu dos seus sonhos estou tão distante,
Que nem parece que estou junto dela.
João Pessoa, 1981
De mim, colado quase ao meu, desnudo,
Também, cansado, inerte no veludo,
O corpo dela, sem censura, aberto
O coração, de sentimento incerto,
Às vezes, mesmo, indiferente a tudo.
De tanto vê-la assim me desiludo
E me entristeço sempre que desperto.
Sem esperança de acordar com ela,
Eu fico preso ao meu amor constante
E paro, e penso e sinto, num instante,
Quando ela dorme, assim, imóvel, bela:
...Eu dos seus sonhos estou tão distante,
Que nem parece que estou junto dela.
João Pessoa, 1981
986
Fernando Pessoa
III - From my villa on the hill I long looked down;
From my villa on the hill I long looked down
Upon the muttering town;
Then one day drew (life sight-sick, dull hope shed)
My toga o'er my head
(The simplest gesture being the greatest thing)
Like a raised wing.
Upon the muttering town;
Then one day drew (life sight-sick, dull hope shed)
My toga o'er my head
(The simplest gesture being the greatest thing)
Like a raised wing.
3 445
Armando Cortes-Rodrigues
Canção do Mar Aberto
Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?
De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.
Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!...
Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?
De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.
Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!...
Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar
791
Artur Eduardo Benevides
De um Tema de Ronsard
Por que, tão bela sendo, me maltratas,
Se sabes que me dóis e me magoas
E me deixas igual a essas pessoas
De almas quase errantes, inexatas?
Abri-te a porta e a vida, mas me matas
E não ouves as súplicas e loas.
Eu te daria tantas cousas boas,
Mas te afastas qual som de serenatas.
A vida é curta, Amada, para tudo.
O tempo fica logo tão desnudo
Que brilho, e sonho, e viço — tudo passa.
Só temo que se um dia resolveres
Aceitar de uma vez os meus quereres
Eu já seja, num cais, velha barcaça.
Se sabes que me dóis e me magoas
E me deixas igual a essas pessoas
De almas quase errantes, inexatas?
Abri-te a porta e a vida, mas me matas
E não ouves as súplicas e loas.
Eu te daria tantas cousas boas,
Mas te afastas qual som de serenatas.
A vida é curta, Amada, para tudo.
O tempo fica logo tão desnudo
Que brilho, e sonho, e viço — tudo passa.
Só temo que se um dia resolveres
Aceitar de uma vez os meus quereres
Eu já seja, num cais, velha barcaça.
1 258
Castro Alves
No Barco
— Lucas — Maria! murmuraram juntos...
E a moça em pranto lhe caiu nos braços.
Jamais a parasita em flóreos laços
Assim lígou-se ao piquiá robusto...
Eram-lhe as tranças a cair no busto
Os esparsos festões da granadilha...
Tépido aljofar o seu pranto brilha,
Depois resvala no moreno seio...
Oh! doces horas de suave enleio!
Quando o peito da virgem mais arqueja,
Como o casal da rola sertaneja,
Se a ventania lhe sacode o ninho.
Cantai, ó brisas, mas cantai baixinho!
Passai, ó vagas..., mais passai de manso!
Não perturbeis-lhe o plácido remanso,
Vozes do ar! emanações do rio!
"Maria, falara — "Que acordar sombrio",
Murmura a triste com um sorriso louco,
"No Paraíso eu descansava um pouco...
Tu me fizeste despertar na vida ...
"Por que não me deixaste assim pendida
Morrer coa fronte oculta no teu peito?
Lembrei-me os sonhos do materno leito
Nesse momento divinal ... Quimporta? ...
"Toda esperança para mim sta morta...
Sou flor manchada por cruel serpente...
56 de encontro nas rochas pode a enchente
Lavar-me as nódoas, mesfolhado a vida.
"Deíxa-me! Deixa-me a vagar perdida
Tu! — Partel Volve para os lares teus.
Nada perguntes... é um segredo horrível...
Eu te amo ainda... mas agora — adeus!"
E a moça em pranto lhe caiu nos braços.
Jamais a parasita em flóreos laços
Assim lígou-se ao piquiá robusto...
Eram-lhe as tranças a cair no busto
Os esparsos festões da granadilha...
Tépido aljofar o seu pranto brilha,
Depois resvala no moreno seio...
Oh! doces horas de suave enleio!
Quando o peito da virgem mais arqueja,
Como o casal da rola sertaneja,
Se a ventania lhe sacode o ninho.
Cantai, ó brisas, mas cantai baixinho!
Passai, ó vagas..., mais passai de manso!
Não perturbeis-lhe o plácido remanso,
Vozes do ar! emanações do rio!
"Maria, falara — "Que acordar sombrio",
Murmura a triste com um sorriso louco,
"No Paraíso eu descansava um pouco...
Tu me fizeste despertar na vida ...
"Por que não me deixaste assim pendida
Morrer coa fronte oculta no teu peito?
Lembrei-me os sonhos do materno leito
Nesse momento divinal ... Quimporta? ...
"Toda esperança para mim sta morta...
Sou flor manchada por cruel serpente...
56 de encontro nas rochas pode a enchente
Lavar-me as nódoas, mesfolhado a vida.
"Deíxa-me! Deixa-me a vagar perdida
Tu! — Partel Volve para os lares teus.
Nada perguntes... é um segredo horrível...
Eu te amo ainda... mas agora — adeus!"
1 849
Castro Alves
Cansaço
O NÁUFRAGO nadou por longas horas...
Na praia dorme frio num desmaio.
A força após a luta abandonou-o,
Do sol queimou-lhe a face ardente raio.
Pois eu sou como o nauta... Após a luta
Meu amor dorme lânguido no peito.
Cansado... talvez morto, dorme e dorme
Da indiferença no gelado leito.
Sobre as asas velozes a andorinha
Maneira se lançou nos puros ares...
Veio após o tufão... lutou debalde,
Mas em breve boiou por sobre os mares.
Eu sou como a andorinha... Ergui meu vôo
Sobre as asas gentis da fantasia.
A descrença nublou-me o céu da vida...
E a crença estrebuchou numa agonia.
Como as flores de estufa que emurchecem
Lembrando o céu azul do seu país,
Minha alma vai morrendo, suspirando
Por seus perdidos sonhos tão gentis.
E que durma ... E que durma ... ó virgem santa,
Que criou sempre pura a fantasia,
Só a ti é que eu quero que te sentes
Ao meu lado na última agonia.
Na praia dorme frio num desmaio.
A força após a luta abandonou-o,
Do sol queimou-lhe a face ardente raio.
Pois eu sou como o nauta... Após a luta
Meu amor dorme lânguido no peito.
Cansado... talvez morto, dorme e dorme
Da indiferença no gelado leito.
Sobre as asas velozes a andorinha
Maneira se lançou nos puros ares...
Veio após o tufão... lutou debalde,
Mas em breve boiou por sobre os mares.
Eu sou como a andorinha... Ergui meu vôo
Sobre as asas gentis da fantasia.
A descrença nublou-me o céu da vida...
E a crença estrebuchou numa agonia.
Como as flores de estufa que emurchecem
Lembrando o céu azul do seu país,
Minha alma vai morrendo, suspirando
Por seus perdidos sonhos tão gentis.
E que durma ... E que durma ... ó virgem santa,
Que criou sempre pura a fantasia,
Só a ti é que eu quero que te sentes
Ao meu lado na última agonia.
2 580
Natalício Barroso
De manhã eu sei que o sol vai morrer
De manhã eu sei que o sol vai morrer
depois das dezoito horas.
Mas não me apavoro.
Ele pode morrer antes, se quiser.
Há muito tempo que a minha vida é uma sucessão de expectativas.
Nenhuma delas realizada.
Por isso espero o sol morrer depois das dezoito horas
e ele morre.
Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente,
eu pedi para uma bailarina nascer no lugar da lua.
Mas não nasceu.
Primeiro porque nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua.
Depois porque, se nascesse, não seria uma bailarina.
Mas uma deusa. Eu ri. Não porque fosse impossível
uma deusa nascer no lugar da lua.
Mas porque as deusas não nascem mais.
Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram.
Estão lá, no fundo de um poema,
presas às barbas e aos cabelos de Netuno.
Camões que o diga. Ele que teceu
os raios de luar no rosto de Netuno
e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.
depois das dezoito horas.
Mas não me apavoro.
Ele pode morrer antes, se quiser.
Há muito tempo que a minha vida é uma sucessão de expectativas.
Nenhuma delas realizada.
Por isso espero o sol morrer depois das dezoito horas
e ele morre.
Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente,
eu pedi para uma bailarina nascer no lugar da lua.
Mas não nasceu.
Primeiro porque nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua.
Depois porque, se nascesse, não seria uma bailarina.
Mas uma deusa. Eu ri. Não porque fosse impossível
uma deusa nascer no lugar da lua.
Mas porque as deusas não nascem mais.
Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram.
Estão lá, no fundo de um poema,
presas às barbas e aos cabelos de Netuno.
Camões que o diga. Ele que teceu
os raios de luar no rosto de Netuno
e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.
988
Amparo Jimenez
Ilusión Marina
(A Rosamaría)
Tu lengua,
pececillo inquieto en mi rostro.
Tu boca,
ostra que juega con mis labios.
Tu piel,
arena ardiente sobre mi cuerpo todo.
Tu voz,
canto de sirena que me llama y espera.
Mi piel y mi alma responden
pero tú, sirena mía,
te esfumas con el sol
al bajar la marea.
Tu lengua,
pececillo inquieto en mi rostro.
Tu boca,
ostra que juega con mis labios.
Tu piel,
arena ardiente sobre mi cuerpo todo.
Tu voz,
canto de sirena que me llama y espera.
Mi piel y mi alma responden
pero tú, sirena mía,
te esfumas con el sol
al bajar la marea.
1 037
Olegário Mariano
O Enamorado das Rosas
Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.
Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.
Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.
Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.
Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.
Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.
Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.
1 363
Olegário Mariano
Kremme
Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.
1 422
Ona Gaia
Você me Pede
Você me pede pra falar de Eros
E eu nem aí pros seus Boleros.
E eu nem aí pros seus Boleros.
944
Pablo Neruda
XLVI
E como se chama esse mês
que está entre dezembro e janeiro?
Com que direito numeraram
as doces uvas do racimo?
Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?
Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?
que está entre dezembro e janeiro?
Com que direito numeraram
as doces uvas do racimo?
Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?
Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?
1 108
Rogério Bessa
Do Canto VI:
Ao Redor do Homem:
A Ilha Busca da Síntese, Sua Dialética
diariamente o homem
caminha para a certeza,
quando eventualidades
não o tomem de surpresa.
homem que faz da vida
o seu surreal panar
não se nutre de ambrosia,
mas de carrapicho e urtiga.
o homem vive a sua viagem,
faz seu sonho desilusão,
melodia suas exéquias
na ânsia busca de pão.
A Ilha Busca da Síntese, Sua Dialética
diariamente o homem
caminha para a certeza,
quando eventualidades
não o tomem de surpresa.
homem que faz da vida
o seu surreal panar
não se nutre de ambrosia,
mas de carrapicho e urtiga.
o homem vive a sua viagem,
faz seu sonho desilusão,
melodia suas exéquias
na ânsia busca de pão.
845
Pablo Neruda
As feridas
Foi talvez a ofensa do amor escondido e talvez a incerteza, a dor vacilante,
o temer à ferida que não somente tua pele e minha pele transpassasse,
mas que chegasse a instalar uma lágrima áspera nas
pálpebras da que me amou,
o certo é que já não tínhamos nem céu nem sombra nem ramo de vermelha ameixeira com fruto e orvalho
e só a ira dos becos que não têm portas entrava e saía em minha alma
sem saber onde ir nem voltar sem matar ou morrer.
o temer à ferida que não somente tua pele e minha pele transpassasse,
mas que chegasse a instalar uma lágrima áspera nas
pálpebras da que me amou,
o certo é que já não tínhamos nem céu nem sombra nem ramo de vermelha ameixeira com fruto e orvalho
e só a ira dos becos que não têm portas entrava e saía em minha alma
sem saber onde ir nem voltar sem matar ou morrer.
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