Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Charles Bukowski
quatro
a sabedoria de desistir
é tudo o que nos
restou
1 031
Artur de Azevedo
Desengano
A pensionista pálida que gosta
(Fundada pretensão!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;
Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos..., pela posta;
Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo... oh, sorte varia;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!
Com um pançudo burguês, uma alimária
Que não a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanhã na Candelária.
1873
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
(Fundada pretensão!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;
Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos..., pela posta;
Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo... oh, sorte varia;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!
Com um pançudo burguês, uma alimária
Que não a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanhã na Candelária.
1873
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
2 179
Charles Bukowski
Amor Esmagado Como Mosca Morta
em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
615
Charles Bukowski
Um Cachorro
veja só você, meias e calções, latas de cerveja
pelo chão, você não quer se comunicar,
para você uma mulher não é nada senão algo
para sua conveniência, você só fica ali sentado
bebendo como um porco, por que você não diz algo?
esta é a sua casa então você não pode ir embora, se eu estivesse
falando desse jeito na minha casa você sairia pela porta
sem demora.
por que você está sorrindo?
algo disso é engraçado?
tudo que você faz é beber como um porco e ir ao hipódromo!
o que há de tão sensacional num cavalo?
o que é que um cavalo tem que eu não tenho?
quatro pernas?
você não é genial?
ora, você não é o máximo?
você age como se nada importasse!
bem, deixa eu te dizer, babaca, eu importo!
você acha que é o único homem nesta cidade?
bem, deixa eu te dizer, existem homens aos montes que
me desejam, meu corpo, minha mente, meu espírito!
as pessoas me perguntam: “O que é que você está fazendo
com uma pessoa como aquela?”
o quê?
não, eu não quero um drinque!
quero que você se dê conta do que está acontecendo antes que
seja tarde demais!
veja só você entornando que nem bicho!
você sabe o que acontece quando você bebe
demais!
daria no mesmo eu estar morando com um eunuco!
minha mãe me avisou!
todo mundo me avisou!
veja só você agora!
por que você não se barbeia?
você derramou vinho na sua camisa toda!
e esse charuto barato!
você sabe qual é o cheiro que essa coisa
tem?
de bosta de cavalo!
ei, pra onde você está indo?
algum bar, algum bar de merda!
vai ficar lá sentado, acalentando a sua autopiedade
com todos aqueles outros perdedores!
se você passar por aquela porta eu vou
sair pra dançar!
vou sair para me divertir!
se você sair por aquela porta, aí é
o fim!
tá bom, vai lá então, seu babaca!
babaca!
babaca!
BABACA!
Você ainda tá vivendoem 1938,babaca!
pelo chão, você não quer se comunicar,
para você uma mulher não é nada senão algo
para sua conveniência, você só fica ali sentado
bebendo como um porco, por que você não diz algo?
esta é a sua casa então você não pode ir embora, se eu estivesse
falando desse jeito na minha casa você sairia pela porta
sem demora.
por que você está sorrindo?
algo disso é engraçado?
tudo que você faz é beber como um porco e ir ao hipódromo!
o que há de tão sensacional num cavalo?
o que é que um cavalo tem que eu não tenho?
quatro pernas?
você não é genial?
ora, você não é o máximo?
você age como se nada importasse!
bem, deixa eu te dizer, babaca, eu importo!
você acha que é o único homem nesta cidade?
bem, deixa eu te dizer, existem homens aos montes que
me desejam, meu corpo, minha mente, meu espírito!
as pessoas me perguntam: “O que é que você está fazendo
com uma pessoa como aquela?”
o quê?
não, eu não quero um drinque!
quero que você se dê conta do que está acontecendo antes que
seja tarde demais!
veja só você entornando que nem bicho!
você sabe o que acontece quando você bebe
demais!
daria no mesmo eu estar morando com um eunuco!
minha mãe me avisou!
todo mundo me avisou!
veja só você agora!
por que você não se barbeia?
você derramou vinho na sua camisa toda!
e esse charuto barato!
você sabe qual é o cheiro que essa coisa
tem?
de bosta de cavalo!
ei, pra onde você está indo?
algum bar, algum bar de merda!
vai ficar lá sentado, acalentando a sua autopiedade
com todos aqueles outros perdedores!
se você passar por aquela porta eu vou
sair pra dançar!
vou sair para me divertir!
se você sair por aquela porta, aí é
o fim!
tá bom, vai lá então, seu babaca!
babaca!
babaca!
BABACA!
Você ainda tá vivendoem 1938,babaca!
1 156
Charles Bukowski
Cortina Baixada
o que eu gosto em você
ela me contou
é que você é cru –
veja só você sentado aí
uma lata de cerveja na sua mão
e um charuto na sua boca
e veja
sua barriga peluda e suja
saindo pra fora
por baixo da camisa.
você tirou os sapatos
e tem um buraco
na sua meia direita
com o dedão
saindo pra fora.
você não faz a barba há
4 ou 5 dias.
seus dentes são amarelos
e as suas sobrancelhas
despencam
totalmente retorcidas
e você tem cicatrizes
suficientes
para deixar qualquer um
cagado de medo.
há sempre
um anel
na sua banheira
seu telefone
está coberto de
gordura
e
metade do lixo na
sua geladeira está
podre.
você nunca
lava o seu carro.
você tem jornais
de uma semana atrás
no chão.
você lê revistas
de sacanagem
e você não tem
tv
mas você pede
entregas da
loja de bebidas
e dá boas
gorjetas.
e o melhor de tudo
você não força
uma mulher a
ir pra cama
com você.
você mal parece
interessado
e quando falo com você
você não
diz nada
você só
olha em volta
pela sala ou
coça o seu
pescoço
como se não
me ouvisse.
você tem uma toalha
velha e molhada
na pia
e uma foto
de Mussolini
na parede
e você nunca
reclama
de nada
e você nunca
faz perguntas
e eu
conheço você há
6 meses
mas não faço
a menor ideia
de quem você é.
você é como
uma espécie de
cortina baixada
mas é disso
que eu gosto
em você:
sua crueza:
uma mulher pode
cair
fora da sua
vida e
esquecer você
bem depressa.
uma mulher
não pode ir a lugar algum
a não ser UM LUGAR MELHOR
depois de deixar você,
querido.
você só pode
ser
a melhor coisa
que jamais
aconteceu
a
uma garota
que está entre
um cara
e o seguinte
e não tem nada
pra fazer
no momento.
a porra deste
scotch é
uma maravilha.
vamos jogar
palavras cruzadas.
ela me contou
é que você é cru –
veja só você sentado aí
uma lata de cerveja na sua mão
e um charuto na sua boca
e veja
sua barriga peluda e suja
saindo pra fora
por baixo da camisa.
você tirou os sapatos
e tem um buraco
na sua meia direita
com o dedão
saindo pra fora.
você não faz a barba há
4 ou 5 dias.
seus dentes são amarelos
e as suas sobrancelhas
despencam
totalmente retorcidas
e você tem cicatrizes
suficientes
para deixar qualquer um
cagado de medo.
há sempre
um anel
na sua banheira
seu telefone
está coberto de
gordura
e
metade do lixo na
sua geladeira está
podre.
você nunca
lava o seu carro.
você tem jornais
de uma semana atrás
no chão.
você lê revistas
de sacanagem
e você não tem
tv
mas você pede
entregas da
loja de bebidas
e dá boas
gorjetas.
e o melhor de tudo
você não força
uma mulher a
ir pra cama
com você.
você mal parece
interessado
e quando falo com você
você não
diz nada
você só
olha em volta
pela sala ou
coça o seu
pescoço
como se não
me ouvisse.
você tem uma toalha
velha e molhada
na pia
e uma foto
de Mussolini
na parede
e você nunca
reclama
de nada
e você nunca
faz perguntas
e eu
conheço você há
6 meses
mas não faço
a menor ideia
de quem você é.
você é como
uma espécie de
cortina baixada
mas é disso
que eu gosto
em você:
sua crueza:
uma mulher pode
cair
fora da sua
vida e
esquecer você
bem depressa.
uma mulher
não pode ir a lugar algum
a não ser UM LUGAR MELHOR
depois de deixar você,
querido.
você só pode
ser
a melhor coisa
que jamais
aconteceu
a
uma garota
que está entre
um cara
e o seguinte
e não tem nada
pra fazer
no momento.
a porra deste
scotch é
uma maravilha.
vamos jogar
palavras cruzadas.
655
Charles Bukowski
Carson Mccullers
ela morreu de alcoolismo
enrolada no cobertor
de uma espreguiçadeira
num vapor
transoceânico
todos os seus livros de
aterrorizada solidão
todos os seus livros sobre
a crueldade
do amante sem amor
foram tudo que restou
dela
enquanto o excursionista passeador
encontrava seu corpo
avisava o capitão
e ela era despachada
para outro setor
do navio
enquanto tudo mais
continuava
como
ela tinha escrito.
enrolada no cobertor
de uma espreguiçadeira
num vapor
transoceânico
todos os seus livros de
aterrorizada solidão
todos os seus livros sobre
a crueldade
do amante sem amor
foram tudo que restou
dela
enquanto o excursionista passeador
encontrava seu corpo
avisava o capitão
e ela era despachada
para outro setor
do navio
enquanto tudo mais
continuava
como
ela tinha escrito.
956
Charles Bukowski
Morde Morde
ah, as mulheres sabem ser mordazes
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
1 063
Edmir Domingues
soneto IX - E tu não vinhas
Nunca houvesse o luar da tanta espera
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
665
Edmir Domingues
Segundo soneto da estrela
Joguei o amor na távola das cartas
e a túnica inconsútil foi lembrança
cansadas de malogro as falas fartas
foram silêncio e gestos de esquivança.
E se olhos visto e ouvidos não conservo
nas vertentes do sonho me dissolvo,
e, quando noite, a noite sinto e observo
olhos que são tentáculos de polvo.
Por isso a sombra é ingrata e traz venenos.
Negado à intimidade o teu sorriso
os imprevistos fazem-se pequenos
e tudo veste a roupa do impreciso.
Somente, à superfície, antigas mágoas
e a estrela, estranha flor, á flor das águas.
e a túnica inconsútil foi lembrança
cansadas de malogro as falas fartas
foram silêncio e gestos de esquivança.
E se olhos visto e ouvidos não conservo
nas vertentes do sonho me dissolvo,
e, quando noite, a noite sinto e observo
olhos que são tentáculos de polvo.
Por isso a sombra é ingrata e traz venenos.
Negado à intimidade o teu sorriso
os imprevistos fazem-se pequenos
e tudo veste a roupa do impreciso.
Somente, à superfície, antigas mágoas
e a estrela, estranha flor, á flor das águas.
790
Hilda Machado
Miscasting
"So you think salvation lies in pretending?"
Paul Bowles
estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino
há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri
mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída
agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias
vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil
seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa
os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
Paul Bowles
estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino
há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri
mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída
agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias
vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil
seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa
os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
2 132
Edmir Domingues
soneto XVIII - A corda
Funâmbulo da corda desencanto
o limpa-chaminés que a vida tenta
despiu a veste antiga, por cinzenta,
resolvido abandono a pós e a pranto.
O grito do metal que vibra tanto,
a marcha de trombetas o atormenta,
porque em mil novecentos e cinquenta
no circo não devia achar-se encanto.
Há três cavalos brancos como a neve
trotando sob a corda um trote leve,
presença que distrai nossa vertigem.
Mas quem vive e quem pensa sempre errado
suja sempre, num gesto atrapalhado,
os três cavalos brancos, de fuligem.
o limpa-chaminés que a vida tenta
despiu a veste antiga, por cinzenta,
resolvido abandono a pós e a pranto.
O grito do metal que vibra tanto,
a marcha de trombetas o atormenta,
porque em mil novecentos e cinquenta
no circo não devia achar-se encanto.
Há três cavalos brancos como a neve
trotando sob a corda um trote leve,
presença que distrai nossa vertigem.
Mas quem vive e quem pensa sempre errado
suja sempre, num gesto atrapalhado,
os três cavalos brancos, de fuligem.
702
Fernando Pessoa
O burburinho da água
O burburinho da água
No regato que se espalha
É como a ilusão que é mágoa
Quando a verdade a baralha.
No regato que se espalha
É como a ilusão que é mágoa
Quando a verdade a baralha.
1 942
Edmir Domingues
Soneto do azul e da busca
Azul no chão que um príncipe há morrido
aqui, ou tinta azul foi derramada,
talvez, quem sabe?, à luz da madrugada
em que o amor foi contato e foi sentido.
Não desceria o céu sobre essa estrada
para torná-la azul no azul descido,
e a solução ê o sangue, o sangue tido
por nobreza que enfim não vale nada.
Eis porque deixo a vida e busco o poço,
para perder-me em nuvens de alvoroço
se não te achei, contigo a primavera.
A fumaça do gesto ao mar se arrase,
confio as ter, assim transponha o gaze,
que onde tempo não há não cabe espera.
aqui, ou tinta azul foi derramada,
talvez, quem sabe?, à luz da madrugada
em que o amor foi contato e foi sentido.
Não desceria o céu sobre essa estrada
para torná-la azul no azul descido,
e a solução ê o sangue, o sangue tido
por nobreza que enfim não vale nada.
Eis porque deixo a vida e busco o poço,
para perder-me em nuvens de alvoroço
se não te achei, contigo a primavera.
A fumaça do gesto ao mar se arrase,
confio as ter, assim transponha o gaze,
que onde tempo não há não cabe espera.
799
Sophia de Mello Breyner Andresen
Como Todo o Amor Humano
Eras impuro, falso e vil,
Mas eu ergui a perfeição do teu perfil
Na manhã d’hoje em frente do Oceano.
Mas eu ergui a perfeição do teu perfil
Na manhã d’hoje em frente do Oceano.
1 196
Fernando Pessoa
CANÇÃO À INGLESA
CANÇÃO À INGLESA
Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e p'ro fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que fui, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.
Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e p'ro fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que fui, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.
1 397
Carlos Drummond de Andrade
Lira do Amor Romântico
Ou a eterna repetição
Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.
Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.
Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.
Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.
Atirei um limão n’água,
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!
Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.
Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.
Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.
Atirei um limão n’água,
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.
Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.
Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.
Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.
Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.
Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.
Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.
Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?
Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.
Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.
Atirei um limão n’água
e caí n’água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.
Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.
Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.
Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.
Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.
Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.
Atirei um limão n’água,
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!
Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.
Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.
Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.
Atirei um limão n’água,
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.
Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.
Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.
Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.
Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.
Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.
Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.
Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?
Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.
Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.
Atirei um limão n’água
e caí n’água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.
Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.
1 498
Sophia de Mello Breyner Andresen
Será Possível
Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
— Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta — só perdido?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
— Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta — só perdido?
1 037
Marina Colasanti
Sou menor do que minhas medidas
Não creio mesmo que ninguém tenha as medidas que eu busco; e, como teimo em alcançá-las, peco de pretensão.
É inútil procurar.
Vejo multidões acomodadas no erro. Ouço, a todo momento, confissões de mau caráter feitas num tom muito próximo da vaidade. Mulheres me enumeram, com orgulho, os homens que já possuíram. Os homens fazem o mesmo. Não sinto neles o menor anseio de pureza.
Vejo mulheres feias e gordas, sem amantes nem amores, armadas apenas de receitas domésticas e longos relatos de doenças. Vejo mulheres bonitas, bem-tratadas, lisas e lustrosas, sem uma prega, sem alças arrebentadas, sem manchas na pele, que traem o marido com o amante, o amante com outro, e os três consigo mesmas.
Vejo homens ficarem calvos e barrigudos em profissões de que não gostam, dormindo sonos tão pesados quanto eles mesmos ao lado de mulheres de que não gostam, educando, mal como foram educados, crianças das quais, no fundo, gostam muito pouco.
Vejo as pessoas falando mal das outras e se comportando pior. Vejo muita gente feia, esquecida do próprio corpo. Vejo todos reclamando e poucos tomando atitudes.
E não creio que eu, mais do que os outros, tenha o direito de ver estas coisas, de olhar o mundo como se não fizesse parte dele. Não há por que a arrogância me seja permitida; e ter pena é ser arrogante.
Tenho pena da senhora gorda sentada diante de mim no ônibus, com as pernas um pouco abertas, as coxas marcadas pelo vinco profundo das ligas. Tenho pena do senhor asmático, agasalhado em pleno verão, que, certamente, usa suéter desde garotinho. Tenho pena pelos óculos alheios, pelos encontros furtivos, pelas frustrações profissionais, pela falta de talento, pelos grandes talentos desperdiçados, pelas vidas sem perspectiva. Tenho pena de tanta gente que mente, que finge, que sorri fingido.
Mas não posso corrigir o mundo; não posso, sequer, corrigir a mim mesma.
Quereria não mentir nunca; não trair ninguém; oferecer pureza como nunca houve. E já não sei onde ficou minha pureza: se se perdeu nas mentiras, ou se a mataram com a primeira traição.
É inútil procurar.
Vejo multidões acomodadas no erro. Ouço, a todo momento, confissões de mau caráter feitas num tom muito próximo da vaidade. Mulheres me enumeram, com orgulho, os homens que já possuíram. Os homens fazem o mesmo. Não sinto neles o menor anseio de pureza.
Vejo mulheres feias e gordas, sem amantes nem amores, armadas apenas de receitas domésticas e longos relatos de doenças. Vejo mulheres bonitas, bem-tratadas, lisas e lustrosas, sem uma prega, sem alças arrebentadas, sem manchas na pele, que traem o marido com o amante, o amante com outro, e os três consigo mesmas.
Vejo homens ficarem calvos e barrigudos em profissões de que não gostam, dormindo sonos tão pesados quanto eles mesmos ao lado de mulheres de que não gostam, educando, mal como foram educados, crianças das quais, no fundo, gostam muito pouco.
Vejo as pessoas falando mal das outras e se comportando pior. Vejo muita gente feia, esquecida do próprio corpo. Vejo todos reclamando e poucos tomando atitudes.
E não creio que eu, mais do que os outros, tenha o direito de ver estas coisas, de olhar o mundo como se não fizesse parte dele. Não há por que a arrogância me seja permitida; e ter pena é ser arrogante.
Tenho pena da senhora gorda sentada diante de mim no ônibus, com as pernas um pouco abertas, as coxas marcadas pelo vinco profundo das ligas. Tenho pena do senhor asmático, agasalhado em pleno verão, que, certamente, usa suéter desde garotinho. Tenho pena pelos óculos alheios, pelos encontros furtivos, pelas frustrações profissionais, pela falta de talento, pelos grandes talentos desperdiçados, pelas vidas sem perspectiva. Tenho pena de tanta gente que mente, que finge, que sorri fingido.
Mas não posso corrigir o mundo; não posso, sequer, corrigir a mim mesma.
Quereria não mentir nunca; não trair ninguém; oferecer pureza como nunca houve. E já não sei onde ficou minha pureza: se se perdeu nas mentiras, ou se a mataram com a primeira traição.
1 161
Fernando Pessoa
Não sei que grande tristeza
Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.
1 336
Ricardo Redisch
Estilhaços
O amor é uma química poderosa,
mas de equilíbrio muito delicado.
Quando seus elementos se confundem
o conjunto pode voar pelos ares.
É a semântica então que se embaralha
num corredor de frases mutiladas,
e qualquer comunicação envolve
vários ressentimentos ofegantes.
Ao telefone, a fala é transportada
em longos fios de arame farpado,
numa sucessão de signos sem vida.
O discurso, então, deixa de ser pleno,
transforma-se num crispado murmúrio:
fenda que dói no corpo da palavra.
Do livro 'Sinergias', publicado em 2011 pela editora Livros de Safra
mas de equilíbrio muito delicado.
Quando seus elementos se confundem
o conjunto pode voar pelos ares.
É a semântica então que se embaralha
num corredor de frases mutiladas,
e qualquer comunicação envolve
vários ressentimentos ofegantes.
Ao telefone, a fala é transportada
em longos fios de arame farpado,
numa sucessão de signos sem vida.
O discurso, então, deixa de ser pleno,
transforma-se num crispado murmúrio:
fenda que dói no corpo da palavra.
Do livro 'Sinergias', publicado em 2011 pela editora Livros de Safra
614
Charles Bukowski
Uma Definição
o amor não passa de farol aceso à
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
1 730
Charles Bukowski
O Fim de Um Breve Caso
tentei fazer de pé
dessa vez.
geralmente não
funciona
dessa vez parecia
estar...
ela ficava dizendo
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo ia bem
até que ela tirou os pés do
chão e
enroscou as pernas
em volta da minha cintura.
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava uns 63
quilos e ficou ali pendurada enquanto eu
trabalhava.
foi quando cheguei ao clímax
que senti a dor
subir voando por minha
espinha.
larguei-a no
sofá e andei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe falei,
“é melhor você ir. preciso
revelar um filme
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e foi embora
e eu fui até a
cozinha para tomar um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor subiu por trás das minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se quebrou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais de Epsom.
mal tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
tentei endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por meu
pescoço e braços.
fiquei baqueando,
agarrei as bordas da banheira,
saí
com jatos luminosos verdes e amarelos
e vermelhos
turbilhonando na minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“isso é tudo que você tem
pra dizer?”
“sim.”
“vá à merda!”, ela falou e
desligou.
o amor se esgota, pensei
enquanto voltava para o
banheiro, quase tão rápido quanto
esperma.
"NÃO ESTÁ FUNCIONANDO, ESTÁ?"
dessa vez.
geralmente não
funciona
dessa vez parecia
estar...
ela ficava dizendo
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo ia bem
até que ela tirou os pés do
chão e
enroscou as pernas
em volta da minha cintura.
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava uns 63
quilos e ficou ali pendurada enquanto eu
trabalhava.
foi quando cheguei ao clímax
que senti a dor
subir voando por minha
espinha.
larguei-a no
sofá e andei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe falei,
“é melhor você ir. preciso
revelar um filme
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e foi embora
e eu fui até a
cozinha para tomar um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor subiu por trás das minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se quebrou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais de Epsom.
mal tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
tentei endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por meu
pescoço e braços.
fiquei baqueando,
agarrei as bordas da banheira,
saí
com jatos luminosos verdes e amarelos
e vermelhos
turbilhonando na minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“isso é tudo que você tem
pra dizer?”
“sim.”
“vá à merda!”, ela falou e
desligou.
o amor se esgota, pensei
enquanto voltava para o
banheiro, quase tão rápido quanto
esperma.
"NÃO ESTÁ FUNCIONANDO, ESTÁ?"
1 373
José Saramago
Caminho
Há mentiras de mais e compromissos
(Poemas são palavras recompostas)
E por tantas perguntas sem respostas
Mascara-se a verdade com postiços.
Não é vida, nem sombra, nem razão,
É jaula de doidice furiosa,
Eriçada de gritos, angulosa,
Com estilhaços de vidro pelo chão.
É carrego de mais esta jornada
E protestos não servem, nem suores,
Já mordidos os membros de tremores,
Já vencida a bandeira e arrastada.
Depois se me apagaram os amores
Que a viagem fizeram desejada.
(Poemas são palavras recompostas)
E por tantas perguntas sem respostas
Mascara-se a verdade com postiços.
Não é vida, nem sombra, nem razão,
É jaula de doidice furiosa,
Eriçada de gritos, angulosa,
Com estilhaços de vidro pelo chão.
É carrego de mais esta jornada
E protestos não servem, nem suores,
Já mordidos os membros de tremores,
Já vencida a bandeira e arrastada.
Depois se me apagaram os amores
Que a viagem fizeram desejada.
734
Kenneth Koch
Uma conversa com Patrícia
Patrícia não quer
Falar de amor ela
Diz que só
Quer fazer amor
Mas ela me fala
De amor quase sem parar.
É horrível é
A pior coisa do mundo
Diz Patrícia
Nada
Nem a morte ou a loucura
É tão ruim quanto o amor
Eu estou sempre
Apaixonada estou sempre
Sofrendo por amor
Diz Patrícia. Agora me
Acostumei mas
Continuo sofrendo do mesmo jeito
Você sabe o que eu fiz a ela
Uma vez? – falando de sua
Namorada – Eu a chutei
Literalmente chutei ela estava sentada no chão e eu lhe
Dei uns colpi di piedi assim uns
pontapés. Ela escorregou no chão.
Sabe o que ela fez
Comigo? Me prometeu que viajaríamos
Eu estava pronta esperando
Com as malas e os bilhetes
E ela vem e me diz que sua outra amiga achou que ela
não deveria ir, era o que ela achava. Eu a chutei
Sabe às vezes a gente ainda fica
Junto. Mas o amor é horrível. Eu achei
Que você seria a pessoa
Certa para ter esta conversa Patrícia já que
Você ama as mulheres e ao mesmo tempo
É uma mulher. Você deve ter razão Patrícia
Disse. Mas com essa mulher que te
Abandona eu acho que você deveria
Sumir do mapa. Embora talvez com ela
não vá adiantar
Não, sumir não adianta.
É difícil eu não a conheço
Se eu a conhecesse se eu pudesse vê-la
Por apenas dez minutos – Tenho medo disso
se você a vir você pode
Levá-la de mim. Patrícia
Ri. Não, não aconteceu comigo ainda
Graças a deus de gostar de mulheres jovens assim.
Por quê? Quando você tiver a minha
Idade – ainda jovem – ela terá
Trinta... e nove? Você convive bastante
Com pessoas bem jovens para
Saber como elas são horríveis
E você não gosta delas
Você não quer ter nada
A ver com elas! Hum
Hum, eu disse apoiando
As mãos sobre a mesa e depois tirando
Olhe para você desculpe-me mas eu tenho que rir
De você sentado neste horrível
Restaurante já de
Madrugada em uma
Cidade em que você não quer estar
E por quê? Por esta mulher
É horrível eu sei mas também
É engraçado
Eu sei eu disse. Ouça tenho
Uma idéia. Você tem o endereço dela? Você sabe onde
Ela mora? Você deveria ir até lá ir
E se esconder
Do lado de fora da casa dela
Atrás das árvores
Então quando ela sair
Você a afronta
Você a enfrenta. Você verá
Em seus olhos
Se há amor ou não. É algo que não se
Pode esconder. Você saberá não tem erro.
Funciona. Comigo sempre
Funcionou. Não vai funcionar comigo. Não posso
Ir e me esconder lá. É verdade
Disse Patrícia quando há amor tudo
Funciona quando não há, nada funciona. O amor
É um deus Eu não acredito em nada dessas coisas freudianas
Esse deus para quem você tem que fazer
O que ele quer que você faça você
Está com raiva mas tudo o que você realmente quer
É tê-la de volta. Então – vingança! Se
Essa mulher tivesse feito algo assim comigo
Eu simplesmente não iria mais gostar dela na verdade
Eu iria odiá-la Você deve levar em conta
Disse Patrícia que essa mulher pode estar
fazendo isso para testar você. Não,
eu disse. Eu sei que não é isso. Eu sei de algo. Eu me sinto
Cem anos mais velho. Você não
parece tão mal assim, Patrícia disse.
Procure outra mulher. Não posso. Eu
Sei Patrícia disse. Mas geralmente sempre achamos que
Esta é uma boa idéia. Mas se
Você não pode não pode. Eu
Não consigo nem comer
Isso aqui Patrícia eu disse.
Desculpe Patrícia eu disse por te
Chatear não consigo parar de falar Me
Perdoa. Você não está me chateando
Patrícia diz Este é meu assunto preferido
Não é todo dia que se vê alguém num estado desses,
Em que se pode ajudar dizendo para se manter vivo
Você sabe, disse Patrícia, se ela
Faz essas coisas com você agora
Ela fará de novo
E de novo então é melhor estar pronto
Talvez você possa se adiantar
E dizer que ela tem razão e que você
Não a ama Tchau Que você vai embora
Mas se você a quer mesmo
Você deveria ir para trás das árvores
E surpreendê-la quando eles o virem
Isso sempre faz diferença
Não posso ir me esconder lá Patrícia
É loucura. Eu fui mas sem
Me esconder e sem afrontá-la.
Patrícia: O que ela disse? Eu disse:
As mesmas coisas. Patrícia disse
Você viu amor nos olhos dela? Eu disse
Não, não vi. Eu vi
Alguma outra coisa. Em Florença está um dia nublado
Seu cabelo (relativamente) curto e
Seus olhos ao longo do Arno
Foi a última vez em que a veria outra vez
Como esta que estou vendo outra vez
Quando ver outra vez ainda faz algum sentido
Acabou Patrícia dizia
Por enquanto mas não se preocupe
Eu acho que você vai tê-la de volta
Mas então será tarde demais. Ai Patrícia deixei
Minhas costas e cabeça despencarem na
Cadeira Tarde não quer dizer nada!
(tradução de Marília Garcia)
Falar de amor ela
Diz que só
Quer fazer amor
Mas ela me fala
De amor quase sem parar.
É horrível é
A pior coisa do mundo
Diz Patrícia
Nada
Nem a morte ou a loucura
É tão ruim quanto o amor
Eu estou sempre
Apaixonada estou sempre
Sofrendo por amor
Diz Patrícia. Agora me
Acostumei mas
Continuo sofrendo do mesmo jeito
Você sabe o que eu fiz a ela
Uma vez? – falando de sua
Namorada – Eu a chutei
Literalmente chutei ela estava sentada no chão e eu lhe
Dei uns colpi di piedi assim uns
pontapés. Ela escorregou no chão.
Sabe o que ela fez
Comigo? Me prometeu que viajaríamos
Eu estava pronta esperando
Com as malas e os bilhetes
E ela vem e me diz que sua outra amiga achou que ela
não deveria ir, era o que ela achava. Eu a chutei
Sabe às vezes a gente ainda fica
Junto. Mas o amor é horrível. Eu achei
Que você seria a pessoa
Certa para ter esta conversa Patrícia já que
Você ama as mulheres e ao mesmo tempo
É uma mulher. Você deve ter razão Patrícia
Disse. Mas com essa mulher que te
Abandona eu acho que você deveria
Sumir do mapa. Embora talvez com ela
não vá adiantar
Não, sumir não adianta.
É difícil eu não a conheço
Se eu a conhecesse se eu pudesse vê-la
Por apenas dez minutos – Tenho medo disso
se você a vir você pode
Levá-la de mim. Patrícia
Ri. Não, não aconteceu comigo ainda
Graças a deus de gostar de mulheres jovens assim.
Por quê? Quando você tiver a minha
Idade – ainda jovem – ela terá
Trinta... e nove? Você convive bastante
Com pessoas bem jovens para
Saber como elas são horríveis
E você não gosta delas
Você não quer ter nada
A ver com elas! Hum
Hum, eu disse apoiando
As mãos sobre a mesa e depois tirando
Olhe para você desculpe-me mas eu tenho que rir
De você sentado neste horrível
Restaurante já de
Madrugada em uma
Cidade em que você não quer estar
E por quê? Por esta mulher
É horrível eu sei mas também
É engraçado
Eu sei eu disse. Ouça tenho
Uma idéia. Você tem o endereço dela? Você sabe onde
Ela mora? Você deveria ir até lá ir
E se esconder
Do lado de fora da casa dela
Atrás das árvores
Então quando ela sair
Você a afronta
Você a enfrenta. Você verá
Em seus olhos
Se há amor ou não. É algo que não se
Pode esconder. Você saberá não tem erro.
Funciona. Comigo sempre
Funcionou. Não vai funcionar comigo. Não posso
Ir e me esconder lá. É verdade
Disse Patrícia quando há amor tudo
Funciona quando não há, nada funciona. O amor
É um deus Eu não acredito em nada dessas coisas freudianas
Esse deus para quem você tem que fazer
O que ele quer que você faça você
Está com raiva mas tudo o que você realmente quer
É tê-la de volta. Então – vingança! Se
Essa mulher tivesse feito algo assim comigo
Eu simplesmente não iria mais gostar dela na verdade
Eu iria odiá-la Você deve levar em conta
Disse Patrícia que essa mulher pode estar
fazendo isso para testar você. Não,
eu disse. Eu sei que não é isso. Eu sei de algo. Eu me sinto
Cem anos mais velho. Você não
parece tão mal assim, Patrícia disse.
Procure outra mulher. Não posso. Eu
Sei Patrícia disse. Mas geralmente sempre achamos que
Esta é uma boa idéia. Mas se
Você não pode não pode. Eu
Não consigo nem comer
Isso aqui Patrícia eu disse.
Desculpe Patrícia eu disse por te
Chatear não consigo parar de falar Me
Perdoa. Você não está me chateando
Patrícia diz Este é meu assunto preferido
Não é todo dia que se vê alguém num estado desses,
Em que se pode ajudar dizendo para se manter vivo
Você sabe, disse Patrícia, se ela
Faz essas coisas com você agora
Ela fará de novo
E de novo então é melhor estar pronto
Talvez você possa se adiantar
E dizer que ela tem razão e que você
Não a ama Tchau Que você vai embora
Mas se você a quer mesmo
Você deveria ir para trás das árvores
E surpreendê-la quando eles o virem
Isso sempre faz diferença
Não posso ir me esconder lá Patrícia
É loucura. Eu fui mas sem
Me esconder e sem afrontá-la.
Patrícia: O que ela disse? Eu disse:
As mesmas coisas. Patrícia disse
Você viu amor nos olhos dela? Eu disse
Não, não vi. Eu vi
Alguma outra coisa. Em Florença está um dia nublado
Seu cabelo (relativamente) curto e
Seus olhos ao longo do Arno
Foi a última vez em que a veria outra vez
Como esta que estou vendo outra vez
Quando ver outra vez ainda faz algum sentido
Acabou Patrícia dizia
Por enquanto mas não se preocupe
Eu acho que você vai tê-la de volta
Mas então será tarde demais. Ai Patrícia deixei
Minhas costas e cabeça despencarem na
Cadeira Tarde não quer dizer nada!
(tradução de Marília Garcia)
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