Poemas neste tema

Desejo

Edmir Domingues

Edmir Domingues

soneto I - Quando o mundo acabe

E de espaço e de tempo enfim libertos
seremos quase pássaros no vôo
inconscientemente sexo e vida
burlados preconceitos e limite.

Que a verdade foi vinho e foi desmaio
entre a noite de fumo e de agonia,
sempre antecipação porque sabíamos
composta em nosso sangue a madrugada.

Sejamos ébrios quando o mundo acabe,
e bêbedos nos barcos estejamos
de tímidos e leves quase pássaros.

Que os anjos nos verão rindo e cantando
e nós não voltaremos nem que seja
para enterrar os corpos logo podres.
639
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Soneto à mulher do próximo

Fendida seja um dia, pólo a pólo,
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.

Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.

Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.

Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
729
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

39. Esta É a Folha, E a Folha

39
Esta é a folha, e a folha
de terra, mas a água da lâmpada
breve.

Que ela me diga a não-palavra
de palavra, a terra
e o corpo renascendo sob a árvore
e o espaço que é o espaço
o espaço.

E a terra da terra, o corpo
da figura
soprando a nuvem sobre as pernas
da mulher descoberta na ilha do seu quarto.
582
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

36. Imagem (Não Ardente Aqui) da Figura

36
Imagem (não ardente aqui) da figura
ardente e enterrada sob o ventre
do cavalo e da mulher ardente igreja
sendo a pausa do seio vermelho e branco.

A nuvem que atravessa o dom da boca
da imagem liberta do deserto
institui o segredo do ouvido da ave
abrindo o horizonte às negras ancas.

Traição presente da nuvem da figura
redução ao simples animal da erva
pedra para saber o segredo do insecto.
1 050
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

43. Definição do Dia Pela Palavra do Corpo

43
Definição do dia pela palavra do corpo
aceso: cintilação das imagens sob
a escrita não límpida e escrita impura
da negra verdura do não saber exacto.

A aranha verde da folhagem verde
tece as linhas de linguagem e sombra
ardente e esquece o que tece esquece a arma
o corpo do desejo armas discretas.

Quem saberá do silêncio das folhas
e da perspectiva incendiada sob
a não verdade a confusão o medo.
1 062
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

42. Depressa Antes De

42
Depressa antes de
talvez seja o acto de ser na folha
talvez o sangue ascenda à lâmpada da língua.

Quando (aqui: é o desejo) a folha
na limpeza do vento
descubra as brancas pernas altas da mulher
a alegria da nudez
do súbito do ser.

Depressa na lentidão do acto azul
por dentro do opaco na direcção partida
fora do círculo no aberto instante.
937
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

59. Consoladora (Como) Considerando Estrelas

59
Consoladora (como) considerando estrelas
imprevistas aqui a mão mantendo a mão
como parte inerente a outro corpo escrito
inversão não ou vida, inclusão no viver.

Perante um tu que não se evoca aqui
perante um tu que é desejo de
invocação e terra, negação do sangue,
ou inscrição do sangue na madeira negra.

Tudo o que consome o sabor da terra
será a consumação do culto desta terra
que não é jardim mas cujo espaço é o espaço
e um jardim que se ama: o jardim do espaço.
965
Edmir Domingues

Edmir Domingues

soneto XXXI - Sem fuga

Já não quero um paquete como outrora,
(hoje a ideia de fuga está cansada!)
o promontório é longe, a chuva chora,
as flores sem o amor tombam na estrada.

Mas por fim a certeza hoje ê chegada
de que é contigo que essa noite mora,
noite sabor de noite inesperada,
noite antecipação, previnda à aurora.

Dizem que anjos são machos, nós não cremos.
Acreditamos toquem nossos remos
compassos leves da sonata escusa.

Mas não fogem, sepultam-se no ventre,
e dissolvem-se em sangue e sombras, entre
luzes comuns e risos de medusa.
680
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

56. Mancha da Perna Maternal

56
Mancha da perna maternal
robusta
no pomar secreto na recente vinda
do pai descendo um pouco tímido na água.

Dir-te-ei pela água sexual
do não crime de ver-te
pela vez absoluta do olhar negro
como se não fosses a pequena deusa que não és.

Não tímida não secreta mas pobre de água
olho de um joelho límpido
prosa da terra não sulcada ainda.
976
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

60. Não Oculto a Visão Da

60
Não oculto a visão da
variável paisagem mínima que
seria do desejo sanguíneo deste dedo
nem a pulsão de uma palavra insecto.

O que oculto não sei, o que desejo é a árvore,
a expulsão do pai, substituto, o verde
crepúsculo de uma escrita pobre
no pré-formal desejo da forma e da não forma.

O mais depressa cai sobre a folha: escreve-se
sem a razão do ritmo, o espaço e ainda um ritmo,
uma pressão ou um quase nada, umas palavras
que não dão vida, que não vivem, aqui são.
1 116
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

66. Arma de Folhas E de Folhas

66
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.

O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.

Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
1 089
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

67. Veria Aqui o Rosto, o Punho Frágil

67
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.

Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.

Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
1 061
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

72. Porquê o Porquê a Sombra Viva, a Sobrevida

72
Porquê o porquê a sombra viva, a sobrevida
e escrever estes sinais na folha e não saber
e escrever ainda sem esperança e no desejo
dos sinais de uma paisagem acesa, o esplendor.

O esplendor. O encontro. Aqui jamais
eis o epitáfio e o motor da imagem
negra ou branca na incerta curva
de um verso e outro verso entre os espaços.

E se ela fosse vermelha, ah vermelha!
ela quem? — ela, o esplendor do encontro
tão raro e tão pouco no pouco que é

viver sem esperar, escrever sem esperar,
mas no movimento da imagem interior
acender a imagem da face ou o esplendor.
1 084
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Fome de amor

Acordarei com fome nesta noite.
Fome do teu amor distante e vago
que repousa na borda de algum lago
que em seu silêncio todo acaso açoite

o teu repouso injusto, enquanto pago
um preço de recusa, enquanto foi-te
dado amor de vigília, de pernoite,
de uma insônia insuspeita. Entanto afago

a lembrança restante nesta quadra
ao passo que no lado escuro ladra
cão, demônio, orixá de bruxaria.

Dama do lago, antiga mas presente,
no tempo de esperar constantemente,
que há séculos se esquiva e renuncia.
730
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nada No Instante do Tremor

Nada no instante do tremor
nada precede nada
o movimento surge instando conduzindo
numa área de emergência ambígua
até que o enlace intangível nos desnude.
1 032
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

83. o Pulso Activo. a Água Dos Insectos

83
O pulso activo. A água dos insectos
abertura e queda noutro poema visto
e fogo oculto solicitando a pedra
a queda de uma cor talvez vermelha.

O corpo sob a nuvem, o pulso activo,
o corpo descoberto sob o lençol da pedra
com os lábios devorando os lábios livres
e com a água de um ventre harmonioso.

E o ser translúcido sob o pulso activo
o ser da queda na abertura viva
a terra descoberta na transparência da água.
1 047
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Soneto do amor imperfeito

Território de flores. Chão de plumas
o plano do lençol. A cachoeira
dos sedosos cabelos. Como a esteira
do barco do prazer. Penumbra. Algumas

murmurações, sussuros, numa feira
segunda. No país das grandes brumas.
O bom vinho de múltiplas espumas
e o amor do amor e a festa costumeira.

Não subimos o monte. Ao rés da terra
ficamos. Sob a paz. Não houve a guerra.
As legiões cansadas, fria a clava.

Mas houve Ela. E a carícia desmedida.
Cada instante mais bela. Colorida
na pintura dos beijos que eu lhe devo.
724
Martha Medeiros

Martha Medeiros

sente minha raiva canibal

sente minha raiva canibal
te mordo te sinto te como
e como me fazes mal
868
Nelson Motta

Nelson Motta

Amare, Há Mares

te amar suave e silenciosamente
como o vento às velas,em movimento
como o fogo à vela, luzente
como a planta à terra:semente

navios iluminados nos teus olhos-cais

paisagem erótica

no ventre do vento
uma chuva enxuta
aguarda o arco-íris.
por ele se molha e se derrama
se enterra na terra
sob um céu celestial.

querer & poder

os casais,
sejam de opostos ou iguais,
quanto mais se querem,
mais são anti-sociais,
e é natural que assim seja:
o apaixonado deseja
nada além de dois e sonha
com de dois fazer um, sós.
como o poder, que pretende,
suprimindo as diferenças,
tornar uma só vontade
a de todos
os casais.

999
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Permanece Ainda Enterrado Pobre

O que permanece ainda enterrado     pobre

no vazio nocturno

minha terra latente

no tempo sem sinais em que os sinais prolongam

os sulcos de uma sombra maquinal e branca

e o meu desejo é uma imagem

minúscula

uma pobre frase com duas árvores nuas
973
Nelson Motta

Nelson Motta

Cara

Para Cora
Você é uma mulher cara,
minha cara,
caríssima:
o coração endividado até a alma
pede concordata, quebra e
fale,
diga:

prisioneiros do desejo

teu desejo é cadeia que enleia
elo que soma nosso ele e ela,
o meu desejo é sempre ir e vir
para teu corpo como planta à terra.
enterra esses teus fundos olhos dentros meus
e dá-te a mim, mata-me, possui-me
para que seja eu as asas do teu vôo
que sou eu, teu, o tanto quanto és tua.

1 124
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele corre

ele corre
e abre a grande angular


eu foco a fantasia
e a gente ri que dói


ele Fórmula 1
eu capa da Playboy
1 156
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Soneto do amor imperfeito

Mas houve no outro dia o amor ardente
em país de outras flores. No outro dia.
Esquecido o desastre, a clava fria,
a noite do insucesso ainda recente.

Por que não houve nada quando havia
o clima da atração mais que presente?
Mistério da surpresa e da agonia
do vendaval descido sobre a gente.

Há sempre um outro dia sem tropeço,
que desvira o que estava pelo avesso,
que nos conduz, do vale, a outra subida.

A vitória do sempre sobre o instante,
o retorno da força adormecida,
o vir do duplo orgasmo deslumbrante.
751
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Soneto das estrelas sem conta

E eu galguei o alcantil tendo-a em meus braços,
vestida não de sol, porém de lua,
e havia cavalgadas nos espaços,
seu suave suor, e estava nua.

Houve então cavalgadas sobre a terra,
o espanto do luar que tudo via,
e a grande paz que habita nessa guerra
de corpos enlaçados em porfia.

Veio depois o estranho cataclismo
desse grande vazio de depois.
À margem desse negro mar, o abismo
do mar, ao pé da soma de nós dois.

        A Mão do Orvalho então, sabe fazê-lo,
        pôs estrelas sem conta em seu cabelo.
738