Poemas neste tema

Desejo

Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

Ouro

O ouro é o amado, o longínquo,
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.

Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.

Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.

Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.

Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.

Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
1 080
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

ÚLTIMA TENTAÇÃO

E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
552
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

Triângulo cabalístico

Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos

Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina

Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores

Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada

Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente

Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes

Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos

Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar

Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
683
Soares de Passos

Soares de Passos

Desejo

Oh! quem nos teus braços pudera ditoso
No mundo viver,
Do mundo esquecido no lânguido gozo
D'infindo prazer.

Sentir os teus olhos serenos, em calma,
Falando d'além,
D'além! duma vida que sonha minha alma,
Que a terra não tem.

Eu dera este mundo, com tudo o que encerra
Por tal galardão:
Tesouros, e glórias, os tronos da terra,
Que valem, que são?

A sede que eu tenho não morre apagada
Com tal aridez:
Pudesse eu ganhá-los, e iria seu nada
Depor a teus pés.

E só desejando mais doce vitória,
Dizer-te: eis aqui
Meu ceptro e ciência, tesouros e glória:
Ganhei-os por ti.

A vida, essa mesma daria contente,
Sem pena, sem dor,
Se um dia embalasses, um dia somente,
Meu sonho d'amor.

Isenta do laço que ao mundo nos prende,
A vida que vale?
A vida é só vida se o amor nela acende
Seu doce fanal.

Aos mundos que eu sonho pudesse eu contigo,
Voando, subir;
Depois que importava? depois no jazigo
Sorrira ao cair.
971
Rose Marie Muraro

Rose Marie Muraro

Tu vieste como um pássaro

Tu vieste como um pássaro
E pousaste no meu ombro
E eu fui habitada
Pela paixão da entrega.

Eu te amei antes que tu existisses
Como o deserto que tem sede de água
E as flores tem sede da luz
E te amei como a pedra ama a terra
Que lhe dá sua força.

Com teu bico colocaste na minha mão esquerda
A semente da morte
E na direita a semente da vida
Para que com as duas juntas
Eu fizesse a escolha de cada momento
Ligando o instante à sua profundidade eterna.

Pássaro de fogo
Capaz de queimar sem consumir
Estás dentro de mim.

Pássaro de fogo
Irei onde tuas asas me conduzirem
E meu caminho se tornou incandescente
Como teus olhos.

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=273067 © Luso-Poemas
734
Alcides Villaça

Alcides Villaça

Cromo

na seda sob spot de lençol
a sereia denise pisca um seio e cobre o outro com mãos de virgem
[maria

no choque da pele rosa
o bom diabo e a boa burguesia brincam de enformar
a deusa atávica das barbearias


In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série O Jogo das Ondas
1 132
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

A Maçã

As altas chaminés da fábrica,
Na noite remota da infância
Eram troncos rubros, eram fogo.

Na fruteira lavrada havia a maçã.

Os pesados carros, as sirenes,
As correrias dos homens, os gritos,
Os uivos das mulheres, as explosões.

Na fruteira a maçã amadurecia.

Incandescências vogavam na noite,
Havia vento, era um chicote quente,
Os corações pulsavam, os corações.

Na fruteira a maçã suava.

Nas alturas o cogumelo de fogo,
Um outro sol como se fora fábula,
Crepitava, meu corpo tremia.

Na fruteira a maçã crestava.

Chama fremente da cor do que arde,
O cogumelo de fogo da noite fazia dia,
E a cada explosão as chamas repartia.

Na fruteira a maçã gretava.

Tornou-se desejo o cogumelo longínquo,
Cobiça de criança, deslumbramento,
Possuí-lo seria belo, diferente.

Na fruteira a maçã abria-se.

De manhã findo o fogo, apenas o fumo,
Ao esplendor sucedera a monotonia,
Fora-se o sonho, só o cinzento havia.

Na fruteira a maçã tinha a cor do lume.
1 130
Paul von Heyse

Paul von Heyse

SE O AMOR TE ATINGIU

Se o amor te atingiu
tranquila entre buliçosa gente
numa nuvem dourada segues para frente
imune, guiada por Deus.

Parecendo estar sem rumo
deixas teu olhar vagar em volta
e a seus prazeres a distante escolta
–governada por um só desejo.

Em vão negando, contestarias,
assim, timidamente, em si mesma encantada,
que, neste instante, a coroa da vida
resplandecendo, enfeita tua fronte.
667
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

O Desenho do Corpo

Na palma da mão tenho um insecto,
Na arca do peito um coração,
Na curva do ventre uma teia.

Duas estradas são os meus braços,
Dois ramos as minhas pernas,
Vivo no espaço do tempo.

Na minha pele há uma história,
Feita de antigos sinais,
Cada um deles é um rosto.

Meus dedos são alicates,
Máquinas do ofício de viver,
Por eles sei o nome do amor.

Os olhos, esses, sempre o disse,
São espelhos que se mostram,
Quando os uso prolongo o canto.

A minha auréola são os cabelos,
Coroa de quem se oculta,
Manto sedoso, duna do corpo.

Com os lábios beijo, urdo os sentidos,
A saliva é o líquido que escorre
E cativa o desejo de quem quero.

Em mim tenho a página do segredo,
O impulso do mistério inteiro,
Do canto a que me dou, dando-me.
1 023
Paulo Eiró

Paulo Eiró

Surpresa

Achei-a reclinada, em desalinho
(Só de nisso pensar, quase endoideço!),
Tal como pombo cândido e travesso
Por entre a loura palha de seu ninho.

Ergue a cabeça e, vendo-me sozinho,
Aos ombros lança um chale pelo avesso,
Gritando-me: "Sai!" Não obedeço,
Que um "Ficai!" em seus olhos adivinho.

Delirante, o seu peito mal composto
Aperto, beijo os dedos de veludo,
A espraiada madeixa, o belo rosto.

Diz-me corando, enquanto a adoro mudo,
E sua voz penetra-me de gosto:
"Já que parte entrevistes, dou-vos tudo!".


Poema integrante da série Primícias Poéticas, 1853/1854.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
1 702
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

A Luz Encarnada

A luz encarnada é o proibido
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.

A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.

A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.

A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.

A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.

Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
1 045
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

Fetal

Fetal dentro do escuro da mãe,
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.

Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.

Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.

Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.

Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.

Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.

Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
993
Afonso Lopes de Baião

Afonso Lopes de Baião

Em Arouca Ua Casa Faria

Em Arouca ũa casa faria;
atant'hei gram sabor de a fazer
que já mais custa nom recearia
nem ar daria rem por meu haver,
ca hei pedreiros e pedra e cal;
e desta casa nom mi míngua al
senom madeira nova, que queria.

E quem mi a desse, sempr'o serviria,
ca mi faria i mui gram prazer,
de mi fazer madeira nova haver,
em que lavrass'ũa peça do dia,
e pois ir logo a casa madeirar
e telhá-la; e pois que a telhar,
dormir en'ela de noit'e de dia.

E, meus amigos, par Santa Maria,
se madeira nova podess'haver,
log'esta casa iria fazer
e cobri-la e descobri-la ia,
e revolvê-la, se fosse mester;
e se mi a mi a abadessa der
madeira nova, esto lhi faria.
723
Júlio Maria dos Reis Pereira

Júlio Maria dos Reis Pereira

Amo-te Tanto

Amo-te tanto
nem sei porquê!
Que importa o quê
do meu espanto?

Que importa o riso
que me concedes?
Que me embebedes!
Que paraíso!

Indiferente
quero-te assim.
- Sê bem de mim,
de toda a gente...

Rasgou-se o véu
do temporal.
Nem bem nem mal.
Entras no céu.
712
Júlio Maria dos Reis Pereira

Júlio Maria dos Reis Pereira

Nua

I
Nua
como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo
é água de torrente...

Eva adolescente,
com reflexos de lua
e tons de aurora...!

Roseira que enflora...!

Desflorada por tanta gente...

II
Teu corpo,
mal o toquei...

Só te abracei
de leve...

Foi todo neve
o sonho que alonguei...

Asas em voo,
quem, um dia, as teve?

Os sonhos que eu sonhei!

III
Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança
do ramo de árvore
que o vento beija e balança!

Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!

Quem destrançou os teus cabelos de oiro?

IV
Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos...

Tão macio,
tão modelado...

Beijos... Beijos... Beijos...

V
No meu sono
ela flutua
a cada passo...

Nua,
riscando o espaço
numa névoa de outono...

Apenas nos cabelos
um azulado laço...

E assim enlaço
a imagem sua...
704
Fernando Echevarría

Fernando Echevarría

Amor à Vista

Entras como um punhal
até à minha vida.
Rasgas de estrelas e de sal
a carne da ferida.

Instala-te nas minas.
Dinamita e devora.
Porque quem assassinas
é um monstro de lágrimas que adora.

Dá-me um beijo ou a morte.
Anda. Avança.
Deixa lá a esperança
para quem a suporte.

Mas o mar e os montes...
isso, sim.
Não te amedrontes.
Atira-os sobre mim.

Atira-os de espada.
Porque ficas vencida
ou desta minha vida
não fica nada.

Mar e montes teus beijos, meu amor,
sobre os meus férreos dentes.
Mar e montes esperados com terror
de que te ausentes.

Mar e montes teus beijos, meu amor!...
800
Colombina

Colombina

A Carne

Exiges. És ciumenta e egoísta. Não admites
qualquer rivalidade, ou que algo te suplante.
És forte e audaz no teu domínio sem limites,
capaz de transformar a vida, num instante.

És mísera e brutal. Mas nada obsta que agites
e açambarques o mundo! E que essa alucinante
e estranha sensação, que aos humanos transmites,
tenha, como nenhuma, um halo deslumbrante.

Ó carne que possuis no teu imo maldito
mais lodo que contém um charco pantanoso,
mais esplendor também que os astros do Infinito!

Rugindo de volúpia e de sensualidade,
espalhando na terra apoteoses de gozo,
ó carne, serás tu, a única verdade?


Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 397
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Beber a vida num trago, e nesse trago

Beber a vida num trago, e nesse trago
Todas as sensações que a vida dá
Em todas as suas formas, boas, más,
Trabalhos e prazeres, e ofícios,
Todos lugares, viagens, explorações
Crimes, lascívias, decadências todas.

                              D'antes eu queria
Embeber-me nas árvores, nas flores,
Sonhar nas rochas, mares, solidões.
Hoje não, fujo dessa ideia louca:
Tudo o que me aproxima do mistério
Confrange-me de horror. Quero hoje apenas
Sensações, muitas, muitas sensações,
De tudo, de todos neste mundo — humanas
Não outras de delírios panteístas
Mas sim perpétuos choques de prazer,
Mudando sempre
Guardando forte a personalidade
Para sintetizá-las num sentir.
                                           Quero
Afogar em bulício, em Luz, em vozes,
— Tumultuárias coisas usuais (
O sentimento da desolação
Que me enche e me avassala.
                                                Folgaria
De encher num dia, numa hora, num trago
A medida dos vícios ainda mesmo
Que fosse condenado eternamente (
Loucura — ao tal inferno.
A um inferno real.
1 441
Fernando Guimarães

Fernando Guimarães

A Posse

Que súbita suspeita — dália enorme —
passara como a sombra nos teus cílios,
se a manhã chega enquanto de nós foge
o tempo que já tinha destruído.

Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.

Cabelos desgrenhados, fugitivos,
e vento não havia, ou quase chama
nos rins, na pele, um cancro que consome

este pecado casto, e já os lábios
se fecham, quando rápida ou mais funda
em nós cresceu a ferida dos sentidos.
743
Armando Silva Carvalho

Armando Silva Carvalho

O AMOR NAS ESCADAS DO METRO

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.

Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.
722
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Detestei logo o Doutor Fausto.

Detestei logo o Doutor Fausto. 
Em sua casa sofri vida severa e claustral,
e foi um indizível gosto
quando o áspero eclesiástico
morreu lastimosamente de um carbúnculo.

Passei então para a divertida hospedagem das malícias,
e conheci logo, sem temperança,
todas as independências da pele.
Nunca mais rosnei a deslavada oração a Santa Rita,
nem dobrei o meu joelho viril
diante de imagem benta que não usasse minissaias.
Embebedo-me com alarido;
afirmo a minha robustez, abrindo sanguinolentamente os
paradoxos ao meio;
farto a carne com ginásticas subterrâneas;
e, como a barba me vem basta e negra,
aceito com orgulho a alcunha de Raposão.
Todos os quinze dias, porém, escrevo à Yvonne,
com a minha letra de míope,
uma carta alegre mas piedosa,
onde lhe conto a austeridade dos horários do bar,
o recato dos meus gins tónicos,
as copiosas rezas e as rígidas ressacas.

Escrevo muito porque eu sei que,
ao fim de mil páginas,
haverá sempre algum crítico
a comparar-me com Proust.

Escrevo-te, sobretudo,
na esperança de que o Raposão seja mais inteligente e mais
bonito do que eu.
O Raposão tem muitos pêlos no peito,
tem uma voz grossa.
O Raposão deve conseguir fazer-te regressar.
847
Amália Bautista

Amália Bautista

Em dieta

Deitei-me sem jantar e nessa noite
sonhei que te comia o coração.
Deveria ser por causa da fome.
Enquanto eu devorava aquela fruta,
que era doce e amarga ao mesmo tempo,
tu beijavas-me com os lábios frios,
mais frios e mais pálidos do que nunca.
Deveria ser por causa da morte.
549
Filipa Leal

Filipa Leal

O minuto certo

Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te 
que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas 
em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, 
o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas 
caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se 
fecha para o amor. Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde 
alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu 
nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas 
que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri 
as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos,
de cigarro na mão. Eu nunca me 
comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, 
entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto 
certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses 
certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu 
nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de 
ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da 
viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te 
disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca 
quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses 
para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por 
dentro e tu por dentro de mim. 

Queria de ti um minuto. Um minuto. 

970
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPITALÂMIO – XIV - T

O noivo anseia pelo fim de tudo isto no cio
De conhecer essas entranhas em chupados sorvos,
De pôr primeira mão nesse cabelo do ventre
E apalpar o fojo labiado,
A fortaleza feita para ser tomada, e pela qual
Sente o aríete engrossar e doer de desejo.
A trémula alegre noiva sente todo o calor do dia
Nesse lugar ainda enclaustrado
Onde a sua virginal mão nocturna fingia
Um vazio lucro de prazer.
E dos outros a maior parte é disto que segredará,
Sabendo o rápido trabalho que é;
E as crianças, que observam com ávidos olhos,
Agora antegozam de saber
Da carne, e com homens e mulheres crescidos fazer
O acto coceguento e líquido
Por cujo sabor em cantos escusos tentam
O que mal sabem como é seco ainda.
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