Poemas neste tema

Corpo

Herberto Helder

Herberto Helder

Iii K

Num espaço unido a luz sacode
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
1 075
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Que Não Mata...

a queixa é muitas vezes o resultado de uma insuficiente
capacidade
de viver dentro
das óbvias restrições desta
maldita gaiola.
a queixa é uma deficiência comum
mais prevalente do que as
hemorroidas
e quando as escritoras atiram seus sapatos pontudos
em mim
choramingando que
seus poemas jamais serão
promulgados
tudo que posso lhes dizer
é
me mostrem mais perna
me mostrem mais bunda –
isso é tudo que vocês têm (ou eu tenho)
enquanto
dura

e por causa dessa comum e óbvia verdade
elas berram na minha cara:
SEXISTA PORCO FILHO DA PUTA!

como se isso fosse mudar o modo como as árvores frutíferas
deixam cair suas frutas
ou o oceano traz à praia o pó e
os esporos mortos do Império
Greciano

mas não sinto mágoa nenhuma por ser chamado de algo
que
não sou;
na verdade, é arrebatador, de certo modo, como uma boa
massagem nas costas
numa noite congelante
atrás do teleférico de esqui em
Aspen.
652
Herberto Helder

Herberto Helder

Iv C

Se houver ainda para desentranhar da assimetria
dos sítios, das estações,
alguns bocados do corpo vibrando do ar que o atravessa,
alguns núcleos rútilos, pedaços
de intestino,
fígado, testículos, traqueia, placas da testa, se houver
água nos orifícios, ouro
nas fieiras
secretas, uma coisa como palavras mexendo por causa
de um vento interno, isso
a que chamo por enquanto,
se houver,
feixe de carnes cruas, uma
posta de sangue,
ou centro de um poema,
ou cega massa que se ajunta, oh Deus,
com tanta força para soprar um pouco,
fulgir o anel no dedo sem unha que aponta,
se houver o nome de si mesmo
como
um nó corrido na garganta
— é isto agora: nenhuma obra mas aquela
arquitectura que a luz
sustentava:
e já se abriam as portas e as noites vinham fechá-las.
986
Herberto Helder

Herberto Helder

V A

Dentro das pedras circula a água, sussurram,
ouve-se, ficam escuras,
frias,
tocamo-las: abalam-nos,
e os ramos de sangue dos dedos ao coração,
à cabeça,
arrefecem os nossos nomes, lento
alimento da morte.
1 048
Herberto Helder

Herberto Helder

Iv K

Com uma pêra, dou-lhe um nome de erro
entre mim e tudo, na mão, amadureço
enquanto ela se torna propícia,
amarela ao influxo do vento de estrela para estrela.
O sangue da mão ensombra a fruta na sua volta
de átomos, abala
imagem, arquitectura.
E o espaço que isto cria: a noite
aparece no ar. E dura, leve, tersa, curva,
a linha
do fogo entrecruza
os pontos paralelos: a pêra desde o esplendor,
a mão desde
o equilíbrio, os centros
do sistema geral do corpo, o buraco negro.
Morro?
Escrevo apenas, e o hausto aspira
dedos e pêra, enigma e sentido, ordem, peso, o papel onde assenta
a constelação do mundo com esse buraco
negro e as palavras em torno.
No instante extremo de
desaparecerem.
Se morro, é por exemplo.
1 114
Fernando Batinga de Mendonça

Fernando Batinga de Mendonça

Poema do Homem Latino-Americano

Para Diego de Rivera,


em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.

teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.

estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.

um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
1 133
Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Cabelos, os Meus Cabelos

Cabelos, los meus cabelos,
El-rei m'enviou por elos.
JOÃO ZORRO


Cabelos, os meus cabelos,
que fontes de negro espanto!
descendo por minhas costas
com segredos de floresta:

meus peitos, meus peitos altos,
são tochas em meio às trevas,
ardendo com seus perfumes,
queimando com fogos claros;

trago uma lua nos ombros,
cascatas pelo meu corpo,
e as sombras da madrugada
no topo de minhas coxas.

Meus peitos, meus peitos nus,
para o amado os tenho virgens:
se ele os pudesse colher,
duros ramos de alecrins!

Teria em corpo desnudo
a ternura do bom Deus,
as mãos derramando trigo
sobre papoulas dormidas.

Cabelos, os meus cabelos,
el-rei os mandou buscar
para os prender em seu leito:
meu corpo, o triste, vai junto.

Não mais verei os meus bosques,
não mais os trevos em flor:
minh'alma geme na estrada,
anoitecendo os caminhos.

Quer el-rei os meus cabelos,
e quer também o meu corpo:
arderei nas madrugadas,
rosa austera em grave leito.

Meu alvo corpo desnudo,
deserto avaro de estrelas,
um sonho de areias brancas
em brancas dunas a pique...

Arderei nas madrugadas,
sofrendo amargos carinhos:
meu coração, o infeliz,
suspira, pombo ferido.

Cabelos, os meus cabelos,
el-rei deseja o meu corpo:
sangrarei sobre seus linhos
como uma rola flechada.

Cabelos, os meus cabelos,
meus peitos, meus peitos altos,
meu virgem corpo desnudo
já não será para o amado.


In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
1 411
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eu Provo As Cinzas da Sua Morte

as florações agitam
água súbita
por minha manga,
água súbita
fresca e limpa
como neve –
enquanto as espadas
de caules afiados
avançam
contra seu peito
e as doces selvagens
rochas
saltam por cima
e
nos prendem.
642
Herberto Helder

Herberto Helder

A Menstruação Quando Na Cidade Passava

A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.

As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.

O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.

As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.

E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.

As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.

Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,

a menstruação escorria pela neve.
1 220
Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Ouro Preto - Roteiro de Interpretação

Ao contemplar o barroco das igrejas
e a rouquidão do ouro, o visitante olhar
não funde o corpo ao tempo: outeiros
tão escuros e não compreende o silêncio
de um totem antes jamais percebido.
O barroco não é o cansaço do ouro
mas o direito do explorado corpo.


In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.60. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
1 041
Herberto Helder

Herberto Helder

V C

O astro peristáltico passado da vagina à boca,
mãe e filho, pelo filho passado
à luz escrita:
com dedos virgens
arranco ao mundo os objectos da noite e do dia,
arranco-os, brilhando, disponho-os
assim urgentes
na teia electrónica do idioma:
e em todas as linhas de mármore do poema do nascimento
sinto o abalo,
a respiração narrativa:
orvalho sobre a fruta,
fruta no prato,
e garfo e faca para abrir o coração da fruta
na mesa ponta a ponta acesa:
insectos cheios de nome, o astro como uma aranha na teia
devora-os vivos
— e então eu morro do que nasci na boca,
e ponho o mármore em cima do poema para que nada se mova.
1 099
Herberto Helder

Herberto Helder

Mulheres Correndo, Correndo Pela Noite.

Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.

E o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.

De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras — nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.

Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.

Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.

Correndo, lembrando, batendo.
1 313
Herberto Helder

Herberto Helder

3.

Esta ciência selvagem de investigar a força
por dentro dos olhos:
a treva parada numa parte: do outro lado faiscando
todos os astros:
as obturações as
aberturas na carne: não sei ver nos livros a aparição do rosto
todo cercado por uma casa:
não conheço quando nasce a ribeira no meio:
quando nasce quando
a ribeira de uma montanha
no meio
brilhante:
a maldade da linguagem se o cinema mostra
as janelas das paisagens:
e essa forma repleta de passos para indagar:
e então é preciso outra maneira de poema: uma
espécie furiosa de pessoa comentando
com muito pormenor:
cabeças cheias de raiva e murmúrios no escuro:
a intensidade dos cabelos em volta dos cornos: e logo o poema
traz as coisas para o quarto: coloca
tudo mais perto do centro:
vê-se a teia que vai da fronte às coxas com os braços reluzentes
por cima
e no meio um remoinho cego:
o sexo: a estrela
tumefacta:
esta ciência é um movimento das mãos contra o espelho:
a parte de trás da cabeça onde vibra o meteoro: é
a onda aproximada: uma porta na sala
que fecha de estrela a estrela:
apenas o sangue e a testa um pouco louca entre os dedos:
copo de mármore:
planeta de aço:
uma flor rija ascensional com os pulmões chamejando
na terra:
essa velocidade que há na noite de lado a lado:
e a testa fervente abismada no mundo: e os pólos
do corpo:
clareira
cerrada à volta: esse modo secreto de tudo mexer
com uma finura viva:
não sei que dedos no estilo para queimar a cara forte
paralisada: a combustão
dentro da fotografia: a sibilante cara:
a cara:
e a maneira sagaz de trazer cada coisa até à própria labareda:
as mãos enxutas muito abertas: o
medo sem um só grito
em frente da noite cosida: camisa
redonda: e este saber
que vê passar os animais fundos e claros e tem
a sua loucura para alimento:
e a casa
para morrer e falar durante o sono e andar
de um canto para outro
com os dedos alumiando limpamente: o circuito magnético entre as
têmporas:
a raiz da ciência desde os pés até aos olhos
2 017
Herberto Helder

Herberto Helder

4.

Esta é a mãe central com os dedos luzindo,
sentada branca sob a cúpula da cabeça truculenta, enquanto
as ressacas do sangue cantam nas cavernas;
este é o pólipo vivo agarrado ao meu peito como um mamilo
nas massas tecidas
sobre o coração; que tem as garras
à mesa
entre os talheres e a louça,
e noutros quartos é tão profunda se cai
o dia pela parede como uma janela,
se o espelho cai assim com o dia profundo
para dentro sempre
e para fora, uma poça;
é centralmente toda a mãe com uma cara magnificada
expelida pelas noites,
sussurrando;
matriz mater madre e madrepérola
e pedra matricial minada pelos meandros da própria
água
fina em sua agulharia de veias e artérias;
fundamento
de pavor e doçura, o pêlo brilhando sobre atesta,
os nós todos da cara,
a boca até à garganta,
o vestido
brilhando entre os braços ressaltados e sobre as pernas;
este corpo que me engolfa
como seu alimento entre os dentes e o ânus, e seu murmúrio
impelido dos pulmões, sopro que o sangue entenebrece
e na boca clareia como uma volta
de seda;
os feixes de um candelabro que fixa a casa
desde as funduras de sua obscura teia;
esta é a mãe animal caçada na floresta mitológica,
a besta aluada sob as redes
e as flechas;
paisagem que eu crio fora com meu
movimento,
ou beleza acerba de um rosto já sem fronteiras,
a fenda na fronte apresentada ao lume implacável
de cada estrela; e fundura
para os sóis que a noite arremessa, enquanto a lua
paralisada
sustenta o seu abismo,
e as cobras fazem laços dentro da terra,
e nos sítios mais escuros irrompem rosas cor de esperma,
e ao alto ascendem os copos em cima das toalhas,
rutilando nos seus astros pequenos
como unhas,
os dedos inumeráveis, os rostos;
toda essa árvore de púrpura dos precipícios do mundo
até ao centro onde pulsam os frutos vivos
como pessoas,
como caras,
limpidamente
como
copos abruptos a transbordar de álcool.
984
Herberto Helder

Herberto Helder

3

Sei às vezes que o corpo é uma severa
massa oca, com dois orifícios
nos extremos:
a boca, e aos pés a dança com a coroa de labaredas
— a cratera de uma estrela.
E que me atravessa um protoplasma
primitivo,
uma electricidade do universo,
uma força.
E por esse canal calcinado sai
um ruído rítmico, uma fremente
desarrumação do ar, o verbo sibilante,
vento:
o som onde começa tudo — o som.

Completamente vivo.
1 129
Herberto Helder

Herberto Helder

2

Aberto por uma bala
de fora para dentro. Como um olhar de Deus,
ou da paisagem,
até à raiz do nervo de que vivo todo.
Aberto, descoberto.
Ou fechado inteiro para sempre.
E ao furo imaginário queimado
reflui o sangue do mundo.
O nó mais duro, o puro nó da carne
— o centro.
Furioso fulcro do espírito.
E aí que penso.
Por onde falo ainda tão depressa
que ressuscito, ardido.
1 069
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Mulher Adormecida

fico sentado na cama à noite e ouço você
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
705
Herberto Helder

Herberto Helder

5.

Não se pode tocar na dança. Toda essa fogueira.
Uma paisagem temível vista depressa
desaparecida.
Porque é tudo sublevado para o olhar.
E é profundo quando vibra um colar de água
no coração da pedra muito limpa.
A dança de baixo para cima. Nunca
uma árvore pôde assim respirar tão entranhada.
Constelação que palpita
em sua imagem
de raízes carnais. E as grandes frutas imóveis
como rostos
contemplados aqui. O sono ferve na cabeça dos mortos.
Os diamantes. Os cabelos
torcidos como garras. Baixos. Violentos.
Ainda.
E o fogo arrasta as serpentes para fora. Alua move
as portas. O sangue brilha no fundo
da boca. Isto é o incêndio
dos braços entreabertos, das espáduas.
Porque tudo caminha inspirado em si mesmo.
Jardins em arco, as casas.
E a dança desde o umbigo puxa os tentáculos à volta.
O dia expulsa as estrelas
das poças. Que os chifres
estremeçam sob as lunações giratórias.
O leite nas tetas. O pêlo amansa.
Pode-se ver a onda a bater nas omoplatas. As coxas
rodando os seus lentos planetas que se afastam.
Da terra,
do meio. Explode a estação mais branca.
Branca no ano.
Vergam-se os quartos. E as caras
demenciais docemente quando aparecem
massacradas.
Onde a luz acaba e a treva toda se volta.
Uma camisa torácica
posta apanhada a cada clarão. Isso com as unhas
a luzir. Em cima os dedos nas mãos. As cobras
hipnóticas.
Dizem que o mel novo enlouquece as pessoas. A dança
arrasta os mortos. Simétricos,
fechados como laços,
como jóias.
Até às ressacas das paisagens que se movem
dia a dia. Pelos incêndios dentro dos animais. Solenes
pedras
sumptuárias. A dança
guiando as montanhas sobre as águas.
Navios cegos.
Branca floresta.


1977.
556
Carlyle Martins

Carlyle Martins

A Ninfa

No bosque silencioso em que se inflama
o alto sol e onde as árvores em torno
Se condensam, formando implexa rama,
Passa um corpo de Ninfa, esbelto e morno.

É noite. Um luar de opala se derrama...
Nas clareiras, a Ninfa, — excelso adorno — ,
Teme um Sátiro audaz, de olhar em chama,
Que a persegue dos lagos no contorno.

Corre a Ninfa sutil no ermo do bosque
Através da intrincada ramaria,
Embora o mato às pernas se lhe enrosque,

Fugindo ao capro, célere recua:
— Do olhar mostrando a fulva pedraria
E o sereno esplendor da carne nua.

2 057
Herberto Helder

Herberto Helder

Há Dias

Há dias em que basta olhar de frente as gárgulas
para vê-las golfar sangue. E quando
a pedra está a prumo, quando a estaca
solar se crava atrás das casas e amadurece
como uma árvore.
Mas também ouvi a água bater directa
nas trevas. Por um abraço do sangue eu estava
condenado
ao extravio mortal. Era um dom que me fundia
à substância primária
do terror.
E à riqueza e energia. E à tremenda
doçura humana. Vejo algerozes escoando a massa
das cúpulas, a forma, supremas rosas de pedra
rotativa.

E que leão me beijou boca a boca, juba e cabelo
trançados numa chama única?
Esse beijo afundou-se-me até às unhas.
Aparelhou-me para besta
soberba, para o sono, o brilho, a desordem
ou a
carnificina. De que leite ardido, de que matriz
ou opulência terrena,
nos vem a danação? Se a pedra
tem uma raiz buscando vida em que teias de carne,
há em cima um Deus agudo,
de fenda no casco, e braços tão abertos que apanha todo o basalto,
como uma estrela elementar. Atrás
das rosáceas
desabrochadas. Do movimento de estátuas
arcangélicas plantadas no refluxo
da pedra. Boca:
bolha de sangue.

E há uma palpitação soturna, uma
delicadeza no cerne: o osso vertebral que assenta
ao meio, no ânus:
o falo — e em torno
gira a catedral. Lenta dança de Deus, da escuridão
para o alto.

O leve poder da lua apenas queima os olhos.
604
Herberto Helder

Herberto Helder

Queria Tocar Na Cabeça de Um Leopardo Louco

Queria tocar na cabeça de um leopardo louco, no luxo
mandibular. Sentir os dedos tornarem-se
de granito. Sentir a deslumbrante
ressaca de pêlo
baixo arrebatar-me furiosamente os cinco dedos.
Como cinco balas de granito.
Uma estrela voltaica.
E tragá-la. E de súbito toda aquela púrpura nocturna
entrar por mim dentro, da mão à cara.
Ou uma ferida que me apanhasse de perna a perna.
Entrar em mim
a fábula da demência e da animal
elegância. Sei que o sangue me pontua, e estremeço
de poro em poro
com tanto ouro suado que me envenena.

Sei que toco.
Que há uma combustão nas partes sexuais
da minha morte. E se olho esse espelho exalado
de mim mesmo, vejo
pérolas, a anestesia das pérolas. Mas
o fósforo precipita-se onde
arrefece a carne, e se torna ligeira. E uma dor
instrumental, a minha própria música
descoberta, enreda-me como o som enreda
os tubos de um órgão.
E então nenhuma razão me escurece além do crime,
da metáfora directa
de um leopardo aluado como uma jóia. E ele levanta
a constelação craniana. Aboca avança, límpida
chaga
até ao meu rosto. E neste espelho das coisas de repente
unidas todas, beija-me por mim dentro até
ao coração.
No meio.
Onde se morre do silêncio central
da terra.
998
Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Piéce Heróique

entro por ti como por um templo canal
aço vóltio arroio satã em tesão de rio
ponho-me orago de costas cabinda rapsódia cã
iridescendo marcha em humor de Nilo
baba vanga emborrachando santa ao altíssimo vazio
entro rapando rompendo faca a remoço do teu corpo
ao meio-dia e neve na têmpera do teu índigo
entro sem [...] afundando em sol a serpente noiva
no gargalho do navegante emboco gafo no lazaento
o verbo invertido no vigor de incesto que é chamar-te pai
e vir-me para cima de todos os teus símbolos
1 329
Herberto Helder

Herberto Helder

4

Boca.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.

Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.

Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.

Nunca durmo.

Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.

Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Adolescentes Repentinos

Adolescentes repentinos, não sabem, apenas o tormento de um excesso
giratório. Com as cabeças zoológicas.
Os anéis nas patas.
Oprime-os para dentro um clarão dançante.
Aquilo que são fora.
A cegueira dos chifres que levantam
como uma enorme estrela
desabraçada. A sua ligeireza busca o peso
da pedra. E o peso que têm
de pura luz sem peso, o movimento sinistro
no chão,
o terror, uma
riqueza violenta — buscam alguém que os toque.
Na boca.

Que os torne transparentes, circulatórios.
E quando as turquesas se cruzam de mão a mão, deixando-as
em brasa,
vê-se que são anjos tocados pelas viboras, anjos
anatómicos e atrozes.
Expostos à lua como animais. Que são escuros
nas espáduas.
Devastam o mundo só de olhá-lo com força.
O sono que os ataca mostra-os
cheios de artérias. E então a delicadeza pesa-lhes
como a morte. Basta tocá-los na cara para que fiquem
brancos. Atravessá-los com o sangue venoso
da insónia, da nossa matéria.

E então a sua carne é uma estrela suada.
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