Poemas neste tema

Corpo

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Aparato Silencioso Das Coisas

As coisas surgem vivas
obscuras nuas secas e marinhas
mar e som desveladas
são paredes redondas
e palmas e jarros no silêncio vivo jorros

surdas    surdas   mar   silêncio
teclas quase pungentes     brancas na memória
mais que serenas temperadas
trémulas     imóveis     altas     impenetráveis     rudes

presenças intocáveis sem espanto assombro puro
ó terra modelada a pão e vinho     ó gérmenes
de água

o sol é fibra e fome alimento do olhar
feliz repouso     apaixonada mão contida
e o espaço que limpais
respira     ó profundas

teclas
temperadas     trémulas

Ó fontes de vertigem     lenta parede branca
dispostas como as torres     neutras simples
definindo     ombros     braços     punhos     mãos
matéria desnuda formas só de matéria

terra dura
veias que assomam sulcos
próximas     profundas     trémulas

teclas
977
Adélia Prado

Adélia Prado

Um Homem Doente Faz a Oração da Manhã

Pelo sinal da Santa Cruz,
chegue até Vós meu ventre dilatado
e Vos comova, Senhor, meu mal sem cura.
Inauguro o dia, eu que a meu crédito explico
que passei em claro a treva da noite.
Escutei — e é quando às vezes descanso —
vozes de há mais de trinta anos.
Vi no meio da noite nesgas claríssimas de sol.
Minha mãe falou,
enxotei gatos lambendo
o prato da minha infância.
Livrai-me de lançar contra Vós
a tristeza do meu corpo
e seu apodrecimento cuidadoso.
Mas desabafo dizendo:
que irado amor Vós tendes.
Tem piedade de mim,
tem piedade de mim
pelo sinal da Vossa Cruz,
que faço na testa, na boca, no coração.
Da ponta dos pés à cabeça,
de palma à palma da mão.
1 263
Herberto Helder

Herberto Helder

21

e eu, que em tantos anos não consegui inventar um resquício
metafísico,
ponho todo o empenho no trânsito das minhas cinzas:
oh retretes terrestres com destino final nas grandes águas
marítimas:
glória atlântica,
índica megalomania das tripas!
1 002
Herberto Helder

Herberto Helder

24

porque já me não lavo,
porque desde os oitenta só me lavava em água soberba
(água que não há)
porque mal acordo tenho muita pressa e vou correndo ver
se o sonho bate certo
(com que pode bater certo sonho tão limpo?)
porque o mundo seria turvo e eu não me curvaria nunca,
e então não me lavo,
ileso o corpo,
sôpro que me tinha no ar,
impalpável tecido de um jogo,
o sentimento de não haver nenhum tempo
senão aquele mesmo nenhum que era sempre:
à noite vinha o orvalho,
manhã muito cedo era só sossego,
depois a erva estremecia e moviam-se as colinas
para sítios que ninguém sabia,
depois a gente banhava-se que era tudo quanto se podia ver
em cima do universo:
a terra não tinha costuras,
nem secreto e aberto, nem dentro e fora, nem sujo e limpo,
nem ninguém tomava banho senão aquilo:
estou tão lavado que estremeço de tudo o igual a mim mesmo,
limpo tanto que mete medo desde o chão ao imenso arco
do abraço com aquilo sossêgo:
nome de banho senão êste:
externo extenso extremo
escrito tão magno
tamanho banho:
denominação: dominação de tudo
— nome é baptismo,
imo é o sítio
784
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ver

ao Luís Pignatelli


De um olhar livre
se vive

Olhando a folha
abria-se

Da superfície ao fundo
exactamente assim

É um muro onde se vence
a inércia cega

O pó que pisas
é de um astro

A terra gira
em ti
devagar

É bom por vezes estar

Os olhos vêem dentro da tela

É uma tempestade
(mas não te abrigues)

O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio

Lembras-te de um jantar antigo

É a língua da pedra

O olho faz-se víbora
e lambe o fogo

A terra é um planeta
são os teus pés que vêem

A tua mão tem olhos

Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
778
Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - Iii

As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus —
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga —
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.

O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.

Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
— Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.

Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas — envoltas pela sua roseira em brasa —
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.

E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
1 340
Adélia Prado

Adélia Prado

Vitral

Uma igreja voltada para o norte.
À sua esquerda um barranco, a estrada de ferro.
O sol, a mais de meio caminho para oeste.
Tem uns meninos na sombra.
Eu estou lá com o pé apoiado sobre o dedo grande,
a mão que passei no cabelo,
a um quarto de seu caminho até a coxa,
onde vai bater e voltar, envergonhado passo de balé.
Tudo pulsando à revelia de mim,
bom como um ingurgitamento não provocado do sexo.
A pura existência.
1 080
Domingos Pellegrini

Domingos Pellegrini

Morte de mãe

.1.
Cercando a cama a gente esperava
escorregar daquele corpo a vida
para chorar (como se a morte
não vivesse sempre impressentida)

Matronas em pé com velhas varizes
machos curtidos em pinga úmidos
na penumbra: escuridão arrependida
(todos pendendo para aquele útero)

E devagar a vida escorregava
daquela boneca vestida de mãe
que abria os olhos e que chorava

e que dizia sempre sim sim sim
e esquecemos num canto qualquer e
para sempre fechou os olhos enfim
 

.2.
A carne quando nova, que beleza
mas vem o tempo com rugas varizes
cascas cansaço calos cicatrizes
careca corcunda cegueira surdeza

Olhar sem brilho e gesto sem leveza
tarde saudosa dos dias felizes
noite de acessos, tosses e crises
um dia a menos, única certeza

Vale a pena viver para isso?
E valerá a pena viver mais?
Mas a carne resiste, eis a verdade:

agarra-se às sopas e ao suspiro
dorme com medo de não acordar
e quando dorme enfim, que dignidade


.3.
E nossa mãe morreu, morreu avó
e tia prima cunhada sobrinha
empregada da casa e da rotina
e então nos móveis descansou o pó

Não teve tempo de ter uma amiga
entre campo e cidade em seu quintal
vassoura pia fogão e varal
e tanta planta da rosa à urtiga

Morreu – mas não desabou o mundo
também não despencaram as estrelas
só apagou-se a luz no criado-mudo

Não morreu de velha mas de canseira
e ainda queria dar algum conselho
quando lhe enchemos a boca de terra


.4.
Muito sol sem discursos e sem bronze
– chegamos, abrimos o caixão e
olhamos e olhamos como se
fosse uma foto para mandar longe

E soluçavam as pedras
por onde a gente tropeçava – tanto que
irmão até abraçava irmão e
o banguelo não ria do corcunda

Então irmanamente depusemos
os beijos de café que ela coou
na face enruguecida que bebemos

Choveu remorso até nas crianças
o silêncio afinal nos abençoou
mas em casa já falamos de herança
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Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 4

Eu podia abrir um mapa: “o corpo” com relevos crepitantes
e depressões e veias hidrográficas e tudo o mais
morosas linhas e gravações um pouco obscuras
quando “ler” se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insónia vulcânica sala contendo toda a febre táctil
furibunda maneira
esse era então uma espécie de “lugar interno”
áspera geologia alcalina e varrida e crua
exposta assim à leitura que se esqueceu do seu “medo
O corpo com todas as “incursões” caligráficas
“referências” florais “desvios” ortográficos da família dos carnívoros
“antropofagias” gramaticais e “pègadas”
ainda ferventes
ou minas com o frio bater e o barulho escorrendo
“um mapa” onde se lia completamente o sangue e suas franjas
de ouro o irado desregramento da “traça
primeira” e o apuramento do mel com a labareda
inclusa o corpo na prancheta
para a lisura sentada onde se risca a posição mortal
“um papel” apenas a branca tensão do néon
no tecto o jorro de cima “declarando” qualquer rispidez
a suavidade toda uma bastarda
graça
de infiltração na sonolência ou explosiva
“vigilância” combustão das massas ao comprido
do “desenho” irregular
e só então assim desterrado do ruído nos subúrbios
ele apenas agora “composição” forte e atada de elementos
escarpas rapidamente
decorrendo
corpo que se faltava em tempo “fotografia”
de um “estudo” para sempre
como lhe bastava ser possível tão-só uma certa
temperatura
grutas aberturas minerais palpitações no subsolo
tremores
anfractuosidades esponjas onde pulsavam canais dolorosos
e a arfante matéria irrompendo nos écrans
com o susto leve das “manchas” que se uniam
essa energia sem espaço súbita “geometria” a costurar de fora
mordeduras velozes delicadezas
nervuras vivas
para seguir até ao fim “com os olhos”
como uma paisagem de espinhos faiscantes
“o contorno” que queima de uma lâmpada acesa
toda a noite no gabinete do cartógrafo
630
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Odalisca

Contam que se entrega aos ventos favoráveis
do amor. Estátua de mármores nocturnos,
assistiu a uma debandada de desejos
na pele dos amantes. No olhar calcinado
pela espera, derrama-se o fogo já frio
das vésperas inúteis. Para que lhe servem os braços,
agora que todos partiram, e só uma corrente
de silêncio a prende ao leito?

No entanto, deito-me com ela. Um degelo
de pálpebras limpa-nos de uma cinza
de solidão. E diz-me: «Quero perder-me
numa encruzilhada de abraços; afogar-me
num poço de gemidos; esquecer-me de mim
no fundo da tua memória.» Deixo-a
entregue a si própria; e pergunto o que fazer
do calor dos seus lábios, da ânsia
que os seus dedos soltam, do tempo
que estremece no seu corpo?


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 97 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 249
Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar Último

Escrevo sobre um tema alucinante e antigo.
Esquecimento
que me lembrasse agora para sempre
como
uma roseira. Como
que escrevo assim com um grito maravilhoso
dentro da carne, terrivelmente.
Nas pancadas da boca.
— Sei cantar devagar, de pé, a enlouquecer muito.
Respirando, sangrando tanto.
Sei cantar com estrelas iradas.
Há uma elevada mulher com flores
na boca e no ânus.
Contra mim, contra minha divagação.

Penso: a flecha ama a onça.
A morte ama o que morre.
Pensei ainda pela pancada dentro: a mulher
ama o homem.
E quando brilhavas debaixo da minha luz
espantada, também pensei:
eu amo-a. Porque mexeste nos meus
nomes desde o nascimento.
Contei-te pelas pétalas coloridas,
e agora
o meu amor é puro puro louco louco.
E o que dorme dorme
do que é forte.

Uma mulher passou quando eu dormia ou acordava.
Era uma luz molhada.
Estava ao cimo como lágrimas, estava
com folhas à tona da idade.
Passou uma delicadeza, uma mulher
que ficou.
Existiu um campo transviado.
Uma alagada adivinhação. Por cima
abruptamente
uma — pancada na noite dos órgãos.

A noite é não ter amor senão
em luzes.
Como uma pedra sobre a boca.
Apedra sente a boca, a solidão sente
o homem. Digo que um homem beija
interiormente a boca.
Mas era uma mulher que morria,
uma mulher que nascia agora altamente.
Um lúcido campo morto.

Passou, transferiu-se, reviveu
sobre a minha cabeça. Atravessava-a uma flecha. Era
uma cabra silvestre uma cabra azul
uma cabra colorida
pela ira e a doçura e pela altura
saltada de uma cabra entrevista nos grandes céus
loucos.
Era caçada pelo caçador do amor.
Era com os cascos e os malmequeres. Com a delicadíssima
boca humana.
Os veios de ouro.
Era como as belas mamas brancas.
Quente como as urtigas.
Era deitada cor de violeta.
Uma mulher retumbante com todo o silêncio.
Dormia contra mim.
Ela vigiava, corria no ar.
Quebrava no ar. Era a mulher tão pura.

—Anos e anos de viagem sideral com os pés
iracundamente
azuis. Sou eu,
como um retrato de cabeça para baixo.
Conheci-me cantador em estado
de amante. Tive
o desviado ofício de canteiro.
Fiz uma catedral. Morri
acocorado. Eu era um amante
com ofício de poeta cego. Um dia
transformei-me na mulher que amava.

Em tantos anos não ignoro como tudo amadurece.
Neste lado de agora
vejo: os cravos batem no ar que bate
na roupa que bate nas pedras.
E penso: houve uma quinta, quarta, uma
terça, uma segunda-feira, uma sexta-
-feira.
Bocados exaltados por cima.
Porta extática debaixo dos raios.
Sábado era um dia de ardente vileza.
Um domingo de amor ou de exemplo.
Eu era um amante que era uma semana
de lado:
ou era a chuva
amada por uma misteriosa velocidade,
ou o sol que a lentidão
apaixona por dentro.

Eu era uma mesa com tantos anos
sentados para comer-me em estado
de pêra inclinada.
Eu fui um amante numa torre
ao meio da praça. Eu fui parado e unido.
Quantos anos iracundos. Cantadores.
E se a roupa molhada bate
sobre a minha cabeça, e nela se embebe
a luz penetrante — é preciso transformar-me.
Fui amante como um cão. Fui
de divagação em divagação a lua lua. Eu ladrava de cima.
Eu era a baixa lua lua onde os pântanos
caíam em êxtase. Perdi
todas as mãos, e na derradeira mão
transformei-me na morte.
Batem os levíssimos nomes como pedras
no ar, mais verdes, como
crisântemos abrindo-se e depois
fechando-se. Crisântemos — digo —
virtuais. Com tantos tantos anos delicados
iracundos de todas as cores.

— Celebro agora os dias da sombra de onde
sagrada a loucura se levantava. Quando os cantores eram tomados
pela embriaguez
soturna, e falavam
alto com as ondas à volta. E eu lembro
a entrada
desses dias retumbantes, quando alguém
entoava em sonhos as fontes
da ilusão. E a idade avançava por dentro
da aguda alegria, por dentro e a gente
gritava que era alto tão tão alto — o amor.

Celebro a tecelagem, as mãos sombriamente embebidas no trabalho. E por cima
de tudo as pedras
rosas da cabeça, os cestos, as liras, o pão.
E em baixo o sangue bate acendendo e apagando. E eu agora sei tudo, e esqueço
muito devagar. Também com força uma mulher
aperta
os pés sobre a minha boca. E eu pareço
pensar no ar. Pareço
dormir entre gotas frias. Ou então
também pareço vir vergado e louco debaixo do estuar celeste.
Nas noites onde cerrados os girassóis
esperavam a ressurreição. Ou nos dias levantados
sobre as melancolias mais fortes. Quando
a mulher era levada pela interior
fantasia do seu próprio encerramento.

Noites oh noites tantas e
tantas noites oh tantas noites seguidas
intactas, despedaçadas, regeneradas como noites
para dentro e para fora,
debaixo da chuva. Enlouquecendo.
E cantando o corpo, as voltas, os terrenos, os fetos
do corpo, e as achas aproximadas e brilhantes
do corpo humano.

E talvez seja este o último exemplo
de amor e a imemorial noite lancinante, solidão.
E eu me transmude na zona de uma idade
antiga, e Deus
fale de em mim no puro alto da carne.
E uma onda e outra onda e outra e outra
e outra
onda e onda
batem em sua belíssima deserta altíssima
voz.
E não sabemos escutar o barulho,
nem vemos os roseirais dominados pelo silêncio,
oh nem
deliramos nos enormes inóspitos campos
de Deus.
1 163
Adélia Prado

Adélia Prado

Páscoa

Velhice
é um modo de sentir frio que me assalta
e uma certa acidez.
O modo de um cachorro enrodilhar-se
quando a casa se apaga e as pessoas se deitam.
Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos,
a segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar.
Eu, que fui loura e lírica,
não estou pictural.
Peço a Deus,
em socorro da minha fraqueza,
abrevie esses dias e me conceda um rosto
de velha mãe cansada, de avó boa,
não me importo. Aspiro mesmo
com impaciência e dor.
Porque sempre há quem diga
no meio da minha alegria:
‘põe o agasalho’
‘tens coragem?’
‘por que não vais de óculos?’
Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó,
quero o que desse modo é doce,
o que de mim diga: assim é.
Pra eu parar de temer e posar pra um retrato,
ganhar uma poesia em pergaminho.
1 452
Adélia Prado

Adélia Prado

O Dia da Ira

As coisas tristíssimas,
o rolomag, o teste de Cooper,
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.
Levantaremos como deuses,
com a beleza das coisas que nunca pecaram,
como árvores, como pedras,
exatos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente do seu voo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas dos seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera de seus nomes.
1 217
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Velocidade

a manhã     a moeda crespa
o princípio duma torre     o peito rude
um boi na estrada
os pés     as mãos     um tronco     a ponte
o corpo     a terra
a mulher atravessada     a raiva
a parede     a sombra     o peito
o corpo
1 177
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 3

Afinal a ideia é sempre a mesma o bailarino a pôr o pé
no sítio uma coisa muito forte
na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé
pode imaginar-se a ventania quer dizer
"o que acontece ao ar” é a dança
pois vejam o que está a fazer o bailarino que desata por aí fora
(por “aí dentro” seria melhor) ele varre o espaço
se me permitem varre-o com muita evidência
somos obrigados a “ver isso”
que faz o pé forte no sítio forte o pé leve no sítio leve
o sítio rítmico no pé rítmico?
e digo assim porque se trata do princípio “de cima para baixo
de baixo para cima”
que faz? que fazem? oh apenas um pouco de geometria
em termos de tempo um pouco de velocidade
dm termos de espaço dentro de tempo
"vamos lá encher o tempo com rapidez de espaço”
pensam os pés dele quando o ar está pronto
o “problema” do bailarino é coisa que não interessa por aí além
mas são chegados os tempos da agonia
estamos “exaltados” com este pensamento de morte
é preciso pensar no “ritmo” é uma das nossas congeminações exaltadas
na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar
sem qualquer auxílio excepto
não haver ainda nomes para “isso” e haver os ingredientes
do espectáculo i. e. a qualidade “forte” do sítio
esperem pela abertura de negociações entre “não” e “sim”
hão-de ver como coisas dessas se passam
não vai ser fácil os recursos de designação as acomodações várias
já se não encontram às ordens de vossências
comecem a aperceber-se da “energia” como “instrumento”
de criar “situações cheias de novidade”
vai haver muito nevoeiro nessas cabeças
e ainda ‘o coração caiu-lhe aos pés” o banal
a contas com o inesperado talvez então se tenha a ideia de murmurar
os pés subiram-lhe ao coração”
pois vão dizendo que exagero logo se verá
também Jorge Luis Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa
a lua da qual tinha caído um leão” nunca se pode saber
maçãs caem Newton cai na armadilha
quedas não faltam umas por causa das outras
os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai
mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver
Cristo a andar sobre as águas é ainda o caso do bailarino
“o estilo”
claro que “isto” apavora
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir
782
Nuno Júdice

Nuno Júdice

A bela irlandesa

A construção da beleza não é difícil,
quando o objecto se apresenta aos olhos de quem
o vê com a exactidão dos seus traços,
as linhas certas da memória, e um desfiar
de impressões por cada poro da sua pele. Por
exemplo, os dedos em que os cabelos
passam numa displicência de gesto,
enquanto a outra mão segura o cabo do espelho,
trazem consigo o oceano em que os sentidos
se perderam, numa procura de enseadas
e corais; e, noutro exemplo,
o olhar que segue a direcção da imagem, e
nos arrasta com a indicação segura
de que o caminho é este, sem desvios
nem demoras.

O que me distrai deste sonho, porém,
é a exigência do próprio poema. Vou somando
as palavras às palavras, como se através
do verso que elas formam o corpo da beleza
me surgisse, à transparência da música,
saído do espelho em que o rosto
se contempla. E este exercício ocupa-me,
enquanto ouço o tempo passar, trazendo
até mim o tempo deste instante, preso
aos dedos que agora separo, um a um,
para ver o que escondem.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 103 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
998
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 6

Não se esqueçam de uma energia bruta e de uma certa
maneira delicada de colocá-la no “espaço”
ponham-na a andar a correr a saber
sobre linhas curvas e linhas rectas “fulminantes”
ponham-na sobre patins com o stique e a bola como
"ponto de referência” ou como “pretexto espaço-tempo”
para aplicação da “dança”
experimentem uma ou duas vezes ou três reter determinada
“imagem” e metam-na “para dentro” assim imóvel
e fiquem parados “aí” com a imagem parada talvez brilhando
(• qualquer coisa como uma sagrada suspensão
e abrindo os olhos então o jogo retoma a imagem
que entretanto ficou incrustada no escuro a brilhar sempre
e dela “parece” que o movimento parte de novo
é uma “linguagem” e energia e delicadeza atravessam o ar
espectáculo do “verbo primeiro e último” apanhem a figura “absoluta”
do pé esquerdo o patim refulge a mão direita “prolonga-se”
vamos achar bem que o stique seja a “respiração”
extrema e extensa
a bola põe-se a “caligrafar” todo um sistema de planos
intensos leves
"metáfora” decerto minuto a minuto destruída pela pergunta
"que jogo é este para o entendimento dos olhos?”
a resposta “alegria” tudo esgota
mas só um sentimento de urgência corporal dá ao jogo
uma “necessária dimensão”
“o jogo respira?” perguntam e diz-se “que respira”
“então deixem-no lá viver” como se se tratasse de
“uma criatura”
podemos confundir “isto” com “acertar”?
o jogo apenas acerta consigo mesmo e este acerto é o próprio
“jogo”
nele ressaltam só qualidades de acção força delicadeza
envolvimento em si mesmo
e o prazer de maquinar o universo numa restrita
organização de linhas vividas em “iminência”
de imagem em imagem se transfere o corpo
sempre à beira de “ser” e parando e continuando
e ainda “apagando e recomeçando” como se continuamente
bebesse de si e tivesse o ar pequeno para demonstrar
a grandeza de si a si mesmo
“referido a quê senão ao absurdo de um espelho?”
“a enviar-se” cerradamente entre os seus limites
zona frequentada pela “ausência viva”
destreza porque sim forma porque sim aplicação porque sim
de tudo em tudo
de nada em nada pelo gozo “básico” de “estar a ser”
594
Herberto Helder

Herberto Helder

Teoria Sentada - Ii

Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me sobre as mãos ocupadas, as bocas,
as linguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.

Porque o amor também recolhe as cascas
e o mover dos dedos
e a suspensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como elas imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão—é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.

Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
— E com as vozes que o silêncio ganha.
1 193
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 8

Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
588
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Regresso do baile

Falo de poesia pura, como se de pura
abstracção estivessem a tratar as mãos
que despem este corpo. E quando passo de um verso
a outro, sabendo que a imagem vai nascendo
deste movimento em que as palavras
dançam na página, limito-me a seguir
os dedos que abrem botão após
botão, e desfazem laço
após laço, até descobrirem o que
sabíamos que existia, sem nunca o ter visto:
o belo, na sua exacta proporção.

No centro do quadro, onde uma janela
se abre para o que é, talvez, uma paisagem,
o olhar distrai-se do significado que
o gesto constrói. E quem passa o limite,
e se confronta com a sombra, perde
a possibilidade de um regresso a este
instante luminoso, em que num simples
eco a música da noite se concentra,
enchendo os ouvidos que se habituaram
ao silêncio.

Por isso, espero que o trabalho
chegue ao fim, para que a mulher se volte,
e dê à dança o argumento
da sua nudez.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 98 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
937
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

Do Que Eu Quigi, Per Sabedoria

Do que eu quigi, per sabedoria,
d'Alvar Rodriguiz seer sabedor
e dest'infante mouro mui pastor,
já end'eu sei quanto saber queria
per maestr'Ali, de que aprendi
que lhi diss'Alvar Rodriguiz assi:
que já tempo há que o mouro fodia.

Com'el guardou de frio e de fome
este mouro, poilo tem em poder,
mailo devera guardar de foder,
pois com el sempre alberga e come;
ca maestr'Ali jura per sa fé
que já d'Alvar Rodriguiz certo é
que fod'o mouro como fod'outr'home.

Alá guarde tod'a prol, em seu seo,
Alvar Rodriguiz que por en tirar
daquesto mouro, que nom quis guardar
de seu foder, a que tam moço veo;
ca maestr'Ali diz que dias há
que sabe d'Alvar Rodriguiz que já
fod'este mouro a caralho cheo.
584
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Meu Amigo, Andre

o cara costumava lecionar na Kansas U.
então eles o mandaram embora
ele foi parar numa fábrica de feijão
então ele e sua mulher se mudaram para a costa
ela arrumou um emprego e trabalhou por algum tempo
ele queria encontrar um trabalho como ator.
quero muito ser um ator, ele me disse,
é tudo o que quero ser.
ele aparecia com a mulher.
ele aparecia sozinho.
as ruas aqui da redondeza estão cheias de caras que
querem ser atores.
eu o vi ontem.
ele fechava um cigarro.
servi-lhe um pouco de vinho branco.
minha mulher está cansando de esperar, ele disse,
vou ensinar caratê.
suas mãos estavam inchadas de golpear
tijolos e paredes e portas.
ele me falou sobre os grandes lutadores do
oriente. havia um cara tão bom
que podia virar a cabeça 180 graus
para ver quem estava atrás dele. isso é muito difícil de fazer,
ele disse.
mais: é pior enfrentar 4 homens bem posicionados do que
enfrentar mais adversários. quando há mais gente
eles acabam se atrapalhando, e um bom lutador que tenha
força e agilidade se vira bem.
alguns dos grandes lutadores, ele disse,
conseguem esconder os bagos dentro do próprio corpo.
isto pode ser feito – até certo ponto – porque há
cavidades naturais no corpo... se você ficar de cabeça para baixo
poderá entender o que eu digo.
servi a ele um pouco mais de vinho branco,
então ele se foi.
você sabe, às vezes ter de se virar com uma máquina de escrever
não é no fim das contas
tão doloroso.
645
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Quanto Mais Vela Mais Acesa

Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério
Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas
Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.
Ensaio:
Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos res-piração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:
Menos pausa, meu Deus
menos pausa.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Rapariga E a Praia

Uma rapariga vai como uma espiga
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento

Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento

E tudo espalha com suas mãos o vento
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