Poemas neste tema

Consciência e autoconhecimento

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cansado até dos deuses que não são...

Cansado até dos deuses que não são...
Ideais, sonhos... Como o sol é real
E na objectiva coisa universal
Não há o meu coração...
Eu ergo a mão.

Olho-a de mim, e o que ela é não sou eu.
Ente mim e o que sou há a escuridão.
Mas o que são a isto a terra e o céu?

Houvesse ao menos, visto que a verdade
É falsa, qualquer coisa verdadeira
De outra maneira
Que a impossível certeza ou realidade.

Houvesse ao menos, sob o sol do mundo,
Qualquer postiça realidade não
O eterno abismo sem fundo,
Crível talvez, mas tendo coração.

Mas não há nada, salvo tudo sem mim.
Crível por fora da razão, mas sem
Que a razão acordasse e visse bem;
Real com coração, (...)


10/07/1920
4 272
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Nudez Das Palavras

A nudez das palavras como o único caminho,
o múltiplo caminho em que a sombra explode
deslumbrada. Dizer a ignorância da terra
e a profundidade da ausência no seu inabitável
silêncio. Uma falha secreta permanece sempre

aberta. Que indefinido sinal poderá surgir
do ilegível? Tudo está suspenso no vazio.
Onde a espuma, onde a respiração profusa
do mistério? Porque não recolhe o ar
o desejo de um início e o repouso da origem?

Palavras, palavras ainda mais nuas com a pureza do húmus
e a luz das pedras. Palavras para a ausência e o abandono.
Para o pouco e o nada, para a sobriedade do silêncio.
No coração do vazio há uma claridade que inicia.
Prepara-te para a aliança na vacuidade da tua morada.
1 177
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Qualquer coisa de obscuro permanece

Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.

Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.

Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.

Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente.

4 483
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Oiço passar o vento na noite.

Oiço passar o vento na noite.
Sente-se no ar, alto, o açoite
De não sei que ser em não sei quando.
Tudo se ouve, nada se vê.

Ah, tudo é igualdade e analogia.
O vento que passa, esta noite fria.
São outra coisa que a noite e o vento –
Sombras de Ser e de Pensamento.

Tudo nos marca o que nos diz.
Não sei que drama a pensar desfiz
Que a noite e o vento passados são.
Ouvi. Pensando-o, ouvi-o em vão.

Tudo é uníssono e semelhante.
O vento cessa e, noite adiante,
Começa o dia e ignorado existo.
Mas o que foi não é nada disto.


24/09/1923
4 153
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

45 - Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.

Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes.

Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de coisa a coisa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!

2 598
Bocage

Bocage

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Razão, me tens curado?
Quão fácil de um estado a outro estado
O mortal sem querer é conduzido!

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que até regia a mão do fado,
Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado,
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo da existência à morte!

Travam-se gosto, e dor; sossego e lida;
É lei da natureza, é lei da sorte,
Que seja o mal e o bem matiz da vida.

3 020
António Carlos Belchior

António Carlos Belchior

Como Nossos Pais

Não quero lhe falar, meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina!
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao vento gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tou por fora ou então que eu tou inventando
Mas é você que ama o passado é que não vê
Mas é você que ama o passado é que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
Está em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais

1 352
Geraldo Falcão

Geraldo Falcão

A Imóvel Jornada

Os rastros que deixei
no chão petrificados
agora que tornei
estão em mim gravados.
Parti, por que não sei
se tudo ao meu redor
comigo era levado:
os sonhos, a paisagem,
o corpo atormentado,
esquinas dos encontros
por gaze separados,
as chamas sobre os dedos,
o peito apunhalado.
No círculo da estrada
eu sigo e estou parado,
não sei a quem procuro
(serei o procurado?).

907
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tornar-te-ás só quem tu sempre foste.

Tornar-te-ás só quem tu sempre foste.
O que te os deuses dão, dão no começo.
De uma só vez o Fado
Te dá o fado, que é um.

A pouco chega pois o esforço posto
Na medida da tua força nata –
A pouco, se não foste
Para mais concebido.

Contenta-te com seres quem não podes
Deixar de ser. Ainda te fica o vasto
Céu p'ra cobrir-te, e a terra,
Verde ou seca a seu tempo.

O fausto repudio, porque o compram.
O amor porque acontece.
Comigo fico, talvez não contente.
Porém nato e sem erro.

Eu não procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins herdadas de outros.
Como hão-de mais que perfumar de longe
Meu desejo de tê-las?

Não quero a fama, que comigo a têm
Eróstrato e o pretor
Ser olhado de todos – que se eu fosse
Só belo, me olhariam.


12/05/1921
5 343
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Qualquer caminho leva a toda a parte

Qualquer caminho leva a toda a parte,
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em dois se parte
E um leva a onde indica a estrada
Outro é sozinho.

Uma leva ao fim da mera estrada, pára
Onde acabou.
Outra é a abstracta margem

(...)

Ah! os caminhos estão todos em mim.
Qualquer distância ou direcção, ou fim
Pertence-me, sou eu. O resto é a parte
De mim que chamo o mundo exterior.
Mas o caminho Deus eis se biparte
Em o que eu sou e o alheio a mim

(...)


1921
6 172
Geraldo Falcão

Geraldo Falcão

Referência do Sonho

Não sei se vão os meus olhos,
não sei se vem a paisagem.

Quero a luz absoluta
mãe das águas do tempo:
quero deter o seu curso
no eterno presente.

Com unção aproximo-me do altar invertido
de um deus embriagado pelo sangue
de homens acusados de morte.
Tateando nas trevas vou buscando
a primordial pureza, o primordial sentido,
a primordial palavra liturgicamente expressa.

870
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meus gestos não sou eu.

Meus gestos não sou eu.
Como o céu não é nada,
O que em mim não é meu
Não passa pela estrada.

O som do vento dorme
No dia sem razão.
O meu tédio é enorme.
Todo eu sou vácuo e vão.

Se ao menos uma vaga
Lembrança me viesse
De melhor céu ou plaga
Que esta vida! Mas esse

Pensamento pensado
Como fim de pensar
Dorme no meu agrado
Como uma alga no mar.

E só no dia estranho
Ao que sinto e que sou
Passa quanto eu não tenho,
Está tudo onde eu não estou.

Não sou eu, não conheço,
Não possuo nem passo.
Minha vida adormeço
Não sei em que regaço.


1913
4 353
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É No Vazio Que Alcanço a Identidade

É no vazio que alcanço a identidade
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
1 100
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Oca de conter-me

Oca de conter-me
Como a hora dói!
Pérfida de ter-me
Como me destrói
O meu ser inerme!

Ó meu ser sombrio!
Ó minha alma tal
Como se p'lo rio
Do meu ser igual
Sempre a mim, e frio

De nocturno e meu,
Passasse, cantando,
Uma louca, olhando
Dum barco pró brando
Silêncio do céu.


04/05/1914
4 206
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Este É o Lugar de Todas As Ausências

Este é o lugar de todas as ausências
no silêncio do azul.
Aqui sei que a luz
é o nada
e o alimento perfeito e transparente
que desata os nós sepultos.
596
Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

Quando cheguei à vida

Vela sobre minha vida, meu grande amor imenso.
Quando cheguei à vida trazia em suspense,
na alma e na carne, a loucura inimiga,
o capricho elegante e o desejo que açoita.

Encantavam-me as viagens pelas almas humanas,
a luz, os estrangeiros, as abelhas leves,
o ócio, as palavras que iniciam o idílio,
os corpos harmoniosos, os versos de Virgílio.

Quando sobre teu peito minha alma foi tranqüilizada,
e a doce criatura, tua e minha, desejada,
eu pus entre tuas mãos toda minha fantasia

e te disse humilhada por estes pensamentos:
Vigiai-me os olhos! Quando mudam os ventos
a alma feminina se transtorna e varia...

1 406
Antonio Porcchia

Antonio Porcchia

Aforismos

Ajudarei-te a vir se vens e a não vir se não vens.

Quem não enche o seu mundo de fantasmas fica só.

És quanto te precisam, não quanto és.

Se me afastarei, prefiro lamentar-me de tua ausência que de ti.

Quis alcançar o direito por caminhos direitos, e assim comecei a viver equivocado.

Quando tiver deixado de existir, não terei existido nunca.

Um grande coração se enche com muito pouco.

Quem conserva sua cabeça de criança, conserva sua cabeça.

As flores sem perfume devem chamar flores às flores perfumadas.

Quando não ando nas nuvens, ando como perdido.

Os méritos de uma coisa não vêm dela: vão a ela.

Não vês o rio de pranto porque lhe falta uma lágrima tua.

O que há fora de mim é uma imitação mal feita do que há dentro de mim.

916
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quantos gozam o gozo de gozar

Quantos gozam o gozo de gozar
Sem que gozem o gozo, e o dividem
        Entre eles e o verem
        Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
        Aos outros como prémio
        De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
        Aprende o que te ensina
        Teu corpo, teu limite.
2 403
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pudesse eu como o luar

Pudesse eu como o luar
Sem consciência encher
A noite e as almas e inundar
A vida de não pertencer!


1920
4 710
Octavio Paz

Octavio Paz

Entre ir e ficar

Entre ir e ficar duvida o dia,
enamorado de sua transparência.

A tarde circular é já baía:
em seu quieto vaivém se mexe o mundo.

Tudo é visível e tudo é efusivo,
tudo está perto e tudo é intocável.

Os papéis, o livro, o copo, o lápis
repousa à sombra de seus nomes.

Bater do tempo que em minha têmpora repete
a mesma teimosa sílaba de sangue.

A luz faz do muro indiferente
um espectral teatro de reflexos.

No centro de um olho me descubro;
não me olha, me olho em seu olhar.

Dissipa-se o instante. Sem me mover,
eu fico e me vou: sou uma pausa

1 585
Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

Inútil sou

Por seguir das coisas o compasso,
às vezes, quis neste século ativo,
pensar, lutar, viver com o que vivo,
ser no mundo algum parafuso a mais.

Mas, atada ao sonho sedutor,
do meu instinto voltei ao escuro poço,
pois, como algum inseto preguiçoso
e voraz, eu nasci para o amor.

Inútil sou, pesada, torpe, lenta,
meu corpo, ao sol estendido, se alimenta
e só vivo bem no verão,

quando a selva cheira e a enroscada
serpente dorme em terra calcinada;
a fruta se abaixa até minha mão.

1 253
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nas grandes horas em que a insónia avulta

Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,

Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me farão nada, como frase estulta.

Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor

Na sombra, no delírio da clareza,
E não há Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.


31/08/1929
3 695
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Encontro

Por vezes, sem qualquer esforço, sou uma atmosfera ou identifico-me com um arvoredo, com a sua cor sombria, cor de veludo e silêncio, cor de estar ou ser, intemporal e densa. Eis onde vivo por momentos. Onde sou uma respiração do silêncio. Ou então uma encosta. Umas quantas janelas onde já ninguém vem assomar-se. Uma faixa oblíqua de cor ensimesmada no abandono de uma tristeza que é um gesto da imobilidade. Alongado, profundo, externo gosto de ser e nada mais. Estar ou ser no encontro tornou-se a exactidão pura de uma densidade tranquila e suficiente, internamente imensa. Contemplação intensa e calma, como liberta do desejo, e todavia a forma e o fundo do desejo como substância única, salva numa completa tranquilidade. Neste muro inabitável, por abandonado e solitário, está a mais viva e a mais sossegada habitabilidade do mundo. Sinto a vibração aérea do imperecível e todavia efémero. Sou agora, abandonando-me, o próprio encontro com o que não responde e que responde no silêncio do inanimado. Horizontal, vertical, estou reunido como uma pedra e não me afundo, não soçobro entre a sombra e a água.
1 065
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Excesso de Transparência E de Leveza

Expectativa na nulidade em que nenhum impulso se gera ainda. Escuto ou não, e não é o silêncio que oiço nem o murmúrio do vazio. Quero começar a partir do momento em que sinta o tremor lúcido de uma palavra que surja de uma evidência misteriosa, inelutável, pura. Por enquanto, escrevo sem escrever, isto é, sem necessidade. Ignoro, porém, se estas palavras prematuras não irão precipitar o momento da eclosão em que o silêncio espontaneamente se manifesta através de uma formulação que seria a própria pulsação do informulado. Estou completamente árido, nulo, apagado. É, todavia, nesta clareira de cal que devo permanecer. Ninguém aparecerá, nenhuma presença viva virá acender a paisagem. Continuo a escrever no meio das pedras, sem sequer o rumor da folhagem. As palavras, que são as palavras que vagarosamente vou juntando sem felicidade, quase sem ardor nem gosto? O momento único não surge, talvez nunca venha a surgir. Mas é na expectativa desse momento único que continuo a escrever desesperadamente e contudo com uma certa confiança, confiança que move estas precárias e quase nulas palavras. Tão devagar escrevo e tudo é ausência ou separação. Porque nem sequer a passageira luz da alegria? Onde há palavras porque não está a nascente, porque não a brisa? Na verdade, o que procuro é um espaço para respirar. Que as minhas palavras desenhem uma paisagem aérea, silenciosa, inicial. Dir-se-ia que algo me impede de forçar, de pesar, como se a eclosão da palavra viva só se desse num excesso de transparência e de leveza! Estou perdido de não chegar a nada, mas agora leve, mais leve, vou abrindo o espaço adolescente em que o movimento se inclina para a frescura de uma primeira idade. Algo passa inteiro, animal ou deus, e a sua ausência é a completa felicidade de um sulco que é tanto silêncio como palavra nua. Passam as figuras sem se revelar, profundas e ausentes, e os seus gestos cintilam nas misteriosas expressões. O firme timbre das frases repercute a passagem vibrante das imagens que se libertam nas águas. Algumas abrem-se em curvas de concavidades. Escrevo agora na companhia efémera de presenças puras. Poderão as palavras dizer as cores, a doçura, o perfume que transforma o exílio no claro paraíso do silêncio? Agora escrevo na coincidência e na amplitude do aberto. As pobres palavras tornam-se ardentes, unificadas, vivas evidências de uma nudez enigmática. Quantos caminhos se abrem na página respirável, quanto azul se propaga nas palavras nuas, quanta sombra pelo calor adentro!
1 204