Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Fernando Pessoa
44 - THE KING OF GAPS
There lived, I know not when, never perhaps -
But the fact is he lived - an unknown king
Whose kingdom was the strange Kingdom of Gaps.
He was lord of what is twixt thing and thing,
Of interbeings, of that part of us
That lies between our waking and our sleep,
Between our silence and our speech, between
Us and the consciousness of us; and thus
A strange mute kingdom did that weird king keep
Sequestered from our thought of time and scene.
Those supreme purposes that never reach
The deed - between them and the deed undone
He rules uncrowned. He is the mystery which
Is between eyes and sight, nor blind nor seeing.
Himself is never ended nor begun,
Above his own void presence empty shelf.
All He is but a chasm in his own being,
The lidless box holding not‑being's no‑pelf.
All think that he is God, except himself.
But the fact is he lived - an unknown king
Whose kingdom was the strange Kingdom of Gaps.
He was lord of what is twixt thing and thing,
Of interbeings, of that part of us
That lies between our waking and our sleep,
Between our silence and our speech, between
Us and the consciousness of us; and thus
A strange mute kingdom did that weird king keep
Sequestered from our thought of time and scene.
Those supreme purposes that never reach
The deed - between them and the deed undone
He rules uncrowned. He is the mystery which
Is between eyes and sight, nor blind nor seeing.
Himself is never ended nor begun,
Above his own void presence empty shelf.
All He is but a chasm in his own being,
The lidless box holding not‑being's no‑pelf.
All think that he is God, except himself.
1 450
Isabel Mendes Ferreira
e volto
e volto. com outro silêncio mais loba mais árabe menos faca antes farpa outro vestido a mesma capa. fui ao deserto. nasceu-me um filho. da terra vermelha. da terra sanguínea. da pele vestal sou agora outra muralha desabituei-me da planície. fiz-me à montanha. galopei-me. voltei. mais secreta. menos incerta. menos asa. mais de areia. menos perguntas. menos respostas. de esporas. quero menos. quero agora. só agora voltei. muitas mortes muitas viagens depois. para lembrar o que não esqueço. tudo o que trago nos traços da pele. lama. perfume. finitude que me cega claridades de cal. e me afoga todos os afagos e cala as palavras e descola os gritos. como placenta como raiz. voltei para acordar do automatismo. do esboço. do risco. do retrato. do adjectivo.
voltei. estou aqui. igual. diferente. menos macia. mais árida. menos ávida. como se ao contrário. redonda. aguda. crua. menos gata mais gasta bruta dupla contra o vento. metade dionisíaca. metade socrática. e volto.
voltei. estou aqui. igual. diferente. menos macia. mais árida. menos ávida. como se ao contrário. redonda. aguda. crua. menos gata mais gasta bruta dupla contra o vento. metade dionisíaca. metade socrática. e volto.
723
Felipe Larson
A ARTE DE PODER VOAR
Há alguma coisa diferente pairando no ar...
Pareço estar, alegremente, vendo o mundo girar.
E quem se importa com isso?
O estado que me encontro se que vai passar
Para apagar as marcas feitas ao chão
Pois tenho no peito um humilde coração
Você não sabe o que é querer ficar só
Ficando somente com o meu silêncio
Tendo uma razão pra ficar aqui
Pra ver se encontro meu caminho
Quero mostrar a vida com toda sua nitidez
Agora o pensamento parece mais sereno
Vejo você, mesmo assim, não me entende,
E a noite custa a chegar
Quero me por pra fora, me sentir mais puro,
Como se eu pudesse voar ao céu
Onde ninguém pudesse alcançar pra me buscar
Pareço estar, alegremente, vendo o mundo girar.
E quem se importa com isso?
O estado que me encontro se que vai passar
Para apagar as marcas feitas ao chão
Pois tenho no peito um humilde coração
Você não sabe o que é querer ficar só
Ficando somente com o meu silêncio
Tendo uma razão pra ficar aqui
Pra ver se encontro meu caminho
Quero mostrar a vida com toda sua nitidez
Agora o pensamento parece mais sereno
Vejo você, mesmo assim, não me entende,
E a noite custa a chegar
Quero me por pra fora, me sentir mais puro,
Como se eu pudesse voar ao céu
Onde ninguém pudesse alcançar pra me buscar
712
Isabel Mendes Ferreira
elegia
elegia _____________________
sempre que regressam as dúvidas são sempre outras. irrepetíveis e moldáveis pela diferente respiração de outro momento e ainda outro. mesmo que no mesmo instante. somos tão pouco no diário da vida fruída.
por isso me aguardo na ilusão do inverno que é prisma e drama estalactite e agonia. dissonância quase amável de todos os contrastes.
__________________"É-me interdito conjugar todos os verbos."________________
sempre que regressam as dúvidas são sempre outras. irrepetíveis e moldáveis pela diferente respiração de outro momento e ainda outro. mesmo que no mesmo instante. somos tão pouco no diário da vida fruída.
por isso me aguardo na ilusão do inverno que é prisma e drama estalactite e agonia. dissonância quase amável de todos os contrastes.
__________________"É-me interdito conjugar todos os verbos."________________
559
Isabel Mendes Ferreira
da viagem secreta
da viagem secreta ao fundo do coração trouxe um sono vertiginosamente profundo. a água e o ópio a ausência e o ritual a epígrafe e o punhal a prece e a pressa de partir. amadureço este inverno que é segredo. e o óbvio é uma oração em rodapé.
699
Felipe Larson
DESLIGADO!
Eu andava tão desligado e desatento
Que não notava as coisas ao meu redor
Uma nuvem escura e um peso na alma
Nada me levantava a moral de ser normal
Eu quero uma conversa franca e clara
Falando das verdades e das ficções
Sobre o que aconteceu sem saber aonde
Usando a inspiração com revolução
Tudo parece tão calmo que até estranho
Não é legal esse silêncio que chegou
Todos se calaram e sumiram daqui
Mas a cidade anda meio estranha demais
Quero novidades boas nesse momento
Pois não agüento mais esse silêncio
O desespero de um grito não ouvido
E algo diferente surgia no olhar
Mas quem sabe tudo é um começo
De uma nova geração
Que não notava as coisas ao meu redor
Uma nuvem escura e um peso na alma
Nada me levantava a moral de ser normal
Eu quero uma conversa franca e clara
Falando das verdades e das ficções
Sobre o que aconteceu sem saber aonde
Usando a inspiração com revolução
Tudo parece tão calmo que até estranho
Não é legal esse silêncio que chegou
Todos se calaram e sumiram daqui
Mas a cidade anda meio estranha demais
Quero novidades boas nesse momento
Pois não agüento mais esse silêncio
O desespero de um grito não ouvido
E algo diferente surgia no olhar
Mas quem sabe tudo é um começo
De uma nova geração
763
Isabel Mendes Ferreira
há uma criança profunda
há uma criança profunda e implacável sempre que as fibras do teu corpo de areia se desenrolam em nascentes sibilas e tristes. como a floresta em dias de bruma e em noites de colher pérolas índicas. tudo se abre e fecha como elemento supremo das marés. é a velocidade da vida. poderosa e absolutamente mínima. há uma criança veloz dentro dos teus olhos de monge. predominância do fogo.___________desmesura de naufrágios em cada partitura.
629
Felipe Larson
EXPERIÊNCIA PRIMÁRIA
Olhares buscam o que fazer
Cruzam e entram no que quiserem ter
Mostram-se em desejos internos
Propondo amor, ódio e outras intenções.
Um sexto sentido, uma certa magia.
E tudo está tão confuso
Que eu não sei qual é a direção
E nem o sentido de tudo
Mas claro que tudo se resolve
Com muita calma e paciência
E três simbolos dizem tudo
Água, Fogo e ar.
Sei que o infinito existe
Mas em que universo eu encontro?
Mas está tudo fora do meu alcance
Tão distante que eu não sei que forma tem
Estranho pensar nessas coisas agora
Mas nada deve ser previsível
Senão não teria graça nenhuma
Se tivermos as respostas tão fáceis
Eu sou a inocência
A experiência primária
Cruzam e entram no que quiserem ter
Mostram-se em desejos internos
Propondo amor, ódio e outras intenções.
Um sexto sentido, uma certa magia.
E tudo está tão confuso
Que eu não sei qual é a direção
E nem o sentido de tudo
Mas claro que tudo se resolve
Com muita calma e paciência
E três simbolos dizem tudo
Água, Fogo e ar.
Sei que o infinito existe
Mas em que universo eu encontro?
Mas está tudo fora do meu alcance
Tão distante que eu não sei que forma tem
Estranho pensar nessas coisas agora
Mas nada deve ser previsível
Senão não teria graça nenhuma
Se tivermos as respostas tão fáceis
Eu sou a inocência
A experiência primária
616
Felipe Larson
IMPREVISÍVEIS
A verdade é tão ruim,
Mas sofrer pra que?
Se nascemos com o dom de mentir
E você sabe fazer muito bem
Mas quando descubro suas mentiras
Eu minto também
Pois nós temos os mesmos direitos
E criamos nossas próprias leis
Então meu bem
Nós somos imprevisíveis
Por alguns anos me perguntei
Mas agora entendi
Qual é à força do sentimento, tente descobrir?
Mas pense bem antes de responder
Pois não é bem assim
E sei que logo você descobrirá
E a todos contará
Então meu bem
Nós somos impossíveis
Mas sofrer pra que?
Se nascemos com o dom de mentir
E você sabe fazer muito bem
Mas quando descubro suas mentiras
Eu minto também
Pois nós temos os mesmos direitos
E criamos nossas próprias leis
Então meu bem
Nós somos imprevisíveis
Por alguns anos me perguntei
Mas agora entendi
Qual é à força do sentimento, tente descobrir?
Mas pense bem antes de responder
Pois não é bem assim
E sei que logo você descobrirá
E a todos contará
Então meu bem
Nós somos impossíveis
826
Marcelo Montenegro
Bruxismo
Isto podia ser outra coisa. Uma bebedeira, por
exemplo. NÃO, não uma bebedeira, mas o começo
encantador da embriaguez. Um dia bom, qualquer
motivo, a vida irrigando o corpo com nicotina.
Podia ser uma baleia encalhada na praia
do amor. Um pote de raiva esquecido no sótão.
Podia ser uma antena em estado de coma.
Ou cacos de vidro num fliperama. Um fotógrafo
desolado por não estar com sua câmera
naquele momento. Ou um menino sentado
na ponte, balançando os pés ao som de si mesmo.
Podia ser uma seleção de crônicas publicadas
em lugar nenhum. Um deus discotecando
instantes. Um hidrante aberto no agora.
Podia ser uma mulher suspendendo a barra
da calça para saltar uma poça. Aqueles insetos
que morrem após a picada. Uma adega de
ausências que o tempo elabora. Podia ser
um exame que, buscando uma coisa, diagnostica
outra. SIM, podia ser isso tudo. Uma solidão
acesa no abajur da melodia. Um macaco
se olhando na água no primeiro dia do mundo.
exemplo. NÃO, não uma bebedeira, mas o começo
encantador da embriaguez. Um dia bom, qualquer
motivo, a vida irrigando o corpo com nicotina.
Podia ser uma baleia encalhada na praia
do amor. Um pote de raiva esquecido no sótão.
Podia ser uma antena em estado de coma.
Ou cacos de vidro num fliperama. Um fotógrafo
desolado por não estar com sua câmera
naquele momento. Ou um menino sentado
na ponte, balançando os pés ao som de si mesmo.
Podia ser uma seleção de crônicas publicadas
em lugar nenhum. Um deus discotecando
instantes. Um hidrante aberto no agora.
Podia ser uma mulher suspendendo a barra
da calça para saltar uma poça. Aqueles insetos
que morrem após a picada. Uma adega de
ausências que o tempo elabora. Podia ser
um exame que, buscando uma coisa, diagnostica
outra. SIM, podia ser isso tudo. Uma solidão
acesa no abajur da melodia. Um macaco
se olhando na água no primeiro dia do mundo.
1 157
Fernando Pessoa
Tudo transcende tudo
Tudo transcende tudo
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
1 495
Marcus Vinicius Quiroga
PERPETUUM MÓBILE DE MAGRITTE
olhar é um exercício de peso
requer músculos para abstrair
e manter o objeto em equilíbrio
o reflexo torna-se o espelho
e move-se ao redor de si mesmo
mecânico, preciso, presto
a ilusão deforma a figura
em jogo de sombra e geometria:
engano à primeira vista
com o tempo vê-se o truque
mas ele faz parte do quadro
como pergunta que, se pintada,
propõe pensar outros ângulos
desfazer o até então familiar
e lugar-comum fora de lugar
recupera o espanto
a efemeridade perpétua
do homem preso na tela
o rosto se movimenta, círculo
de observações da mesma cena:
nenhum objeto é idêntico
o que é magritte ou chirico
também não se sabe, se lado a lado
fingem afinidades e correlatos
em um mundo que se desloca
permanentemente e sem propósito
estranho, quanto mais próximo,
e, se aos olhos surpresa joga
em móvel exercício de peso,
busca a visão sem excesso, seca
requer músculos para abstrair
e manter o objeto em equilíbrio
o reflexo torna-se o espelho
e move-se ao redor de si mesmo
mecânico, preciso, presto
a ilusão deforma a figura
em jogo de sombra e geometria:
engano à primeira vista
com o tempo vê-se o truque
mas ele faz parte do quadro
como pergunta que, se pintada,
propõe pensar outros ângulos
desfazer o até então familiar
e lugar-comum fora de lugar
recupera o espanto
a efemeridade perpétua
do homem preso na tela
o rosto se movimenta, círculo
de observações da mesma cena:
nenhum objeto é idêntico
o que é magritte ou chirico
também não se sabe, se lado a lado
fingem afinidades e correlatos
em um mundo que se desloca
permanentemente e sem propósito
estranho, quanto mais próximo,
e, se aos olhos surpresa joga
em móvel exercício de peso,
busca a visão sem excesso, seca
862
Marcus Vinicius Quiroga
O desertor
A questão é que o desertor
nos faz pensar em duas partes:
o mundo de que se deserta
e o outro, para o qual se evade.
Daí o temor, o mal-estar,
a maldição a quem discorda:
às vezes, a lei diz mais alto,
pune o desertor com a morte.
A questão é que ele talvez
pudesse ter razão, portanto
quem permanece não perdoa
quem faz tudo não ser como antes.
Agora que há em nós a dúvida:
«é este mundo razoável?»
Como não culpá-lo por isto?
Como olhar-se no espelho em paz?
nos faz pensar em duas partes:
o mundo de que se deserta
e o outro, para o qual se evade.
Daí o temor, o mal-estar,
a maldição a quem discorda:
às vezes, a lei diz mais alto,
pune o desertor com a morte.
A questão é que ele talvez
pudesse ter razão, portanto
quem permanece não perdoa
quem faz tudo não ser como antes.
Agora que há em nós a dúvida:
«é este mundo razoável?»
Como não culpá-lo por isto?
Como olhar-se no espelho em paz?
764
Fernando Pessoa
De vez em quando surge-me nos lábios
De vez em quando surge-me nos lábios
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro unia amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção — o que eu
Mais odeio e mais prezo — e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regalo de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!
Hoje se morre alguém que estimo — se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu — se morre alguém
Que amo — admitamo-lo — já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro unia amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção — o que eu
Mais odeio e mais prezo — e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regalo de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!
Hoje se morre alguém que estimo — se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu — se morre alguém
Que amo — admitamo-lo — já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
1 460
Fernando Pessoa
Horror! Não sei ser inconsciente
Horror! Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.
O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar (...) do ser
E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.
O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar (...) do ser
E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
1 410
Fernando Pessoa
SOUL-SYMBOLS
My soul ‑ what is my soul? But symbols mute
Its horror and confusion can give out:
A desert out of space where absolute
Reigns expectation full of horrid doubt.
It gives the sense that giveth, strange and dark,
Some unknown river weird, hauntingly lone,
In some old picture storiless, sole work
Of some great painter horribly unknown.
It is an island out of human track,
Mysterious, old within the sea and full
Of caves and grottoes unexplored and black,
Pregnant with many horrors possible.
It is an olden inn with corridors
Woven in a labyrinth and scarce of light,
Where through the night the sound of shutting doors,
Vague in its cause and place, fills us with fright.
It is a mountain region wild and free,
Precipiced, hid and silent, never seen,
Where we dare not think of what might have been
Nor wish idea of what things may be.
If ever mystery, romance and fear
Have shown their heart on canvas and on scroll,
It must assuredly to men appear
As to mine inner sense appears my soul.
It is a vision-desert full of rocks
Where all than reason is both more and less,
'Tis a lone coast where the sea's endless shocks
Fill with an empty sound its lifelessness.
Something of lost, forgotten, vague and dead,
Yet waking, as a slumberer mystical
Seems to perceive, for who looks knows with dread
That something he doth see to make appal.
All this my soul is in its weak despair,
Full of sense unto pain, of thought to tears,
Having for meed of reason a mute care,
For company to feeling - woes and fears.
So to my glance, as if with opium wide,
My very self is grown a mystery;
In inexstatic fear Life doth abide
And madness like my breath is within me.
Its horror and confusion can give out:
A desert out of space where absolute
Reigns expectation full of horrid doubt.
It gives the sense that giveth, strange and dark,
Some unknown river weird, hauntingly lone,
In some old picture storiless, sole work
Of some great painter horribly unknown.
It is an island out of human track,
Mysterious, old within the sea and full
Of caves and grottoes unexplored and black,
Pregnant with many horrors possible.
It is an olden inn with corridors
Woven in a labyrinth and scarce of light,
Where through the night the sound of shutting doors,
Vague in its cause and place, fills us with fright.
It is a mountain region wild and free,
Precipiced, hid and silent, never seen,
Where we dare not think of what might have been
Nor wish idea of what things may be.
If ever mystery, romance and fear
Have shown their heart on canvas and on scroll,
It must assuredly to men appear
As to mine inner sense appears my soul.
It is a vision-desert full of rocks
Where all than reason is both more and less,
'Tis a lone coast where the sea's endless shocks
Fill with an empty sound its lifelessness.
Something of lost, forgotten, vague and dead,
Yet waking, as a slumberer mystical
Seems to perceive, for who looks knows with dread
That something he doth see to make appal.
All this my soul is in its weak despair,
Full of sense unto pain, of thought to tears,
Having for meed of reason a mute care,
For company to feeling - woes and fears.
So to my glance, as if with opium wide,
My very self is grown a mystery;
In inexstatic fear Life doth abide
And madness like my breath is within me.
1 387
Zoraida Díaz
Desejos
Onde estás alma minha
que não te posso encontrar
nem no céu, nem no mar,
nem em minha constante agonia?
Quero ser rosa...botão;
ser nuvem, rosicler,
ser tudo... menos mulher
com memória e coração.
Ser onda morta na praia
ser rosa que se desmaia
depois de viver um dia.
Ser toda eu pensamento
e me dissolver no vento
em busca tua...alma minha!
que não te posso encontrar
nem no céu, nem no mar,
nem em minha constante agonia?
Quero ser rosa...botão;
ser nuvem, rosicler,
ser tudo... menos mulher
com memória e coração.
Ser onda morta na praia
ser rosa que se desmaia
depois de viver um dia.
Ser toda eu pensamento
e me dissolver no vento
em busca tua...alma minha!
431
Fernando Pessoa
Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que estejamos.
Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos. Tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso.
09/06/1932
Onde quer que estejamos.
Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos. Tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso.
09/06/1932
2 203
Fernando Pessoa
Azuis os montes que estão longe param.
Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.
31/03/1932
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.
31/03/1932
2 375
Fernando Pessoa
Há entre mim e a humanidade um golfo,
Há entre mim e a humanidade um golfo,
E esse golfo está dentro do meu ser.
Quer solitário, quer com outros, eu
Estou sempre só, nem a mim mesmo faço
A companhia de sentir. Navego,
Desabitada nau no mar da vida,
Mais só que a solidão. Sou um estranho
Ao que em mim pensa. Sou de qualquer modo
Dois, para que, quando passageira
Alegria do esforço de pensar (
A única alegria que me resta (
Me (...), eu tenha a consciência dela
Como vazia, como o prazer todo.
E esse golfo está dentro do meu ser.
Quer solitário, quer com outros, eu
Estou sempre só, nem a mim mesmo faço
A companhia de sentir. Navego,
Desabitada nau no mar da vida,
Mais só que a solidão. Sou um estranho
Ao que em mim pensa. Sou de qualquer modo
Dois, para que, quando passageira
Alegria do esforço de pensar (
A única alegria que me resta (
Me (...), eu tenha a consciência dela
Como vazia, como o prazer todo.
1 303
Fernando Pessoa
Ninguém a outro ama, senão que ama
Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.
10/08/1932
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.
10/08/1932
2 165
Fernando Pessoa
Quanto faças, supremamente faze.
Quanto faças, supremamente faz.
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possível,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.
27/02/1932
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possível,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.
27/02/1932
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Fernando Pessoa
Domina ou cala. Não te percas, dando
Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
27/09/1931
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
27/09/1931
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Fernando Pessoa
Os deuses e os Messias que são deuses
Os deuses e os Messias que são deuses
Passam, e os sonhos vãos que são Messias.
A terra muda dura.
Nem deuses, nem Messias, nem ideias
Que traz em rosas. Minhas são se as tenho.
Se as tenho, que mais quero?
08/02/1931
Passam, e os sonhos vãos que são Messias.
A terra muda dura.
Nem deuses, nem Messias, nem ideias
Que traz em rosas. Minhas são se as tenho.
Se as tenho, que mais quero?
08/02/1931
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