Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Fernando Pessoa
Estou escrevendo sonetos regulares
Estou escrevendo sonetos regulares
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)
Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,
Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)
Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,
Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
1 370
Fernando Pessoa
Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu quis, depois, a imortalidade...
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços...
Eu procurei depois o amor e a vida
P'ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr'a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser...
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos [...] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror...
Ah, mas cansei a dor dentro de mim...
E hoje tenho sono do meu ser...
Dormir, dormir, de dentro d'alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.
Eu quis, depois, a imortalidade...
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços...
Eu procurei depois o amor e a vida
P'ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr'a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser...
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos [...] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror...
Ah, mas cansei a dor dentro de mim...
E hoje tenho sono do meu ser...
Dormir, dormir, de dentro d'alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.
1 338
Fernando Pessoa
Quê? Eu morrer?
Quê? Eu morrer?
Morrer? (...) onde centralizar
Sensação (...) e pensamento,
Suprema realidade, único Ser
Passar, deixar de ser! A consciência
Tornar-se inconsciente? E como? O Ser
Passar a Não-Ser? É impensável.
E contudo é impensável o Real.
— Vida (...) inconsciente —
E ela é o Real.
Morrer? (...) onde centralizar
Sensação (...) e pensamento,
Suprema realidade, único Ser
Passar, deixar de ser! A consciência
Tornar-se inconsciente? E como? O Ser
Passar a Não-Ser? É impensável.
E contudo é impensável o Real.
— Vida (...) inconsciente —
E ela é o Real.
1 271
Fernando Pessoa
HERE AND THERE
Here is the same as there, my friend,
All places in this world are like.
If doomed thy life in grief to spend,
What change can then thy fate amend,
What from thy soul the pain can strike?
When pain doth wound the tired heart
And grief doth tie the fevered eye,
Some joy indeed the world's great art
May to thy pained soul impart -
What's this if joy in thee not lie?
When on my restless couch I lie
And count the throbbing of my breath,
I see the joy of earth and sky
Yet hate it all; why should not I
So keep my coward mind from death?
True joy comes not from outward show
But in our deepest soul doth rest.
What matter if the sun can glow
And stars at night look sweetly so
When hearts are by their grief opprest?
For when the darkness weighs thy thought,
And night doth fall upon thy soul,
Are not again thy sorrows brought?
Is not thy mind in shadows caught?
Do fears not back upon thee roll?
I cannot do but hope; as mine
Thy mind I see to hopes doth bend;
I in my land and thou in thine
We suffer both - our griefs entwine.
Here is the same as there, my friend.
All places in this world are like.
If doomed thy life in grief to spend,
What change can then thy fate amend,
What from thy soul the pain can strike?
When pain doth wound the tired heart
And grief doth tie the fevered eye,
Some joy indeed the world's great art
May to thy pained soul impart -
What's this if joy in thee not lie?
When on my restless couch I lie
And count the throbbing of my breath,
I see the joy of earth and sky
Yet hate it all; why should not I
So keep my coward mind from death?
True joy comes not from outward show
But in our deepest soul doth rest.
What matter if the sun can glow
And stars at night look sweetly so
When hearts are by their grief opprest?
For when the darkness weighs thy thought,
And night doth fall upon thy soul,
Are not again thy sorrows brought?
Is not thy mind in shadows caught?
Do fears not back upon thee roll?
I cannot do but hope; as mine
Thy mind I see to hopes doth bend;
I in my land and thou in thine
We suffer both - our griefs entwine.
Here is the same as there, my friend.
1 367
Reinaldo Ferreira
Oh! vós, que dominais vossos instintos
Oh! vós, que dominais vossos instintos
Como se fossem cavalos!
Oh! vós, que os amestrais, para exibi-los
Como se fossem ursos!
Oh! vós, que, infatigáveis domadores de impulsos,
Exibindo-os, colheis aplausos, contratos e elogios!
Glória a vós! Glória a vós, represadores
Do caudal,
Que eu não domino,
Do real.
Glória a vós, dominadores do natural!
Como se fossem cavalos!
Oh! vós, que os amestrais, para exibi-los
Como se fossem ursos!
Oh! vós, que, infatigáveis domadores de impulsos,
Exibindo-os, colheis aplausos, contratos e elogios!
Glória a vós! Glória a vós, represadores
Do caudal,
Que eu não domino,
Do real.
Glória a vós, dominadores do natural!
1 796
Reinaldo Ferreira
Quanto mistério na semente
Quanto mistério na semente
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!
1 730
Fernando Pessoa
THOUGHT
How great a thing is thought! as through the gloom
Of stormy skies the sudden lightning curls,
As slow the storm in patience grim unfurls
Its mighty volume of resounding boom,
Thought comes, more bright than Reason's sun which hurls
Its constant beams around till verge of doom -
Or as the silver‑chequered shades which loom
'Neath Fancy's moon in windy queerest whirls.
Thought comes, but blinds the glaring mental sight,
But shakes our mind with echoes of its roar
And bears its force beyond our visual scope;
Horrible beauty and unpitying might
That often kills and tears, to rise no more,
The frailest fabric of a dreary hope.
Of stormy skies the sudden lightning curls,
As slow the storm in patience grim unfurls
Its mighty volume of resounding boom,
Thought comes, more bright than Reason's sun which hurls
Its constant beams around till verge of doom -
Or as the silver‑chequered shades which loom
'Neath Fancy's moon in windy queerest whirls.
Thought comes, but blinds the glaring mental sight,
But shakes our mind with echoes of its roar
And bears its force beyond our visual scope;
Horrible beauty and unpitying might
That often kills and tears, to rise no more,
The frailest fabric of a dreary hope.
1 040
Fernando Pessoa
RESOLUTION
Why do I waste in dreams fruitless and vain
The substance of my youth in idle tears?.
Why do I count with feverish eye the years
And number with sad heart the ways of pain?
Why should I weep thus, since there is no gain
To me, to men from sighings and from fears?
Since from afar at me the future sneers,
The while the past with me cannot remain.
High Heaven, that errs not and that wills not wrong
To each on earth doth give a work to do,
A distant recompense and rest remote;
I'll to my work then, so God make me strong
To bring the Demons of mine own self to
Their knees, and take the Devil by the throat.
The substance of my youth in idle tears?.
Why do I count with feverish eye the years
And number with sad heart the ways of pain?
Why should I weep thus, since there is no gain
To me, to men from sighings and from fears?
Since from afar at me the future sneers,
The while the past with me cannot remain.
High Heaven, that errs not and that wills not wrong
To each on earth doth give a work to do,
A distant recompense and rest remote;
I'll to my work then, so God make me strong
To bring the Demons of mine own self to
Their knees, and take the Devil by the throat.
1 034
Reinaldo Ferreira
No princípio, só a vida existia
No princípio, só a vida existia;
O mundo era o que havia
Ao alcance da vida...
E mais nada.
Tudo era certo, simples, claro.
Quando o passado passar
(E passará, porque o passado é hoje)
E o futuro vier
(E há-de vir, porque o futuro é hoje),
Então, sim; há-de saber-se tudo
E tudo será certo, simples, claro.
Eu, porém, não sei nada.
O mundo era o que havia
Ao alcance da vida...
E mais nada.
Tudo era certo, simples, claro.
Quando o passado passar
(E passará, porque o passado é hoje)
E o futuro vier
(E há-de vir, porque o futuro é hoje),
Então, sim; há-de saber-se tudo
E tudo será certo, simples, claro.
Eu, porém, não sei nada.
2 055
Reinaldo Ferreira
Introdução aos poemas infernais
Já me não basta morrer;
Tanto me falta a certeza
Que paro todo de ser
Na Vida sem mim ilesa.
Morrer é pouco. Destrói
A ordem do que, disperso
Apenas, logo constrói.
- Constante do Universo... -
Mas o mais ? Essa energia
Contínua, que permanece,
Elo de nós, dia a dia...
Não sei pensar que ela cesse.
Nem sei, de tanto que a sinto
- Alma não, que não a creio... -
Se sou sincero ou se minto,
Ébrio do próprio receio.
Tanto me falta a certeza
Que paro todo de ser
Na Vida sem mim ilesa.
Morrer é pouco. Destrói
A ordem do que, disperso
Apenas, logo constrói.
- Constante do Universo... -
Mas o mais ? Essa energia
Contínua, que permanece,
Elo de nós, dia a dia...
Não sei pensar que ela cesse.
Nem sei, de tanto que a sinto
- Alma não, que não a creio... -
Se sou sincero ou se minto,
Ébrio do próprio receio.
1 913
Fernando Pessoa
Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Também pertenço...
Ninguém conclui sem mim, é claro,
E estar triste é ter ideias destas.
Ó meu capricho entre terraços aristocráticos,
Comes açorda em mangas de camisa no meu coração.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Também pertenço...
Ninguém conclui sem mim, é claro,
E estar triste é ter ideias destas.
Ó meu capricho entre terraços aristocráticos,
Comes açorda em mangas de camisa no meu coração.
1 344
Fernando Pessoa
Quase sem querer
Quase sem querer (se o soubéssemos!) os grandes homens saindo dos homens vulgares
O sargento acaba imperador por transições imperceptíveis
Em que se vai misturando
O conseguimento com o sonho do que se consegue a seguir
E o caminho vai por degraus visíveis, depressa.
Ai dos que desde o principio vêem o fim!
Ai dos que aspiram a saltar a escada!
O conquistador de todos os impérios foi sempre ajudante de guarda-livros
A amante de todos os reis — mesmo dos já mortos — é mãe séria e carinhosa,
Se assim como vejo os corpos por fora, visse as almas por dentro.
Ah, que penitenciaria os Anjos!
Que manicómio o sentido da vida!
O sargento acaba imperador por transições imperceptíveis
Em que se vai misturando
O conseguimento com o sonho do que se consegue a seguir
E o caminho vai por degraus visíveis, depressa.
Ai dos que desde o principio vêem o fim!
Ai dos que aspiram a saltar a escada!
O conquistador de todos os impérios foi sempre ajudante de guarda-livros
A amante de todos os reis — mesmo dos já mortos — é mãe séria e carinhosa,
Se assim como vejo os corpos por fora, visse as almas por dentro.
Ah, que penitenciaria os Anjos!
Que manicómio o sentido da vida!
866
Fernando Pessoa
Não tenhas nada nas mãos [2]
Não tenhas nada nas mãos
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
2 194
Fernando Pessoa
Às vezes medito,
Às vezes medito,
Às vezes medito, e medito mais fundo, e ainda mais fundo
E todo o mistério das coisas aparece-me como um óleo à superfície,
E todo o universo é um mar de caras de olhos fechados para mim.
Cada coisa — um candeeiro de esquina, uma pedra, uma árvore,
E um olhar que me fita de um abismo incompreensível,
E desfilam no meu coração os deuses todos, e as ideias dos deuses.
Ah, haver coisas!
Ah, haver seres!
Ah, haver maneira de haver seres
De haver haver,
De haver como haver haver,
De haver...
Ah, o existir o fenómeno abstracto — existir,
Haver consciência e realidade,
O que quer que isto seja...
Como posso eu exprimir o horror que tudo isto me causa?
Como posso eu dizer como é isto para se sentir?
Qual é alma de haver ser?
Ah, o pavoroso mistério de existir a mais pequena coisa
Porque é o pavoroso mistério de haver qualquer coisa
Porque é o pavoroso mistério de haver...
Às vezes medito, e medito mais fundo, e ainda mais fundo
E todo o mistério das coisas aparece-me como um óleo à superfície,
E todo o universo é um mar de caras de olhos fechados para mim.
Cada coisa — um candeeiro de esquina, uma pedra, uma árvore,
E um olhar que me fita de um abismo incompreensível,
E desfilam no meu coração os deuses todos, e as ideias dos deuses.
Ah, haver coisas!
Ah, haver seres!
Ah, haver maneira de haver seres
De haver haver,
De haver como haver haver,
De haver...
Ah, o existir o fenómeno abstracto — existir,
Haver consciência e realidade,
O que quer que isto seja...
Como posso eu exprimir o horror que tudo isto me causa?
Como posso eu dizer como é isto para se sentir?
Qual é alma de haver ser?
Ah, o pavoroso mistério de existir a mais pequena coisa
Porque é o pavoroso mistério de haver qualquer coisa
Porque é o pavoroso mistério de haver...
1 177
Fernando Pessoa
A água de aqui é boa, não é?
A água de aqui é boa, não é?
Se é! Quantos vinhos que julguei melhores bebi!
A água de aqui — a verdade!
A verdade não — a melhor aparência dela...
Quando, em grandes praças de eu distra[ído],
Apregoam em torno de mim os jornais todos e eu durm[o]
Se é! Quantos vinhos que julguei melhores bebi!
A água de aqui — a verdade!
A verdade não — a melhor aparência dela...
Quando, em grandes praças de eu distra[ído],
Apregoam em torno de mim os jornais todos e eu durm[o]
954
Fernando Pessoa
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
1 317
Luis Germano Graal
Saber
Saber
Conhecer
Desvendar os segredos
É o peso maior
A tarefa mais triste
A pior parte
Da missão
Saber os segredos é um peso
Tão grande
Que às vezes melhor
Seria
Morrer
Mas agora que chegamos
Tão perto
Do fim
E restam pouquíssimos de nós
Morrer
Não é mais
Um sonho
Ou um medo
Ou um desejo
Morrer pode ser amanhã
Morrer
Pode ser hoje
Quem será o próximo
Não sabemos
Nem adianta saber
É um segredo
Talvez o único a não sabermos
O próximo podemos ser
Eu
Podemos ser ele
Ou ela
O próximo seremos o próximo
A morrer
A forma
A face
O modo
A vestimenta
Que a morte usará
Também não sabemos
Pode ser a fome
Que nos atormenta
Nos fere
Nos morde
E ainda assim alguns de nós
Continuamos vivos
Também pode ser a sede
Não temos água doce
Não temos vinho
Não temos garrafa
E a água do mar
Salga nossos lábios
Obriga-nos a vomitar
Pra depois sentirmos ainda mais sede
A morte poderá vir
Como um outro peixe
Ou como uma outra sereia
A cantar
E encantar
Ela poderá chegar magnificamente
Acompanhada
Por algumas mortezinhas menores
Infantas
Petizes
Pode ainda vir indesejada
Pelo eleito
Ou também sonhada
Acarinhada
Querida
Por quem de decerto
Também pode a morte não chegar
Ela gosta de seduzir
Agir
Igual à mulher fatal
Que atiça o desejo
Dá uma mão
Pra logo tirar
Mostra o tornozelo
O sonho da perna
Mas logo dá um piparote
E o fulano acorda
A morte pode agir assim
E alguém ser o seduzido
O amante
O fulano
O homem que se atira n’água
E dentro d’água se encontra
Com ela, a mulher
Fatal
Finalmente fora da redoma
Essa dona
Do amor
Essa filha
Da primeira serpente
Essa mulher
Que só nos oferece duas escolhas
Entre sermos escravos seus
E esperarmos
Sua chamada
Ou sermos senhores
E partirmos
Ao seu encontro.
Conhecer
Desvendar os segredos
É o peso maior
A tarefa mais triste
A pior parte
Da missão
Saber os segredos é um peso
Tão grande
Que às vezes melhor
Seria
Morrer
Mas agora que chegamos
Tão perto
Do fim
E restam pouquíssimos de nós
Morrer
Não é mais
Um sonho
Ou um medo
Ou um desejo
Morrer pode ser amanhã
Morrer
Pode ser hoje
Quem será o próximo
Não sabemos
Nem adianta saber
É um segredo
Talvez o único a não sabermos
O próximo podemos ser
Eu
Podemos ser ele
Ou ela
O próximo seremos o próximo
A morrer
A forma
A face
O modo
A vestimenta
Que a morte usará
Também não sabemos
Pode ser a fome
Que nos atormenta
Nos fere
Nos morde
E ainda assim alguns de nós
Continuamos vivos
Também pode ser a sede
Não temos água doce
Não temos vinho
Não temos garrafa
E a água do mar
Salga nossos lábios
Obriga-nos a vomitar
Pra depois sentirmos ainda mais sede
A morte poderá vir
Como um outro peixe
Ou como uma outra sereia
A cantar
E encantar
Ela poderá chegar magnificamente
Acompanhada
Por algumas mortezinhas menores
Infantas
Petizes
Pode ainda vir indesejada
Pelo eleito
Ou também sonhada
Acarinhada
Querida
Por quem de decerto
Também pode a morte não chegar
Ela gosta de seduzir
Agir
Igual à mulher fatal
Que atiça o desejo
Dá uma mão
Pra logo tirar
Mostra o tornozelo
O sonho da perna
Mas logo dá um piparote
E o fulano acorda
A morte pode agir assim
E alguém ser o seduzido
O amante
O fulano
O homem que se atira n’água
E dentro d’água se encontra
Com ela, a mulher
Fatal
Finalmente fora da redoma
Essa dona
Do amor
Essa filha
Da primeira serpente
Essa mulher
Que só nos oferece duas escolhas
Entre sermos escravos seus
E esperarmos
Sua chamada
Ou sermos senhores
E partirmos
Ao seu encontro.
808
Fernando Pessoa
(Antes do monólogo da treva)
(...) e alucinadas pré-sensações
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.
868
Fernando Pessoa
TRAMWAY
TRAMWAY
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
918
Fernando Pessoa
Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.
1 386
Fernando Pessoa
FAUSTO: É isto amor? Só isto! Sinto como
FAUSTO: (vindo de casa [...])
É isto amor? Só isto! Sinto como
O cérebro oscilante, um gozo
Mas o coração pesado, frio, e mudo.
Sinto ânsias, desejos
Mas não com meu ser todo. Alguma cousa
No íntimo meu, alguma coisa ali,
Fria, pesada, muda permanece.
Para isto deixei eu a vida antiga
Que já bem não concebo, parecendo
Vaga já.
Já não sinto a agonia muda e funda
Mas uma menos funda e dolorosa
Mas mais terrível raiva e (...)
De movimentos íntimos, desejos
Que são como rancores.
Um cansaço violento e desmedido
De existir e sentir-me aqui e um ódio
Nascido disto vago e horroroso
A tudo e todos por não saber
A causa exacta de tudo.
É isto amor? Só isto! Sinto como
O cérebro oscilante, um gozo
Mas o coração pesado, frio, e mudo.
Sinto ânsias, desejos
Mas não com meu ser todo. Alguma cousa
No íntimo meu, alguma coisa ali,
Fria, pesada, muda permanece.
Para isto deixei eu a vida antiga
Que já bem não concebo, parecendo
Vaga já.
Já não sinto a agonia muda e funda
Mas uma menos funda e dolorosa
Mas mais terrível raiva e (...)
De movimentos íntimos, desejos
Que são como rancores.
Um cansaço violento e desmedido
De existir e sentir-me aqui e um ódio
Nascido disto vago e horroroso
A tudo e todos por não saber
A causa exacta de tudo.
866
Fernando Pessoa
LUCIFER: Como quando o mortal, que a terra habita,
Como quando o mortal, que a terra habita,
Aprende que esse céu todo estrelado
É cheio de outros mundos, na infinita
Pluralidade do criado,
E um abismo se lhe abre na consciência
E uma realidade invisível gela,
Seu sentimento da existência,
E um novo ser-de-tudo se revela,
Assim, pensando e, a meu modo, vendo
Na interna imensidão do espaço abstracto,
Fui como deuses vários conhecendo,
Todos eternos e infinitos sendo,
Os astros.
E vi que Deus, se é tudo para o mundo,
Se a substância e o ser do nosso ser
Não é o único Deus mais que profundo.
Há infinitos de infinitos.
Por isso, Deus é eterno e infinito, e tudo,
Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende.
Porém muita ciência a mais ascende
Que a esse único Deus que a tudo excede.
Além do transcender-se que Deus é.
E ergui então a voz amargurada,
Porque o conhecimento transcendente
Deixa a alma exânime e gelada.
E clamei contra Deus o além-Deus,
Disse aos meus pares o segredo ominoso.
Eterno condenado, errarei sempre
Sempre maldito,
Porque este mundo (...)
Só sendo mais que Deus eu poderia
Transcender o infinito do infinito
E nascer para o inumerável dia...
Como, banido, o arqueiro Filoctetes
Sou só na alma porque vi o abismo.
Excluso eterno (...)
A vida pávida que cismo.
Sou morte, porque sei que o infinito,
É limitado, e assim Deus morre em mim.
Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que Deus, sendo-o, não o é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.
Aprende que esse céu todo estrelado
É cheio de outros mundos, na infinita
Pluralidade do criado,
E um abismo se lhe abre na consciência
E uma realidade invisível gela,
Seu sentimento da existência,
E um novo ser-de-tudo se revela,
Assim, pensando e, a meu modo, vendo
Na interna imensidão do espaço abstracto,
Fui como deuses vários conhecendo,
Todos eternos e infinitos sendo,
Os astros.
E vi que Deus, se é tudo para o mundo,
Se a substância e o ser do nosso ser
Não é o único Deus mais que profundo.
Há infinitos de infinitos.
Por isso, Deus é eterno e infinito, e tudo,
Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende.
Porém muita ciência a mais ascende
Que a esse único Deus que a tudo excede.
Além do transcender-se que Deus é.
E ergui então a voz amargurada,
Porque o conhecimento transcendente
Deixa a alma exânime e gelada.
E clamei contra Deus o além-Deus,
Disse aos meus pares o segredo ominoso.
Eterno condenado, errarei sempre
Sempre maldito,
Porque este mundo (...)
Só sendo mais que Deus eu poderia
Transcender o infinito do infinito
E nascer para o inumerável dia...
Como, banido, o arqueiro Filoctetes
Sou só na alma porque vi o abismo.
Excluso eterno (...)
A vida pávida que cismo.
Sou morte, porque sei que o infinito,
É limitado, e assim Deus morre em mim.
Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que Deus, sendo-o, não o é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.
1 399
Fernando Pessoa
Diálogo na treva?
Cresce em mim uma onda de agonia
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
1 339
Fernando Pessoa
Seja: / Já que este audaz e imenso pensamento
Seja:
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.
Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do [...] ódio infinito
Ao universo inteiro.
Para quê
Nascer homem, (...)
(...) em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.
Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do [...] ódio infinito
Ao universo inteiro.
Para quê
Nascer homem, (...)
(...) em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
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