Consciência e autoconhecimento
Iranildo Sampaio
Elogio da Pressa
Sou como o pássaro que fica de vigília no pomar
esperando que o fruto amadureça.
Hoje é dia de paz.
Acomodo-me na minha rouquidão e me calo de vez.
O anjo que me guarda não conhece este exílio
onde apodreço sozinho.
Sustento esta bengala.
Lá fora, a tarde protesta contra a minha trajetória
e muda de percurso.
Sufoco os efeitos de minha solidão e continuo alheio
aos meus propósitos.
Não sei recomeçar.
Melhor é ficar dentro do búzio e esperar que o
silêncio reabra novamente suas velhas cortinas.
Reduzo as minhas intenções a um quadro novo
e esbarro no irreal.
Cada instante é uma reta ligando a minha angústia
ao olho do universo.
Tudo me parece relativo.
A vida foge ao controle de minhas decisões
e me deixa perplexo.
Meus caminhos são amplos.
Apalpo a hora vagarosa em sua órbita em torno
do incriado.
Vivo o segredo dos ausentes sem teto.
Estou no centro geométrico de todas as idéias
e não sei o que penso.
Por enquanto, apenas a verdade me aproxima do que sou
e deste tema resumido.
José Miguel Silva
Agora a sério
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os «tugas»,
como todos os inábeis.
Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.
Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos estreitos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.
No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas
de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,
com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:
piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.
Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço
(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça
triunfante da fiúza,
vendo o mundo p"lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.
José Miguel Silva
Nunca gostei de portas
um grosseiro despotismo. Não percebia por
que razão davam passagem a uns e outros não.
Rebelei-me contra elas, tornei-me arrombador.
Decidido a contestar os seus desígnios, passei
os melhores anos da minha juventude a estudar
o idioma das fechaduras. Aos poucos, alcancei
uma secreta mestria: nenhuma resistia à sedução
dos meus arames. As portas franqueadas, e não
o que atrás delas se defende, procurava. Poucas
vezes roubei. Esta alegria me bastava - introduzir
desordem na composta segurança duma casa.
Agora que penso nisso, acho que havia algo
de bárbaro nessa minha obsessão por destruir
a ilusória placidez das fortalezas, os escudos
da propriedade, da suficiência. Porta atrás
de porta, a minha vida passou. Até chegar aqui,
a este lugar indistinto. Também nele há uma porta.
Não me seria difícil arrombá-la. Não fosse dar-se
o caso (e esse é o castigo da minha soberba)
de não saber se estou no céu ou no inferno.
João Luiz Pacheco Mendes
Travelling
maratona de yoga
serenata de Mantra
noite adentro, mundo afora
nas profundezas de Atlântida
sobre as cinzas de Tróia,
criatura sua
eu procurei o criador.
Será que ousei pouca aventura?
Empunhei armaduras
saqueei as sagradas escrituras
entrei em cruzadas homéricas
esotéricas, telúricas,
bebi do Daime, Graal,
Mahabharata, Alcorão
etc. e tal.
Mas fui condenado
à lei do eterno retorno.
Eis-me aqui de novo
com a mesma questão:
de onde vim, pra onde vôo?
Guiai-me Platão.
No fim do túnel há uma luz rude
que ofusca os sentidos da gente.
Tanta peregrinação
dava até um road-movie
(com direito a happy-end?)
Help Thelma & Louise,
please,
não me largue nesta crise.
Aníbal Machado
Consumimos
Consumimos o melhor tempo da vida a apalpar o terreno, reunir dados, instalar sondas, armar os aparelhos, ajuntar material. Tudo para começarmos a viver. Quando se aproxima o dia da prova – que dia? que prova? – nossas armas estão caducas, o celeiro apodrecido. Vem-nos então a revolta contra as extorsões do tempo; depois, a desconfiança de que fomos logrados.
E não nos conformamos em reconhecer que na longa prorrogação com que disfarçamos o nosso medo de viver estava a própria realização de nossa vida.
Viver é o mesmo que preparar-se para viver.
Orlando Mendes
História
De celtas, mouros e visigodos.
Descendo e deles herdei todos
Os caracteres fundamentais
E talvez herdasse alguns mais
Da mestiçagem de outras raças
Que fizeram guerras, combatendo
Conquistaram e perderam praças.
Diz a História e não tenho
Do contrario uma prova séria
Em testamento que a revele.
E admito pois que o tamanho,
O rosto, o sangue, a cor da pele,
A fria razão e o instinto,
Adquiri em séculos de Ibéria
Para ser o que penso e sinto
O que mostro e o que oculto,
Excitável carne e uma voz
Memória de um país adulto
Que se não cala por não trair-me
No idioma de meus avós,
Para ser a mão direita firme
Que enche de palavras o papel,
Perpétuo aprendiz que sou eu
De velho oficio sem licença.
Admito. E as datas festejo
E retomo lutas que não venço
E amo nas horas do desejo
Com o mesmo requinte que deu
Origem de mim à Criação
E bebo o vinho e como o pão
Da minha sede e da minha fome.
Admito. E por isso, deponho.
Contudo, nada herdei que dome
A grandeza nova que transmito,
Não apenas sede, fome e sonho
De vinho, de pão ou de infinito,
Desejo, posse e fecundidade
Coragem forjada no segredo
Medo que se chore ou se brade
Guerra de amigo ou de inimigo,
Não própriamente o enredo
Mas esta seiva elementar
De África nos versos que digo
E os homens a saibam cantar.
António Maria Lisboa
Que Pensar destes Poemas
Que pensar destes poemas: mundo sem classificações, esquemas, meios diversos e opostos de ser e conhecer, de se comportar e fazer comportar, de amar e ser amado, pulverizando as escalas, aparências, arbitrariedades dialécticas do Bem e do Mal, da sua reversibilidade, da sua interconexão? - Porque funde num só corpo: porque contém a Lei e contém o que destrói a Lei, é o Paradoxo a forma do Saber Oculto.
Manuel António Pina
Não o sonho
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.
Manuel António Pina
Partida
soltou-se qualquer peça de uma máquina incompreensível
de que dependia, afinal, a minha vida;
tornou-se tudo demasiadamente literal,
até eu estar ali, sem compreender;
e até eu não compreender parecia
algo inteiramente incompreensível;
o mundo, que via pela primeira vez,
via-o através de uns olhos que não me pertenciam,
que não pertenciam, porque eu próprio era
um acontecimento incompreensível acontecendo,
algo que me acontecia não sabia a quem;
o comboio afastava-se levando-te
para fora de mim como alguém sonhando,
e eu e tudo o que de mim sabia desaparecera
e ficara um sítio vazio
onde as últimas horas da tarde
como aves extenuadas pousavam.
Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida, Ed. Assírio & Alvim, 2012
Al Berto
Corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
(in "A Noite Progride Puxada à Sirga")
Madi
Cacto e Violeta
Ele se parece com as violetas, pela delicadeza
E eu com os cactos, mais pelos espinhos do que pela resistência
Não sabia que cactos pudessem amar tanto as violetas
Mas cacto, por amor, também muda a natureza
Aprende a podar seus espinhos
para encurtar o caminho entre ele e as violetas
Sukrato
Não me lavem o rosto
Não; já disse não!
Deixai-me ver,
sentir, viver tudo em mim
mas não me lavem os olhos!
Deixai-me crer por mim
aceitar a realidade
mas não me barrem a caminhada
não me lavem os olhos!
Deixai-me sofrer realidade
ao sonhar fraternidade
mas... por favor...
não me lavem os olhos!
Moranno Portela
Homem Moderno
ouvem a notícia do mundo;
teus ouvidos moucos
vêem o oco do mundo;
teu olfato cúpido
devora as fezes do mundo;
teu parvo paladar
aspira a essência do nada
e reténs, em tuas mãos vazias,
essa pacífica e tenebrosa
ilusão de realidade.
António Ramos Rosa
Quem É o Personagem? Quem Escreve?
Ele é a interrogação e o desejo.
Eu nada sei. Ele nada sabe.
E ambos continuamos como se.
Dir-se-á um jogo e sem razão.
Nunca se preenche essa vazia casa.
E eu e ele de fora sem figura,
não somos mais do que um trajecto inútil.
Mas talvez, por vezes, no quadrado
sejamos a imagem um do outro.
António Ramos Rosa
A Rua Em Que Marcha Define-O
As árvores de que necessita
caminham com ele
e atravessam-no.
Para onde vai?
Ninguém o vê
(pois só aqui o distinguimos
entre ramos claros
de palavras).
António Ramos Rosa
Ambos Nos Transformámos, Ambos Somos
Mas quem somos?
Alguém nos indicou no espelho. E nós olhámos
o estranho homem que desceu as escadas.
Eu não sou tu. Tu não virás se
eu não souber
transformar a ignorância no trajecto
das palavras à imagem
nua.
Ambos nos separamos, confundidos.
Não somos mais que esta passagem única
mas agora quem escreve sou eu ou tu
e somos ambos a pergunta viva.
António Ramos Rosa
Acende-Se o Desejo E É Tão Precária a Voz!
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
António Ramos Rosa
Caminho Com a Pobreza Das Pedras,…
Charles Bukowski
Bem, É Assim Que É...
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
António Ramos Rosa
Não Toco a Viva Fenda Ferida…
Henriqueta Lisboa
A Face Lívida [Esse despojamento
esse amargo esplendor.
Beleza em sombra
sacrifício incruento.
A mão sem jóias
descarnada
na pureza das veias.
A voz por um fio
desnuda
na palavra sem gesto.
O escuro em torno
e a lucidez
violenta lucidez terrível
batida de encontro ao rosto
como uma ofensa física.
Na imensidade sem pouso,
olhos duros
de pássaro.
Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
António Ramos Rosa
Imergir No Não Saber,…
Edmir Domingues
O espelho
assim como o faz quem
convoca os seus demônios
na calada da noite.
Mas não me reconheço
no duplo que me enfrenta.
Nos seus olhos amargos
nem na boca de febre
no amarelo da fronte
na mudez do semblante.
A fria superfície
de resto mineral,
não retrata o secreto
inconfessado anseio.
Que hiberna no silêncio
como a semente dorme
do trigo, sob a neve,
como o esporo invisível
no mar, da diatomácea,
os quais, cumprido o ciclo,
no vir da primavera,
rebentarão de vida
na força natural.
O espelho não conhece
o toque apenas cálido
do sol que a nuvem cobre.
E distorce o retrato,
se não supõe do estímulo
que avivará no breve
todo o anseio escondido.
Perdoo a estranha face
que inverte as realidades.
Porque sendo como é
só pode refletir
a amargura da febre,
que a face da esperança
escondida no íntimo
não pode ser sentida
no clima da inversão.