Poemas neste tema
Ciúme e Inveja
D. Dinis
Nostro Senhor, Hajades Bom Grado
Nostro Senhor, hajades bom grado
por quanto m'hoje mia senhor falou;
e tod'esto foi porque se cuidou
que andava doutra namorado;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Porque mi falou hoj'este dia,
hajades bom grado, Nostro Senhor;
e tod'esto foi porque mia senhor
cuidou que eu por outra morria;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Porque m'hoje falou, haja Deus
bom grado, mais desto nom fora rem
senom porque mia senhor cuidou bem
que doutra eram os desejos meus;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Ca tal é que ante se matara
ca mi falar, se o sol cuidara.
por quanto m'hoje mia senhor falou;
e tod'esto foi porque se cuidou
que andava doutra namorado;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Porque mi falou hoj'este dia,
hajades bom grado, Nostro Senhor;
e tod'esto foi porque mia senhor
cuidou que eu por outra morria;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Porque m'hoje falou, haja Deus
bom grado, mais desto nom fora rem
senom porque mia senhor cuidou bem
que doutra eram os desejos meus;
ca sei eu bem que mi nom falara,
se de qual bem lh'eu quero cuidara.
Ca tal é que ante se matara
ca mi falar, se o sol cuidara.
673
Leila Mícollis
Amante das letras
Não te importas com os homens que dormem comigo;
mas morres de ciúme
dos versos que faço pra eles...
mas morres de ciúme
dos versos que faço pra eles...
1 184
Pablo Neruda
Tarde - LX
A ti fere aquele que quis fazer-me dano,
e o golpe do veneno contra mim dirigido
como por uma rede passa entre meus trabalhos
e em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo.
Não quero ver, amor, na lua florescida
de tua fronte cruzar o ódio que me espreita.
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
esquecida sua inútil coroa de facas.
Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
onde canto a inveja maldiz, ri e rói.
E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
é um traje vazio que me segue coxeando
como um espantalho de sorriso sangrento.
e o golpe do veneno contra mim dirigido
como por uma rede passa entre meus trabalhos
e em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo.
Não quero ver, amor, na lua florescida
de tua fronte cruzar o ódio que me espreita.
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
esquecida sua inútil coroa de facas.
Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
onde canto a inveja maldiz, ri e rói.
E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
é um traje vazio que me segue coxeando
como um espantalho de sorriso sangrento.
1 036
Charles Bukowski
Algumas Sugestões
além da inveja e do rancor de alguns dos
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
1 072
Filinto Elísio
Soneto
Já vem a primavera, desfraldando
Pelos ares as roupas perfumadas,
E os rios vão, nas águas jaspeadas,
Os frondíferos troncos retratando;
Vão-se as neves dos montes debruçando
Em tortuosas serpes argentadas;
Pelas veigas, o gado, alcatifadas,
A esmeraldina felpa vai tosando.
Riem-se os céus, revestem-se as campinas;
E a natureza as melindrosas cores
Esmera na pintura das boninas.
Ah! Se assim como brotam novas flores,
Se remoça todo o orbe... das ruínas
Dos zelos renascessem meus amores!
Pelos ares as roupas perfumadas,
E os rios vão, nas águas jaspeadas,
Os frondíferos troncos retratando;
Vão-se as neves dos montes debruçando
Em tortuosas serpes argentadas;
Pelas veigas, o gado, alcatifadas,
A esmeraldina felpa vai tosando.
Riem-se os céus, revestem-se as campinas;
E a natureza as melindrosas cores
Esmera na pintura das boninas.
Ah! Se assim como brotam novas flores,
Se remoça todo o orbe... das ruínas
Dos zelos renascessem meus amores!
1 816
Gaitano Antonaccio
Versos Finais
Meus poemas são doces notas do nosso amor
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
1 062
Reinaldo Ferreira
Na tarde erramos
Na tarde erramos,
Nós, tu e eu,
Mas três.
Tão sós que vamos
E não sou eu
Quem vês.
Discreto calo,
Pra que o meu senso
Louves;
Em vão não falo,
Tanto o que eu penso
Ouves.
Melhor me fora
Que a outro assim
Levasses
E, longe embora,
Sòmente em mim
Pensasses.
Nós, tu e eu,
Mas três.
Tão sós que vamos
E não sou eu
Quem vês.
Discreto calo,
Pra que o meu senso
Louves;
Em vão não falo,
Tanto o que eu penso
Ouves.
Melhor me fora
Que a outro assim
Levasses
E, longe embora,
Sòmente em mim
Pensasses.
1 834
Gilberto Gil
Domingo no parque
O rei da brincadeira
Ê, José
O rei da confusão
Ê, João
Um trabalhava na feira
Ê, José
Outro na construção
Ê, João
A semana passada, no fim da semana João resolveu não
brigar
No domingo de tardem saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar capoeira
Não foi prá lá
Pra ribeira foi namorar
O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá parto da boca do rio
Foi no parque que ele avistou Juliana foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão Juliana, seu sonho
Uma ilusão Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
Feriu Zé, feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, dançando no peito
Oi, José
Do José brincalhão
Oi José
O sorvetee a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, girando na mente
Oi, José
Do José brincalhão
Oi, José
Juliana girando
Oi, girando
Oi, na roda gigante
Oi, gorando
Oi, na roda gigante
Oi, girando
O amigo João João
O sorvete é morango
É vermelho
Oi, girando e a rosa
É vermelha
Oi, girando girando
É vermelha
Oi, girando girando
Olha a faca!
Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Ê, José
Juliana no chão,
Ê, José
Outro corpo caído
Ê, José
Seu amigo João
Ê José
Amanhã não tem feira
Ê José
Não tem mais construção
Ê, João
Não tem mais brincadeira
Ê, José
Não tem mais confusão
Ê, João
Ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê,
ê...
Ê, José
O rei da confusão
Ê, João
Um trabalhava na feira
Ê, José
Outro na construção
Ê, João
A semana passada, no fim da semana João resolveu não
brigar
No domingo de tardem saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar capoeira
Não foi prá lá
Pra ribeira foi namorar
O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá parto da boca do rio
Foi no parque que ele avistou Juliana foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão Juliana, seu sonho
Uma ilusão Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
Feriu Zé, feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, dançando no peito
Oi, José
Do José brincalhão
Oi José
O sorvetee a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, girando na mente
Oi, José
Do José brincalhão
Oi, José
Juliana girando
Oi, girando
Oi, na roda gigante
Oi, gorando
Oi, na roda gigante
Oi, girando
O amigo João João
O sorvete é morango
É vermelho
Oi, girando e a rosa
É vermelha
Oi, girando girando
É vermelha
Oi, girando girando
Olha a faca!
Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Ê, José
Juliana no chão,
Ê, José
Outro corpo caído
Ê, José
Seu amigo João
Ê José
Amanhã não tem feira
Ê José
Não tem mais construção
Ê, João
Não tem mais brincadeira
Ê, José
Não tem mais confusão
Ê, João
Ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê,
ê...
2 144
Bocage
À INFIDELIDADE DE NISE
De nocturno, horroroso pesadelo
Fui na mente sombria atormentado;
Inda palpito, da visão lembrado,
Esfria o sangue, irriça-se o cabelo:
Vi dum lado a Desgraça impondo o selo
As leis, que em dano meu criara o Fado;
Meus Males em tropel vi de outro lado
Ais dirigindo a corações de gelo.
Coa pátria, mundo, e céu me vi malquisto,
Ao longe a Glória laureada, e bela,
Ouvi dizer-me: - «De te honrar desisto!» -
Tive a Morte ante mim torva, amarela;
Fúrias, Manes: - O horror não parou nisto,
Vi Nise, e o meu rival nos braços dela.
Fui na mente sombria atormentado;
Inda palpito, da visão lembrado,
Esfria o sangue, irriça-se o cabelo:
Vi dum lado a Desgraça impondo o selo
As leis, que em dano meu criara o Fado;
Meus Males em tropel vi de outro lado
Ais dirigindo a corações de gelo.
Coa pátria, mundo, e céu me vi malquisto,
Ao longe a Glória laureada, e bela,
Ouvi dizer-me: - «De te honrar desisto!» -
Tive a Morte ante mim torva, amarela;
Fúrias, Manes: - O horror não parou nisto,
Vi Nise, e o meu rival nos braços dela.
1 536
Roy Campbell
CRIAÇÃO DO POETA
Há nas manadas um novilho torto
Que cobre as vacas e os tropéis conduz,
Até que os velhos touros ciumentos
Correm com ele dos pastos em que vivem.
E à noite, ouvindo a rumorosa selva,
Desesperado por poder ter medo,
Os magros flancos vai chicoteando
A golpes duros da pesada cauda.
Longe dos cornos que em falange guardam
As manadas dormindo, lobos vence;
A noite cai, os leopardos seguem-no,
E todo o dia as moscas o aguilhoam.
Que cobre as vacas e os tropéis conduz,
Até que os velhos touros ciumentos
Correm com ele dos pastos em que vivem.
E à noite, ouvindo a rumorosa selva,
Desesperado por poder ter medo,
Os magros flancos vai chicoteando
A golpes duros da pesada cauda.
Longe dos cornos que em falange guardam
As manadas dormindo, lobos vence;
A noite cai, os leopardos seguem-no,
E todo o dia as moscas o aguilhoam.
1 007
Poemas Sânscritos
A UMA FINA CINTURA
1
Que atrevimento! Como é que ela quer
a passear levar-te?
Não sabe então que o peso de seus seios
basta para quebrar-te?
Que atrevimento! Como é que ela quer
a passear levar-te?
Não sabe então que o peso de seus seios
basta para quebrar-te?
987
Leonardo de Leo Gama
Saudação a Afrodite
Teu amor de proveta quer te mascararsábio patético palhaçoquem diz não vai aprender a voarsou loucotolomas quem diz nunca soube amaro sanguemajestosamente coaguladoheroínabom vinhoembriaga deuses fúteisque só se ocupam em cagarse considera viver um desafiodrogue-se com a monotonia de dias bizarrosamematequeimemas não te esqueças de pingar teu colíriopequepecar é divinofurte para sentirdoce cheiro proibidoamecomatrepesiga teu ponto para o infinitonão falesintacuspateu sangue com toda melo-burocracianão há sons para amornem palavras para vidaseja ateuolha teus minutos docemente escuros através do vidrotodo cúpido nasce mortosete badaladas do sinoa jaulaescancaradaabstrato em evidênciaamorrancoródioinvejaLobos-cordeiros sabem olhar com indiferença
1 802
Fernando Tavares Rodrigues
Elegia
Só tu que
não existes
Me dás calma.
Porque não tens alma,
Porque não consistes.
Mesmo quando voltas
- tu que não estiveste-
não me trazes nada;
nem mesmo o calor
da chama apagada.
Porque não te tenho
E vivo contigo,
Porque não te quero
Nem sou teu amigo
Deixa-me o teu corpo:
Ânfora vazia,
Vinho de ciúme.
Deixa-me o que fui
- o meu eco em ti...
não existes
Me dás calma.
Porque não tens alma,
Porque não consistes.
Mesmo quando voltas
- tu que não estiveste-
não me trazes nada;
nem mesmo o calor
da chama apagada.
Porque não te tenho
E vivo contigo,
Porque não te quero
Nem sou teu amigo
Deixa-me o teu corpo:
Ânfora vazia,
Vinho de ciúme.
Deixa-me o que fui
- o meu eco em ti...
1 377
Fernando Pessoa
Por quem foi que me trocaram
Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar pra ti?
Pousa a tua mão na minha
E, sem me olhares, sorri.
Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero pensar
Que é de mim que ele está feito
E que o tens para mo dar.
Depois aperta-me a mão
E vira os olhos a mim...
Por quem foi que me trocaram
Quando estás a olhar-me assim?
13/10/1930
Quando estava a olhar pra ti?
Pousa a tua mão na minha
E, sem me olhares, sorri.
Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero pensar
Que é de mim que ele está feito
E que o tens para mo dar.
Depois aperta-me a mão
E vira os olhos a mim...
Por quem foi que me trocaram
Quando estás a olhar-me assim?
13/10/1930
4 325
Eucanaã Ferraz
PEDIDO
Houvesse Deus e os deuses
A fim de que lhes pedisse:
o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije
todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída
da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
A fim de que lhes pedisse:
o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije
todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída
da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
783
Castro Alves
Recordações
(RECITATIVO PARA O PIANO)
LEMBRAS-TE ainda dessa noite bela
Em que, donzela, te chegaste a mim?
Lembras-te? Dize... mas não tenhas pejo...
Que vai um beijo pra corar assim?...
........................................
Que linda noite! da montanha o vento
Tênue lamento suspirava então.
E nos teus lábios, no tremor, no medo
Lia o segredo de febril paixão.
Passava a lua pelo azul do espaço
Do teu regaço a namorar o alvor.
Como era terna no seu brando lume.
...Tive ciúme de ver tanto amor ...
Como dum cisne alvinitentes plumas
Iam de brumas a vagar nos céus,
Gemia a brisa — perfumando-a a rosa —
Terna, queixosa nos cabelos teus.
Que noite santa!... Sempre o lábio mudo
A dizer tudo, a respirar paixão;
De espaço a espaço um fervoroso beijo,
E após o pejo... e algum frouxo não.
Eu fui a brisa — tu me foste a rosa,
Fui mariposa — tu me foste a luz,
— Brisa — beijei-te — mariposa — ardi-me.
E hoje me oprime do martírio a cruz.
E agora quando da montanha o vento
Geme um lamento de infinito amor,
Busco debalde tescutar as juras...
Não mais venturas... só me resta a dor.
Seria um sonho aquela noite bela?
Dize, donzela... Foi real... bem sei!...
Ai! não me negues, diz-mo a lua, o vento,
Diz-mo o tormento que por ti penei!...
LEMBRAS-TE ainda dessa noite bela
Em que, donzela, te chegaste a mim?
Lembras-te? Dize... mas não tenhas pejo...
Que vai um beijo pra corar assim?...
........................................
Que linda noite! da montanha o vento
Tênue lamento suspirava então.
E nos teus lábios, no tremor, no medo
Lia o segredo de febril paixão.
Passava a lua pelo azul do espaço
Do teu regaço a namorar o alvor.
Como era terna no seu brando lume.
...Tive ciúme de ver tanto amor ...
Como dum cisne alvinitentes plumas
Iam de brumas a vagar nos céus,
Gemia a brisa — perfumando-a a rosa —
Terna, queixosa nos cabelos teus.
Que noite santa!... Sempre o lábio mudo
A dizer tudo, a respirar paixão;
De espaço a espaço um fervoroso beijo,
E após o pejo... e algum frouxo não.
Eu fui a brisa — tu me foste a rosa,
Fui mariposa — tu me foste a luz,
— Brisa — beijei-te — mariposa — ardi-me.
E hoje me oprime do martírio a cruz.
E agora quando da montanha o vento
Geme um lamento de infinito amor,
Busco debalde tescutar as juras...
Não mais venturas... só me resta a dor.
Seria um sonho aquela noite bela?
Dize, donzela... Foi real... bem sei!...
Ai! não me negues, diz-mo a lua, o vento,
Diz-mo o tormento que por ti penei!...
1 925
Noel Rosa
Amor de Parceria
Saibam primeiro
Que fulano é meu amigo
E com ele eu não brigo
Com ciúmes de você.
Você provocou briga entre rivais
Pra depois ver nos jornais
Seu nome, seu clichê.
Há muito tempo meu amigo já sabia
Que você me oferecia
Chocolate no jardim.
E começou a nossa parceria:
Eu fui por ele
E ele foi por mim.
Você pensou
Que fomos enganados,
Marcando encontro em dias alternados.
E nós fizemos a sua vontade.
Dentro daquele enredo
Eu e ele não tivemos prejuízo
Na sociedade.
Quando meu sócio
Namorava em seu portão,
Eu ficava na esquina
Distraindo seu irmão.
E quantas vezes eu perdia a fala
Quando estava sem tostão
E ele pedia bala!
Nós aturamos sua tia implicante
Mas filamos seu jantar,
Não pagamos restaurante.
Você não sai do nosso pensamento.
Você foi negócio, foi divertimento.
Que fulano é meu amigo
E com ele eu não brigo
Com ciúmes de você.
Você provocou briga entre rivais
Pra depois ver nos jornais
Seu nome, seu clichê.
Há muito tempo meu amigo já sabia
Que você me oferecia
Chocolate no jardim.
E começou a nossa parceria:
Eu fui por ele
E ele foi por mim.
Você pensou
Que fomos enganados,
Marcando encontro em dias alternados.
E nós fizemos a sua vontade.
Dentro daquele enredo
Eu e ele não tivemos prejuízo
Na sociedade.
Quando meu sócio
Namorava em seu portão,
Eu ficava na esquina
Distraindo seu irmão.
E quantas vezes eu perdia a fala
Quando estava sem tostão
E ele pedia bala!
Nós aturamos sua tia implicante
Mas filamos seu jantar,
Não pagamos restaurante.
Você não sai do nosso pensamento.
Você foi negócio, foi divertimento.
1 101
Noel de Arriaga
Guitarra
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
Na atmosfera de fumo,
Roçando pelo vício,
Em mim dum outro rumo
Encontro um vago indício.
Unem-se em gestos vãos,
Ao sabor da guitarra,
Suplicantes as mãos
Da fadista bizarra.
Se canta, logo após
Nos prende e enfeitiça
O que perdura em nós
Da sua voz castiça.
Meu coração já batia
Muito antes de te ver,
Mas só depois desse dia
É que eu o senti bater! ...
Candeeiros de cobre
Pousados sobre as mesas
Tingem de aspecto nobre
longas velas acesas.
Perfume de recado,
Em pouco se resume
O mistério do fado:
— No amor e no ciúme.
E também na saudade,
Mais funda hora a hora,
Que, fugindo à cidade,
Foi pela barra fora!
Saudade? Ciúme? Amor?
As naus da índia onde
Estão? Envolto em dor
Quem é que me responde?
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
Na atmosfera de fumo,
Roçando pelo vício,
Em mim dum outro rumo
Encontro um vago indício.
Unem-se em gestos vãos,
Ao sabor da guitarra,
Suplicantes as mãos
Da fadista bizarra.
Se canta, logo após
Nos prende e enfeitiça
O que perdura em nós
Da sua voz castiça.
Meu coração já batia
Muito antes de te ver,
Mas só depois desse dia
É que eu o senti bater! ...
Candeeiros de cobre
Pousados sobre as mesas
Tingem de aspecto nobre
longas velas acesas.
Perfume de recado,
Em pouco se resume
O mistério do fado:
— No amor e no ciúme.
E também na saudade,
Mais funda hora a hora,
Que, fugindo à cidade,
Foi pela barra fora!
Saudade? Ciúme? Amor?
As naus da índia onde
Estão? Envolto em dor
Quem é que me responde?
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
803
Carla Bianca
Ilustre Visitante
Converso com o amor. Ele fala como se fôssemos íntimos. Aperta minha mão e beija-me as faces. Coro o rosto, banhada pela timidez. Não sei se possuo fidalguia para anfitrionar tão distinta personalidade.
Os gestos de amor são elegantes e clássicos, dando a impressão de tratar-se de alguém que nunca se emociona. Um engano que vai se dissipando ao longo de nossa conversa. Quando falo de minhas tristezas, aquele ser distante, muda de figura e começa a verter lágrimas. Ao ver esta cena fico triste e alegre, por perceber-me através de olhos tão ilustres.
Os assuntos que discorre são por demais difíceis à compreensão, mas permaneço atenta, fitando belos segredos.
A prosa continua e ele vai se soltando cada vez mais. Um pouco depois percebo que ele passa a ter ciúmes dos que comigo tentam falar. A felicidade em invade e epnso pertencer a mesma raça do amor.
Os gestos de amor são elegantes e clássicos, dando a impressão de tratar-se de alguém que nunca se emociona. Um engano que vai se dissipando ao longo de nossa conversa. Quando falo de minhas tristezas, aquele ser distante, muda de figura e começa a verter lágrimas. Ao ver esta cena fico triste e alegre, por perceber-me através de olhos tão ilustres.
Os assuntos que discorre são por demais difíceis à compreensão, mas permaneço atenta, fitando belos segredos.
A prosa continua e ele vai se soltando cada vez mais. Um pouco depois percebo que ele passa a ter ciúmes dos que comigo tentam falar. A felicidade em invade e epnso pertencer a mesma raça do amor.
827
Casimiro de Abreu
A Valsa
Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Coas faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...
Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
Pra outro
Não eu!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...
Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!
Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...
Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!
Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!
Na dança
Que cansa,
Voavas
Coas faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...
Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
Pra outro
Não eu!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...
Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!
Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...
Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!
Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!
2 154
Castro Alves
Soneto
Á artista a Sra. D. JESUFNA MONTÁNI
DE GIOVANI na noite do espetáculo
em favor do Monte Pio da Bahia.
MOTE
"Das almas grandes a nobreza é esta."
GLOSA
AQUI, onde o talento verdadeiro
Não nega o povo o merecido preito;
Aqui onde no público respeito
Se conquista o brasão mais lisonjeiro.
Aqui onde o gênio sobranceiro
E, de torpes calúnias, ao efeito,
Jesuína, dos zoilos a despeito,
És tu que ocupas o lugar primeiro!
Repara como o povo te festeja...
Vê como em teu favor se manifesta,
Mau grado a mão, que, oculta, te apedreja!
Fazes bem desprezar quem te molesta;
Ser indif’rente ao regougar da inveja,
"Das almas grandes a nobreza é esta."
DE GIOVANI na noite do espetáculo
em favor do Monte Pio da Bahia.
MOTE
"Das almas grandes a nobreza é esta."
GLOSA
AQUI, onde o talento verdadeiro
Não nega o povo o merecido preito;
Aqui onde no público respeito
Se conquista o brasão mais lisonjeiro.
Aqui onde o gênio sobranceiro
E, de torpes calúnias, ao efeito,
Jesuína, dos zoilos a despeito,
És tu que ocupas o lugar primeiro!
Repara como o povo te festeja...
Vê como em teu favor se manifesta,
Mau grado a mão, que, oculta, te apedreja!
Fazes bem desprezar quem te molesta;
Ser indif’rente ao regougar da inveja,
"Das almas grandes a nobreza é esta."
1 420
Pablo Neruda
Tarde - LVI
Acostuma-te a ver detrás de mim a sombra
e que tuas mãos saiam do rancor, transparentes,
como se na manhã do mar fossem criadas:
o sal te deu, amor meu, proporção cristalina.
A inveja sofre, morre, se esgota com meu canto.
Um a um agonizam seus tristes capitães.
Eu digo amor, e o mundo se povoa de pombas.
Cada sílaba minha traz a primavera.
Então tu, florescida, coração, bem-amada,
sobre meus olhos como as folhagens do céu
és, e eu te fito recostada na terra.
Vejo o sol transmigrar cachos a teu rosto,
olhando para a altura reconheço teus passos.
Matilde, bem-amada, diadema, bem-vinda!
e que tuas mãos saiam do rancor, transparentes,
como se na manhã do mar fossem criadas:
o sal te deu, amor meu, proporção cristalina.
A inveja sofre, morre, se esgota com meu canto.
Um a um agonizam seus tristes capitães.
Eu digo amor, e o mundo se povoa de pombas.
Cada sílaba minha traz a primavera.
Então tu, florescida, coração, bem-amada,
sobre meus olhos como as folhagens do céu
és, e eu te fito recostada na terra.
Vejo o sol transmigrar cachos a teu rosto,
olhando para a altura reconheço teus passos.
Matilde, bem-amada, diadema, bem-vinda!
1 103
Madi
Duas caras
Duas caras
O meu amor tem duas caras:
a da alegria e a do ciúme
O meu amor tem duas caras:
a da alegria e a do ciúme
1 237
Domingos Caldas Barbosa
Desprezo da Maledicência
Depois que eu te quero bem,
Deu o mundo em murmurar;
Porém que lhe hei de eu fazer?
É mundo, deixa falar.
Não te enfades menina
Deixa o mundo falar.
Sabes porque fala o mundo,
É só por nos invejar;
Ele tem ódio aos ditosos,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
As loucas vozes do mundo
Tu não deves escutar,
Pois que sem razão murmura,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Ouve só a quem te adora,
Quem anda por ti a bradar;
Dos outros não faças caso,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Menina, vamos amando,
Que não é culpa o amar;
O mundo ralha de tudo,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Que fazem nossos amores
Para o mundo murmurar?
É mau costume do mundo,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Sempre todos me hão de ver
Por meu bem a suspirar;
Se disto falar o mundo,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Ah meu bem não pretendamos
Do povo a boca tapar;
Bem sabes que o povo é mundo,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).
In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15
Deu o mundo em murmurar;
Porém que lhe hei de eu fazer?
É mundo, deixa falar.
Não te enfades menina
Deixa o mundo falar.
Sabes porque fala o mundo,
É só por nos invejar;
Ele tem ódio aos ditosos,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
As loucas vozes do mundo
Tu não deves escutar,
Pois que sem razão murmura,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Ouve só a quem te adora,
Quem anda por ti a bradar;
Dos outros não faças caso,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Menina, vamos amando,
Que não é culpa o amar;
O mundo ralha de tudo,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Que fazem nossos amores
Para o mundo murmurar?
É mau costume do mundo,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Sempre todos me hão de ver
Por meu bem a suspirar;
Se disto falar o mundo,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Ah meu bem não pretendamos
Do povo a boca tapar;
Bem sabes que o povo é mundo,
É mundo, deixa falar.
Não etc.
Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).
In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15
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