Céu, Estrelas e Universo
Mário Hélio
23-III(Estático)
um silêncio enche o mundo
um pavor se compenetra.
um poema cai no mar
uma gota d’água se misturva
ao mormaço.
Florbela Espanca
Os Teus Olhos
Dessa cor, antigamente;
Era branco como um lírio,
Ou como estrela cadente.
Um dia, fez Deus uns olhos
Tão azuis como esses teus,
Que olharam admirados
A taça branca dos céus.
Quando sentiu esse olhar:
“Que doçura, que primor!”
Disse o céu, e ciumento,
Tornou-se da mesma cor!
Florbela Espanca
Há nos teus olhos
No teu perfil altivo de romano,
No teu riso de graça e de esplendor
Um misterioso ideal divino e humano.
Cruz de Cristo sangrando sobre o pano
Das velas altas, lá vai, sobre o fragor
Dum mar sereno, cristalino e plano,
A tua barca de conquistador!
Eu quero ir contigo a esses distantes
Reinos! Deixa-me erguer as brancas velas,
Ser um dos teus audazes navegantes!
Meus olhos cegos são dois poços fundos...
— Conta-me o céu! Ensina-me as estrelas!
Mostra-me a estrada dos teus Novos Mundos!
Marcelo Almeida de Oliveira
A história se repete
É inútil olhar para trás.
É prudente olhar para o chão.
É emocionante olhar para frente
e tentar vislumbrar as coisas
que aparecem magicamente difusas
dentro da densa névoa.
Quando finalmente se cristalizam,
rapidamente são deixadas para trás.
Que gracinha ...
Ainda nem se preocupou em olhar
um pouco mais acima da bruma espessa
e perceber a cerca alta.
Não adianta, é impossível derrubá-la.
É preciso transpô-la.
Crescer é preciso.
O vermelho não é vermelho, nem é azul.
Um grito não é grito.
Uma pedra não é uma pedra, nem é dura.
O fogo não é fogo, tampouco queima .
Tókio está tão perto de São Paulo
quanto o meu fura-bolo está do cata-piolho.
Tempo não existe. Países não existem.
A ciência da borboleta reina.
Talvez 2 seja diferente de 2.
Talvez o novo átomo seja igual ao antigo,
que é igual ao mais velho,
que é igual ao sol ,
que é igual ao sistema,
que é igual à galáxia,
que é igual ao universo,
que talvez seja o átomo.
Talvez o talvez realmente seja.
Com o peso, o berço se quebra.
Não tão grandes agora, as cercas desmoronam.
Felicidade natural.
Encontramos Deus.
ELE é NÓS.
Jorge Luis Borges
Signos
Indescifrada y sola, sé que puedo
ser en la vaga noche una plegaria
de bronce o la sentencia en que se cifra
el sabor de una vida o de una tarde
o el sueño de Chuang Tzu, que ya conoces
o una fecha trivial o una parábola
o un vasto emperador, hoy unas sílabas,
o el universo o tu secreto nombre
o aquel enigma que indagaste en vano
a lo largo del tiempo y de sus días.
Puedo ser todo. Déjame en la sombra.
"La moneda de hierro"
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 468 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
La clepsidra
gota de la clepsidra. La veremos
resplandecer y hundirse en la tiniebla,
pero en ella estarán las beatitudes
que al rojo Adán otorgó Alguien o Algo:
el recíproco amor y tu fragancia,
el acto de entender el universo,
siquiera falazmente, aquel instante
en que Virgilio da con el hexámetro,
el agua de la sed y el pan del hambre,
en el aire la delicada nieve,
el tacto del volumen que buscamos
en la desidia de los anaqueles,
el goce de la espada en la batalla,
el mar que libre roturó Inglaterra,
el alivio de oír tras el silencio
el esperado acorde, una memoria
preciosa y olvidada, la fatiga,
el instante en que el sueño nos disgrega.
"La moneda de hierro" (1976)
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 466 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
António Ramos Rosa
Na Biblioteca Entre Pedras, Livros, Sombras
e a estrela a que está presa a mulher e o cavalo.
A paciência dilacera um último reduto.
Abertas as janelas, dilata-se o desejo
de igualar a altura e a firmeza à sombra.
Preso o cavalo à estrela, dimensão bem clara,
renova-se o ar e a luz penetra a sombra.
Biblioteca de pedras e o mar roendo as rochas.
Pode o cavalo soltar-se sem a mulher e a sombra,
pode o céu afirmar-se na tranquilidade da cena.
Uma luta suave e negra entrega aos ombros
a liberdade oculta e fortalece os ossos.
Um caminho de pedras na biblioteca acesa
e o cavalo pastando entre flores e livros.
Jorge Luis Borges
El suicida
No quedará la noche.
Moriré y conmigo la suma
del intolerable universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el último pájaro.
Lego la nada a nadie.
"La rosa profunda" (1975)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 395 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
António Ramos Rosa
O Peito Entre As Plantas, Vês Os Cristais Nas Árvores,
a pedra límpida, os grandes nós da água.
De margem a margem o dia é tão claro
que o cavalo se ilumina da minha sede limpa.
E esse verde aroma do teu corpo que chama
a aridez dos insectos, a voraz oficina
de que se compõe a luta vida a vida,
searas, canaviais, constelações.
Entre o ar dos quartos e a fresca imobilidade
a curva da viagem num planeta novo.
Entre a terra e a lua deixa os seios da água,
limpa-os do pó nocturno, deixa a luz entre as árvores,
que o teu nome de mármore seja o cimo do salto
e a tua cauda arraste uma sombra vazia.
Jorge Luis Borges
El ingenuo
capaces de torcer la más terca fortuna;
hay pisadas humanas que han medido la luna
y el insomnio devasta los años y las millas.
En el azul acechan públicas pesadillas
que entenebran el día. No hay en el orbe una
cosa que no sea otra, o contraria, o ninguna.
A mí sólo me inquietan las sorpresas sencillas.
Me asombra que una llave pueda abrir una puerta,
me asombra que mi mano sea una cosa cierta,
me asombra que del griego la eleática saeta
instantánea no alcance la inalcanzable meta,
me asombra que la espada cruel pueda ser hermosa,
y que la rosa tenga el olor de la rosa.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 449 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
Poema de la cantidad
de solitarias y perdidas luces
que Emerson miraría tantas noches
desde la nieve y el rigor de Concord.
Aquí son demasiadas las estrellas.
El hombre es demasiado. Las innúmeras
generaciones de aves y de insectos,
del jaguar constelado y de la sierpe,
de ramas que se tejen y entretejen,
del café, de la arena y de las hojas
oprimen las mañanas y prodigan
su minucioso laberinto inútil.
Acaso cada hormiga que pisamos
es única ante Dios, que la precisa
para la ejecución de las puntuales
leyes que rigen su curiosos mundo.
Si así no fuera, el universo entero
sería un error y un oneroso caos.
los espejos del ébano y del agua,
el espejo inventivo de los sueños,
los líquenes, los peces, las madréporas,
las filas de tortugas en el tiempo,
las luciérnagas de una sola tarde,
las dinastías de las araucarias,
las perfiladas letras de un volumen
que la noche no borra, son sin duda
no menos personales y enigmáticas
que yo, que las confundo. no me atrevo
a juzgar la lepra o a Calígula.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 359 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Fernando Pessoa
34 - THE SUNFLOWER
All things that shine are God's eyes.
All things that move are God's speech.
Every thing has all to teach
To our awakening surmise.
Green are God's thoughts when they are leaves,
Yellow when sunflowers they are.
Yet they shine separate and far
From the hands wherewith God weaves.
Light are my steps on the ground
Yet they do echo through space,
Through terrible abysses that face
God at the side never found.
II
My dreams are angels' kisses.
Lightly they touch my heart,
Tip‑toe shadow caresses.
They are my Godder part.
There is a flower in my hand.
It is not found in fields.
God looks and can understand,
For He is the dreamer who builds.
He knows how dreams are set up,
He knows how flowers are made glad.
Look: I hold up my cup
And God gives me wine to be mad.
Rui Costa
Os turistas
Estes são os turistas e vêm da Grécia
para me ver.
Não sabem que estou extinto
há um milhão de anos
e que me transplantei no vértice de uma
estrela perdida no futuro
luzindo à nossa imagem.
Eis os turistas, com suas rodas de fogo,
como eles chegam afoitos
e estacam diante das pedras
desta cidade que apodrece junto ao rio
porque não sabe distinta forma de amar.
São os turistas,
eles limpam as unhas às gaivotas
e comem pasta de atum
enquanto apertam as sandálias,
e olham para mim,
e levantam-se com o saco a tiracolo e
empunham o arpão
e perguntam se eu sou Herodes e eu
respondo-lhes que não,
nem Platão,
nem o seu vizinho acidental que
dominou a Lídia,
nem o cavalo que decidiu morrer para
ocultar a fuga do Mestre rumo a estâncias
balneares que não devem ser menosprezadas,
mas que posso carregar, sim,
no botão da máquina fotográfica,
e eu caminho os passos necessários e
diante dos séculos que o universo
não contempla
decepo-lhes a cabeça – e volto
para junto de mim
enquanto eles começam a escovar
o cabelo das gaivotas
e entrando num tubo que César
construiu caminham às cegas
para bem longe
da cidade que apodrece junto ao rio.
Jorge Luis Borges
1971
Dos hombres caminaron por la luna.Otros después. ¿Qué puede la palabra,
qué puede lo que el arte sueña y labra,
ante su real y casi irreal fortuna?
Ebrios de horror divino y de aventura,
esos hijos de Whitman han pisado
el páramo lunar, el inviolado
orbe que, antes de Adán, pasa y perdura.
El amor de Endimión en su montaña,
el hipogrifo, la curiosa esfera
de Wells, que en mi recuerdo es verdadera,
se confirman. De todos es la hazaña.
No hay en la tierra un hombre que no sea
hoy más valiente y más feliz. El día
inmemorial se exalta de energía
por la sola virtud de la Odisea
de esos amigos mágicos. La luna,
que el amor secular busca en el cielo
con triste rostro y no saciado anhelo,
será su monumento, eterna y una.
"El oro de los tigres", (1972)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 352 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
On his blindness
Indigno de los astros y del ave
que surca el hondo azul, ahora secreto,
de esas líneas que son el alfabeto
que ordenan otros y del mármol grave
cuyo dintel mis ya gastados ojos
pierden en su penumbra, de las rosas
invisibles y de las silenciosas
multitudes de oros y de rojos
soy, pero no de las Mil Noches y Una
que abren mares y auroras en mi sombra
ni de Walt Whitman, ese Adán que nombra
las criaturas que son bajo la luna,
ni de los blancos dones del olvido
ni del amor que espero y que no pido.
"El oro de los tigres" (1972)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 347 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Amália Bautista
Um pátio ao sul
Um pátio, um pátio qualquer, num buraco a sul,
limoeiros de odor enjoativo,
a luz do dia morrendo indiferente,
tal como num dia qualquer,
repetindo aquele rito
que conserva o mistério das coisas sabidas
e temidas ao mesmo tempo:
e se esta tarde fosse a última?
Bandos de andorinhas cruzam o céu escuro,
bordejam a alta torre,
chegam-me a despistar com o voo errático
de que desconheço o frágil destino.
Os sinos começam a tocar
e as andorinhas fazem que se assustam com o som,
mas é só brincadeira,
e tragédia, e cabriola, e desenho de círculos perfeitos
contra o cinzento avermelhado de agonia
do altíssimo e largo céu.
O céu escureceu de todo. Lá no alto,
entre os ramos do limoeiro, deslumbra-me, rindo,
uma estrela.
António Ramos Rosa
Para Dizerem Sede Outrora a Estrela
era o guia azul na lentidão da praia
Hoje a aridez resume
dedo a dedo
a palavra árida
da sede
As linhas não flutuam
quebram escadas
as esquinas desdobram-se sobre os corpos
as letras interrogam as palavras
as sombras caem sobre as sombras
Para não te dizer o fogo desse luto
de um dia tão final que o branco ascenda
à cegueira das pálpebras de areia
António Ramos Rosa
Portão do Jardim Deserto
(KLEE)
É talvez Inverno.
Talvez. Mas
as labaredas amarelas
das ervas a cada lado do portão?
Umas incendeiam o muro,
as outras mais rasas
contrastam com o roxo
de um solo de sombra e humidade.
Mas já o verde do portão
ou só talvez o espaço entre os umbrais
clama o abandono frio de um esplendor:
uma porta ou o vazio.
Talvez um espelho que nada reflecte
em obscura transparência
— mas de quê?
Uma pequena chama fulva apenas arde
nas ervas ressequidas
e algumas linhas se adivinham.
Para além do muro
a densidade da distância
em superfície, todavia, é aliança.
Mas no jardim, no chão de cinza azul
as hastes dançam
uma estação de estrela.
Carlos Drummond de Andrade
Campo, Chinês E Sono
O chinês deitado
no campo. O campo é azul,
roxo também. O campo,
o mundo e todas as coisas
têm ar de um chinês
deitado e que dorme.
Como saber se está sonhando?
O sono é perfeito. Formigas
crescem, estrelas latejam,
peixes são fluidos.
E árvores dizem qualquer coisa
que não entendes. Há um chinês
dormindo no campo. Há um campo
cheio de sono e antigas confidencias.
Debruça-te no ouvido, ouve o murmúrio
do sono em marcha. Ouve a terra, as nuvens.
O campo está dormindo e forma um chinês
de suave rosto inclinado
no vão do tempo.
Pablo Neruda
11
a metade da lua.
Girante, errante noite, a escavadora de olhos.
A ver quantos fragmentos de estrelas nas poças.
Faz uma cruz de luto em minha testa, foge.
Forja de metais azuis,noites de lutas silenciosas,
meu coração dá voltas como um volante louco.
Menina que vem de tão longe,trazida de tão longe,
às vezes teu olhar fulgura sob o céu.
Queixume, tempestade, redemoinho de fúria,
cruza meu coração, sem te deteres.
Vento dos sepúlcros carrega, destroça, dispersa tua raiz sonolenta.
Decepa as grandes árvores do outro lado dela.
Mas você, alva menina, pergunta de fumo, espiga.
Era a que ia formando o vento com folhas luzidias.
Atrás das montanhas noturnas, lírio branco de incêndio,
ah nada posso dizer! Era feita de todas as coisas.
Ansiedade que partiu meu peito a cuteladas,
é hora de seguir outro caminho,onde ela não sorria.
Tempestade que enterrou campanários, turva revoada de tormentas
para que tocá-la agora, para que entristecê-la.
Ai, seguir o caminho que se afasta de tudo,
onde não estejam vagando a angústia, a morte, o inverno,
com seus olhos abertos entre o orvalho.
Jorge Luis Borges
Metáforas de Las Mil Y Una Noches
Las grandes aguas. El cristal viviente
Que guarda esas queridas maravillas
Que fueron del Islam y que son tuyas
Y mías hoy. El todopoderoso
Talismán que también es un esclavo;
El genio confinado en la vasija
De cobre por el sello salomónico;
El juramento de aquel rey que entrega
Su reina de una noche a la justicia
De la espada, la luna, que está sola;
Las manos que se lavan con ceniza;
Los viajes de Simbad, ese Odiseo
Urgido por la sed de su aventura,
No castigado por un dios; la lámpara;
Los símbolos que anuncian a Rodrigo
La conquista de España por los árabes;
El simio que revela que es un hombre,
Jugando al ajedrez; el rey leproso;
Las altas caravanas; la montaña
De piedra imán que hace estallar la nave;
El jeque y la gacela; un orbe fluido
De formas que varían como nubes,
Sujetas al arbitrio del Destino
O del Azar, que son la misma cosa:
El mendigo que puede ser un ángel
Y la caverna que se llama Sésamo.
La segunda metáfora es la trama
De un tapiz, que propone a la mirada
Un caos de colores y de líneas
Irresponsables, un azar y un vértigo,
Pero un orden secreto lo gobierna.
Como aquel otro sueño, el Universo,
El Libro de las Noches está hecho
De cifras tutelares y de hábitos:
Los siete hermanos y los siete viajes,
Los tres cadíes y los tres deseos
De quien miró la Noche de las Noches,
La negra cabellera enamorada
En que el amante ve tres noches juntas,
Los tres visires y los tres castigos,
Y encima de las otras la primera
Y última cifra del Señor; el Uno.
La tercera metáfora es un sueño
Agarenos y persas lo soñaron
En los portales del velado Oriente
O en vergeles que ahora son del polvo
Y seguirán soñándolo los hombres
Hasta el último fin de su jornada.
Como en la paradoja del eleata,
El sueño se disgrega en otro sueño
Y ése en otro y en otros, que entretejen
Ociosos un ocioso laberinto.
En el libro está el Libro. Sin saberlo,
La reina cuenta al rey la ya olvidada
Historia de los dos. Arrebatados
Por el tumulto de anteriores magias,
No saben quiénes son. Siguen soñando.
La cuarta es la metáfora de un mapa
De esa región indefinida, el Tiempo,
De cuanto miden las graduales sombras
Y el perpetuo desgaste de los mármoles
Y los pasos de las generaciones.
Todo. La voz y el eco, lo que miran
Las dos opuestas caras del Bifronte,
Mundos de plata y mundos de oro rojo
Y la larga vigilia de los astros.
Dicen los árabes que nadie puede
Leer hasta el fin el Libro de las Noches.
Las Noches son el Tiempo, el que no duerme.
Sigue leyendo mientras muere el día
Y Shahrazad te contará tu historia.
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", págs. 478, 479 e 480 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ir Beber-Te Num Navio de Altos Mastros
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.
Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi Florestas E Danças E Tormentos
Nos céus atravessados por cometas.
Vi luz a pique sobre as faces nuas,
Vi olhos que eram como fundas luas
Magnéticas suspensas sobre o mar.
Vi poentes em sangue alucinados
Onde os homens e as sombras se cruzavam
Em gestos desmedidos, mutilados.
Levada por fantásticos caminhos
Atravessei países vacilantes,
E nas encruzilhadas riam anjos
Inconscientes e puros como estrelas.
Zuca Sardan
Crepúsculo
pouco a pouco,
no oceano ...
Não se deixou, porém,
impressionar ...
porque sabia
que a Terra
era redonda ...
e ele não estava assim
propriamente afundando,
mas rolando
pro lado de lá ...
( Pelo menos,
foi o que lhe contaram ... )
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)