Poemas neste tema

Céu, Estrelas e Universo

Josely Vianna Baptista

Josely Vianna Baptista

para leminsky

junho 1989

penso e surpreendo dentro
esse peso suspenso
entre fuga e allegro

entre risos e abismo
resgato fragmentos
e vestígios do vértigo

(espreito, rima leonina,
as naus, bits e ítacas
de tuas russas cismas,
as lengua-lengas feras
de teus trobares raros)

entre sóis e êsseoésses
miro etrelas-desastres
e desorientes ferozes
rumo ao ouro quase-Órion
de um perhappiness

entre o novo e o velho
só vejo o vero fogo
que te tornou eterno

só vestígios do vétigo
desde que o caos
deixou de ser acaso
646
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Bomba Atômica I

e = mc2
Einstein

Deusa, visão dos céus que me domina
… tu que és mulher e nada mais!
(Deusa, valsa carioca.)

Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De paraquedas?
Uma coisa branca
Como uma forma
De estatuária
Talvez a forma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado à lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clâmide
Talvez a inversa
Branca pirâmide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
É A BOMBA ATÔMICA.

Vem-me uma angústia.

Quisera tanto
Por um momento
Tê-la em meus braços
A coma ao vento
Descendo nua
Pelos espaços
Descendo branca
Branca e serena
Como um espasmo
Fria e corrupta
Do longo sêmen
Da Via Láctea
Deusa impoluta
O sexo abrupto
Cubo de prata
Mulher ao cubo
Caindo aos súcubos
Intemerata
Carne tão rija
De hormônios vivos
Exacerbada
Que o simples toque
Pode rompê-la
Em cada átomo
Numa explosão
Milhões de vezes
Maior que a força
Contida no ato
Ou que a energia
Que expulsa o feto
Na hora do parto.

II

A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!

Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra...
Bomba atômica que aterra!
Pomba atônita da paz!

Pomba tonta, bomba atômica
Tristeza, consolação
Flor puríssima do urânio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do helium
E odor de radium fatal
Lœlia mineral carnívora
Radiosa rosa radical.

Nunca mais, oh bomba atômica
Nunca, em tempo algum, jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte demais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!

III

Bomba atômica, eu te amo! és pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhões mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleans; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
— Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atômica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual à massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! alta e violenta potestade
Serena! Meu amor, desce do espaço
Vem dormir, vem dormir no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De canções e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiações espaciais
Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
Ao povo, ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais límpida e mais pura
Que a estrela matutina! Oh bomba atômica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enérgica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragílima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo? Oh átomo, oh neutrônio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!
1 231
Colombina

Colombina

Banco de Jardim

Amo os céus iluminados
pelos astros infinitos;
mas, por mal dos meus pecados,
teus olhos são mais bonitos.

Em teus braços aninhada,
tenho ao alcance da mão
toda uma noite estrelada,
todo o sol no coração.

Amar — verbo transcendente
que a gente conjuga a dois...
É um sorriso no presente
e são lágrimas, depois.

Penso em ti se estás ausente,
penso em ti se perto estás:
longe — quero-te presente,
perto — que embora não vás!

Apesar dos desenganos,
de tanta desilusão,
nós sempre temos vinte anos
num canto do coração.


Publicado no livro Cantares de bem-querer (1956). Poema integrante da série Trovas.

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 919
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SACADURA CABRAL

SACADURA CABRAL

No frio mar do alheio Norte,
Morto quedou,
Servo da Sorte infiel que a Sorte
Deu e tirou.

Brilha alto a chama que se apaga.
A noite o encheu.
De estranho mar que estranha plaga,
Nosso, o acolheu?

Floriu, murchou na extrema haste;
Jóia do ousar,
Que teve por eterno engaste
O céu e o mar.


(Athena, vol. I, nº 3, Dezembro de 1924)
4 237
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Corpo

Vive no meio de um incêndio
entre o silêncio e a água.
Azul veloz, o sangue do desejo.
Ninguém a defende da perfeita

noite. Move-se entre espelhos
e sombras. Cumpre-se a matéria
com as feridas do vento.
Incendeia os sulcos dos acordes.

Um tremor de planeta, um som negro,
reflexos de um confuso esplendor.
Pólen de pedra nos flancos.
Um voo permanente, submerso,

através dos dédalos, dos círculos,
das móveis dunas do deserto.
Estrela, sim, estrela de argila
em núpcias consigo e com o mundo.
1 084
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Terra

Sorvo na garganta das folhas
o bafo verde e o rumor das vespas.
Uma neblina ascende, é a hora das raízes
e das pétalas de areia fulgurantes.
Olho por dentro dos ramos, as pequenas
espirais, as extensas plumas.
A luz da boca estende-se
no sílex, nas cicatrizes da mica.
Rodeio-me do fulgor das pedras
e dos torsos que, opacos, ainda abrigam.
Sou escolhido pela amplitude
no vagaroso tropel das árvores
e das nuvens. Todo o azul é meu.
Estou plantado e liberto, com um braço
intenso sobre a terra.
1 030
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo, desde ermos astros afastados

Tudo, desde ermos astros afastados
A nós, nos dá o mundo.
E a tudo, alheios, nos acrescentamos,
Pensando e interpretando.
A próxima erva a que não chega basta,
O que há é o melhor.


10/12/1931
1 617
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Ausência

O sol é uma noite suave.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.

Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.

De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.

Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
535
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Imagens

Sucedem-se sem coincidirem entre silêncios
e simultâneas vencem o inexplicável vazio.
Cada uma inteira com um gesto inicial.
Novas e limpas embriagam e despertam.
Não são ilhas. Trazem o vento completo.
Serei algum dia parte desta plenitude?
Sou já o amor da terra nestas vértebras.
As sílabas afluem como se um deus dormisse.
Tudo pertence às árvores, a uma frescura louca.
A exacta realidade é a mais viva fábula.
As imagens estremecem magníficas, errantes.
Uma linha trémula separa o rosa do cinzento.
Alguns vocábulos tenazes: vértebras, estrelas.
Uma segurança no incerto, um brilho no obscuro.
A mão vegetal toca a rosa libertada.
Quantas nascentes, quantas portas livres!
616
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Súbdito inútil de astros dominantes,

Súbdito inútil de astros dominantes,
Passageiros como eu, vivo uma vida
Que não quero nem amo,
Minha porque sou ela,

No ergástulo de ser quem sou, contudo,
De em mim pensar me livro, olhando no alto
Os astros que dominam
Submissos de os ver brilhar.

Vastidão vã que finge de infinito
(Como se o infinito se pudesse ver!) –
Dá-me ela a liberdade?
Como, se ela a não tem?


19/11/1933
2 182
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Voz

Quero pertencer à abóbada escura como um amante inerme
e ser o alento do silêncio sobre os ombros das nuvens.
Quero aderir à sombra das palavras da folhagem
e compreender a terra na selvagem seda do desejo.
1 114
Daniel Jonas

Daniel Jonas

Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias

Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias
chegaríamos a iguais resultados
pelo que de nada adianta imaginar um almagesto
ou tabelas de paralaxe para isto
a que convencionalmente chamamos amor,
nem calcular o ângulo
entre nós e o centro da terra,
de nada nos aproveitara, tu e eu
centros escorraçados de irregular gravitação.
Porém, isso não me impediu de ver plêiades
cada vez que surgias (só
não te dizia nada) plêiades iluminando
meu Hades
com suas cabrinhas coruscantes
pascendo
o vale da sombra da morte.
E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?
quando o melancólico transístor
destila também outras perguntas, mas nenhuma
tão dura quanto essa,
por exemplo: porque é que a água tem mais tendência
a subir em tubos estreitos
ao contrário do mercúrio?
Isto é view-master e são coisas que faço
na tua ausência.
1 036 1
Daniel Jonas

Daniel Jonas

BENGALEIRO OU HORACIANAS

Físico o tractor quente arremessou
Contra as colheitas de ouro o breu de corvos
Trazendo a noite em ondas de onde andou
De foice afoita, a luz sugando a sorvos.
Modorrento, o vapor da chaminé,
Máquina de fazer nuvens, levando
Ondinas ao empíreo mar, rapé
Da paz entre titãs que ordenhando
Alheias colinas se houvessem mais
Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:
Ovos de palha, gemas siderais
Chocados em estrelado canapé.
Entrar nesta pintura eu queria
Se à entrada não pedissem a poesia.
1 043 1
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Negra Ii

Cresce num turbilhão de areia
e vidro. É uma evidência negra.
Entre oblíquas aves gira.
Dorme nas gargantas da sombra.

O centro cintila? Relâmpagos
rápidos não arredondam o campo.
Como unir a terra à estrela?
Seu ardor negro separa.

Vibra a língua, vibra o corpo
da água cega que a nutre,
sem esplendor de inteligência.
Muralhas, muralhas densas.

Não perfaz, não principia
por terras, máquinas, sombras.
Gritos vãos e nenhum canto.
Sangue frio do movimento.
1 140
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Acima da verdade estão os deuses.

Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,

Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.


16/10/1914
2 033
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tirem-me os deuses

Tirem-me os deuses
Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
O Amor, glória e riqueza.

Tirem, mas deixem-me,
Deixem-me apenas
A consciência lúcida e solene
Das coisas e dos seres.

Pouco me importa
Amor ou glória.
A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra.

Mas a concisa
Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objectos
Tem abrigo seguro.

Seus fundamentos
São todo o mundo,
Seu amor é o plácido Universo,
Sua riqueza a vida.

A sua glória
É a suprema
Certeza da solene e clara posse
Das formas dos objectos.

O resto passa,
E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
E inútil do Universo.

Essa a si basta,
Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
Até deixar de ver.


06/06/1915
2 250
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Metafísica

1

Não tenta nada de que se tivesse já esquecido;
o seu objetivo, agora, é organizar o presente.

2

Com as mãos, procura avaliar a qualidade da terra:
se as folhas lhe dão a consistência do ser vivo,
ou se a pedra que está por baixo, com os restos
fósseis da origem, rompe a sua unidade, e impede
o caminho às raízes.

3

Os olhos não sabem, ainda, que a visão profunda
os dispensa. Por dentro, o olhar implica a noite;
e é da fusão das formas no negro último do céu,
para além da superfície das estrelas e das nebulosas
que essa verdade brilha com a sua exata eternidade.



Nuno Júdice | "Meditação sobre ruínas", 1995

1 057
Frank O'Hara

Frank O'Hara

Três árias

para Norman Bluhm
1.
Tantas coisas no ar! fuligem,
bolas de elefante, uma nuvem chinesa
que já desabou por completo, um gato
girado pelo rabo
e as sensações
dos mortos que batem e se esbarram
dentro dos meus olhos cansados
2.
Lá nas profundezas vive um passarinho
que só cantarola, um canto de coragem
e temperança; administra uma fundição
e como é firme ao pegar as coisas! arranca-as
do limo e depois – oh! céus! – numa travessura
ele as joga no caldeirão da feiura
e já um pôr do sol vem nomeando
os álamos que, aguados, só veem a si mesmos
3.
Ah ser um anjo (se anjos houvesse!) e subir
direto ao céu e dar uma olhada e depois
descer
não estar coberto com aço e alumínio
fulgurantemente feio nas distâncias puras e estalando e
estourando, arfando
mas ser parte do topo das árvores e do azul, invisível,
na escuridão iridescente ao longe,
silencioso, ouvindo ao
ar tornar-se não ar tornar-se ar de novo
:
Three airs
to Normam Bluhm
1.
So many things in the air! soot,
elephant balls, a Chinese cloud
which is entirely collapsed, a cat
swung by its tail
and the senses
of the dead which are banging about
inside my tired red eyes
2.
In the deeps there is a little bird
and it only hums, it hums of fortitude
and temperance, it is managing a foundry
how firmly it must grasp things! tear them
out of the slime and then, alas! It mischievously
drops them into the cauldron of hideousness
there is already a sunset naming
the poplars which see only, watery, themselves
3.
Oh to be an angel (if there were any!), and go
straight up into the sky and look around and then
come down
not to be covered with steel and aluminum
glaringly ugly in the pure distances and clattering and
buckling, wheezing
but to be part of the treetops and the blueness, invisible,
the iridescent darkness beyond,
silent, listening to
the air becoming no air becoming air again
1 141
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho dó das estrelas

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo...
Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir...

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?


(Mensagem, nº 1, Abril de 1938)
4 458
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Coisa Sem Nome

Um disco de uma negra densidade,
a coisa sem nome, irradiante embriaguez.
Terei tocado a sombra, a sequiosa luz?
Vibro no vazio do vento, vivo com as pedras,
em ondas oscilantes, entre pequenas ilhas.

Uma coisa germina, volúvel, subtil,
da guerra silenciosa à silenciosa música.
Um tranquilo relâmpago, um gesto da paisagem.
Ainda não um nome. Uma dança. Um desenho.
Uma poeira de ferrugem na água transparente.

Este é o lugar do meu desejo, na leveza
de uma estrela. O obscuro liberta-se em miríades
fosforescentes. As linhas cantam ao primeiro álcool
da respiração. O corpo completa-se
no vermelho sono de uma vibrante folha.

Aniquilado, vagaroso rosto, que se forma no centro
da folha inicial. As pedras ouvem, o arbusto vê.
O mar, não uma lâmpada, acende a mão deserta.
Ninguém separa já a palavra dos meus dedos.
A presença é o esquecimento no seio do abandono.
1 123
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No fim da chuva e do vento

No fim da chuva e do vento
Voltou ao céu que voltou
A lua; e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.

Pela imensa constelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.

Mas perdeu-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale.
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.


02/10/1928
4 122
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nuvens

Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio vi-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.

Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.

Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
1 100
Pedro Casariego Córdoba

Pedro Casariego Córdoba

16de julho

mãe
arranque a partir de hoje a coroa
de rainha da insônia
porque é uma coroa falsa
nem uma única pedra preciosa
e mesmo assim
quando não pode dormir
você se converte na enfermeira do céu
médico de cabeceira dos cometas
nuvens sensíveis
estrelas que têm febre
como se compadece o sonho
aquele que congela suas mãos
suas mãos fundas de beleza
de rastelo
de tesouras de duas luas
dois jardins suas mãos quando regam
dez flores seus dedos quando plantam
algo um bulbo?
que parece uma toupeira
tão fechada em si
como uma noz
e que
com certeza
se abrirá amanhã
para soltar um pássaro de pétalas
o pássaro há de tossir um pouco
pedirá um cigarro
e dirá
que lhe observa quando você não pode dormir
e que
bem no momento em que consegue domir
aparece no calor do céu de verão
uma estrela nova e fraquíssima
talvez por isso lhe custe tanto dormir
iluminar uma estrela ferida
fazer curativos na perna quebrada de uma estrela acrobata demais
não está ao alcance dos que dormem como pedras
dos que se esquecem das pernas alheias
as penas alheias
as próprias penas
mãe
creio em sua coragem
creio
:
16DE JULIO // madre / quítate desde hoy la corona / de reina delinsomnio / porque es una corona falsa / ni una sola piedra preciosa /y sin embargo / cuando no puedes dormirte / te conviertes en laenfermera del cielo / médico de cabecera de los cometas / nubesdelicadas / estrellas que tienen fiebre // qué compasivo es el sueño/ el que congela tus manos / tus manos hondas de belleza / derastrillo / de tijeras de dos lunas // dos jardines tus manos cuandoriegan / diez flores tus dedos cuando plantam / algo ¿un bulbo? /que parece un topo / tan encerrado en sí mismo / como una nuez / yque / seguro / mañana se abrirá / para soltar un pájaro de pétalos/ el pájaro toserá un poco / te pedirá un cigarrillo / y te dirá/ que te mira cuando no puedes dormir / y que / justo cuandoconsigues dormirte / aparece entre el calor del cielo de verano / unaestrella nueva y debilísima // quizá por eso te cueste tantodormirte / alumbrar una estrella herida / vendar la pierna rota deuna estrella demasiado saltimbanqui / no está al alcance de los queduermen a pierna suelta / de los que olvidan las piernas de los otros/ las penas de los otros / sus propias penas / madre / creo en tucoraje / creo
.
.
.
676
Pedro Casariego Córdoba

Pedro Casariego Córdoba

Esta solidão

esta solidão é filha de uma altura equivocada
eu tenho o vício dos céus
sou o único proprietário
do ar ossudo e dos pássaros fáceis
os ossos azuis do céu
formam um espaço grande e delicado
e se partem em tormenta
e descem em água
para acabar em lápide sem nome
o vermelho das minhas mãos é um mistério
porque brota de rios brancos que se inclinam como lápides
através da tela metálica
cabisbaixa a erva daninha rouba o início do outono
no outono os ladrões de céu
carregam silêncio no bico e tumba nas asas
agarro-me à tela metálica
e não tenho dinheiro
as mulheres redondas sempre têm dinheiro
mas quando olham para o alto a celebrar uma cama nova
alguém obstrui o céu com uma navalha de ar
agarro-me à tela metálica
e não tenho mulher redonda
eu tenho o vício do céu porque tenho medo
porque sou covarde
mulher inteira nada tenho a oferecer desamarrote minha tormenta
AJANTA É ÀS 6.
EUSOU O GARÇOM.
:
ESTASOLEDAD / esta soledad es hija de una altura equivocada / yo tengo elvicio del cielo / soy el único propietario / del aire huesudo y delos pájaros fáciles // los huesos azules del cielo / forman unespacio largo y delgado / y se quiebran en tormenta / y bajan en agua/ para acabar en lápida sin nombre // el rojo de mis manos es unmisterio / porque brota de ríos blancos que se inclinan como lápidas// a través de la tela metálica / cabizbaja la mala hierba roba elprincipio del otoño // en otoño los ladrones del cielo / llevansilencio en el pico y tumba en las alas // me agarro a la telametálica / y no tengo dinero / las mujeres redondas siempre tienendinero / pero cuando miran hacia lo alto para celebrar una cama nueva/ alguien impide el cielo con una navaja de aire // me agarro a latela metálica / y no tengo mujer redonda // yo tengo el vicio delcielo porque tengo miedo / porque soy cobarde // mujer entera nopuedo darte nada plancha mi tormenta / LA CENA ES A LAS 6. / YO SOYEL CAMARERO.
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