Poemas neste tema

Beleza

Jacy Pacheco

Jacy Pacheco

Haicai

O luar no mar.
Um peixe salta, enlevado,
banhado de prata.

Por sobre o banhado
— alvas asas — com que graça
a garça esvoaça!

949
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Por Deus, Amigas, Que Será

Por Deus, amigas, que será,
pois [j]á o mundo nom é rem,
nem quer amig'a senhor bem?
E este mundo que é já?
Pois i amor nom há poder,
que presta seu bom parecer,
nem seu bom talh'a quen'o há?

Vedes por que o dig'assi:
porque nom há no mundo rei
que viss'o talho que eu hei
que xe nom morresse por mim;
siquer meus olhos verdes som,
e meu amig'agora nom
me viu, e passou per aqui.

Mais dona que amig'houver
des hoje mais (crea per Deus)
nom s'esforç'enos olhos seus,
ca des oimais nom lh'é mester:
ca já meus olhos viu alguém
e meu bom talh', e ora vem
e vai-se tanto que s'ir quer.

E, pois que nom há de valer
bom talho nem bom parecer,
parescamos já como quer.
952
José Agostinho de Macedo

José Agostinho de Macedo

A Cidade Bela

Quanto é bela Ulisseia! E quanto é grata
Dos sete montes seus ao longe a vista!
Das altas torres, pórticos soberbos
Quanto é grande, magnífico o prospecto!

Humilde e bonançoso o flavo Tejo,
Sobre areias auríferas correndo,
As praias lhe enriquece, as plantas beija.
Quão denso bosque de cavalos pinhos
Sobre a espádua sustenta! Do Oriente
Rubins acesos, fugidas safiras,
E da opulenta América os tesouros,
Cortando os mares líquidos, trouxeram.

Nela é mais puro o ar; e o Céu se esmalta
De mais sereno azul. O Sol brilhante,
Correndo o vasto Céu, se apraz de vê-la.
E quase se suspende, e, meigo, envia
Sobre ela o raio extremo, quando acaba
A lúcida carreira, a frente de ouro
No seio esconde das cerúleas ondas.

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

930
Carlos Gondim

Carlos Gondim

As Cimbúlias

Irrequietas, à flor das ondas, em cardumes,
Ora róseas, abrindo as asas, ora azúleas,
Vogam na espuma argêntea, em seus radiosos lumes,
Como efêmeros sóis, errantes, as Cimbúlias,

Centenares, ao léu das vagas em cerúleas
Conchas, de burgalhões e remotos negrumes
Surgem, bailando ao som de misteriosas dúlias,
Haurindo à equórea planta os estranhos perfumes.

Loucas, no amplo lençol das águas espumantes,
Brincam: - e é todo o mar refúlgida Golconda
De topázios, rubis, safiras e diamantes ...

E, volúveis, ruflando as asas sobre as vagas,
Em farândola ideal, elas vão de onda em onda:
— Borboletas do oceano, adormecer nas fragas.

(Ânsia Revel 1929)

951
Adélia Prado

Adélia Prado

Inverno

A árvore na montanha
me chama a ver do alto
o sol derreter a bruma.
Sob o que parece um oceano cinzento
não se enxerga o vergel, os bois.
Lanternas criam halos maravilhosos,
de um navio parado em alto-mar.
O onipresente vapor evanesce as imagens,
exsuda, pela respiração do criador das coisas,
a beleza linfática do mundo.
Provada no corpo é fria.
Na alma expandida é gozo.
1 269
Hernâni Cidade

Hernâni Cidade

À Pertubadora

Olho-te muita vez tão fixamente,
com tal desejo a crepitar no olhar,
que ficas a pensar, vaidosa e crente:
— Mais duas lâmpadas no meu altar…

Vê lá, porém, não te envaideça a ideia
que nestes olhos — lâmpadas votivas —
arda o álcool subtil que em nós ateia
paixões candentes como chamas vivas…

Eu sou romeiro de mais duma santa
e a todos presto um culto assim — banal.
Se não encontro — a ventura é tanta! —
mais que fragmentos do meu santo Graal!…

De alguém eu amo a santidade calma
e os gestos brandos e pacificantes…
E, envolta em seu olhar, minha alma
veste alma túnica em rituais distantes…

Há outra — inacessível Peregrina! —
em que adoro a perfeição sonhada,
fê-la o Senhor numa hora sossegada,
sem descuido ou tremor na mão divina…

Mas em ti amo a graça acidulada
por uma gota de cinismo ingénuo;
muito mais perturbante e desejada
que o vinho mais alcoólico do Reno!

E amo-te a boca… Irregular gomil.
Quando abre em riso, sente-se evolar
não sei que odor de sensação subtil…
(Fermenta nela os beijos que hás-de dar?…)

E a graça dos teus olhos oequeninos!
São duas frestas dum "hyaly" do Oriente,
onde a tua alma — uma sultana ardente —
às vezes surge, a fulminar destinos!

Mas o que mais me turba é o mistério
da tua carne em febre de desejo,
e, assim, a arder, radiando em halo etéreo,
como se a Virgem lhe aflorasse um beijo…

Eis quanto eu amo em ti. É muito?… É pouco?…
Paixão… não creio. Isto é — bem podes ver,
de menos, p’ra seguir-te como louco,
mas demais p’ra te olhar sem estremecer!

(in Antologia de poetas Alentejanos)

856
Adélia Prado

Adélia Prado

Em Mãos

Te explico onde arranjei esta beleza toda.
Foi no deserto,
entre camelos e escaldante areia.
Brincadeira, meu deserto é o pasto,
o cerrado magro onde passo horas
caçando folhas de bugre, as diuréticas,
pro coração ficar leve.
Da cabeça aos pés de mim,
eu só quero saber do fascinoso mistério:
No céu não tem casamento,
mas namoro não tem fim.
Desculpa ‘esta beleza toda’,
exagero meu, simpatia está bom
e deleta ‘escaldante areia’.
O apóstolo Paulo ensina uma cartilha
onde amor é gramática,
muito semântico pra mim
que só em te ver fico asmática.
1 376
Adélia Prado

Adélia Prado

O Vivente

Sem avisos se mostra
a duração perfeita,
forma que de si mesma se acrescenta
e na mesma medida permanece.
Contemplá-la
é querer para si toda a pobreza.
Não causa medo,
só o belo tremor da noiva
deixando a casa paterna.
O que diz é: vem.
O que é: abismo.
Puro gozo
que à medida que come
mais tem fome.
1 094
Adélia Prado

Adélia Prado

A Madrugada Suspensa

A fria estação recobre a terra
com a pele dos sonhos.
Insinuado apenas, tudo se equivale
na maciez cinzenta.
Nada é voraz.
A nevoenta cortina trata a luz com brandura,
quanto mais baça, tanto mais eterno
o halo reflexo no vapor suspenso.
Sorvo encolhida a gélida beleza,
meu respirar transvaza convertido,
ele também, em pura e só neblina.
1 097
Adélia Prado

Adélia Prado

Esplendores

Toda compreensão é poesia,
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
1 239
Genaro Vencato

Genaro Vencato

O pescador

Abri a ostra e encontrei a pérola
Um leve beijo com o toque da língua,
Fez ela morder o lábio e mergulhar
Arrepiada no oceano de fogo
E urna gigantesca onda de calor
Banhou seu tênue corpo salgado
o vento uivou desconcertante
Completamente alucinado
Por cima das nuvens de nácar
Comprimindo os sons
Com um aperto, um urro
E um puxão de cabelo
Fiquei tonto, totalmente inebriado
Com a beleza desta jóia
De valor inestimável
Continuando minha busca
De cultivar sempre
A beleza rara
E deliciosamente pronta a ser aberta
Da sensível ostra.

900
Adélia Prado

Adélia Prado

Constelação

Olhava da vidraça
derramar-se a Via Láctea
sobre a massa das árvores.
Por causa do vidro, da transparência do ar,
ou porque me nasciam lágrimas,
tinha a impressão de que algumas estrelas
mergulhavam no rio,
outras paravam nos ramos.
Passageiros dormiam,
eu clamava por Deus
como o cachorro que sem ameaça aparente
latia desesperado na noite maravilhosa:
Ó Cordeiro de Deus, ó Cruzeiro do Sul,
ó Cordeiro, ó Cruzeiro!
Como o cão, minha língua ladrava
à aterradora beleza.
1 075
C. R. Nazareth

C. R. Nazareth

Filhas de Vênus

A orgulhosa Vênus, deusa do prazer sem igual,
empresta a suas filhas sensuais a chama imortal.
Seja no gelado deserto ou no calor tropical,
a todas confere desejo e prazer sem igual.

A todas confere da paixão o calor
e a todas excita, conduzindo ao profundo ardor.
Assim, não importa o lugar do mundo aonde se vá,
a doce explosão da volúpia lá estará.

Cálido arrebatamento através dos corpos balançando,
na ânsia do jorrar, o auge do prazer alcançando.
Em meio aos gemidos, seja morena ou loira, é uma arte,
uma filha de Vênus é imperatriz em toda parte.

2 099
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Alexandre da Macedónia

A perfeição, a eternidade, a plenitude
Escorriam da sagrada juventude
Dos teus membros.

A luz bailava em roda dos teus passos
E a ardente palidez da tua divindade
Ergueu-se na pureza dos espaços.

Estreitamente os teus dedos
Para lá das vagas ânsias, incertezas e segredos
Prendiam os dedos da sorte.

E o destino que em nós é caos e luto,
Era em ti verdade e harmonia
Caminho puro e absoluto.
1 391
Calex Fagundes

Calex Fagundes

Hotel do tempo

Tua nudez branca
exposta ao filtro de luz
da cortina de gaze.

Quarto clássico de mulher,
ambiência mítica
de mãe e sombras
ritmo de relógio na sala de jantar.

Cama larga das cambraias
alvices que se misturam
com teu corpo de mulher.

Bordados e anagramas,
pequenos quadros e bibelots,
móveis de madeira negra,
paredes de tom terroso,
piso persa e poeiras centenárias
dos tempos
nos interstícios
das tábuas corridas.

Repousas nua,
sobre o colchão dos tempos.

Repousas sobre os panos
tua beleza antiga,
tua alvura epidérmica.

Ressonas sonho
de gozo adormecido.

Contrastam...

Teus pentelhos escuros,
ralos e obscenos,
e os cabelos finos
ao ritmo da brisa,
mansa,
que adentra pela fresta
da veneziana
entreaberta.

Tuas pernas alvas
em relaxamento cósmico,
uma dobrada em ângulo
agudo para o teto alto.

Teus olhos,
ora entreabertos,
fitando terrosos, enigmáticos
em suas transparências.

Como se assistissem,
de longe, a mística cena,
do amante recostado,
numa bergère,
olhos ao vento,
a refolhar gravuras antigas
numa edição ocre, perdida,
achada nas estantes do acaso.

Tua nudez branca
espalhada na cambraia do tempo.

Perna em ângulo,
pendular em seu ir e vir.
Olhar perdido ao acaso
de encontrar o amante
ora entretido, distante,
num estelar comprimento,
que de repente pode ser nada.

Tua pele branca
tua perna que balança.

Tua boceta molhada,
ainda, do último gozo.

O relaxamento despudorado
da cumplicidade.
O olhar de pálpebras ao meio
a percorrer o quarto.

Cheiro acre de sexo,
da mistura de todos humores:
porra, gozo, água, suor, saliva,
lágrimas e sangue.

Miscigenam-se homem-mulher
na atmosfera amarela
do fim de tarde.

Brisa marinha
traz o sol do crepúsculo
na janela litorânea.

Olhos e sabores
recheiam as sensações
vívidas da tarde.

Os últimos raios ocidentais
refletidos nas águas da enseada.

A maresia dos cheiros
afasta as cortinas
do último ocaso meridional.

O amante percebe
no sabor do amontillado,
sorvido do cristal,
a necessidade cósmica
da amante receptiva.

A tua pele branca,
despida na noite.
O silêncio tomado
mas pleno de sentido.

A taça repousada,
o vinho dos desejos,
O abat-jour imprimindo
novas sombras
nas paredes da alcova.

Tua pele branca
em imperceptível fremir,
pulsa sobre os panos brancos.

A língua que escolhe um fio
e segue o caminho da noite
no hotel do tempo.

1 276
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Rio

Rio, múltipla forma fugidia
De gestos infinitos e perdidos
E no seu próprio ritmo diluídos
Contínua aparição brilhante e fria.

Nos teus límpidos olhos de vidente
As paisagens reflectem-se mais fundas
Imóveis entre os gestos da corrente.

E o país em redor verde e silvestre
Alargou-se e abriu-se modulado
No silêncio brilhante que lhe deste.
1 495
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sobre Um Desenho de Miguel Ângelo

Do caos humano, confuso e hostil,
Sobe milagroso o teu perfil
O mais claro ensinamento.

O olhar procura
O mais profundo fundo
O mais longínquo além.
O nariz sente e respira
Cada exalação da vida
E a boca renuncia.
1 052
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Minha Esperança Mora

No vento e nas sereias —
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.
1 550
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Estátuas

Para as estátuas puras e concretas
Existe o movimento da manhã.

Tomam a luz nos dedos oferecidos
E o arco do céu saúda a sua face.

A claridade veste os seus vestidos
E nenhum gesto nelas é perdido.

As madrugadas escorrem dos seus ombros
E o vento poisa as tardes nos seus braços.
1 181
Adélia Prado

Adélia Prado

Tentação Em Maio

Maio se extingue
e com tal luz
e de tal forma se extingue
que um pecado oculto me sugere:
não olhe porque maio não é seu.
Ninguém se livra de maio.
Encantados todos viram as cabeças:
Do que é mesmo que falávamos?
De tua luz eterna, ó maio,
rosa que se fecha sem fanar-se.
1 329
Adélia Prado

Adélia Prado

Uma Janela E Sua Serventia

Hoje me parecem novos estes campos
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.
1 266
Natália Correia

Natália Correia

Mocinhas gráceis

Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela erecção dos centauros
Trepais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.

Ofegar de onda retida
Na ocupação epidérmica
De serdes a exactidão
Florida da primavera,
Todas de luz invadidas,
Soi, porém, as irreiais
Bonecas de sol sumidas
No fulgor com que alumbrais.

Lá no fundo dos desejos
Chegais macias e quentes
Com violas nos cabelos,
Nas ancas, quartos crescentes;
Nas pernas, esguios confeitos,
Na frescura o vermelhão
De uma alvorada que rompe
Em seios de requeijão.

Enleais, mas de enleadas,
Ó volúveis, ó felinas!
Saltais fazendo tinir
Risadas de turmalinas;
E com as asas do segredo
Que vos faz misteriosas
– Pois sendo divinas, sois
Do breve povo das rosas –,
Adejais de beijo em beijo
Já que para gerar assombros
Vicejam as folhas verdes
Que vos farfalham nos ombros.

Ó doçaria que em línguas
Acres sois torrões de mel,
Quando idoneamente ninfas
Vos vestis da vossa pele!
Se a olhares venéreos furtar-vos
Em roupas não vale a pena,
Pois mesmo vestidas estais
Nuinhas de graça plena,
De esbelta nudez plantai
Róseos calcanhares nos dias
Fugazes, não vá Vulcano
Levar-vos para sombras frias;
Não sequem os anos corpinhos
De aragem que os deuses sopram,
Que os anos são os malignos
Sinos que pela morte dobram.

Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transparência.
2 120
Adélia Prado

Adélia Prado

Sinal No Céu

É um tom de laranja
sobre os montes
um pensamento inarticulado
de que a Virgem
pôs o mundo no colo
e passeia com ele nos rosais.
1 541
Eugénia Tabosa

Eugénia Tabosa

Paris

Caminhavas lento
o corpo solto
quase displicente
à volta do rosto
cabelos dourados
pelo sol poente.

Imaginei-te nu
qual estátua viva
apenas saída
do museu em frente.

E ali fiquei parada
no banco da praça
olhando esquecida
de encobrir o olhar.

E fui te despindo
sonhando acordada
sem me perguntar
de tua vontade…

Passaste sorrindo
atrasando o andar,
como se estiveras
num espelho a entrar.

1 016