Poemas neste tema
Beleza
Marcial
IV, 42-A FLACO
Se os votos exalçados poderão ser meus,
Ouve que amante, Flaco, eu desejara ter.
Do Nilo, antes de mais, tenha nascido às margens
(Nenhuma terra ensina uma volúpla igual).
Mais branco do que a neve (pois que em Mareótida
Mais belo entre morenos quanto a alvura é rara.)
Olhos rivais dos astros, e moles flagelem
As comas o pescoço (caracóis não amo).
A fronte breve, e um pouco o nariz aquilino.
De Pestum os rubros lábios envergonhem rosas.
Que meus caprichos negue e aos seus me curve, às vezes.
Mais livre saiba ser, às vezes, que seu amo.
Rapazes tema, e exclua às vezes as mulheres.
Para todos um homem, para mim efebo.
Ah não te enganas, não, quanto meu juízo é vero:
Tal era, tu bem sabes, aquele que eu perdi.
Ouve que amante, Flaco, eu desejara ter.
Do Nilo, antes de mais, tenha nascido às margens
(Nenhuma terra ensina uma volúpla igual).
Mais branco do que a neve (pois que em Mareótida
Mais belo entre morenos quanto a alvura é rara.)
Olhos rivais dos astros, e moles flagelem
As comas o pescoço (caracóis não amo).
A fronte breve, e um pouco o nariz aquilino.
De Pestum os rubros lábios envergonhem rosas.
Que meus caprichos negue e aos seus me curve, às vezes.
Mais livre saiba ser, às vezes, que seu amo.
Rapazes tema, e exclua às vezes as mulheres.
Para todos um homem, para mim efebo.
Ah não te enganas, não, quanto meu juízo é vero:
Tal era, tu bem sabes, aquele que eu perdi.
904
Gaspara Stampa
No dia
No dia em que no ventre concebido
Foi meu senhor, viu-se dos céus eleito
Para que fosse entre os mortais perfeito
E de virtudes mil ficasse ungido,
Saturno junto aos sábios fê-lo aceito
E jove, dos mais nobres preferido;
Marte na liça o fez mais aguerrido
E Febode elegância encheu-lhe o peito.
Beleza deu-lhe Vênus, e eloqüente
O fez Mercúrio; mas a Lua, ao vê-lo,
Frieza ao coração deu de presente.
Cada qual desses dons mais forte apelo
Faz à chama que em mim crepita ardente;
Menos aquele só, que o fez de gelo.
Foi meu senhor, viu-se dos céus eleito
Para que fosse entre os mortais perfeito
E de virtudes mil ficasse ungido,
Saturno junto aos sábios fê-lo aceito
E jove, dos mais nobres preferido;
Marte na liça o fez mais aguerrido
E Febode elegância encheu-lhe o peito.
Beleza deu-lhe Vênus, e eloqüente
O fez Mercúrio; mas a Lua, ao vê-lo,
Frieza ao coração deu de presente.
Cada qual desses dons mais forte apelo
Faz à chama que em mim crepita ardente;
Menos aquele só, que o fez de gelo.
576
Pablo Neruda
Manhã - XIX
Enquanto a magna espuma de Ilha Negra,
o sal azul, o sol nas ondas te molham,
eu contemplo os trabalhos da vespa
empenhada no mel de seu universo.
Vai e vem equilibrando seu reto e ruivo voo
como se deslizasse de um arame invisível
a elegância do baile, a sede de sua cintura,
e os assassinatos do ferrão maligno.
De petróleo e laranja é seu arco-íris,
busca como um avião entre a erva
com um rumor de espiga, voa, desaparece,
enquanto tu sais do mar, nua,
e regressas ao mundo cheia de sal e sol,
reverberante estátua e espada da areia.
o sal azul, o sol nas ondas te molham,
eu contemplo os trabalhos da vespa
empenhada no mel de seu universo.
Vai e vem equilibrando seu reto e ruivo voo
como se deslizasse de um arame invisível
a elegância do baile, a sede de sua cintura,
e os assassinatos do ferrão maligno.
De petróleo e laranja é seu arco-íris,
busca como um avião entre a erva
com um rumor de espiga, voa, desaparece,
enquanto tu sais do mar, nua,
e regressas ao mundo cheia de sal e sol,
reverberante estátua e espada da areia.
1 152
Pablo Neruda
Meio-Dia - XL
Era verde o silêncio, molhada era a luz,
tremia o mês de junho como uma borboleta
e no astral domínio, desde o mar e as pedras,
Matilde atravessaste o meio-dia.
Ias carregada de flores ferruginosas,
algas que o vento sul atormenta e esquece,
ainda brancas, fendidas pelo sal devorante,
tuas mãos levantavam as espigas de areia.
Amo teus dons puros, tua pele de pedra intacta,
tuas unhas oferecidas no sol de teus dedos,
tua boca derramada por toda a alegria,
mas, para minha casa vizinha do abismo,
dá-me o atormentado sistema do silêncio,
o pavilhão do mar esquecido na areia.
tremia o mês de junho como uma borboleta
e no astral domínio, desde o mar e as pedras,
Matilde atravessaste o meio-dia.
Ias carregada de flores ferruginosas,
algas que o vento sul atormenta e esquece,
ainda brancas, fendidas pelo sal devorante,
tuas mãos levantavam as espigas de areia.
Amo teus dons puros, tua pele de pedra intacta,
tuas unhas oferecidas no sol de teus dedos,
tua boca derramada por toda a alegria,
mas, para minha casa vizinha do abismo,
dá-me o atormentado sistema do silêncio,
o pavilhão do mar esquecido na areia.
1 218
Emily Dickinson
Algo existe
Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me implele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.
No lento apagar de suas chamas,
Que me implele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.
1 907
Mário Donizete Massari
Olhos
Pra que tentar com
palavras
dizer o que os olhos
vêem?
A menina passa
e joga graça na praça.
É virgem
(a manhã)
e a menina cresceu
fruta madura
no quintal do prazer.
Os olhos avançam
acompanham a silhueta
da virgem manhã,
a desnudar a menina.
É virgem ainda
a manhã.
palavras
dizer o que os olhos
vêem?
A menina passa
e joga graça na praça.
É virgem
(a manhã)
e a menina cresceu
fruta madura
no quintal do prazer.
Os olhos avançam
acompanham a silhueta
da virgem manhã,
a desnudar a menina.
É virgem ainda
a manhã.
937
Antônio Nunes de Siqueira
Soneto Acróstico
Voe da fama, ao sempre merecido
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
523
Pablo Neruda
Noite - LXXXVI
Oh cruz do sul, oh trevo de fósforo fragrante,
com quatro beijos hoje penetrou tua formosura
e atravessou a sombra e meu chapéu:
a lua ia redonda pelo frio.
Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
de escarcha azul, serenidade do céu,
espelho, apareceste e completou-se a noite
com tuas quatro adegas trêmulas de vinho.
Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
cruz verde, perrexil da sombra radiante,
vaga-lume à unidade do céu condenado,
descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.
com quatro beijos hoje penetrou tua formosura
e atravessou a sombra e meu chapéu:
a lua ia redonda pelo frio.
Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
de escarcha azul, serenidade do céu,
espelho, apareceste e completou-se a noite
com tuas quatro adegas trêmulas de vinho.
Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
cruz verde, perrexil da sombra radiante,
vaga-lume à unidade do céu condenado,
descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.
1 224
Anderson Braga Horta
Balões
Por que é triste a beleza?
O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.
É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.
Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.
É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.
O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.
É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.
Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.
É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.
1 105
Gabriela Mistral
Decálogo do artista
I. Amarás a beleza, que é a sombra de Deus sobre o Universo.
II. Não há arte atea. Embora não ames ao Criador, o afirmarás criando a sua semelhança.
III. Não darás a beleza como isca para os sentidos, se não como o natural alimento da alma.
IV. Não te será pretexto para a luxuria nem para a vaidade, se não exercício divino.
V. Não buscarás nas feiras nem levarás tua obra a elas, porque a Beleza é virgem, e a que está nas feiras não é Ela.
VI. Subirá de teu coração a teu canto e te haverá purificado a ti o primeiro.
VII. Tua beleza se chamará também misericórdia e consolará o coração dos homens.
VIII. Darás tua obra como se dá um filho: tirando sangue de teu coração.
IX. Não te será a beleza ópio adormecido, se não vinho generoso que te estimula para a ação, pois se deixas de ser homem ou mulher, deixarás de ser artista.
X. De toda a criação sairás com vergonha, porque foi inferior a teu sonho e inferior a esse maravilhoso Deus que é Natureza
II. Não há arte atea. Embora não ames ao Criador, o afirmarás criando a sua semelhança.
III. Não darás a beleza como isca para os sentidos, se não como o natural alimento da alma.
IV. Não te será pretexto para a luxuria nem para a vaidade, se não exercício divino.
V. Não buscarás nas feiras nem levarás tua obra a elas, porque a Beleza é virgem, e a que está nas feiras não é Ela.
VI. Subirá de teu coração a teu canto e te haverá purificado a ti o primeiro.
VII. Tua beleza se chamará também misericórdia e consolará o coração dos homens.
VIII. Darás tua obra como se dá um filho: tirando sangue de teu coração.
IX. Não te será a beleza ópio adormecido, se não vinho generoso que te estimula para a ação, pois se deixas de ser homem ou mulher, deixarás de ser artista.
X. De toda a criação sairás com vergonha, porque foi inferior a teu sonho e inferior a esse maravilhoso Deus que é Natureza
2 378
Vinicius de Moraes
Marinha
Na praia de coisas brancas
Abrem-se às ondas cativas
Conchas brancas, coxas brancas
Águas-vivas.
Aos mergulhares do bando
Afloram perspectivas
Redondas, se aglutinando
V olitivas.
E as ondas de pontas roxas
Vão e vêm, verdes e esquivas
Vagabundas, como frouxas
Entre vivas!
Abrem-se às ondas cativas
Conchas brancas, coxas brancas
Águas-vivas.
Aos mergulhares do bando
Afloram perspectivas
Redondas, se aglutinando
V olitivas.
E as ondas de pontas roxas
Vão e vêm, verdes e esquivas
Vagabundas, como frouxas
Entre vivas!
1 300
Santa Rita Durão
Canto VII [Das frutas do país a mais louvada
XLIII
Das frutas do país a mais louvada
É o régio ananás, fruta tão boa,
Que a mesma natureza namorada
Quis como a rei cingi-la da coroa.
Tão grato cheiro dá, que uma talhada
Surpreende o olfato de qualquer pessoa;
Que, a não ter do ananás distinto aviso,
Fragrância a cuidará do Paraíso.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.171. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
Das frutas do país a mais louvada
É o régio ananás, fruta tão boa,
Que a mesma natureza namorada
Quis como a rei cingi-la da coroa.
Tão grato cheiro dá, que uma talhada
Surpreende o olfato de qualquer pessoa;
Que, a não ter do ananás distinto aviso,
Fragrância a cuidará do Paraíso.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.171. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
2 697
Zila Mamede
Banho (rural)
De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando
um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio
com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio
onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba
e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava
por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes
velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.
Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio dágua era carícia antiga.
Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.
Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.
Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando
um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio
com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio
onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba
e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava
por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes
velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.
Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio dágua era carícia antiga.
Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.
Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.
Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.
2 034
João Filho
UMA MULHER TODA MÚSICA
Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
568
Fontoura Xavier
Roast-Beef
A Artur Azevedo
Ela tem a beleza, a flácida estrutura,
Os contornos viris, geométricos, altivos,
A branca carnação dos bons modelos vivos
Do mágico buril dos Fídias da escultura.
Ressumbra-lhe a epiderme — alvíssima textura —
Os filtros sensuais, os tóxicos lascivos,
Que aos mártires da Fé, aos crentes primitivos,
Serviram de adoçar o cálix da amargura.
Ao vê-la, não cobiço os ócios dum nababo,
Nem penso num cavalo elástico do Cabo
Para furtá-la às mãos de um Jônatas patife.
Ouço um coro ideal e harmônico de beijos!
E sinto fervilhar-me o pego dos desejos
De um Tântalo faminto em face de um roast-beef!
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.53. Poema integrante da série Clowns.
NOTA: Cabo = cidade da África do Sul. Jônatas = filho do rei Saul e amigo de Davi. Tântalo = na mitologia greco-romana, personagem condenado ao suplício de viver num lago sem poder beber nem come
Ela tem a beleza, a flácida estrutura,
Os contornos viris, geométricos, altivos,
A branca carnação dos bons modelos vivos
Do mágico buril dos Fídias da escultura.
Ressumbra-lhe a epiderme — alvíssima textura —
Os filtros sensuais, os tóxicos lascivos,
Que aos mártires da Fé, aos crentes primitivos,
Serviram de adoçar o cálix da amargura.
Ao vê-la, não cobiço os ócios dum nababo,
Nem penso num cavalo elástico do Cabo
Para furtá-la às mãos de um Jônatas patife.
Ouço um coro ideal e harmônico de beijos!
E sinto fervilhar-me o pego dos desejos
De um Tântalo faminto em face de um roast-beef!
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.53. Poema integrante da série Clowns.
NOTA: Cabo = cidade da África do Sul. Jônatas = filho do rei Saul e amigo de Davi. Tântalo = na mitologia greco-romana, personagem condenado ao suplício de viver num lago sem poder beber nem come
1 755
José Bonifácio de Andrada e Silva
Sonetos
Eu vi Narcina um dia, que folgava
Na fresca borda de uma fonte clara:
Os peitos, em que Amor brinca e se ampara,
Com aljofradas gotas borrifava.
O colo de alabastro nu mostrava
A meu desejo ardente a incauta avara.
Com ponteagudas setas, que ela ervara,
Bando de Cupidinhos revoava.
Parte da linda coxa regaçado
O cândido vestido descobria;
Mas o templo de amor ficou cerrado:
Assim eu vi Narcina. — Outra não cria
O poder da Natura, já cansado;
E se a pode fazer, que a faça um dia.
Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).
In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.77. (Coleção Afrânio Peixoto
Na fresca borda de uma fonte clara:
Os peitos, em que Amor brinca e se ampara,
Com aljofradas gotas borrifava.
O colo de alabastro nu mostrava
A meu desejo ardente a incauta avara.
Com ponteagudas setas, que ela ervara,
Bando de Cupidinhos revoava.
Parte da linda coxa regaçado
O cândido vestido descobria;
Mas o templo de amor ficou cerrado:
Assim eu vi Narcina. — Outra não cria
O poder da Natura, já cansado;
E se a pode fazer, que a faça um dia.
Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).
In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.77. (Coleção Afrânio Peixoto
1 641
Maria Ângela Alvim
Há uma rosa caída
Há uma rosa caída
Morta
há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa
Morta
há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa
4 151
António Ramos Rosa
Todas As Possíveis Possibilidades
a Rui-Mário Gonçalves
Todas as possíveis possibilidades de ver
claras e sóbrias
se unem e resultam
determinadas, como uma árvore
sem as folhas.
Porque tendem todas para os dedos do espaço,
porque atingiram o ser do nervo,
a textura única.
Facilidade pura.
Olhá-las é um acto
de nervos límpidos:
estaladas,
cantam.
Chegaram a si mesmas,
hastes e panos,
uma vela
de veias
rectilínea.
Relação liberta, livre.
Todas as possíveis possibilidades de ver
claras e sóbrias
se unem e resultam
determinadas, como uma árvore
sem as folhas.
Porque tendem todas para os dedos do espaço,
porque atingiram o ser do nervo,
a textura única.
Facilidade pura.
Olhá-las é um acto
de nervos límpidos:
estaladas,
cantam.
Chegaram a si mesmas,
hastes e panos,
uma vela
de veias
rectilínea.
Relação liberta, livre.
504
Frédéric Mistral
ANDA QUE TE ANDARÁS A TU PAÍS VOLVERÁS
Puedes rodar por países lejanos
Y de Alemania hasta Italia correr;
Puedes rodar por países lejanos,
Lo que no has visto, por ansia de ver.
Pero país más alegre que el tuyo
No lo has de ver, labrador provenzal,
Porque país más alegre que el tuyo
Ni en montes ni en valles se ha visto jamás.
Puedes vagar más allá de tus landas
Y monumentos grandiosos buscar;
Puedes vagar más allá de tus landas:
Otros como éstos no habrás de encontrar.
Teatro, circo, murallas de imperio,
Palacios de papa, castillo real,
Arcos triunfales, soberbio acueducto...
En ningún sitio verás fausto tal.
Puedes correr a la tierra de Grecia,
En donde el Pindo se yergue en la luz;
Puedes correr a la tierra de Grecia,
En donde el cénit está siempre azul.
Pero sus costas cubiertas de rocas
Que el sol matiza de vivo color,
Pero sus costas radiantes y azules
Contemplar puedes aquí a tu sabor.
Puedes viajar por los pueblos modernos
Y los exóticos platos probar;
Puedes viajar por los pueblos modernos:
Recordarás con nostalgia tu hogar.
Recordarás las legumbres humildes.
La buena sopa que humea en el llar;
Recordarás las legumbres humildes
Y el vino aquel de la vid paternal.
Puedes mirar la gentil parisina
Y de Castilla y de Italia la prez
De la belleza, que en esos países
Espléndidamente se ve florecer.
Pero la noble hermosura arlesiana,
Las perlas finas del nido de Arles,
La donosura sin par de tu patria
Ya no verás en ninguna mujer.
Y de Alemania hasta Italia correr;
Puedes rodar por países lejanos,
Lo que no has visto, por ansia de ver.
Pero país más alegre que el tuyo
No lo has de ver, labrador provenzal,
Porque país más alegre que el tuyo
Ni en montes ni en valles se ha visto jamás.
Puedes vagar más allá de tus landas
Y monumentos grandiosos buscar;
Puedes vagar más allá de tus landas:
Otros como éstos no habrás de encontrar.
Teatro, circo, murallas de imperio,
Palacios de papa, castillo real,
Arcos triunfales, soberbio acueducto...
En ningún sitio verás fausto tal.
Puedes correr a la tierra de Grecia,
En donde el Pindo se yergue en la luz;
Puedes correr a la tierra de Grecia,
En donde el cénit está siempre azul.
Pero sus costas cubiertas de rocas
Que el sol matiza de vivo color,
Pero sus costas radiantes y azules
Contemplar puedes aquí a tu sabor.
Puedes viajar por los pueblos modernos
Y los exóticos platos probar;
Puedes viajar por los pueblos modernos:
Recordarás con nostalgia tu hogar.
Recordarás las legumbres humildes.
La buena sopa que humea en el llar;
Recordarás las legumbres humildes
Y el vino aquel de la vid paternal.
Puedes mirar la gentil parisina
Y de Castilla y de Italia la prez
De la belleza, que en esos países
Espléndidamente se ve florecer.
Pero la noble hermosura arlesiana,
Las perlas finas del nido de Arles,
La donosura sin par de tu patria
Ya no verás en ninguna mujer.
667
António Ramos Rosa
No Elemento Único Global
Sem o ofegar da tensão cativa
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
548
Antônio Massa
Nocturno
Em adágio sustenuto
Céu
campo melódico
regido pelo ruflar
das asas da noite
O tom
lua cheia
relativa maior
da cativa nua
Violar a sinfonia
da sua alva pele
é transcender o curso
o corpoo som
escutar seu brilho
é compor a alma
recompor a calma
depois do contraponto
O acorde é inverso;
a escala
diminuta;
a partitura, cega,
quando é nuda a lua
Céu
campo melódico
regido pelo ruflar
das asas da noite
O tom
lua cheia
relativa maior
da cativa nua
Violar a sinfonia
da sua alva pele
é transcender o curso
o corpoo som
escutar seu brilho
é compor a alma
recompor a calma
depois do contraponto
O acorde é inverso;
a escala
diminuta;
a partitura, cega,
quando é nuda a lua
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Fontoura Xavier
Loura e Branca
I
Loura e branca, de lírio na brancura
Parece filha dum pincel divino!...
A gente, ao vê-la, lembra-se de Urbino
Tem ímpetos de pôr-lhe uma moldura.
Um garbo de velhice prematura
Nevou de leve a coma d'ouro fino...
Meneio e gesto lânguido e felino.
Firme e correta a linha da cintura.
Não sei quem fez daquilo um ser humano!
Sanzio, juntando um resplendor de aurora,
Faria a estância de seu gênio ufano!
Dante... não sei o que faria agora:
Mas Virgílio se a visse, o Mantuano
Fazia a Deusa que minh'alma adora!...
II
Eleva-me, arrebata-me os sentidos
Se a vejo ou se a contemplo um só momento!
De seu passo o mais leve movimento
Ecoa como um canto em meus ouvidos.
Ouço-lhe as formas, num deslumbramento,
A sonata do belo; e nos rugidos
Da cambraia e do linho dos vestidos
Vibram acordes de acompanhamento.
Todo seu corpo musical e adornos,
Na cadência dum ritmo que embala,
Estrugem na harmonia dos contornos!...
Caminha! — e o canto uníssono trescala,
Como por noites de langores mornos,
Toda a volúpia dum luar de opala!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.75-76. Poema integrante da série Ruínas.
NOTA: Urbino = cidade natal do pintor italiano Rafael Sanzi
Loura e branca, de lírio na brancura
Parece filha dum pincel divino!...
A gente, ao vê-la, lembra-se de Urbino
Tem ímpetos de pôr-lhe uma moldura.
Um garbo de velhice prematura
Nevou de leve a coma d'ouro fino...
Meneio e gesto lânguido e felino.
Firme e correta a linha da cintura.
Não sei quem fez daquilo um ser humano!
Sanzio, juntando um resplendor de aurora,
Faria a estância de seu gênio ufano!
Dante... não sei o que faria agora:
Mas Virgílio se a visse, o Mantuano
Fazia a Deusa que minh'alma adora!...
II
Eleva-me, arrebata-me os sentidos
Se a vejo ou se a contemplo um só momento!
De seu passo o mais leve movimento
Ecoa como um canto em meus ouvidos.
Ouço-lhe as formas, num deslumbramento,
A sonata do belo; e nos rugidos
Da cambraia e do linho dos vestidos
Vibram acordes de acompanhamento.
Todo seu corpo musical e adornos,
Na cadência dum ritmo que embala,
Estrugem na harmonia dos contornos!...
Caminha! — e o canto uníssono trescala,
Como por noites de langores mornos,
Toda a volúpia dum luar de opala!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.75-76. Poema integrante da série Ruínas.
NOTA: Urbino = cidade natal do pintor italiano Rafael Sanzi
1 013
António Ramos Rosa
Já Alguém Viu o Cavalo? Vou Aprendê-Lo
Já alguém viu o cavalo? Vou aprendê-lo
no jogo das palavras musculares.
Alento alto, volume de vontade,
força do ar nas ventas, dia claro.
Aqui a pata pesa só a mancha
do cavalo em liberdade lenta
para que o cavalo perca todo o halo
para que a mão seja fiel ao olhar lento
e o perfil em cinza azul aceso
de clareira de inverno. Bafo, o tempo
do cavalo é terra repisada
e sem véus, de vértebras desenhadas,
lê o cavalo na mancha, alerta,
na solidão da planície E uma montanha.
no jogo das palavras musculares.
Alento alto, volume de vontade,
força do ar nas ventas, dia claro.
Aqui a pata pesa só a mancha
do cavalo em liberdade lenta
para que o cavalo perca todo o halo
para que a mão seja fiel ao olhar lento
e o perfil em cinza azul aceso
de clareira de inverno. Bafo, o tempo
do cavalo é terra repisada
e sem véus, de vértebras desenhadas,
lê o cavalo na mancha, alerta,
na solidão da planície E uma montanha.
1 266
Luís Delfino
Depois do Banho
Sai do banho: o seu corpo alabastrino
Goteja: a água murmura do abandono;
Vê-se abatida, lânguida, com sono...
Lança mão do lençol, quase sem tino.
Mostra-lhe o espelho o corpo peregrino:
Ela o admira, e busca ver-lhe o dono...
Anjo, merece um céu; mulher, um trono:
Cisma, e sacode as tranças d'ouro fino.
Senta-se, e mostra a orla avermelhada
De uma estrela, que imerge no infinito,
Sob uma névoa loura ainda molhada.
Seu rosto inquieto oscila alegre e aflito:
Mas... numas longas asas confiada,
Pensa fugir ao mais ligeiro grito...
Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.89. (Os Melhores poemas, 23
Goteja: a água murmura do abandono;
Vê-se abatida, lânguida, com sono...
Lança mão do lençol, quase sem tino.
Mostra-lhe o espelho o corpo peregrino:
Ela o admira, e busca ver-lhe o dono...
Anjo, merece um céu; mulher, um trono:
Cisma, e sacode as tranças d'ouro fino.
Senta-se, e mostra a orla avermelhada
De uma estrela, que imerge no infinito,
Sob uma névoa loura ainda molhada.
Seu rosto inquieto oscila alegre e aflito:
Mas... numas longas asas confiada,
Pensa fugir ao mais ligeiro grito...
Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.89. (Os Melhores poemas, 23
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