Poemas neste tema

Beleza

Marina Colasanti

Marina Colasanti

Por instantes

Aquela fruteira
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.

Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.

Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 263
Walmir Ayala

Walmir Ayala

A Bailarina Gris

de Degas

PENDIDA
como de uma corola o tempo de
uma flor, ela treme:
seu rosto de vinho e maçã
flui no nostálgico acento
com que ao vento se curva, uma tênue
figura.
De chuva
é a leveza de seu olhar parado, de espuma
é seu sapato, e seu pé
informado e prudente arma um pássaro triste na
[sombra.

PENDIDA,
debruçada de si como uma lágrima
a bailarina rompe
o segredo: do outro lado é que se esvai
a rosa, seu sangue
é este espanto de que se forma o corpo
do silêncio.


In: AYALA, Walmir. Museu de câmara = Museo de camara. Madri: Artes Gráf. Luis Pérez, 1986 (Xanela).

NOTA: Título em espanhol: "La Bailarina Gris
1 316
Marina Colasanti

Marina Colasanti

De Guido Reni

Com a mesma elegância
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
645
Bocage

Bocage

Ó tranças de que Amor prisões me tece,

Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!

Ó ledos olhos, cuja luz parece
Tênue raio de sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vênus? — É mentira;
Sois de Marília, sois dos meus amores.

3 167
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Na encosta são

Os ciprestes
na encosta
não são árvores.

Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.

Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
990
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Modigliani desenha

Que peso invisível sujeita músculos
e carnes
dessas mulheres cariátides?
Eu poderia dizer:
viga
arquitrave.
Eu poderia pensar:
mármore
pedra.
E o peso seria pouco para a força dos braços
a curva poderosa dessas coxas
fletidas.
Mas se eu dissesse:
lápis
traço
e acrescentasse
a levíssima mão de Modigliani
então sim
eu teria essas mulheres
sustentando o mundo.

Lugano, 1999
984
Marina Colasanti

Marina Colasanti

A coxa

Sendo redonda
a coxa
ainda assim tem
dois lados
pois tem um lado de fora
que sem medo se mostra
e tem um lado de dentro
que é sagrado.

No lado de fora
a coxa
é carne sem fronteira
que do joelho sobe
até a cintura
sem entrave ou ruptura
mas do lado de dentro
se fratura contra a beira fechada
da virilha.

Roliça, embora,
a coxa
como o diamante é
plurifacetada
próxima ao toque em
alguns pontos e
em outros
afastada.

Nem é a mesma
a pele
que os dois lados veste
e que ao olhar se diz inteira
e una
enquanto a mão
conhece a mais secreta e fina
que ao seu roçar
floresce
e aquela
que na quina do corpo
se oferece.
Mais que suporte
a coxa
é ponte levadiça
guardiã que a entrada
tranca a todo intruso,
defesa que se abaixa
repentina
para atrair o invasor
e
fazer uso.

1 219
Rodrigo Otávio

Rodrigo Otávio

Na Alcova da Sultana

Na azul e perfumada alcova em que ela dorme,
Dorme também aos pés da cama aurilavrada
De um urso branco a pele aveludada, enorme,
De pérolas azuis e gema entressachada.

Sai da rubra goela hiante, escancarada,
Pontiaguda, eriçada a dentadura informe,
Guardando noite e dia a azul e perfumada
Alcova em que a gentil sultana sonha e dorme.

Quando o sol de manhã no leito vem beijá-la,
As pálpebras descerra, os braços estendendo
No ar, aberto o roupão de linho cor de opala.

Sai do leito: no quarto entorna-se um perfume,
E os olhos de esmeralda o urso crava com ciúme,
No espelho, um outro olhar, cúpido a vê-la, vendo.

965
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Entre nosso olhar e

A luz sobre o lago é
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.


Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 064
Neide Archanjo

Neide Archanjo

A gota

A gota
se desloca do rio de gotas
e antes de mergulhar
ávida
na minha mão
recolhe um momento
de diamante ou de cristal.


Poema integrante da série Fragmentos.

In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
1 122
Neide Archanjo

Neide Archanjo

Veio negra

(...)

Veio negra
lindíssima
como um lírio de Ofir
e habitou a tenda que armei
entre silêncios
do ócio mais ardente
alegria luminosa de carícias
coisas perfumadas trazidas de viagens
feitas por terra
e por mar.

Deitou seu corpo ao lado do meu.
Abrigou-se.
À nossa volta tudo foi
farto doce e santo
o verde o roxo o branco
mais uma ternura
que sabia ser volúpia
e quis ser encanto.

(Sentada
nua.

Um lenço cobre o bandó
desce pelas encostas
longas líbias escuras.
No chão os seus arreios
nos joelhos minha cabeça que descansa.
É tarde
um sol pequeno brota na janela:
meu poema e seus contornos
entre seus dedos
como os seus adornos.
Na voz uma canção nagô
falando de coisas estranhas
que devem ser de amor.
Em seu corpo esplêndido
suor e gozo
beijoim e hortelã
um silêncio roxo resplandece.

Reina Nanã.)

(...)


Poema integrante da série Sítio III.

In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
1 054
Marina Colasanti

Marina Colasanti

E rainúnculos

Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.


Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 105
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Rondó dos Cavalinhos

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O sol tão claro lá fora,
E em minh'alma — anoitecendo!

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Alfonso Reyes partindo,
E tanta gente ficando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh'alma — anoitecendo!
1 567
Luís Delfino

Luís Delfino

Depois do Banho

Sai do banho: o seu corpo alabastrino
Goteja: a água murmura do abandono;
Vê-se abatida, lânguida, com sono...
Lança mão do lençol, quase sem tino.

Mostra-lhe o espelho o corpo peregrino:
Ela o admira, e busca ver-lhe o dono...
Anjo, merece um céu; mulher, um trono:
Cisma, e sacode as tranças d'ouro fino.

Senta-se, e mostra a orla avermelhada
De uma estrela, que imerge no infinito,
Sob uma névoa loura ainda molhada.

Seu rosto inquieto oscila alegre e aflito:
Mas... numas longas asas confiada,
Pensa fugir ao mais ligeiro grito...


Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.

In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.89. (Os Melhores poemas, 23
1 664
Luís Delfino

Luís Delfino

O Lago

Mulher, és como um lago em flor, que se ilumina
Ao sol, e como a flor abre o seio esplendente;
Eu me banhava em ti desassombradamente,
Água, flor da manhã, branca flor da campina.

Dos pássaros em torno a canção matutina
Fazia rir de gozo e arfar de amor o ambiente;
Cantava pelo espaço a primavera olente,
Cantava a aura do céu, cantava a luz divina.

Mármore unido, que veia azul brando apenas,
Parecias ouvir, cismando, as cantilenas,
Que enchiam toda a veiga, abrasada de aurora.

O! lago, eu me banhava em ti; mas de improviso
Fui ao fundo, e no fundo achei o paraíso:
E onde o paraíso está, eu sei agora...


Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.

In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.94. (Os Melhores poemas, 23
2 315
Antônio Chaves

Antônio Chaves

Descendo o Parnaíba

Nas águas, vê que límpidas bonanças...
Que verde o destas árvores florindo!
Parece o verde dessas esperanças
Que em nossos corações brotam sorrindo.

Como as almas sonâmbulas e mansas
Dos lírios virginais que estão dormindo,
Quantas almas de cândidas crianças
Há nas estrelas que já vêm surgindo!

Tu és um quadro desta Natureza!
Minha alma, ao ver em ti tanta beleza,
De ti somente se tornou cativa...

Sem sol a flor sucumbe, morre a planta...
Dá que eu sinta, portanto, ó minha Santa,
O sol do teu amor! Faze que eu viva!

980
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Uma maçã

Há uma maçã pousada
no poema
com sua esfericidade
irretocável.
Essa maçã faz do poema
prato
instaura a luz que
com volutas claras
desenha as quinas
e apoia as sombras
que com ela nascem.
Humilde
me pergunto
se esse desenho é
natureza-morta
ou se
como minh'alma indica
é agora
e sempre
natureza viva.
1 243
Xavier de Carvalho

Xavier de Carvalho

Flores do palco

Quando ela os braços, em feitiços, alça
Em forma de arco se mexendo toda
Numa alegria franca, nada falsa,
Em risadas e oulos, semi-douda;

Ou mais ainda quando, em sons de valsa,
Ela ergue as saias como exige a moda
Para mostrar a rendilhada calça
Que sob a renda as coxas lhe acomoda;

Tremente de volúpia todo o povo,
Que assim a vê, obriga-a ali de novo
A cantar e a dançar de novo a obriga...

E ela acede... e, em maior desenvoltura,
Redobra de furor mostrando a altura
onde nas coxas ela aperta a liga!

1 075
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Sem vermelho, porém

Um jovem de Botticelli
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete vermelho.
Com a mesma elegante precisão
a mão
fraciona nas falanges luz e sombra
- embora aqui se lhe acrescente
o branco estridor da xícara -
e a cabeça se inclina para o lado
o quanto basta para enviesar o olhar
e deixá-lo descer condescendente
sobre os outros
o nada
sobre o tênue vapor que evola do café.
O jovem de Botticelli pousa a xícara
veste o blusão de couro
os cachos brilham debaixo das lâmpadas.
Falta faz porém o barrete vermelho
o vermelho sangue gerânio laca do barrete
do barrete que em pura cor coroa o jovem
de Washington.
E mais pobre sem ele
o meu quadro incompleto
já se vai.
924
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Ad Instar Delphini

Teus pés são voluptuosos: é por isso
Que andas com tanta graça, ó Cassiopéia!
De onde te vem tal chama e tal feitiço,
Que dás idéia ao corpo, e corpo à idéia?

Camões, valei-me! Adamastor, Magriço,
Dai-me força, e tu, Vênus Citeréia,
Essa doçura, esse imortal derriço...
Quero também compor minha epopéia!

Não cantarei Helena e a antiga Tróia,
Nem as Missões e a nacional Lindóia,
Nem Deus, nem Diacho! Quero, oh por quem és,

Flor ou mulher, chave do meu destino,
Quero cantar, como cantou Delfino,
As duas curvas de dois brancos pés!
1 018
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Variações Sérias em Forma de Soneto

Vejo mares tranquilos, que repousam,
Atrás dos olhos das meninas sérias.
Alto e longe elas olham, mas não ousam
Olhar a quem as olha, e ficam sérias.

Nos recantos dos lábios se lhes pousam
Uns anjos invisíveis. Mas tão sérias
São, alto e longe, que nem eles ousam
Dar um sorriso âquelas bocas sérias.

Em que pensais, meninas, se repousam
Os meus olhos nos vossos? Eles ousam
Entrar paragens tristes de tão sérias!

Mas poderei dizer-vos que eles ousam?
Ou vão, por injunções muito mais sérias.
Lustrar pecados que jamais repousam?
1 454
Marina Colasanti

Marina Colasanti

No túmulo de inox

Morto
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
1 061
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ADORNED

Great Venus' statue, as men do conceive,
Wore it a jewel would all spoiled be;
Yet beauty's not alone simplicity.
Thus men with thoughts the eyes of sense deceive.

Oh, on a lake did they never perceive
A perfect boat, or a sail in the sea
At night that passes, far, mysteriously,
And in the heart a pining strange doth leave?

Ah, me! Upon a young and virgin breast
When it a jewel richly doth adorn,
Each to the other lends beauty and splendour,

As o'er the tremulous sea the stars at rest,
As flow'r and dew - but more; my heart is torn
That neither words nor thoughts that spell can render.
1 417
Felipe Vianna

Felipe Vianna

ÉS PERFEITA

Belo botão de rosa
Rubro aveludado
Que as gotas de orvalho
Reluzem esta beleza.

Quem te conhece, moça,
Encanta-se p´ra sempre.
Do orvalho, as gotas,
Não sabe realmente
Enxergar a beleza
Contida em tua mente.

Realmente, és bela,
Por dentro e por fora.
Nas pétalas vermelhas
Escondes a beleza.

Tão lindo interior
Que o rubi inveja.
Alma cheia d´amor,
Suspiros d´amor nela.

10/10/2000

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