Poemas neste tema

Árvores, florestas e montanhas

Herberto Helder

Herberto Helder

Quinze Haikus Japoneses

Ervas do estio:
lugar onde os guerreiros
sonham.

Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.

Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.

Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.

Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.

Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.

Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz

Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.

Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.

Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.

A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.

Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.

Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.

Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.

Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
1 462
José Saramago

José Saramago

Ó Tristeza da Pedra

Ó tristeza da pedra

Ó tristeza da pedra, tão fechada
Na montanha da noite e na lonjura
Que a separa do rio.
Ó alma viajante sobre a espada,
Quanto mais adiante, mais escura,
No cortante do fio.
Ó meu corpo de torre e de palmeira,
Agora derrubado porque a força
Se verteu como o vinho.
Minha cama vazia, minha esteira,
Minha fonte queimada de que a corça
Já recusa o caminho.
Ó flor de três pétalas, trevo branco
Sobre a terra vermelha, fim do mundo
Quando o mundo começa.
Ó miséria sombria, pobre manco,
Do orvalho do trevo, agora imundo,
Faz um espelho e confessa.
1 081
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Os Acrobatas

Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.

Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão.

Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!

Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!

Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.

Como no espasmo.

E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus

Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.

E morreremos
Morreremos alto, imensamente
Imensamente alto.
Paisagem
Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.

Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé da grande montanha
Do outro lado do poente.

Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo…
1 114
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Descrição

à meu irmão, Márcio Carvalho Góes

Tu és como o úmido gosto de terra:
diferente em cada época.
Mas não perdes o gosto pela terra.
Tu és terra!
Ao seu duro itinerário, o prazer matinal,
junta-se ao suspiro da madrugada.
Ainda é madrugada quando te levantas!
E sai pela estrada. . .
A paisagem diverge:
bois, cavalos, foices, braços, flores molhadas,
e os casebres caindo,
na êrma da manhã.
E roupas coloridas, ao longe, dançam nas cercas.
Teu sangue corre como uma boiada,
num grande galope,
ao longo do horizonte. . .
Teu nome.
Teu nome,
num breve erro ortográfico,
sôa macio. . .
Macio como o chão que pisas.
Chão verde.
Cheiro de mato.
E tua mente modela os animais.
Grandes animais,
sem passado, sem futuro.
Apenas com o peso que lhe importa.
Mas o dia, aos poucos, se desmancha.
E no teu campo,
verde campo,
um campo de estrelas irá brotando,
pouco a pouco,
até que tu voltes. . .

Campo: teu continuar da vida!

Salvador, 14 de março de 1995

1 005
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Paisagem

Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.

Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé da grande montanha
Do outro lado do poente.

Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo…
1 561
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Verde


                              verde   verde   verde

                              verde   verde   verde

                              verde   verde   verde   erva

2 128
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Dos Peles-Vermelhas - Ritual da Chuva

Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Da montanha de Água,
de seus cumes altíssimos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.

Entre a luz dos relâmpagos,
relâmpagos que brilham,
fulmíneos relâmpagos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.

Entre as andorinhas,
andorinhas azuis
que gritam, que gritam,
vem a chuva,
vem a ohuva comigo.

Atravessando o pólen,
o pólen sagrado,
vestida de pólen,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.

Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Iúca

Mesmo diante da casa, no alto
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.

E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»

E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.

Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
975
João Augusto Sampaio

João Augusto Sampaio

Índia

Nunca houve,
Não há,
Nem jamais haverá
Fila indiana mais bela e malemolente
Que o coqueiral entre as dunas do Rio Capivara Grande e o Atlântico,
Na Aldeia Hippie de Arembepe,
Quando visto de sudoeste,
Banhado pela luz das 5:15 nas tardes de Verão.

Jamais verão.

Aldeia Hippie, cinco e quinze da tarde de 1/1/1997 AD

877
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Apelo

Que te vale, minha alma, essa paisagem fria
Essa terra onde parecem repousar virgens distantes?
Que te importa essa calma, essa tarde caindo sem vozes
Esse ar onde as nuvens se esquecem como adeuses?
Que te diz o adormecimento dessa montanha extática
Onde há caminhos tão tristes que ninguém anda neles
E onde o pipilo de um pássaro que passa de repente
Parece suspender uma lágrima que nunca se derrama?
Para que te debruças inutilmente sobre esse ermo
E buscas um grito de agonia que nunca te chegará a tempo
Que são longos, minha alma, os espaços perdidos...
Ah, chegar! chegar depois de tanta ausência
E despontar como um santo dentro das ruas escuras
Bêbado dos seios da amada cheios de espuma!
1 139
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sobre Um Desenho de Graça Morais

Nítido e leve ramo de oliveira:
Rijeza firme do tronco
As pálidas folhas como ponta de lança
E o pequeno fruto negro
Compacto e brilhante
1 067
Isabel Mendes Ferreira

Isabel Mendes Ferreira

nada ressuscitará

nada ressuscitará. nem a montanha. apenas um breve
desmaio. de minúsculas ervas. de poeiras. sem espelho.
e tudo se liga tudo se completa. em múltiplas gradações de uma geografia labiríntica. que não decifro. antes crio.
re.crio. re.inicio. como se sibila fosse não sendo rosto nem ruga nem mapa de areia. as coisas estranhas estranham-se pela metade visível. breve asa de búzio amazónico.
642
Silvestre Péricles de Góis Monteiro

Silvestre Péricles de Góis Monteiro

Das montanhas

As montanhas, que vês, são rasgos de conquistas,
- o arroubo mineral às alturas supremas.
Elas trazem no seio a centêlha imprevista
da persistência ideal a refulgir em poemas.

E sempre as convulsiona o gênio imperialista
do domínio rochaz as ascensões extremas.
Daí, por elas só - armas que a força enrista -
a audácia dos vulcões, dos aludes, das gemas...

As montanhas - palor nevado, a espaços... longes
branqueamentos sem fim nas cristas milenárias:
a sombra dos heróis, dos mártires, dos monges...

E, ao vencer a distância, o mistério da morte,
ei-las dentro do Sonho, altivas, legendárias,
ensinando a ser nobre, a ser grande, a ser forte !
.

737
Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe

se o vento é a ignição

se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina
1 049
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Kreen-Akarore

Gigante que recusas
encarar-me nos olhos,
apertar minha mão
temendo que ela seja
uma faca, um veneno,
uma tocha de incêndio;
gigante que me foges,
légua depois de légua,
e se deixo os sinais
de minha simpatia,
os destróis: tens razão.
Malgrado meu desejo
de declarar-te irmão
e contigo fruir
alegrias fraternas,
só tenho para dar-te
em turvo condomínio
o pesadelo urbano
de ferros e de fúrias
em contínuo combate
na esperança de paz
— uma paz que se esconde
e se furta e se apaga
medusada de medo,
como tu, akarore,
na espessura da mata
ou no espelho sem fala
das águas do Jarina.
1 434
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Tempo Nos Parques

O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.
998
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Ângulo Das Coisas Visíveis

Suspende um instante a tua face:
Os ventos em flor abriram em segredo
Trazendo peixes e medusas aos teus dedos
E o mar cortado de silêncios outonais

Era preciso cantar a Terra toda
Mas mais que tudo as praias e as florestas
Onde incessantemente se renovam
Desertos desumanos e desumanas festas.
1951
1 047
Arlindo Barbeitos

Arlindo Barbeitos

Mão Frágil

em mão frágil de amarelo
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
1 659
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sussurro

Se não erro
ao decifrar a voz dos vegetais,
eis que suspira a muda de pau-ferro
no silêncio do ser:
— Eu sei que fui plantada
com música, discurso e tudo mais,
para a alguém, no futuro, oferecer
sem discurso e sem música o prazer
da derrubada.
1 213
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Ao Crepúsculo

O crepúsculo cai, tão manso e benfazejo
Que me adoça o pesar de estar em terra estranha.
E enquanto o ângelus abençoa o lugarejo,
Eu penso em ti, apaziguado e sem desejo,
Fitando no horizonte a linha da montanha.

A montanha é trangjúila e forte, e grande e boa.
Ela afaga o meu sonho. E alegra-me pensar
(Tanto a saudade a um tempo acalenta e magoa!)
Que tu, na doce paz da tarde que se escoa,
Teces o mesmo sonho, ouvindo e vendo o mar.

Embalada na voz do grande solitário,
Tu mortificarás teu casto coração
Na dor de revocar o noivado precário.
(Ah, por que te confiei o meu desejo vário?
Por que me desvendaste a tua sedução?)

Se nos aparta o espaço, o tempo — esse nos liga.
A lembrança é no amor a cadeia mais pura.
Tu tens o grande Amigo e eu tenho a grande Amiga:
O mar segredará tudo quanto eu te diga,
E a montanha dir-me-á tua imensa ternura.
957
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Imobilidade

Tudo está quieto nada insiste nada clama
a água o horizonte imóvel
repousa o tempo a beleza luz e água

Muitas árvores estremecem num torvelinho suave

Cessaram os nomes ou petrificaram-se

Estamos onde estamos onde
a luz se despenha
entre gretas de pedra

Afluem coisas mínimas pelo espaço diáfano

Dizer o repouso do silêncio Atingir
a simplicidade das coisas no silêncio

Este contacto com o mundo é a aliança

Verdade e erro uma verdade apenas
que se desnuda e se abre e abre

Ar na total vacuidade livre

Em pleno dia somos noite e água

Este é o domínio da água e da folhagem
onde todo o segredo é abertura viva
1 016
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Azuis os montes que estão longe param.

Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.


31/03/1932
2 375
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Unidade do Silêncio

Unidade do silêncio com o corpo da água
irradiação de uma montanha
cimo e abismo numa única linha
melancolia viva e fresca floresta e pomba
a beleza frágil a beleza serena
arde a opacidade arde a madeira do mundo
revela-se a superfície fundamental
invulnerável a harmonia que inunda
Frases frases já não complicadas
mas orientadas
para a plenitude do ser
Redes vindas do ignorado disseminam-se
Uma paciência de mil árvores
Dilata-se a estrela de água
Praias praias onde os segredos se desvelam
Por toda a parte mediações para o desconhecido
Vagas vagas de ligeireza primaveril
Clara visão do fundo vibrante continuidade
igual a tudo na soberania do simples
1 071
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Poema

As árvores têm o nome de árvores
e a pedra é pedra. Mas a mulher é árvore
e no pátio um sopro: uma lagartixa sem nome.
A mão desliza nos caminhos minúsculos.
A caneta escreve com a saliva das lâmpadas.
Alegria do sono numa virilha obscura.
Alguém escreve na erva e a erva é a sua camisa.
Tudo se traduz: músculos, nervos, papéis.
Come-se a epiderme frágil de um fantasma.
Quem ouve agora a voz cheia de areia?
As palavras agitam-se entre silhuetas esguias.
Dedos acariciam pedras e folhas, ventres.
Fibras e tendões produzem suor e tinta.
O alento das árvores invade os pequenos vocábulos.
Sem língua e sem dedos o poema caminha
num verde corredor para um arbusto de água.
1 073