Poemas neste tema
Arte
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eras Bela
Eras bela como a pintura de Mantegna
Onde cada coisa mostra a nítida atenção
Do olhar soletrando a eternidade
Eras bela como a pintura de Mantegna
Decifrando a escrita da ressurreição
Onde cada coisa mostra a nítida atenção
Do olhar soletrando a eternidade
Eras bela como a pintura de Mantegna
Decifrando a escrita da ressurreição
1 220
Adélia Prado
Sedução
A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
1 236
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. (O Auriga)
A nudez dos pés que o escultor modelou com amor e minúcia
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos
Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos
Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente
1 208
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Irmão do Que Escrevi
Irmão do que escrevi
Distante me desejo
Como quem ante o quadro
Pra melhor ver recua.
Mas tu, Neera, impões
Leis que não são as minhas.
Teus pés batem a dança
De sombra e desmesura
Em frente da varanda
Fugidia cintilas
Longas mãos brancos pulsos
Torcem os teus cabelos
Quando irrompe da noite
Tua face de toira
E acordas as imagens
Mais antigas que os deuses.
Distante me desejo
Como quem ante o quadro
Pra melhor ver recua.
Mas tu, Neera, impões
Leis que não são as minhas.
Teus pés batem a dança
De sombra e desmesura
Em frente da varanda
Fugidia cintilas
Longas mãos brancos pulsos
Torcem os teus cabelos
Quando irrompe da noite
Tua face de toira
E acordas as imagens
Mais antigas que os deuses.
1 432
Adélia Prado
Mosaico
Joaquim João era artista de teatro.
Dava as mãos a Julietinha Marra e cantava ‘adeus-amor’.
Fiquei picada de inquieto mel.
Às onze Joaquim subia do serviço
com o paletó jogado num ombro só. Escondida eu cantava
‘adeus-amor’, com direta intenção e longo fôlego.
Joaquim virava a cabeça ao esganiçado código
e eu cantava mais alto. Um dia, o melhor, se virou duas
[vezes.
Eu descia da árvore, macaca sentimental, e ia
fazer xixi na calcinha, só para experimentar,
desenhar cinco salamão, rezar o anjo
do Senhor anunciou a Maria e ela concebeu,
o que era igual Letícia vindo brincar,
o hálito saborosíssimo de concebolas.
Dava as mãos a Julietinha Marra e cantava ‘adeus-amor’.
Fiquei picada de inquieto mel.
Às onze Joaquim subia do serviço
com o paletó jogado num ombro só. Escondida eu cantava
‘adeus-amor’, com direta intenção e longo fôlego.
Joaquim virava a cabeça ao esganiçado código
e eu cantava mais alto. Um dia, o melhor, se virou duas
[vezes.
Eu descia da árvore, macaca sentimental, e ia
fazer xixi na calcinha, só para experimentar,
desenhar cinco salamão, rezar o anjo
do Senhor anunciou a Maria e ela concebeu,
o que era igual Letícia vindo brincar,
o hálito saborosíssimo de concebolas.
1 285
Adélia Prado
Cartonagem
A prima hábil, com tesoura e papel, pariu a mágica:
emendadas, brincando de roda, ‘as neguinhas da Guiné’.
Minha alma, do sortilégio do brinquedo, garimpou:
eu podia viver sem nenhum susto.
A vida se confirmava em seu mistério.
emendadas, brincando de roda, ‘as neguinhas da Guiné’.
Minha alma, do sortilégio do brinquedo, garimpou:
eu podia viver sem nenhum susto.
A vida se confirmava em seu mistério.
1 206
Herberto Helder
Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Elogios
Deitada, repousa a flor. Deitado, além, repousa o canto.
Lapido esmeraldas, derreto o ouro: e eis o meu canto.
Engasto esmeraldas: eis o meu canto.
O homem inclina-se para polir o canto como uma turquesa.
E o deus faz brilhar o escudo de plumas de quetzal.
Imitas o pássaro verde-azul, o pássaro de fogo.
Embriaga-se teu coração: absorve a flor da pintura, o canto pintado.
E abres agora as asas de quetzal.
Ondulas com tuas plumas de arco-íris, ó pássaro de colo vermelho e
plumagem cor de malva.
Bebe o mel. A grande flor perfumada apareceu na terra.
No pórtico de flores, no corredor de flores,
canta o cantor e eleva seu canto puro:
«Chegaram os pássaros diferentes:
o pássaro azul, o pássaro amarelo, o pássaro de ouro e cor-de-rosa
o maravilhoso pássaro da luz.»
Na casa do deus levanta-se agora o canto admirável.
Bracelete, fino unguento, esmeralda brilhante,
ouro, flauta acordada. Eis o que o teu canto é para mim.
Belas são as tuas virgens flores.
Colares de luzentes e redondas pedras de jade,
enorme plumagem de quetzal,
arco de finíssimas plumas,
ouro, flauta acordada. Eis o que o teu canto é para mim.
Belas são as tuas virgens flores.
És uma flor vermelha de milho queimado.
Abres na terra do México tuas pétalas ardentes.
As borboletas do mundo libam em ti o mel vivo,
e em ti libam o mel os pássaros semelhantes ás águias roubadoras.
Tua casa verde refulge como um grande sol —
a casa de aquáticas flores de jade.
Flores espalham-se, soam os guizos.
Príncipe, são os teus guizos.
És uma flor encarnada de plumas:
abres na terra do México tuas pétalas ardentes.
E teu perfume caminha pelo mundo, espalha-se entre a multidão.
Uma pedra de jade rolou na poeira, nasceu uma flor: o teu canto.
Esplende o sol
somente quando na terra do México levantas tuas flores virgens.
Lapido esmeraldas, derreto o ouro: e eis o meu canto.
Engasto esmeraldas: eis o meu canto.
O homem inclina-se para polir o canto como uma turquesa.
E o deus faz brilhar o escudo de plumas de quetzal.
Imitas o pássaro verde-azul, o pássaro de fogo.
Embriaga-se teu coração: absorve a flor da pintura, o canto pintado.
E abres agora as asas de quetzal.
Ondulas com tuas plumas de arco-íris, ó pássaro de colo vermelho e
plumagem cor de malva.
Bebe o mel. A grande flor perfumada apareceu na terra.
No pórtico de flores, no corredor de flores,
canta o cantor e eleva seu canto puro:
«Chegaram os pássaros diferentes:
o pássaro azul, o pássaro amarelo, o pássaro de ouro e cor-de-rosa
o maravilhoso pássaro da luz.»
Na casa do deus levanta-se agora o canto admirável.
Bracelete, fino unguento, esmeralda brilhante,
ouro, flauta acordada. Eis o que o teu canto é para mim.
Belas são as tuas virgens flores.
Colares de luzentes e redondas pedras de jade,
enorme plumagem de quetzal,
arco de finíssimas plumas,
ouro, flauta acordada. Eis o que o teu canto é para mim.
Belas são as tuas virgens flores.
És uma flor vermelha de milho queimado.
Abres na terra do México tuas pétalas ardentes.
As borboletas do mundo libam em ti o mel vivo,
e em ti libam o mel os pássaros semelhantes ás águias roubadoras.
Tua casa verde refulge como um grande sol —
a casa de aquáticas flores de jade.
Flores espalham-se, soam os guizos.
Príncipe, são os teus guizos.
És uma flor encarnada de plumas:
abres na terra do México tuas pétalas ardentes.
E teu perfume caminha pelo mundo, espalha-se entre a multidão.
Uma pedra de jade rolou na poeira, nasceu uma flor: o teu canto.
Esplende o sol
somente quando na terra do México levantas tuas flores virgens.
1 125
Charles Bukowski
O.C.E.U.C.S.
em piedade nanica as armas se direcionam para casa,
e as latas de café desejam o verso do século 18;
o tabloide é sombrio com tiras de quadrinhos e
estatísticas de beisebol –
enquanto os egípcios cospem em cães e o esquisitão
engole lâmpadas no Metropolitan Museum of
Art; é embornal e propaganda barulhenta,
a pontuação é regular
o linho está enjoado no encouraçado
e o Capitão Claypool vomita sempre à meia-noite
com asseio;
o destino é a caixa de sapatos e o prêmio é
bala puxa-puxa
com cem anos de idade, e ninguém diz
que os animais roxos e verdes
lá atrás junto às latas de lixo vão
determinar para que lado o vapor vai
soprar;
retratos de Dempsey e Tunney
rastejam pelo cérebro como
lesmas; e o éter é o cheiro da sua psique
morta;
então, só pode ser isso:
tirar os seus sapatos
durante tardes doentias
permite aventuras que rasgariam o crânio como um
dente de leão, e a sra. Carson McCullers está
morta faz muito tempo agora
de
bebida e
grandeza, e o coração ainda singra como um
bumerangue.
e as latas de café desejam o verso do século 18;
o tabloide é sombrio com tiras de quadrinhos e
estatísticas de beisebol –
enquanto os egípcios cospem em cães e o esquisitão
engole lâmpadas no Metropolitan Museum of
Art; é embornal e propaganda barulhenta,
a pontuação é regular
o linho está enjoado no encouraçado
e o Capitão Claypool vomita sempre à meia-noite
com asseio;
o destino é a caixa de sapatos e o prêmio é
bala puxa-puxa
com cem anos de idade, e ninguém diz
que os animais roxos e verdes
lá atrás junto às latas de lixo vão
determinar para que lado o vapor vai
soprar;
retratos de Dempsey e Tunney
rastejam pelo cérebro como
lesmas; e o éter é o cheiro da sua psique
morta;
então, só pode ser isso:
tirar os seus sapatos
durante tardes doentias
permite aventuras que rasgariam o crânio como um
dente de leão, e a sra. Carson McCullers está
morta faz muito tempo agora
de
bebida e
grandeza, e o coração ainda singra como um
bumerangue.
1 016
Vinicius de Moraes
A Criação Na Poesia
(Ideal)
(Fragmento)
O poeta parte no eterno renovamento.
Mas seu destino é fugir sempre ao
homem que ele traz em si.
O poeta:
Eu sonho a poesia dos gestos fisionômicos de um anjo!
(Fragmento)
O poeta parte no eterno renovamento.
Mas seu destino é fugir sempre ao
homem que ele traz em si.
O poeta:
Eu sonho a poesia dos gestos fisionômicos de um anjo!
1 336
Carla Dias
Azul
O que vê, são pedras que o tempo cuidou para que se transformassem numa "obra além da arte".
Obra de arte em si, era tudo o que fosse concebido como resultado de uma ânsia por liberdade.
O que ele assistia, tratava-se da própria liberdade ... extensa e transparente.
As pedras moldavam o corpo de um homem .Cabeça sobre os joelhos,
apoiada,
escondendo-se os vestígios de seu olhar.
Sempre o mesmo homem, curvado sobre si mesmo.
A vida andava confusa e confessava sua fragilidade.
Ele sorriu. Havia descoberto curiosos seres, rebordosos até, alguns com seus largos sorrisos.
Às vezes, as lágrimas invadiam seus olhos ... choravam alguns pela confissão humana de que o tempo desenha sonhos em corações ansiosos.
As palavras não substituíam a estampada beleza da terra, e ele chorava a tolice e mediocridade daqueles que têm medo de jogar-se ao infinito. Brotavam sussurros das "pedras-homem" e eles eram pensamentos.
A poesia vestia a tentativa de redescobrir o infindável desejo de voar!
A liberdade dolorida havia cravado unhas na sua carne de jovem sem rumo. E por mais que ele tentasse, era impossível desviar-se dela, porque a liberdade sorria ... riso jocoso, ironia própria da originalidade ... doce ... venenosa.
Queria ultrapassar.
Ele bebia sua bebida com gosto de nada.
A solidão havia lhe concedido olhos azuis e eles enxergavam além ... olhares distantes e ausentes.
A solidão havia lhe emprestado um enorme desejo de consumi-la e depois, gentil como sempre, ele tentaria livrar-se dela, esperando que viscerais sentimentos o fizessem homem com vida.
Ele não queria ser definido. Queria algo que se esparramasse e se transformasse em "gotas de alma" ... raros toques em suaves peles. Profundos toques em verdadeiras fantasias ... cálidas flores a beira da estrada, de terra.
Amava amar o amor, poética, louca e eternamente. Uma eternidade que provocava sua imaginação ... o espaço ... a cura para o esquecimento e para o tempo era não tê-los!
Águas caiam sobre sua pele queimada por um sol que lhe abria caminho tão sinuoso quanto sua própria busca. Caía sobre seu corpo as águas choradas pelas pedras ... gota a gota, e seu som de sonho, de indefinida cor, de si. E ele escutava sons!
Desejava um fim de tarde, um gosto totalmente novo e que permitisse saborear ... um gosto de presença.
Enquanto o mundo seguia, através de caminhos tão tortuosos, a procura de esquecido orgulho, ele jogava seus pensamentos ao vento, olhando através da janela do quarto, vendo sua ansiedade abrir-se feito leque ...
o abismo estendia suas mãos, sedosas e brancas, tecitura de bálsamo ... o alívio é um engano, uma inesperada ilusão.
E havia aquele que optava pela inerte indiferença.
Ele queria a provocante sensação de existir.
Tocando um segundo de estática fantasia, viu-se sem chão ,
sem precisar deixar marcas na areia branca. Pensou que a "pretensão" sempre foi uma forma de evitar o desejo,
o gosto,
o gozo.
Seus olhos ... azuis ... de quase bucólica tristeza. Seus olhos azuis e sem alicerces, feito o céu, cantavam a alegria de pura beleza e que, de tão mal entendida, era tido feito tristeza. Chamavam de tristeza a alegria dolorida e febril do poeta que é vida. Alegria que, sábia, concedia à ele o gosto do vinho bom, de torpor onírico e lírico gozo ... e a solidão espalhou-se dentro de seu peito, tomando conta do susto que foi a companhia que lhe beijou os olhos. E ficaram as xícaras de café cheias de conhaque, e os cigarros acesos, em sintonia com os primeiros raios de luz de uma manhã gritante, ainda que muda.
O que há entre seu dia e sua noite?
Ele, feito um quadro nascido de um fim de tarde frio, daqueles em que desejamos extrair até a última loucura. A minha frente, outra criação que não é minha, mas leva a minha alma, merece meu sangue, pede pela minha essência. E ele caminha entre campos floridos e campos minados, estilhaçando flores e colando ideais ... explodindo em distintas realidades!
Desdobra-se a imaginação e, um único pôr-do-sol torna-se a luz de todos os dias de uma vida ...
e uma única lua está refletida nas águas que banham seus pés e matam minha sede.
Há um baú cheio de revelações e,
apesar da necessidade de revira-lo,
jogar para for cada peça das vestes da peculiaridade de acordar sem deixar pistas sobre a noite que chega ao fim, ele espera que o coração se aquiete para retornar ao inviolável sono.
E eu,
passo derrubando tudo e tentando escandalizar o óbvio ... escandalizar à mim!
É que eu amo ...
E por amá-lo é que sinto sua presença durante a noite, enquanto olho a escuridão com curiosidade felina. Por amá-lo, consumo um instante de vampirismo alucinante e busco à mim, em paz ... a paz que adormece sobre outro instante.
Sobre a prateleira, aviões simbolizam sua vontade de tocar o céu e sua boca, seca, está a procura de palavras que possam umidecê-la.
Brinca com suas asas metálicas, perdendo-se no tempo de propósito, e deixando pistas para que eu possa encontrá-lo. E a agonia que o toca, tão típica dos que saboreiam a fome por vida, desce pela sua garganta junto com um gole de conhaque, aquecendo e tranqüilizando.
Os aviões sobre a prateleira esboçam sua imaginação ... montanhas minando mistérios
e dias passando enquanto ele desenha seu castelo no ar.
Tem sua roupa de guerreiro guardada e precisa - sente a necessidade rasgar-lhe a carne - reconhecer a vida, ao invés de abandoná-la ao obsoleto.
Então, amo um sonho inquieto,
um homem que vive a caminhar ...
ele corre, vez ou outra, movido pelo desespero que o tédio lhe causa e ensinando que Ícaro pecou ao subestimar o próprio sonho. Alguns sonhos são intocáveis e, por essa razão, querem dizer mais do que o desejo de tocá-los.
Passa por ele uma folha ... voa a tal, quase seca e sem paradeiro.
Ele a pega,
beleza ressequida e de essência medieval,
visão inusitada ... a instantânea fotografia do abandono,
lá está estampada!
Pousam olhos azuis sobre o arco-íris refletido nas águas da cachoeira.
O mar, azul, não tem profundidade tão torpe.
Pousam olhares azuis de "ele"
que ama e confunde-se ao sentir
o beijo que não aconteceu.
Azul ... tão azul é o dia que nasce e comemora a fascinação!
Falta fascínio naqueles que não enxergam a cor do espaço, salpicado de estrelas reluzentes e flutuantes planetas.
O quadro umedece a seca e estéril realidade.
Holofotes deixam pelo caminho a luz azul que sai dos olhos do "menino-homem" de asas escondidas e que esculpiu a imaginação nas pedras desta terra.
Por detrás de um silêncio profundo, de aviões, asas partidas e montanhas envolvidas em mistérios, esconde-se o "ele" a cometer pecados e crimes que não ferem à ninguém, além de si próprio, como se a sentença lhe desse a condição de realizador do exorcismo da solidão e provocasse o próximo passo em direção à si mesmo.
Sua sentença : permanecer preso pelas próprias asas, como todo poeta vive preso ao que sente , e isso explode e morre, unindo num só instante a prisão e a liberdade.
A vida fere e cura.
Voa ... voa "ele", azul e gigante ... tão gigante quanto o ar. Eu o respiro ... respiro porque, somente assim, posso amar corpo e alma de um "menino-homem" que vive do desejo de voar e da sedução das pedras e estradas. Só assim, poderei chegar ao fim de outra tarde ...
tecendo sonhos ...
colhendo luas ....
olhando o céu ... azul.
Obra de arte em si, era tudo o que fosse concebido como resultado de uma ânsia por liberdade.
O que ele assistia, tratava-se da própria liberdade ... extensa e transparente.
As pedras moldavam o corpo de um homem .Cabeça sobre os joelhos,
apoiada,
escondendo-se os vestígios de seu olhar.
Sempre o mesmo homem, curvado sobre si mesmo.
A vida andava confusa e confessava sua fragilidade.
Ele sorriu. Havia descoberto curiosos seres, rebordosos até, alguns com seus largos sorrisos.
Às vezes, as lágrimas invadiam seus olhos ... choravam alguns pela confissão humana de que o tempo desenha sonhos em corações ansiosos.
As palavras não substituíam a estampada beleza da terra, e ele chorava a tolice e mediocridade daqueles que têm medo de jogar-se ao infinito. Brotavam sussurros das "pedras-homem" e eles eram pensamentos.
A poesia vestia a tentativa de redescobrir o infindável desejo de voar!
A liberdade dolorida havia cravado unhas na sua carne de jovem sem rumo. E por mais que ele tentasse, era impossível desviar-se dela, porque a liberdade sorria ... riso jocoso, ironia própria da originalidade ... doce ... venenosa.
Queria ultrapassar.
Ele bebia sua bebida com gosto de nada.
A solidão havia lhe concedido olhos azuis e eles enxergavam além ... olhares distantes e ausentes.
A solidão havia lhe emprestado um enorme desejo de consumi-la e depois, gentil como sempre, ele tentaria livrar-se dela, esperando que viscerais sentimentos o fizessem homem com vida.
Ele não queria ser definido. Queria algo que se esparramasse e se transformasse em "gotas de alma" ... raros toques em suaves peles. Profundos toques em verdadeiras fantasias ... cálidas flores a beira da estrada, de terra.
Amava amar o amor, poética, louca e eternamente. Uma eternidade que provocava sua imaginação ... o espaço ... a cura para o esquecimento e para o tempo era não tê-los!
Águas caiam sobre sua pele queimada por um sol que lhe abria caminho tão sinuoso quanto sua própria busca. Caía sobre seu corpo as águas choradas pelas pedras ... gota a gota, e seu som de sonho, de indefinida cor, de si. E ele escutava sons!
Desejava um fim de tarde, um gosto totalmente novo e que permitisse saborear ... um gosto de presença.
Enquanto o mundo seguia, através de caminhos tão tortuosos, a procura de esquecido orgulho, ele jogava seus pensamentos ao vento, olhando através da janela do quarto, vendo sua ansiedade abrir-se feito leque ...
o abismo estendia suas mãos, sedosas e brancas, tecitura de bálsamo ... o alívio é um engano, uma inesperada ilusão.
E havia aquele que optava pela inerte indiferença.
Ele queria a provocante sensação de existir.
Tocando um segundo de estática fantasia, viu-se sem chão ,
sem precisar deixar marcas na areia branca. Pensou que a "pretensão" sempre foi uma forma de evitar o desejo,
o gosto,
o gozo.
Seus olhos ... azuis ... de quase bucólica tristeza. Seus olhos azuis e sem alicerces, feito o céu, cantavam a alegria de pura beleza e que, de tão mal entendida, era tido feito tristeza. Chamavam de tristeza a alegria dolorida e febril do poeta que é vida. Alegria que, sábia, concedia à ele o gosto do vinho bom, de torpor onírico e lírico gozo ... e a solidão espalhou-se dentro de seu peito, tomando conta do susto que foi a companhia que lhe beijou os olhos. E ficaram as xícaras de café cheias de conhaque, e os cigarros acesos, em sintonia com os primeiros raios de luz de uma manhã gritante, ainda que muda.
O que há entre seu dia e sua noite?
Ele, feito um quadro nascido de um fim de tarde frio, daqueles em que desejamos extrair até a última loucura. A minha frente, outra criação que não é minha, mas leva a minha alma, merece meu sangue, pede pela minha essência. E ele caminha entre campos floridos e campos minados, estilhaçando flores e colando ideais ... explodindo em distintas realidades!
Desdobra-se a imaginação e, um único pôr-do-sol torna-se a luz de todos os dias de uma vida ...
e uma única lua está refletida nas águas que banham seus pés e matam minha sede.
Há um baú cheio de revelações e,
apesar da necessidade de revira-lo,
jogar para for cada peça das vestes da peculiaridade de acordar sem deixar pistas sobre a noite que chega ao fim, ele espera que o coração se aquiete para retornar ao inviolável sono.
E eu,
passo derrubando tudo e tentando escandalizar o óbvio ... escandalizar à mim!
É que eu amo ...
E por amá-lo é que sinto sua presença durante a noite, enquanto olho a escuridão com curiosidade felina. Por amá-lo, consumo um instante de vampirismo alucinante e busco à mim, em paz ... a paz que adormece sobre outro instante.
Sobre a prateleira, aviões simbolizam sua vontade de tocar o céu e sua boca, seca, está a procura de palavras que possam umidecê-la.
Brinca com suas asas metálicas, perdendo-se no tempo de propósito, e deixando pistas para que eu possa encontrá-lo. E a agonia que o toca, tão típica dos que saboreiam a fome por vida, desce pela sua garganta junto com um gole de conhaque, aquecendo e tranqüilizando.
Os aviões sobre a prateleira esboçam sua imaginação ... montanhas minando mistérios
e dias passando enquanto ele desenha seu castelo no ar.
Tem sua roupa de guerreiro guardada e precisa - sente a necessidade rasgar-lhe a carne - reconhecer a vida, ao invés de abandoná-la ao obsoleto.
Então, amo um sonho inquieto,
um homem que vive a caminhar ...
ele corre, vez ou outra, movido pelo desespero que o tédio lhe causa e ensinando que Ícaro pecou ao subestimar o próprio sonho. Alguns sonhos são intocáveis e, por essa razão, querem dizer mais do que o desejo de tocá-los.
Passa por ele uma folha ... voa a tal, quase seca e sem paradeiro.
Ele a pega,
beleza ressequida e de essência medieval,
visão inusitada ... a instantânea fotografia do abandono,
lá está estampada!
Pousam olhos azuis sobre o arco-íris refletido nas águas da cachoeira.
O mar, azul, não tem profundidade tão torpe.
Pousam olhares azuis de "ele"
que ama e confunde-se ao sentir
o beijo que não aconteceu.
Azul ... tão azul é o dia que nasce e comemora a fascinação!
Falta fascínio naqueles que não enxergam a cor do espaço, salpicado de estrelas reluzentes e flutuantes planetas.
O quadro umedece a seca e estéril realidade.
Holofotes deixam pelo caminho a luz azul que sai dos olhos do "menino-homem" de asas escondidas e que esculpiu a imaginação nas pedras desta terra.
Por detrás de um silêncio profundo, de aviões, asas partidas e montanhas envolvidas em mistérios, esconde-se o "ele" a cometer pecados e crimes que não ferem à ninguém, além de si próprio, como se a sentença lhe desse a condição de realizador do exorcismo da solidão e provocasse o próximo passo em direção à si mesmo.
Sua sentença : permanecer preso pelas próprias asas, como todo poeta vive preso ao que sente , e isso explode e morre, unindo num só instante a prisão e a liberdade.
A vida fere e cura.
Voa ... voa "ele", azul e gigante ... tão gigante quanto o ar. Eu o respiro ... respiro porque, somente assim, posso amar corpo e alma de um "menino-homem" que vive do desejo de voar e da sedução das pedras e estradas. Só assim, poderei chegar ao fim de outra tarde ...
tecendo sonhos ...
colhendo luas ....
olhando o céu ... azul.
1 123
Ricardo Aleixo
Homens
Leonilson
pintava
e
bordava.
Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.
Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.
João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
pintava
e
bordava.
Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.
Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.
João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
956
Ricardo Aleixo
MÚSICA MESMO
música
música mesmo
é milton
quem faz
só com
o som
que sai
da sua boca
ele toca
o oco
da vida
por dentro
do centro
da terra
até o breu
do céu
sem deus
que pesa
imenso
sobre nós
como se apenas
“palmilhasse
vagamente”
as estradas
deste mundo
com a voz
música mesmo
é milton
quem faz
só com
o som
que sai
da sua boca
ele toca
o oco
da vida
por dentro
do centro
da terra
até o breu
do céu
sem deus
que pesa
imenso
sobre nós
como se apenas
“palmilhasse
vagamente”
as estradas
deste mundo
com a voz
862
Charles Bukowski
Algo Sobre a Ação:
aquele
desastre de trem em Nova York foi
algo
bem perto do Natal, não,
Ação de Graças
corpos empilhados com ketchup &
sem falar nada –
depois a faca bolo
nas Filipinas
atacando a mulher
do presidente no palco
câmeras de tv ligadas
ela caiu para trás
ele talhava;
3 dedos quebrados e 75 pontos depois
ela vai se recuperar
ex-rainha de concurso de beleza
ela não será
tão bela assim
agora & então
3 guardas balearam o nojento filho da
puta com a
bolo –
a esposa de um cara disse que ia
largá-lo de uma vez
por todas
então ele disse
“deixa eu passar aí e
a gente tenta resolver”, e
passou lá e os dois
tentaram resolver e
ela disse
“não”, e
ele sacou uma arma e estourou
metade da cabeça dela
então
matou o menino
2 anos de idade
a menina
4 anos de idade
matou
a irmã da esposa
quando ela entrou correndo pela
porta (ela
estava regando as flores
lá fora)
e então ele
foi até a rua e atirou no
primeiro cara que viu
então
pegou a arma e estourou sua
própria
cabeça pela
metade –
um cara
ele devolveu a vida a um homem
morto
tirou o homem direto da tumba
ora
isso sim é de tirar o chapéu e ele também
caminhou sobre a ÁGUA (não o cara
que ganhou a vida de volta mas o
outro cara) &
ele também curou
leprosos &
fez cegos
enxergarem, e
ele disse
Amem uns aos outros e
Acreditem,
aí ele foi pregado
na madeira com grandes
cravos &
ele foi embora e nunca mais
voltou –
um dos homens mais
sábios, ah, ele era
supersábio
ainda dá pra lê-lo
hoje
ele ainda é um cara
bom e sábio de ler
mas certos rapazes
do governo ficaram
incomodados
alegaram principalmente que ele estava corrompendo a
juventude
e o
prenderam
numa cela &
lhe ofereceram um copo de
cicuta que
ele aceitou.
não sei ele
provou o que queria
ele nunca
voltou
tampouco
mas ele está
na biblioteca, seja como for, todo
mundo precisa ir embora, é o que
dizem –
depois
havia uma
belezura
ela
fazia curativos nos
soldados e
cantava cançõezinhas para
eles e
talvez os beijasse atrás das
orelhas
não sei bem o que deu errado
ali, algum
desentendimento, eles
empilharam a lenha
embaixo dela
mandaram brasa
queimaram-na
viva, Joana d’Arc, que grande
puta –
depois
havia um
pintor
ele
pintava como uma criança mas
ele era um
homem
e dizem que
ele pintava superbem
mas ele mal sabia
misturar
as tintas
mas ele sabia
pintar o sol ele o fazia
rodopiar na tela, e
as flores
elas rodopiavam
e as pessoas dele sentavam em cima de
mesas
as pessoas dele sentavam bem esquisitas
em cima de mesas e em
cadeiras, e
os contemporâneos
zombavam dele
e as crianças
jogavam pedras e quebravam suas
janelas,
e o que as pessoas mais lembram
a seu respeito era que ele
cortou fora sua
orelha e a deu para uma
puta, não
Joana d’Arc,
não sei o nome
dela, e
ele saiu pelos campos e
sentou em seu rodopiante
sol e
se matou.
agora você até pode ser capaz de
comprar um Cadillac
mas duvido que você possa
comprar
qualquer uma das pinturas que ele
deixou
para trás, ele era
superbom
pelo que dizem –
depois de 2 e meio
anos de
casamento
então divórcio
minha ex-
esposa me escreveu todos os
Natais por
8 anos,
textinhos um tanto longos:
mas principalmente:
ela dizia:
tenho 2 filhos
agora
meu marido
Yena é muito
sensível,
escrevi um livro sobre
incesto
outro sobre padrões de comportamento infantil
ainda procurando uma
editora
Yena se mudou para São
Francisco talvez eu
volte para o Texas
mãe morreu
2 livros das minhas histórias infantis foram
aceitos
o menino mais velho é muito parecido com
Yena
ainda estou pintando
você sempre gostou das minhas
pinturas mas pintar tira tanto
de mim
ainda estou dando aula em escola pública
eu gosto
tivemos uma tempestade por aqui neste
inverno
absolutamente
trancados por 2
semanas
sem saída por todos os lados
sentados quietinhos e
esperando
barbara
depois de 8 anos ela parou
de escrever
os Natais voltaram ao
normal e
eu limpei a cera
dos meus
ouvidos.
desastre de trem em Nova York foi
algo
bem perto do Natal, não,
Ação de Graças
corpos empilhados com ketchup &
sem falar nada –
depois a faca bolo
nas Filipinas
atacando a mulher
do presidente no palco
câmeras de tv ligadas
ela caiu para trás
ele talhava;
3 dedos quebrados e 75 pontos depois
ela vai se recuperar
ex-rainha de concurso de beleza
ela não será
tão bela assim
agora & então
3 guardas balearam o nojento filho da
puta com a
bolo –
a esposa de um cara disse que ia
largá-lo de uma vez
por todas
então ele disse
“deixa eu passar aí e
a gente tenta resolver”, e
passou lá e os dois
tentaram resolver e
ela disse
“não”, e
ele sacou uma arma e estourou
metade da cabeça dela
então
matou o menino
2 anos de idade
a menina
4 anos de idade
matou
a irmã da esposa
quando ela entrou correndo pela
porta (ela
estava regando as flores
lá fora)
e então ele
foi até a rua e atirou no
primeiro cara que viu
então
pegou a arma e estourou sua
própria
cabeça pela
metade –
um cara
ele devolveu a vida a um homem
morto
tirou o homem direto da tumba
ora
isso sim é de tirar o chapéu e ele também
caminhou sobre a ÁGUA (não o cara
que ganhou a vida de volta mas o
outro cara) &
ele também curou
leprosos &
fez cegos
enxergarem, e
ele disse
Amem uns aos outros e
Acreditem,
aí ele foi pregado
na madeira com grandes
cravos &
ele foi embora e nunca mais
voltou –
um dos homens mais
sábios, ah, ele era
supersábio
ainda dá pra lê-lo
hoje
ele ainda é um cara
bom e sábio de ler
mas certos rapazes
do governo ficaram
incomodados
alegaram principalmente que ele estava corrompendo a
juventude
e o
prenderam
numa cela &
lhe ofereceram um copo de
cicuta que
ele aceitou.
não sei ele
provou o que queria
ele nunca
voltou
tampouco
mas ele está
na biblioteca, seja como for, todo
mundo precisa ir embora, é o que
dizem –
depois
havia uma
belezura
ela
fazia curativos nos
soldados e
cantava cançõezinhas para
eles e
talvez os beijasse atrás das
orelhas
não sei bem o que deu errado
ali, algum
desentendimento, eles
empilharam a lenha
embaixo dela
mandaram brasa
queimaram-na
viva, Joana d’Arc, que grande
puta –
depois
havia um
pintor
ele
pintava como uma criança mas
ele era um
homem
e dizem que
ele pintava superbem
mas ele mal sabia
misturar
as tintas
mas ele sabia
pintar o sol ele o fazia
rodopiar na tela, e
as flores
elas rodopiavam
e as pessoas dele sentavam em cima de
mesas
as pessoas dele sentavam bem esquisitas
em cima de mesas e em
cadeiras, e
os contemporâneos
zombavam dele
e as crianças
jogavam pedras e quebravam suas
janelas,
e o que as pessoas mais lembram
a seu respeito era que ele
cortou fora sua
orelha e a deu para uma
puta, não
Joana d’Arc,
não sei o nome
dela, e
ele saiu pelos campos e
sentou em seu rodopiante
sol e
se matou.
agora você até pode ser capaz de
comprar um Cadillac
mas duvido que você possa
comprar
qualquer uma das pinturas que ele
deixou
para trás, ele era
superbom
pelo que dizem –
depois de 2 e meio
anos de
casamento
então divórcio
minha ex-
esposa me escreveu todos os
Natais por
8 anos,
textinhos um tanto longos:
mas principalmente:
ela dizia:
tenho 2 filhos
agora
meu marido
Yena é muito
sensível,
escrevi um livro sobre
incesto
outro sobre padrões de comportamento infantil
ainda procurando uma
editora
Yena se mudou para São
Francisco talvez eu
volte para o Texas
mãe morreu
2 livros das minhas histórias infantis foram
aceitos
o menino mais velho é muito parecido com
Yena
ainda estou pintando
você sempre gostou das minhas
pinturas mas pintar tira tanto
de mim
ainda estou dando aula em escola pública
eu gosto
tivemos uma tempestade por aqui neste
inverno
absolutamente
trancados por 2
semanas
sem saída por todos os lados
sentados quietinhos e
esperando
barbara
depois de 8 anos ela parou
de escrever
os Natais voltaram ao
normal e
eu limpei a cera
dos meus
ouvidos.
1 005
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 210
Vinicius de Moraes
O Mágico
Diante do mágico a multidão boquiaberta se esquece. Não há mais lugar na
Grande Praça: as ruas adjacentes se cobrem de uma negra onda humana.
Em todas as casas a curiosidade do mistério abriu todas as janelas. A
espantosa fachada da Catedral se apinha de garotos acrobatas que se
penduram nos relevos como anjos. É talvez Paris do Terror, porque os
velhos pardieiros como que se inclinam para o espetáculo incessante e na
porta das hospedarias há velhas tabuletas pendentes, mas também pode ser
uma vila alemã, onde as campainhas das lojas tilintam alegremente, ou
mesmo o Rio do tempo dos Vice-Reis, com os seus Capitães-Mores
traficando em suas redes e fitando duramente o artista.
O mágico está sobre o antigo pelourinho ou forca ou guilhotina por onde
muitas gerações passaram.
As abas da sua casaca vão ao vento — é uma negra andorinha saltitante! As
brancas mãos se misturam em ondulantes movimentos de dança.
É de tarde, hora do trabalho. Na primeira fila estão os senhores e na última
os escravos do dever. Os senhores procuram adivinhar, os escravos
procuram rir. O mágico se diverte com a multidão, a multidão se diverte
com o mágico. Um filósofo e um dançarino perdidos confundem a multidão
com o mágico e aguardam.
Todos se divertem à sua maneira.
*
Silêncio, o mágico fala, todos escutam! “Ahora, presentaré el famoso
entretenimiento de las palomas.” A dama oriental faz uma pirueta ágil e
mostra ao público a cartola milagrosa. O mágico faz passes, cobre a cartola
com um lenço vermelho de seda. “Un dos y...!” voam pombas brancas para
o céu de safira. A multidão olha para cima, as mãos aparando o sol. O
movimento prossegue. Toda a praça, toda a rua, toda a cidade olha para
cima, o subúrbio olha para cima, os camponeses olham para cima. “O que
estará para acontecer? Dizem que um tufão caminha do levante!” Acendem-
se ícones nas isbás da estepe russa, fazem-se procissões em Portugal. O
chefe guerreiro da tribo vê o sinal da guerra no céu, rugem os trocanos. O
mágico joga a cartola para a multidão, que aplaude. O poeta apanha a
cartola e recolhe nela o encantamento que se processou. As pombas
invisíveis voltam, o poeta as contempla. Só elas são o Íntimo da Vida.
*
E o tufão cai de súbito, vindo do Levante. Os garotos escorrem pelas
colunas, formigam pelas escadarias, escondem-se nos nichos. O povo se
escoa como uma água lodosa pelas portas das casas que abrem e fecham. A
um gesto de guignol todas as janelas se retraem e após um minuto de rumor
intenso desce uma eternidade de silêncio. Uma procelária passando em
busca do mar só vê da cidade as suas torres acima do grande nevoeiro. Os
rios rugem, as pontes desabam, nas sarjetas boiam cadáveres de crianças
ciganas. O dilúvio leva a música do mágico, leva as pinturas do mágico,
leva as bonecas do mágico, só não leva o mágico na torrente.
O poeta sobe ao palanque, castiga o mágico, possui a mulher do mágico,
apresenta ao alto a cabeça e o coração, onde surgem e desaparecem pombas
brancas e onde a realidade efêmera floresce no mistério perpétuo.
Mágico do inescrutável, o poeta aguarda o raio de Deus.
Grande Praça: as ruas adjacentes se cobrem de uma negra onda humana.
Em todas as casas a curiosidade do mistério abriu todas as janelas. A
espantosa fachada da Catedral se apinha de garotos acrobatas que se
penduram nos relevos como anjos. É talvez Paris do Terror, porque os
velhos pardieiros como que se inclinam para o espetáculo incessante e na
porta das hospedarias há velhas tabuletas pendentes, mas também pode ser
uma vila alemã, onde as campainhas das lojas tilintam alegremente, ou
mesmo o Rio do tempo dos Vice-Reis, com os seus Capitães-Mores
traficando em suas redes e fitando duramente o artista.
O mágico está sobre o antigo pelourinho ou forca ou guilhotina por onde
muitas gerações passaram.
As abas da sua casaca vão ao vento — é uma negra andorinha saltitante! As
brancas mãos se misturam em ondulantes movimentos de dança.
É de tarde, hora do trabalho. Na primeira fila estão os senhores e na última
os escravos do dever. Os senhores procuram adivinhar, os escravos
procuram rir. O mágico se diverte com a multidão, a multidão se diverte
com o mágico. Um filósofo e um dançarino perdidos confundem a multidão
com o mágico e aguardam.
Todos se divertem à sua maneira.
*
Silêncio, o mágico fala, todos escutam! “Ahora, presentaré el famoso
entretenimiento de las palomas.” A dama oriental faz uma pirueta ágil e
mostra ao público a cartola milagrosa. O mágico faz passes, cobre a cartola
com um lenço vermelho de seda. “Un dos y...!” voam pombas brancas para
o céu de safira. A multidão olha para cima, as mãos aparando o sol. O
movimento prossegue. Toda a praça, toda a rua, toda a cidade olha para
cima, o subúrbio olha para cima, os camponeses olham para cima. “O que
estará para acontecer? Dizem que um tufão caminha do levante!” Acendem-
se ícones nas isbás da estepe russa, fazem-se procissões em Portugal. O
chefe guerreiro da tribo vê o sinal da guerra no céu, rugem os trocanos. O
mágico joga a cartola para a multidão, que aplaude. O poeta apanha a
cartola e recolhe nela o encantamento que se processou. As pombas
invisíveis voltam, o poeta as contempla. Só elas são o Íntimo da Vida.
*
E o tufão cai de súbito, vindo do Levante. Os garotos escorrem pelas
colunas, formigam pelas escadarias, escondem-se nos nichos. O povo se
escoa como uma água lodosa pelas portas das casas que abrem e fecham. A
um gesto de guignol todas as janelas se retraem e após um minuto de rumor
intenso desce uma eternidade de silêncio. Uma procelária passando em
busca do mar só vê da cidade as suas torres acima do grande nevoeiro. Os
rios rugem, as pontes desabam, nas sarjetas boiam cadáveres de crianças
ciganas. O dilúvio leva a música do mágico, leva as pinturas do mágico,
leva as bonecas do mágico, só não leva o mágico na torrente.
O poeta sobe ao palanque, castiga o mágico, possui a mulher do mágico,
apresenta ao alto a cabeça e o coração, onde surgem e desaparecem pombas
brancas e onde a realidade efêmera floresce no mistério perpétuo.
Mágico do inescrutável, o poeta aguarda o raio de Deus.
884
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - o Dedal
Dedal dourado como o sol: todo se ilumina, se lhe bate a luz de uma
estrela.
Modelou-o o ourives com esmero, até torná-lo vivo como o próprio ouro.
É um pequeno capacete picado pelas lanças, a que um golpe de espada
tivesse arrancado o elmo.
estrela.
Modelou-o o ourives com esmero, até torná-lo vivo como o próprio ouro.
É um pequeno capacete picado pelas lanças, a que um golpe de espada
tivesse arrancado o elmo.
806
Charles Bukowski
Fazendo Cabeças
ela ainda faz.
ela esculpe cabeças de homens
depois vai pra cama com
eles
creio que para equiparar a argila
com a carne.
foi assim que a
conheci.
não fiz objeção
mas em tais casos
você sempre acha que é
você.
mas depois
descobri
que eu não era o
primeiro
e depois de começar a morar com
ela
eu olhava aquelas cabeças esculpidas
de homens
sobre uma mesa
e em cima da tv
e
aqui e ali
e pensava
puxa vida.
e aí ela me dizia
“escuta, você sabe que cabeça eu
gostaria esculpir?”
“hmm hmm.”
“eu gostaria de esculpir o grande Mike
Swinnert... ele tem um crânio interessante...
você já reparou na boca dele, nos
dentes?”
“sim, já...”
“eu gosto da esposa dele também... mas acho que gostaria
de fazer o Mike primeiro... você não ficaria
com ciúme, né?”
“ah, não. eu vou nas corridas ou algo assim
pra você se concentrar...”
“é meio embaraçoso eu
pedir pra ele. ele é seu amigo. você se
importaria de pedir...?”
Mike não tinha carro então fui
pegá-lo e voltei com ele. enquanto estacionávamos
ele disse “seguinte, posso comer ela se eu
quiser, você sabe. você se importaria?”
“bem, acho que me importaria”, falei.
ele me olhou daquele jeito: “tá bom,
por você vou me segurar.”
acompanhei Mike até a argila e então
desci as escadas.
fui de carro para o hipódromo e tive
um dia terrível no
hipódromo...
certa vez caminhei com ela pelo McArthur Park
enquanto ela selecionava homens com
cabeças interessantes e
eu me aproximava deles e perguntava se ela
poderia esculpir suas cabeças. eu até
lhes oferecia dinheiro. todos
recusavam, sentindo que havia algo de
errado. eu também sentia que havia algo de
errado, sobretudo comigo.
não foi muito tempo depois disso que
a escultora e eu
nos separamos.
ela tinha até se mudado de cidade mas
me vi voando para outro
estado pra vê-la – duas vezes. e
a cada vez notando
mais cabeças masculinas espalhadas pelo
apartamento.
“quem é esse cara?”, perguntei
sobre uma delas.
“ah, esse é o Billyboy, o
ginete...”
fui embora 2 ou 3 dias
depois...
as vidas seguiram e 2 ou 3 mulheres depois
meu amigo Jack Bahiah apareceu. nós
falamos disso e daquilo e aí Jack
mencionou que havia voado ao
encontro da escultora.
“ela fez a sua cabeça, Jack?”
“fez, cara, ela fez a minha cabeça mas
não ficou parecido comigo, cara. adivinha com
quem ficou parecido, cara?”
“sei lá, cara...”
“ficou parecido com você...”
“Jack, meu rapaz, você sempre soube dizer
muita sacanagem...”
“sem sacanagem, cara, sem sacanagem...”
Jack e eu bebemos bastante vinho naquela noite, ele
vira os copos muito bem.
“ela estava nos meus braços na cama
e falou ‘Deus, eu amo ele, Jack, sinto
falta dele!’, e aí começou a chorar.”
não odeio Jack nem um pouco por comê-la
por dormir encostado nela quando eu tinha dormido
encostado nela por 5 ou 6 anos, e isso demonstra
a durabilidade dos humanos: sabemos extirpar o
troço e destruí-lo e esquecer.
sei que ela ainda esculpe cabeças
de homens e não consegue parar. ela me disse uma vez
que Rodin fez algo similar de um
modo ligeiramente diferente. tá bom.
desejo a ela a sorte da argila e
a sorte dos homens. tem sido uma longa
noite rumo ao meio-dia, por vezes, para a maioria
de nós.
ela esculpe cabeças de homens
depois vai pra cama com
eles
creio que para equiparar a argila
com a carne.
foi assim que a
conheci.
não fiz objeção
mas em tais casos
você sempre acha que é
você.
mas depois
descobri
que eu não era o
primeiro
e depois de começar a morar com
ela
eu olhava aquelas cabeças esculpidas
de homens
sobre uma mesa
e em cima da tv
e
aqui e ali
e pensava
puxa vida.
e aí ela me dizia
“escuta, você sabe que cabeça eu
gostaria esculpir?”
“hmm hmm.”
“eu gostaria de esculpir o grande Mike
Swinnert... ele tem um crânio interessante...
você já reparou na boca dele, nos
dentes?”
“sim, já...”
“eu gosto da esposa dele também... mas acho que gostaria
de fazer o Mike primeiro... você não ficaria
com ciúme, né?”
“ah, não. eu vou nas corridas ou algo assim
pra você se concentrar...”
“é meio embaraçoso eu
pedir pra ele. ele é seu amigo. você se
importaria de pedir...?”
Mike não tinha carro então fui
pegá-lo e voltei com ele. enquanto estacionávamos
ele disse “seguinte, posso comer ela se eu
quiser, você sabe. você se importaria?”
“bem, acho que me importaria”, falei.
ele me olhou daquele jeito: “tá bom,
por você vou me segurar.”
acompanhei Mike até a argila e então
desci as escadas.
fui de carro para o hipódromo e tive
um dia terrível no
hipódromo...
certa vez caminhei com ela pelo McArthur Park
enquanto ela selecionava homens com
cabeças interessantes e
eu me aproximava deles e perguntava se ela
poderia esculpir suas cabeças. eu até
lhes oferecia dinheiro. todos
recusavam, sentindo que havia algo de
errado. eu também sentia que havia algo de
errado, sobretudo comigo.
não foi muito tempo depois disso que
a escultora e eu
nos separamos.
ela tinha até se mudado de cidade mas
me vi voando para outro
estado pra vê-la – duas vezes. e
a cada vez notando
mais cabeças masculinas espalhadas pelo
apartamento.
“quem é esse cara?”, perguntei
sobre uma delas.
“ah, esse é o Billyboy, o
ginete...”
fui embora 2 ou 3 dias
depois...
as vidas seguiram e 2 ou 3 mulheres depois
meu amigo Jack Bahiah apareceu. nós
falamos disso e daquilo e aí Jack
mencionou que havia voado ao
encontro da escultora.
“ela fez a sua cabeça, Jack?”
“fez, cara, ela fez a minha cabeça mas
não ficou parecido comigo, cara. adivinha com
quem ficou parecido, cara?”
“sei lá, cara...”
“ficou parecido com você...”
“Jack, meu rapaz, você sempre soube dizer
muita sacanagem...”
“sem sacanagem, cara, sem sacanagem...”
Jack e eu bebemos bastante vinho naquela noite, ele
vira os copos muito bem.
“ela estava nos meus braços na cama
e falou ‘Deus, eu amo ele, Jack, sinto
falta dele!’, e aí começou a chorar.”
não odeio Jack nem um pouco por comê-la
por dormir encostado nela quando eu tinha dormido
encostado nela por 5 ou 6 anos, e isso demonstra
a durabilidade dos humanos: sabemos extirpar o
troço e destruí-lo e esquecer.
sei que ela ainda esculpe cabeças
de homens e não consegue parar. ela me disse uma vez
que Rodin fez algo similar de um
modo ligeiramente diferente. tá bom.
desejo a ela a sorte da argila e
a sorte dos homens. tem sido uma longa
noite rumo ao meio-dia, por vezes, para a maioria
de nós.
1 171
António Ramos Rosa
A Coexistência No Muro
A boca inerte na parede,
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
1 036
António Ramos Rosa
O Aparelho Estranho
O aparelho estranho, delgada aranha
deitada e vertical harmoniosa
o mar e o sol no mesmo mar
e entre os arames o espaço ainda mais vivo
quase aereamente radica-se e penetra-nos
e são raios e raízes voos feridos
que nos libertam num trabalho claro.
deitada e vertical harmoniosa
o mar e o sol no mesmo mar
e entre os arames o espaço ainda mais vivo
quase aereamente radica-se e penetra-nos
e são raios e raízes voos feridos
que nos libertam num trabalho claro.
1 062
Eunice Arruda
Hora Poética
Para esquecer esta
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
1 006
Charles Bukowski
Porq Tud Se Sgota
abatido do lado de fora do Seaside Motel e fico olha
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
1 036
Carlos Drummond de Andrade
O Novo Homem
O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não objeto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
“Nove meses, eu?
Nem nove minutos”.
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia saecula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?,
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
17/12/1967
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não objeto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
“Nove meses, eu?
Nem nove minutos”.
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia saecula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?,
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
17/12/1967
1 202
Ricardo Aleixo
As metades do corpo
Marianne
Moore
apreciava animais
e atletas
em igual
escala. Motivo: o
"estilo"
das duas
espécies citadas
"é, prova
-velmente,
desleixado"; uns e
outros, dis
-se Miss
Moore numa entre
-vista,
alcançam a
"exatidão" devido
à prática
que "as
metades do corpo",
neles (nos
animais
e nos atletas que
possuem
um estilo),
adquiriram
"para se
contra
-balançarem".
Moore
apreciava animais
e atletas
em igual
escala. Motivo: o
"estilo"
das duas
espécies citadas
"é, prova
-velmente,
desleixado"; uns e
outros, dis
-se Miss
Moore numa entre
-vista,
alcançam a
"exatidão" devido
à prática
que "as
metades do corpo",
neles (nos
animais
e nos atletas que
possuem
um estilo),
adquiriram
"para se
contra
-balançarem".
413
Carlos Drummond de Andrade
Na Escada Rolante
do Edifício Avenida Central, ao voltar da livraria onde encontrei o exemplar no 9 de 10 poemas em manuscrito, editado por João Condé em 1945, com ilustrações de Portinari, Santa-Rosa e Percy Deane e textos de Cecília Meireles, Augusto Meyer, Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Abgar Renault, Mário de Andrade, Vinícius de Morais e o autor desta cantiguinha joco-nostálgica.
Destes dez, já não vivem dois.
Quedê Mário, Macunaíma?
Estás no céu, Jorge de Lima?
Dos pintores, um só nos resta.
Candinho e Santa, pelo cosmo,
estarão fazendo seresta?
Pois ficamos nós. Protegei-nos
nossa, de olhos verdes, Cecília,
que sois a verde maravilha.
Caro Vinícius, tem cautela,
e, marinheiro, poupa o casco
de teu airoso barco a vela.
Longe Murilo, eis que de Roma
teu verso chega, e sou romano
ao menos uma vez por ano.
O mano Abgar, este se esconde.
Faz muito bem. É em segredo
que se goza de paz avonde.
Augusto Meyer, porcelana
que deixa filtrar o crepúsculo:
o coração é flor ou músculo?
De Schmidt contam-nos as folhas
mais e melhor que a cantilena
desta mal informada pena.
Manuel, a estrela matutina
e a da tarde brilham igual?
Viver em luz é tua sina.
No mais, o poeta sem poesia,
de invisível texto paleógrafo,
aqui rabisca novo autógrafo.
Éramos dez em manuscrito.
Oito, carregamos no alforje
a saudade de Mário e Jorge.
Que lá perpetuam um livrinho
só deles, com Santa e Candinho.
25/05/1963
Destes dez, já não vivem dois.
Quedê Mário, Macunaíma?
Estás no céu, Jorge de Lima?
Dos pintores, um só nos resta.
Candinho e Santa, pelo cosmo,
estarão fazendo seresta?
Pois ficamos nós. Protegei-nos
nossa, de olhos verdes, Cecília,
que sois a verde maravilha.
Caro Vinícius, tem cautela,
e, marinheiro, poupa o casco
de teu airoso barco a vela.
Longe Murilo, eis que de Roma
teu verso chega, e sou romano
ao menos uma vez por ano.
O mano Abgar, este se esconde.
Faz muito bem. É em segredo
que se goza de paz avonde.
Augusto Meyer, porcelana
que deixa filtrar o crepúsculo:
o coração é flor ou músculo?
De Schmidt contam-nos as folhas
mais e melhor que a cantilena
desta mal informada pena.
Manuel, a estrela matutina
e a da tarde brilham igual?
Viver em luz é tua sina.
No mais, o poeta sem poesia,
de invisível texto paleógrafo,
aqui rabisca novo autógrafo.
Éramos dez em manuscrito.
Oito, carregamos no alforje
a saudade de Mário e Jorge.
Que lá perpetuam um livrinho
só deles, com Santa e Candinho.
25/05/1963
1 169