Poemas neste tema
Arrependimento e Culpa
Charles Bukowski
A Morte Quer Mais Morte
a morte quer mais morte, e suas teias estão cheias:
lembro da garagem do meu pai, como de modo infantil
eu arrancaria os cadáveres das moscas
das janelas que lhes tinham parecido uma chance de fuga...
seus corpos endurecidos, feios, vibrantes
gritando como cães loucos e tolos contra os vidros
apenas para rodar e revoltear
naquele segundo mais longo que o céu e o inferno
limite dos limites,
e então a aranha vinda de seu buraco úmido
nervosa e exposta
a protuberância do corpo
ali balançando
ainda sem saber plenamente
e logo sabendo –
lançando seus fios,
a teia pegajosa,
em direção à fraca cortina de zumbido,
o pulsar;
um último movimento desesperado da perna peluda
lá, contra o vidro
lá, viva ao sol,
envolta em branco;
e quase como o amor:
a aproximação
o primeiro e silencioso sugar da aranha;
a pança cheia
aquela coisa que um dia esteve viva;
arrastando-se sobre as patas
sugando seu sangue garantido
enquanto o mundo segue seu rumo lá fora
e minhas têmporas gritam
e disparo a vassoura contra elas:
a aranha embotada em sua fúria de aranha
ainda pensando em sua presa
balançando uma surpreendente perna quebrada;
a mosca muito fixa,
uma mancha suja grudada ao fio de palha;
solto a assassina com um chacoalhar
e ela se move aleijada e ensandecida
em direção a um canto escuro
mas intercepto seu esforço vão
seu rastejar como uma heroína abatida,
e as palhas esmagam suas pernas
agora a ondular
sobre sua cabeça
sem deixar de buscar
o inimigo
de certa forma valente
a aranha morre sem dor aparente
arrastando-se para trás, com simplicidade
levando todos os pedaços
sem deixar nada por ali
até que por fim seu estômago se rompe
espalhando seu segredo,
e eu corro como uma criança
com a fúria de Deus em meus calcanhares,
de volta à pura luz do sol,
me perguntando
enquanto o mundo segue igual
com um sorriso torto
se alguém mais
viu ou percebeu o meu crime.
lembro da garagem do meu pai, como de modo infantil
eu arrancaria os cadáveres das moscas
das janelas que lhes tinham parecido uma chance de fuga...
seus corpos endurecidos, feios, vibrantes
gritando como cães loucos e tolos contra os vidros
apenas para rodar e revoltear
naquele segundo mais longo que o céu e o inferno
limite dos limites,
e então a aranha vinda de seu buraco úmido
nervosa e exposta
a protuberância do corpo
ali balançando
ainda sem saber plenamente
e logo sabendo –
lançando seus fios,
a teia pegajosa,
em direção à fraca cortina de zumbido,
o pulsar;
um último movimento desesperado da perna peluda
lá, contra o vidro
lá, viva ao sol,
envolta em branco;
e quase como o amor:
a aproximação
o primeiro e silencioso sugar da aranha;
a pança cheia
aquela coisa que um dia esteve viva;
arrastando-se sobre as patas
sugando seu sangue garantido
enquanto o mundo segue seu rumo lá fora
e minhas têmporas gritam
e disparo a vassoura contra elas:
a aranha embotada em sua fúria de aranha
ainda pensando em sua presa
balançando uma surpreendente perna quebrada;
a mosca muito fixa,
uma mancha suja grudada ao fio de palha;
solto a assassina com um chacoalhar
e ela se move aleijada e ensandecida
em direção a um canto escuro
mas intercepto seu esforço vão
seu rastejar como uma heroína abatida,
e as palhas esmagam suas pernas
agora a ondular
sobre sua cabeça
sem deixar de buscar
o inimigo
de certa forma valente
a aranha morre sem dor aparente
arrastando-se para trás, com simplicidade
levando todos os pedaços
sem deixar nada por ali
até que por fim seu estômago se rompe
espalhando seu segredo,
e eu corro como uma criança
com a fúria de Deus em meus calcanhares,
de volta à pura luz do sol,
me perguntando
enquanto o mundo segue igual
com um sorriso torto
se alguém mais
viu ou percebeu o meu crime.
1 146
Tadeusz Rózewicz
Reabilitação post-mortem
Os mortos lembram-se
de nossa indiferença
Os mortos lembram-se
de nosso silêncio
Os mortos lembram-se
de nossas palavras
Os mortos veem as nossas caras
distendidas de orelha a orelha
Os mortos veem os nossos
corpos que se esfregam
os mortos veem as nossas mãos
prontas para aplaudir
Os mortos leem os nossos livros
ouvem os nossos discursos
pronunciados há muito tempo
os mortos ouvem
o ruído de nossas línguas
os mortos analisam os relatórios
participam de discussões
já encerradas
os mortos enxergam estádios
corais conjuntos em escansão
Todos os vivos são culpados
culpadas são as crianças pequenas
que entregavam buquês de flores
culpados são os amantes
culpados são os poetas
culpados são aqueles que fugiram
e aqueles que ficaram
aqueles que disseram sim
aqueles que disseram não
e aqueles que falaram
os mortos estão contandos os vivos
os mortos não haverão e reabilitar-nos
(tradução de Aleksandr Jovanovic)
622
Charles Bukowski
Amor Esmagado Como Mosca Morta
em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
615
Charles Bukowski
Ah, Eu Era o Terror da Mulherada!
você
se pergunta sobre
quando
você corria por entre as mulheres
como um maníaco
em campo aberto
com sua total
desconsideração por
calcinhas, panos de prato,
fotos
e todos os outros
apetrechos –
como
o emaranhamento das
almas.
o que
você estava
tentando
fazer
estava tentando
ir atrás
do quê?
era como uma
caçada.
quantas você
conseguiu
ensacar?
partir
pra cima?
nomes
sapatos
vestidos
lençóis, banheiros,
quartos, cozinhas,
salas
da frente,
cafés,
animais de estimação,
nomes de animais de estimação,
nomes de crianças;
nomes do meio, sobrenomes,
nomes
inventados.
você provou que era
fácil.
você provou que
podia ser feito
sempre
de novo,
aquelas pernas erguidas
alto
por trás de quase
você todo.
ou
elas ficavam por cima
ou
você ficava
por trás
ou
ambos
de lado
além de
outras
invenções.
canções em rádios.
carros estacionados.
vozes telefônicas.
bebidas sendo
servidas.
as conversas
sem sentido.
agora você sabe
você não passava de um
maldito
cão, ou
de uma lesma enrolada
numa lesma –
conchas pegajosas na luz
do sol, ou nas
noites enevoadas,
ou no escuro
escuro.
você era
o idiota da
natureza,
não provando mas
sendo
provado.
não um homem mas um
plano
se desenrolando,
não empurrando mas
sendo
empurrado.
agora
você sabe.
naquele tempo
você se achava
um belo de um
espertalhão
um belo de um
cafajeste
um belo de um
machão
um belo de um
transgressor
sorrindo acima de seu
vinho
planejando sua próxima
jogada
que
perda de tempo
você era
seu grande
cavaleiro
seu Átila das
primaveras e
tudo mais
você poderia ter
dormido esse tempo
todo
e ninguém nunca teria
sentido sua
falta
nunca teriam
sentido sua
falta
em
absoluto.
se pergunta sobre
quando
você corria por entre as mulheres
como um maníaco
em campo aberto
com sua total
desconsideração por
calcinhas, panos de prato,
fotos
e todos os outros
apetrechos –
como
o emaranhamento das
almas.
o que
você estava
tentando
fazer
estava tentando
ir atrás
do quê?
era como uma
caçada.
quantas você
conseguiu
ensacar?
partir
pra cima?
nomes
sapatos
vestidos
lençóis, banheiros,
quartos, cozinhas,
salas
da frente,
cafés,
animais de estimação,
nomes de animais de estimação,
nomes de crianças;
nomes do meio, sobrenomes,
nomes
inventados.
você provou que era
fácil.
você provou que
podia ser feito
sempre
de novo,
aquelas pernas erguidas
alto
por trás de quase
você todo.
ou
elas ficavam por cima
ou
você ficava
por trás
ou
ambos
de lado
além de
outras
invenções.
canções em rádios.
carros estacionados.
vozes telefônicas.
bebidas sendo
servidas.
as conversas
sem sentido.
agora você sabe
você não passava de um
maldito
cão, ou
de uma lesma enrolada
numa lesma –
conchas pegajosas na luz
do sol, ou nas
noites enevoadas,
ou no escuro
escuro.
você era
o idiota da
natureza,
não provando mas
sendo
provado.
não um homem mas um
plano
se desenrolando,
não empurrando mas
sendo
empurrado.
agora
você sabe.
naquele tempo
você se achava
um belo de um
espertalhão
um belo de um
cafajeste
um belo de um
machão
um belo de um
transgressor
sorrindo acima de seu
vinho
planejando sua próxima
jogada
que
perda de tempo
você era
seu grande
cavaleiro
seu Átila das
primaveras e
tudo mais
você poderia ter
dormido esse tempo
todo
e ninguém nunca teria
sentido sua
falta
nunca teriam
sentido sua
falta
em
absoluto.
639
Charles Bukowski
Para a Pequena
ela está no andar de baixo cantando, tocando seu
violão, acho que ela está mais feliz do que
de costume e eu fico contente. às vezes minha
mente adoece e sou cruel com ela.
ela pesa quarenta e cinco
quilos
tem pulsos finos e
seus olhos
se mostram com frequência puramente tristes.
às vezes minhas necessidades
me tornam egoísta
uma contracorrente afeta meu
cérebro
e nunca fui
bom
em pedir desculpas.
eu a escuto cantando
agora é
bem tarde da noite
e daqui
consigo ver as
luzes da cidade
e elas são tão doces como
maduras frutas de quintal
e este quarto está
calmo
tão estranho
como se a magia tivesse
virado algo normal.
violão, acho que ela está mais feliz do que
de costume e eu fico contente. às vezes minha
mente adoece e sou cruel com ela.
ela pesa quarenta e cinco
quilos
tem pulsos finos e
seus olhos
se mostram com frequência puramente tristes.
às vezes minhas necessidades
me tornam egoísta
uma contracorrente afeta meu
cérebro
e nunca fui
bom
em pedir desculpas.
eu a escuto cantando
agora é
bem tarde da noite
e daqui
consigo ver as
luzes da cidade
e elas são tão doces como
maduras frutas de quintal
e este quarto está
calmo
tão estranho
como se a magia tivesse
virado algo normal.
1 061
Fernando Pessoa
O horror sórdido do que, a sós consigo,
O horror sórdido do que, a sós consigo,
Vergonhosa de si, no escuro, cada alma humana pensa.
Vergonhosa de si, no escuro, cada alma humana pensa.
1 372
Edmir Domingues
soneto XXIV - Ébrio de medos
Ai, nunca me perdesse entre os vinhedos
se bêbedo de vinho, ébrio de medos,
falei de nossos íntimos segredos
e na neve enterrei velhos brinquedos.
Que a lua iluminava com ternura
rosas de sangue sobre a estrada escura,
e todos conheceram da amargura
que eu vestia de sonho e de aventura.
Constrangimento então, loucura quase,
olhos cobertos de invisível gaze,
sentimento de culpa e confusão.
Sei que havia violões e sei de banjos,
e lembro os que de mim fugiam, anjos.
Talvez quisessem-me eles e eu os não.
se bêbedo de vinho, ébrio de medos,
falei de nossos íntimos segredos
e na neve enterrei velhos brinquedos.
Que a lua iluminava com ternura
rosas de sangue sobre a estrada escura,
e todos conheceram da amargura
que eu vestia de sonho e de aventura.
Constrangimento então, loucura quase,
olhos cobertos de invisível gaze,
sentimento de culpa e confusão.
Sei que havia violões e sei de banjos,
e lembro os que de mim fugiam, anjos.
Talvez quisessem-me eles e eu os não.
594
Sophia de Mello Breyner Andresen
Perca
Ainda há luz e já o rumor da tarde
me separa da sombra do pinhal
como viver de novo a alegria una
de ter sido nova que falhei
só o tempo e bem tarde
me envelheceu
depois perdi sem saber como o andar
dos meus passos
Setembro de 2001
me separa da sombra do pinhal
como viver de novo a alegria una
de ter sido nova que falhei
só o tempo e bem tarde
me envelheceu
depois perdi sem saber como o andar
dos meus passos
Setembro de 2001
1 204
Charles Bukowski
Cisne da Primavera
cisnes também morrem na primavera
e lá flutua um
morto num domingo
emborcado
circulando na corrente
e eu caminho até a rotunda
por onde circulam
deuses em carruagens
cachorros,
mulheres
e a morte
desce pela minha garganta
como um rato,
e escuto as pessoas se aproximarem
com suas cestas de piquenique
e suas risadas,
e me sinto culpado
pelo cisne
como se a morte
fosse algo vergonhoso
e como um louco
eu me afasto
e os abandono
meu belo cisne.
e lá flutua um
morto num domingo
emborcado
circulando na corrente
e eu caminho até a rotunda
por onde circulam
deuses em carruagens
cachorros,
mulheres
e a morte
desce pela minha garganta
como um rato,
e escuto as pessoas se aproximarem
com suas cestas de piquenique
e suas risadas,
e me sinto culpado
pelo cisne
como se a morte
fosse algo vergonhoso
e como um louco
eu me afasto
e os abandono
meu belo cisne.
1 138
José Saramago
Lugar-Comum do Quadragenário
Quinze mil dias secos são passados,
Quinze mil ocasiões que se perderam,
Quinze mil sóis inúteis que nasceram,
Hora a hora contados
Neste solene, mas grotesco gesto
De dar corda a relógios inventados
Para buscar, nos anos que esqueceram,
A paciência de ir vivendo o resto.
Quinze mil ocasiões que se perderam,
Quinze mil sóis inúteis que nasceram,
Hora a hora contados
Neste solene, mas grotesco gesto
De dar corda a relógios inventados
Para buscar, nos anos que esqueceram,
A paciência de ir vivendo o resto.
1 227
Pedro Amigo de Sevilha
Dom Foão, Em Gram Cordura
Dom Foão, em gram cordura,
moveu a mim preitesia
de partiçom, noutro dia;
mas fui de malaventura
porque com el nom parti:
que penas veiras perdi!
Podera seer cobrado
por um mui gram tempo fero
se dissesse: - Partir quero!
Mais enganou-m'o pecado
porque com el nom parti:
que penas veiras perdi!
Que panos perdi de peso
e outros bem bastoados
que m'haviam já mandados!
Mais foi homem mal apreso
porque com el nom parti:
que penas veiras perdi!
moveu a mim preitesia
de partiçom, noutro dia;
mas fui de malaventura
porque com el nom parti:
que penas veiras perdi!
Podera seer cobrado
por um mui gram tempo fero
se dissesse: - Partir quero!
Mais enganou-m'o pecado
porque com el nom parti:
que penas veiras perdi!
Que panos perdi de peso
e outros bem bastoados
que m'haviam já mandados!
Mais foi homem mal apreso
porque com el nom parti:
que penas veiras perdi!
672
Fernando Pessoa
Neera, passeemos juntos
Neera, passeemos juntos
Só para nos lembrarmos disto...
Depois quando envelhecermos
E nem os Deuses puderem
Dar cor às nossas faces
E mocidade aos nossos colos,
Lembremo-nos, à lareira,
Cheiinhos de pesar
O ter quebrado o fio,
Lembremo-nos, Neera,
De um dia ter passado
Sem nos termos amado…
Só para nos lembrarmos disto...
Depois quando envelhecermos
E nem os Deuses puderem
Dar cor às nossas faces
E mocidade aos nossos colos,
Lembremo-nos, à lareira,
Cheiinhos de pesar
O ter quebrado o fio,
Lembremo-nos, Neera,
De um dia ter passado
Sem nos termos amado…
1 092
Sophia de Mello Breyner Andresen
Navegações Descobrimento-Encobrimento
Pecados cupidez crua violência
Inaceitáveis memórias ensombrando
O puro emergir e a flor da transparência
Inaceitáveis memórias ensombrando
O puro emergir e a flor da transparência
1 184
Vinicius de Moraes
Soneto de Florença
Florença... que serenidade imensa
Nos teus campos remotos, de onde surgem
Em tons de terracota e de ferrugem
Torres, cúpulas, claustros: renascença
Das coisas que passaram mas que urgem...
Como em teu seio pareceu-me densa
A selva oscura onde silêncios rugem
No meio do caminho da descrença...
Que tristes sombras nos teus céus toscanos
Onde, em meu crime e meu remorso humanos
Julguei ver, na colina apascentada
Na forma de um cipreste impressionante
O grande vulto secular de Dante
Carpindo a morte da mulher amada...
Rio, janeiro de 1953
Nos teus campos remotos, de onde surgem
Em tons de terracota e de ferrugem
Torres, cúpulas, claustros: renascença
Das coisas que passaram mas que urgem...
Como em teu seio pareceu-me densa
A selva oscura onde silêncios rugem
No meio do caminho da descrença...
Que tristes sombras nos teus céus toscanos
Onde, em meu crime e meu remorso humanos
Julguei ver, na colina apascentada
Na forma de um cipreste impressionante
O grande vulto secular de Dante
Carpindo a morte da mulher amada...
Rio, janeiro de 1953
1 129
Beni Carvalho
Magdá (Um quadro de Tiziano)
Colo desnudo em flor, lábio entreaberto em prece,
olhos, no alto, exorando o perdão de seu crime,
Magdalena, a ofegar, toda em febre aparece...
E o almo encanto da Vida e do Pecado exprime.
Perscruta o coração, que o Amor, voraz, oprime;
Sente-lhe a luta, e a dor que, dentro da alma, cresce...
E, a cada pulsação que lhe o peito oprime,
Os delírios sensuais, em prantos, amortece.
Em fogo o olhar, tremendo a voz, a mente em brasas,
Desnastrado o cabelo em ondas de veludos,
Demanda o Azul, assim, nessas formosas asas...
Enquanto, aos céus, contrita, a suplicar, exangue,
Mostra os duros punhais dos seios pontiagudos,
Ainda quentes de amor, ainda rubros de sangue!
olhos, no alto, exorando o perdão de seu crime,
Magdalena, a ofegar, toda em febre aparece...
E o almo encanto da Vida e do Pecado exprime.
Perscruta o coração, que o Amor, voraz, oprime;
Sente-lhe a luta, e a dor que, dentro da alma, cresce...
E, a cada pulsação que lhe o peito oprime,
Os delírios sensuais, em prantos, amortece.
Em fogo o olhar, tremendo a voz, a mente em brasas,
Desnastrado o cabelo em ondas de veludos,
Demanda o Azul, assim, nessas formosas asas...
Enquanto, aos céus, contrita, a suplicar, exangue,
Mostra os duros punhais dos seios pontiagudos,
Ainda quentes de amor, ainda rubros de sangue!
977
Adail Coelho Maia
Segundo a Bíblia
Diz a Bíblia que o nosso Criador
Fez o mundo em seis dias, simplesmente,
Deus criou Adão, puro, inocente,
Para exaltar as glórias do Senhor.
Vendo Adão tanta luz, tanto esplendor,
Uma idéia fatal lhe veio à mente:
— Pedir um companheiro ao Onipotente,
Para gozar de tudo igual favor!
E Eva lá se vem, e Adão vencido,
Foi levado a um pomar, por entre trevas,
Para comer de um fruto proibido!
E por castigo eterno ao crime bruto,
O pomar inda existe, e novas Evas,
Com a mesma história do maldito fruto!...
Fez o mundo em seis dias, simplesmente,
Deus criou Adão, puro, inocente,
Para exaltar as glórias do Senhor.
Vendo Adão tanta luz, tanto esplendor,
Uma idéia fatal lhe veio à mente:
— Pedir um companheiro ao Onipotente,
Para gozar de tudo igual favor!
E Eva lá se vem, e Adão vencido,
Foi levado a um pomar, por entre trevas,
Para comer de um fruto proibido!
E por castigo eterno ao crime bruto,
O pomar inda existe, e novas Evas,
Com a mesma história do maldito fruto!...
1 035
Araújo Filho
Fatalismo
Foi meu erro idear maior altura,
para um Sonho tão Pobre e pequenino:
— Ninguém torna em ventura a desventura,
que é mais forte o desígnio do Destino.
Ninguém pode mudar a noite escura
em dia azul, sem nuvens, cristalino...
Da vida, a estrada é tão agreste e dura
que leva muita vez ao desatino.
Gira em torno de tudo uma Alta Força,
que, com letras de fogo, escreve a sorte
de cada Ser... Escreve, e passa adiante...
E do que escrito foi, não há quem torça
ou mude uma só letra, nem durante
a vida, nem também depois da morte.
para um Sonho tão Pobre e pequenino:
— Ninguém torna em ventura a desventura,
que é mais forte o desígnio do Destino.
Ninguém pode mudar a noite escura
em dia azul, sem nuvens, cristalino...
Da vida, a estrada é tão agreste e dura
que leva muita vez ao desatino.
Gira em torno de tudo uma Alta Força,
que, com letras de fogo, escreve a sorte
de cada Ser... Escreve, e passa adiante...
E do que escrito foi, não há quem torça
ou mude uma só letra, nem durante
a vida, nem também depois da morte.
829
Álvares de Azevedo
DESALENTO
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL
Feliz daquele que no livro d'alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!
Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...
E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...
Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!
Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...
E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!
Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...
Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!
Primeira Parte
Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL
Feliz daquele que no livro d'alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!
Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...
E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...
Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!
Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...
E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!
Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...
Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!
2 049
Charles Bukowski
Para a Puta Que Levou Meus Poemas
alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante;
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante;
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.
1 431
Atílio Milano
O Filho de Patmore
Meu filho, ralhei contigo,
eu, que sou tão teu amigo!
Mas, se sou tão teu amigo,
por que é que ralho contigo?!
Quando me desobedeces
já com o homem te pareces...
Vais ser o homem que pareces:
vejo que não obedeces!
Foste chorar para a cama,
ofendido com quem te ama!
E teu pai, que tanto te ama,
salta, tão triste, da cama
e vai dar-te a sua bênção.
Ah, vocês filhos não pensam,
ah, vocês filhos nem pensam
que um pai é um deus, dando a bênção!
eu, que sou tão teu amigo!
Mas, se sou tão teu amigo,
por que é que ralho contigo?!
Quando me desobedeces
já com o homem te pareces...
Vais ser o homem que pareces:
vejo que não obedeces!
Foste chorar para a cama,
ofendido com quem te ama!
E teu pai, que tanto te ama,
salta, tão triste, da cama
e vai dar-te a sua bênção.
Ah, vocês filhos não pensam,
ah, vocês filhos nem pensam
que um pai é um deus, dando a bênção!
1 044
Leila Mícollis
A Seco
Tem coisas que a gente só diz de porre,
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez,
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose afetiva.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez,
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose afetiva.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
1 192
Fernando Pessoa
III - Somos meninos de uma primavera
IIISomos meninos de uma primavera
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.
No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...
Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.
Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.
Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.
No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...
Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.
Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.
Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
1 100
Luís Vianna
VOLTA AO LAR
Aos 18 anos,
Numa briga com o pai,
Este jovem
Se vai.
Vai, vai,
Vai sofrer a vida
Pois a vida é sofrida
Aos que não têm p´ra amar
Nem mesmo
Um simples lar.
Viveu na calçada
À beira da estrada
Sem um amigo,
Sem uma namorada.
Sem amor só resta dor,
E a dor,
É ardor.
Passaram-se os dias,
E por entre as feridas,
Um homem
Põe-se a chorar.
Quer voltar
Ao seu lar.
Liga para casa
Com medo do pai,
E com a mão, põe-se a falar,
Para ver,
Se pode
Voltar.
Se eu puder voltar
Deixem-me um recado;
Em uma árvore
Um pano
Amarado.
E assim se fez.
Na data marcada,
Volta, quem sabe?
P´ra sempre e de vez.
Em frente à casa
Falta-lhe a coragem
Para ver se a branca bandagem
Ali vai encontrar,
Em frente
Ao seu
Lar.
Os olhos cerrados,
Abre-os, calado,
Para um pouco espiar.
E não vê um lenço,
Nem uma tarja,
Nem uma banda;
Vê, sim, um alvo lençol
Em toda varanda.
27/01/2001
Numa briga com o pai,
Este jovem
Se vai.
Vai, vai,
Vai sofrer a vida
Pois a vida é sofrida
Aos que não têm p´ra amar
Nem mesmo
Um simples lar.
Viveu na calçada
À beira da estrada
Sem um amigo,
Sem uma namorada.
Sem amor só resta dor,
E a dor,
É ardor.
Passaram-se os dias,
E por entre as feridas,
Um homem
Põe-se a chorar.
Quer voltar
Ao seu lar.
Liga para casa
Com medo do pai,
E com a mão, põe-se a falar,
Para ver,
Se pode
Voltar.
Se eu puder voltar
Deixem-me um recado;
Em uma árvore
Um pano
Amarado.
E assim se fez.
Na data marcada,
Volta, quem sabe?
P´ra sempre e de vez.
Em frente à casa
Falta-lhe a coragem
Para ver se a branca bandagem
Ali vai encontrar,
Em frente
Ao seu
Lar.
Os olhos cerrados,
Abre-os, calado,
Para um pouco espiar.
E não vê um lenço,
Nem uma tarja,
Nem uma banda;
Vê, sim, um alvo lençol
Em toda varanda.
27/01/2001
915
Fernando Pessoa
ODE MARCIAL [b]
ODE MARCIAL
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
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