Poemas neste tema
Ciência e Razão
Mário-Henrique Leiria
LIÇÃO DE ANATOMIA
Todos ouviram a palavra que foi dita.
Como todos sabiam que pensar
era um cargo importante e bastante arriscado,
resolveram pôr a palavra dentro do
chapéu e olhar, com cuidado,
para o lado esquerdo.
Foi então que veio
A Ocasião, de fato de xadrez,
e vários documentos
comprovativos
que justificassem o aparecimento
das coisas contraditórias.
Mas os sindicatos lá estavam,
muito crescidos, muito gordos,
a porem ovos que punham.
Por esta razão todos sentiam que
pensar se estava a tornar uma
responsabilidade urgente,
tão urgente que houve alguns
que se esqueceram de o fazer.
A palavra continua a ser dita e todos nós
sabemos que o pensar nos está a sair
pelos olhos, pelos ouvidos e
pelo nariz e que
também nos é arrancado muitas vezes pelas costas.
Como todos sabiam que pensar
era um cargo importante e bastante arriscado,
resolveram pôr a palavra dentro do
chapéu e olhar, com cuidado,
para o lado esquerdo.
Foi então que veio
A Ocasião, de fato de xadrez,
e vários documentos
comprovativos
que justificassem o aparecimento
das coisas contraditórias.
Mas os sindicatos lá estavam,
muito crescidos, muito gordos,
a porem ovos que punham.
Por esta razão todos sentiam que
pensar se estava a tornar uma
responsabilidade urgente,
tão urgente que houve alguns
que se esqueceram de o fazer.
A palavra continua a ser dita e todos nós
sabemos que o pensar nos está a sair
pelos olhos, pelos ouvidos e
pelo nariz e que
também nos é arrancado muitas vezes pelas costas.
770
Herberto Helder
Levanto À Vista o Que Foi a Terra Magnífica
levanto à vista o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas,
e estou tão leve porque não tenho nenhum segredo,
e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo,
daqui a uma pouca ciência saberei pensar
que algum pouco depois estarei morto,
e só de o pensar já nem respiro,
já quase em nada toco,
já só vejo no fundo das mãos daquilo que fica escrito
que escrevi coisa nenhuma do mundo até ao esquecimento,
e movendo-me com as unhas movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci logo me deram por morto,
e não fui tido nem havido na razão do episódio
de um rosto ter passado por um espelho
e ter desaparecido,
portanto não me venha ninguém falar de nada,
sei bastante do que sabem todos,
vejo a água a mover-se contra si mesma, tão marítima,
e acho até que é bonito,
cada qual morre do quanto alcança e não alcança,
e ninguém compreende,
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa, a água fácil, sem retorno,
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
(não só o máximo mas também o mínimo)
e as estações mais bêbedas,
e estou tão leve porque não tenho nenhum segredo,
e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo,
daqui a uma pouca ciência saberei pensar
que algum pouco depois estarei morto,
e só de o pensar já nem respiro,
já quase em nada toco,
já só vejo no fundo das mãos daquilo que fica escrito
que escrevi coisa nenhuma do mundo até ao esquecimento,
e movendo-me com as unhas movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci logo me deram por morto,
e não fui tido nem havido na razão do episódio
de um rosto ter passado por um espelho
e ter desaparecido,
portanto não me venha ninguém falar de nada,
sei bastante do que sabem todos,
vejo a água a mover-se contra si mesma, tão marítima,
e acho até que é bonito,
cada qual morre do quanto alcança e não alcança,
e ninguém compreende,
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa, a água fácil, sem retorno,
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
(não só o máximo mas também o mínimo)
1 006
Carlos Drummond de Andrade
Exorcismo
Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmental
Libera nos, Domine
Da semia
Do sema, do semema, do semantema
Do lexema
Do classema, do mema, do sentema
Libera nos, Domine
Da estruturação semêmica
Do idioleto e da pancronia científica
Da reliabilidade dos testes psicolinguísticos
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais
Libera nos, Domine
Do vocoide
Do vocoide nasal puro ou sem fechamento consonantal
Do vocoide baixo e do semivocoide homorgâmico
Libera nos, Domine
Da leitura sintagmática
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática
Da fatividade e da não fatividade na oração principal
Libera nos, Domine
Da organização categorial da língua
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua
Da ortolinguagem
Libera nos, Domine
Do programa epistemológico da obra
Do corte epistemológico e do corte dialógico
Do substrato acústico do culminador
Dos sistemas genitivamente afins
Libera nos, Domine
Da camada imagética
Do espaço heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine
Da linguística frástica e transfrástica
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Da clitização pronominal obrigatória
Da glossemática
Libera nos, Domine
Da estrutura exossemântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor
Da linguística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista
Libera nos, Domine
Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jakobson, Barthes, Derrida, Todorov
De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva
Libera nos, Domine
Do elemento suprassegmental
Libera nos, Domine
Da semia
Do sema, do semema, do semantema
Do lexema
Do classema, do mema, do sentema
Libera nos, Domine
Da estruturação semêmica
Do idioleto e da pancronia científica
Da reliabilidade dos testes psicolinguísticos
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais
Libera nos, Domine
Do vocoide
Do vocoide nasal puro ou sem fechamento consonantal
Do vocoide baixo e do semivocoide homorgâmico
Libera nos, Domine
Da leitura sintagmática
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática
Da fatividade e da não fatividade na oração principal
Libera nos, Domine
Da organização categorial da língua
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua
Da ortolinguagem
Libera nos, Domine
Do programa epistemológico da obra
Do corte epistemológico e do corte dialógico
Do substrato acústico do culminador
Dos sistemas genitivamente afins
Libera nos, Domine
Da camada imagética
Do espaço heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine
Da linguística frástica e transfrástica
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Da clitização pronominal obrigatória
Da glossemática
Libera nos, Domine
Da estrutura exossemântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor
Da linguística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista
Libera nos, Domine
Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jakobson, Barthes, Derrida, Todorov
De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva
Libera nos, Domine
2 106
Herberto Helder
Os Ritmos 7
Ele lembra-se de setembro, o mês.
Setembro é um mês obrigatório.
Chegara para alguém o tempo do conhecimento.
Os ladrões são assim: espreitam, esperam, a ver como é.
Depois, do conhecimento dos outros instituem uma parte do seu conhecimento próprio.
Pode-se pensar que são coleccionadores de selos, acumuladores de riqueza, espíritos vorazes intensamente ocupados na extravagância dos espectáculos.
E emocionam-se, deslumbram-se, sofrem — monstros hábeis metendo tudo nas algibeiras.
Vamos rir: se calhar, aquilo de nada lhes servirá.
Alguém diz: tornam-se maiores as dimensões da realidade.
E o coleccionador, perdido em espaços demasiado grandes para si, diz devagar, muito devagar: merda.
Ninguém ouve, e ele mantém o seu orgulho de guardador de coisas, ele, o das vastas dimensões da realidade.
Porque é que em setembro acontecem coisas?
É por causa da luz.
O terror, por exemplo, é de setembro.
As noites rebentam inesperadamente no que pensamos ser o meio da luz do mês de setembro.
A morte diverte-se muito em setembro.
Vejamos: as pessoas estão a dormir, em setembro, e acordam de súbito, apavoradas.
Tiveram um sonho premonitório.
As pessoas julgam que a vida treme nelas, riem de alegria, têm o corpo bronzeado, cantam, levantam a cabeça para a luz.
É porque se está em setembro.
Então aprendem uma coisa qualquer, roubam-na, coleccionam-na, aumentam as dimensões da realidade.
E mesmo que digam baixinho: merda — não se livram do seu álbum de selos.
Estão tramadas.
Ele sabe isso muito bem.
De setembro, o mês, conhece todas as artimanhas.
Agora ri, quando as pessoas fáceis dizem: no verão, em setembro.
Elas contam as historiazinhas da praia, da alegria de viver junto ao mar, das roupas leves e claras.
Bem: nunca parou de enriquecer, ele, por obrigação.
E então chegou setembro, o obrigatório.
Nessa altura já ele tinha os braços e as pernas muito grandes e tentava metê-los no espaço, ao mesmo tempo que o resto do corpo.
Estava à procura do último ritmo, e as coisas iam menos mal.
Mas a mais nova das irmãs, com a malevolência dos seus doze anos, estava a comer uma ameixa, com os olhos sobre a mesa de estudo.
Setembro já começara a encher-se de assombro, por causa dos doze anos dela.
Embora o mês principiasse por ter uma qualidade especial de expectativa, e os dias se mudassem uns aos outros, mantendo uma subtil tensão — só nesse sábado branco é que o tumulto se levantou no meio da casa.
A irmã levantou os olhos da mesa, deixou cair a ameixa e ficou a olhar com espanto a parede em frente.
Depois, em setembro, o rosto dela correu vertiginosamente em direcção ao pânico, e ela deu um grito.
Tinha chegado o tempo do conhecimento.
Rouba o teu bocado, disse o pequeno monstro.
Vieram pessoas, vieram as mães todas: a velha, a outra a seguir, e a outra, e as novas mas ainda assim mais velhas.
Arrastaram a irmã para um quarto do fundo, e esconderam-na.
O espectador disse: agora é ela a vítima, foi apanhada de súbito pelo conhecimento.
E perguntou: o que é que cresceu nela, a comedora de ameixas aos doze anos?
Os dias de setembro unem-se uns aos outros, sob a enorme luz da tarde.
As mães todas correm pelos corredores, falam baixo, pretendem tornar inalcançável para ele os doze anos da comedora de ameixas.
Porque ele fica junto da mesa, à procura da ameixa mordida que rolou para o soalho.
Mas ele próprio já sabia demais para convencer-se de que procurava no chão ameixas mordidas.
Caberia isso na cabeça de alguém?
Um criminoso de oito anos procura, em setembro, quando a irmã grita e é levada para o inacessível.
Digo: um criminoso de oito anos perde tempo à procura de uma ameixa? quando uma rapariguinha de súbito cai em pleno espaço do sacral e as sacerdotisas se alvoroçam à sua volta, dizendo: chegou o tempo.
Levam-na para o inacessível, para o fundo da casa.
Que procuras tu, farejador?
Comigo foi assim, pensa ele: golpeei o braço, expus-me, criança doce e dramática, em frente do espanto e da comoção das mulheres, caí no abismo, ressuscitei sob a delicadíssima atenção feminina, cresceram-me os braços e as pernas, insinuou-se em mim um novo ritmo, soube que ultrapassei um perigo e fiquei de uma outra maneira diante de tudo.
Depois diz: aconteceu-lhe o mesmo a ela, mas de um modo particular.
Deve existir um sinal.
Havia no soalho, junto da cadeira, uma pequena mancha de sangue.
E ao longo do quarto, até à porta, um rasto de pingos de sangue.
E havia no corredor, ao longo do corredor — havia sangue.
Acerca das ameixas já eu sabia tudo, pensa ele.
Acerca de sangue de golpes no braço, pensa ele, já eu sabia tudo.
Quanto ao sangue de uma irmã de doze anos que de repente pára de comer ameixas e olha a parede e fica em pânico e grita e atrai as mulheres e é arrastada para o fundo da casa — começo a saber uma pequena coisa.
Tenho medo.
Quando uma mulher tiver fluxo de sangue, e o sangue lhe manar do corpo, ficará sete dias em reclusão, na impureza das suas regras.
Todo aquele que a tocar ficará imundo até à tarde.
O leito em que ela se deitar ficará imundo, e o sítio em que se sentar ficará imundo.
Todo aquele que tocar no seu leito deverá limpar as vestes, e lavar-se em água, e ficará imundo até à tarde.
Todo aquele que tocar num móvel, seja qual for, onde ela se tenha sentado, deverá limpar as vestes, e lavar-se-á em água, e ficará imundo até à tarde.
Se um objecto se encontrar no leito ou no sítio onde ela se sentou, aquele que lhe tocar ficará imundo até à tarde.
Se um homem se deitar com ela, atingi-lo-á a impureza das regras.
Ficará imundo durante sete dias.
O leito onde se deitar ficará imundo.
Principiou assim um tempo novo, uma coisa difícil a favor ou contra a qual ele não possuía qualquer arma.
Se se passasse pelos dias brancos e lisos, talvez nada se notasse, mas ao fundo deles vibrava o ambíguo e cerrado transe feminino.
O crescimento dramático e obscuro da irmã perpetuava-se algures, era o intangível e terrível remate desses dias tão planos.
Deve-se acreditar nos arquitectos, na tradição?
É verdade que uma casa se construíra e nela se instalara um campo de forças, de linhas cruzadas e tensas onde assentava o equilíbrio.
Podia-se então, sob a luz peremptória de setembro, averiguar o valor das pequenas coisas, o sentido de algumas transformações e, embora nada disso se fizesse sem alguma surpresa e sofrimento, ah, ressuscitava-se, sim, ressuscitava-se sempre.
Na verdade, não existia mácula nenhuma.
Metamorfoses, se as havia — e havia — davam-se dentro do próprio sistema de que se fazia parte.
Já se falara em terror?
Sim, falara-se na terra que treme debaixo dos pés, no medo e na confusão.
Não se falara contudo em mácula.
O que estava dentro de uma pessoa crescia, era certo, crescia por vezes espectacularmente, tornava estranhos e inóspitos, por um tempo, o lugar e o estilo — mas recuperava-se tudo, e pensava-se depois: descubro novos dons dentro de mim, eu cresço.
Mas que o mundo crescesse, ele, que o mundo fosse tão brutalmente activo, e não matéria apenas expectante à espera do nosso talento que crescia, isso, ah isso.
Isso não, não se sabia.
Tinha-se medo.
Havia sangue — um sangue corruptor.
Afinal, o trabalho das mulheres era o da ocultação da sua mácula.
Não se tratava de uma riqueza que fosse necessário decifrar, fosse difícil pela sua mesma natureza, mas cujo singular valor se relacionava obscuramente com o crescimento de uma criança.
As mulheres eram secretamente impuras, inspiravam o terror.
Eis que ela grita, aquela que agora se inicia, mas que em si trazia os húmidos e soturnos germens do mal, todas as virtualidades demoníacas.
E se olhares para o alvoroço feminino, com o teu coração tão acessível ao patético, onde o gesto e o movimento curvo se gravam pela impressividade da graça e da inspirada reticência — se olhares assim, aprendiz, ficas a saber que as mulheres continuam o seu trabalho de surpreendentes tecedeiras do milagre.
Mas descobriste outra coisa: que há uma mentira.
Descobriste isto: as mulheres nem roçam por ti.
Nunca soubeste nada, não decifraste o menor sinal, elas sempre estiveram a uma inimaginável distância.
Se perguntasses: o que há em setembro?, apareceriam todas as mentiras.
Maria: a roupa seca mais depressa; Francisca: é o melhor tempo de praia; Filipa: a luz estonteia; Luísa: pode-se dormir ao ar livre; Merícia: custa a adormecer.
Mas em setembro aparece a menstruação.
E ele anda pela casa, em volta daquele círculo de treva ardente, rondando a sagrada vileza das mulheres.
Mas há nessa espécie de desavinda sede de conhecimento, ou nessa angustiosa fascinação, uma repugnância e um medo próximos do amor, um silêncio crispado e atento que quase se abre num louvor incoerente.
Todo aquele… todo aquele que tocar… ficará imundo…
Sim, arrebatam-na, e ela cresce, cresce.
Que é isso de pernas e braços que se põem ridiculamente a sair do seu tamanho, como tomados de um ímpeto próprio, comparado com aquilo que nem se nomeia, não se pode ver, e é sagrado e intocável pelo poder da sua própria maldição?
Uma irmã come ameixas, e isso é mentira.
Ele olhou-a, a ela, e olhou as outras raparigas, e a mãe, e a avó.
Aprendia, pensava ele, aprendia.
Tocava-lhes nos vestidos, via-as pentear-se, andar, falar, calarem-se.
O grito, sim, o grito era o limiar: a primeira e última verdade.
Depois, a treva.
E a irmã estava de repente no seu lugar — a ausência perfeita.
Em setembro, as crianças não dormem.
São rapazinhos de rosto atemorizado, o olhar aberto e imóvel, as mãos espalmadas sobre a colcha.
Talvez pudessem ficar assim, até serem homens, e o que cresceria então neles?
Quem sabe se apenas os cabelos e as unhas?
Mas ele levanta-se no meio da sua noite, um destes rapazinhos, porque afinal existe a força do amor.
Levanta-se para novos corredores e escadas — e anda como um sonâmbulo comido pela febre.
Que o crime é uma vocação — sim, diga-se dessa maneira; diga-se que o crime é uma vocação, do mesmo modo que o conhecimento.
Que são uma só coisa, isso; que o crime e o conhecimento são uma só coisa: uma vocação.
Ele levanta-se na sua noite, cheio de confuso amor, e precipita-se na sua silenciosa vocação: o crime do conhecimento.
E assim se aproxima, tacteando, com as mãos trementes de febre, dos lugares sagrados.
Bem pode ser que haja setembro, luz, coisas aparentemente fáceis, nenhuma dúvida.
Mas agora é sempre noite, sempre um fervor culpado, a descoberta da violação.
Pode-se falar de alegria?
Pode.
É disso mesmo, é de uma monstruosa alegria aquilo de que se fala.
Assim se caminha pelos corredores e quartos, pelo equívoco das velhas arquitecturas, e a inspiração é esta: uma alegria cujas dimensões são ainda imperscrutáveis.
Não se conte isto em tempo: foi muito tempo, ou foi muito pouco.
Não há tempo.
Porque esta alegria, este amor, este medo que anda, esta violação servida por minúcias mesquinhas, estão prontos para o muito ou o pouco tempo.
Exerce-se, e nisso se basta.
É uma aranha, tem as virtudes inteligentes, miúdas e tenazes da aranha.
Aquele rapazinho que fora apanhado pelo espanto e o terror, que se deitara de mãos abertas como fulminado, e estava pálido e já não sabia nada, esse, sim, esse.
É desse que se fala.
Pois levantou-se, e agora procura, cada vez mais perto, mais perto.
É ele.
E um dia então descobre um pano manchado de sangue menstrual e mete-o debaixo da camisa, contra a sua própria carne.
Parece que não chegou a deixar a cama, porque podemos encontrá-lo tal como estava: deitado de mãos estendidas, respirando com a boca entreaberta, e o olhar fixo no tecto.
Talvez um resto de sorriso fugindo dos lábios, ou o princípio de um sorriso.
Mas agora é ele que desaparece, cerra-se, corta todas as pontes que poderiam conduzir ao seu segredo.
Fica só.
Não atravessem corredores, nem subam ou desçam escadas.
Nunca o encontrarão.
Lentamente, a mão que talvez se julgasse adormecida sobe da colcha.
Nunca esteve tão acordada, nunca foi tão forte — aquela mão de rapazinho deitado.
Desabotoa a camisa — ela, a mão, a mão que sabe — e tira o pano para fora.
É sobre um rosto de olhos fechados que essa mão parece voar docemente, com o pano vermelho bem agarrado.
A mão desce sobre o rosto, e o que se poderia ver seria um fremir de narinas, e um tremer de lábios.
O odor tão vivo daquele sangue morto enche-o, passa pelo olfacto e enche-o turvamente.
Sim, sim, também isso, também isso é verdade: um beijo — o beijo do amor.
E, pelas pálpebras fechadas, lágrimas para que não há nome.
Quando ele abre os olhos, talvez ninguém saiba, mas abre-os para a alegria — a mais terrível das alegrias.
Setembro é um mês obrigatório.
Chegara para alguém o tempo do conhecimento.
Os ladrões são assim: espreitam, esperam, a ver como é.
Depois, do conhecimento dos outros instituem uma parte do seu conhecimento próprio.
Pode-se pensar que são coleccionadores de selos, acumuladores de riqueza, espíritos vorazes intensamente ocupados na extravagância dos espectáculos.
E emocionam-se, deslumbram-se, sofrem — monstros hábeis metendo tudo nas algibeiras.
Vamos rir: se calhar, aquilo de nada lhes servirá.
Alguém diz: tornam-se maiores as dimensões da realidade.
E o coleccionador, perdido em espaços demasiado grandes para si, diz devagar, muito devagar: merda.
Ninguém ouve, e ele mantém o seu orgulho de guardador de coisas, ele, o das vastas dimensões da realidade.
Porque é que em setembro acontecem coisas?
É por causa da luz.
O terror, por exemplo, é de setembro.
As noites rebentam inesperadamente no que pensamos ser o meio da luz do mês de setembro.
A morte diverte-se muito em setembro.
Vejamos: as pessoas estão a dormir, em setembro, e acordam de súbito, apavoradas.
Tiveram um sonho premonitório.
As pessoas julgam que a vida treme nelas, riem de alegria, têm o corpo bronzeado, cantam, levantam a cabeça para a luz.
É porque se está em setembro.
Então aprendem uma coisa qualquer, roubam-na, coleccionam-na, aumentam as dimensões da realidade.
E mesmo que digam baixinho: merda — não se livram do seu álbum de selos.
Estão tramadas.
Ele sabe isso muito bem.
De setembro, o mês, conhece todas as artimanhas.
Agora ri, quando as pessoas fáceis dizem: no verão, em setembro.
Elas contam as historiazinhas da praia, da alegria de viver junto ao mar, das roupas leves e claras.
Bem: nunca parou de enriquecer, ele, por obrigação.
E então chegou setembro, o obrigatório.
Nessa altura já ele tinha os braços e as pernas muito grandes e tentava metê-los no espaço, ao mesmo tempo que o resto do corpo.
Estava à procura do último ritmo, e as coisas iam menos mal.
Mas a mais nova das irmãs, com a malevolência dos seus doze anos, estava a comer uma ameixa, com os olhos sobre a mesa de estudo.
Setembro já começara a encher-se de assombro, por causa dos doze anos dela.
Embora o mês principiasse por ter uma qualidade especial de expectativa, e os dias se mudassem uns aos outros, mantendo uma subtil tensão — só nesse sábado branco é que o tumulto se levantou no meio da casa.
A irmã levantou os olhos da mesa, deixou cair a ameixa e ficou a olhar com espanto a parede em frente.
Depois, em setembro, o rosto dela correu vertiginosamente em direcção ao pânico, e ela deu um grito.
Tinha chegado o tempo do conhecimento.
Rouba o teu bocado, disse o pequeno monstro.
Vieram pessoas, vieram as mães todas: a velha, a outra a seguir, e a outra, e as novas mas ainda assim mais velhas.
Arrastaram a irmã para um quarto do fundo, e esconderam-na.
O espectador disse: agora é ela a vítima, foi apanhada de súbito pelo conhecimento.
E perguntou: o que é que cresceu nela, a comedora de ameixas aos doze anos?
Os dias de setembro unem-se uns aos outros, sob a enorme luz da tarde.
As mães todas correm pelos corredores, falam baixo, pretendem tornar inalcançável para ele os doze anos da comedora de ameixas.
Porque ele fica junto da mesa, à procura da ameixa mordida que rolou para o soalho.
Mas ele próprio já sabia demais para convencer-se de que procurava no chão ameixas mordidas.
Caberia isso na cabeça de alguém?
Um criminoso de oito anos procura, em setembro, quando a irmã grita e é levada para o inacessível.
Digo: um criminoso de oito anos perde tempo à procura de uma ameixa? quando uma rapariguinha de súbito cai em pleno espaço do sacral e as sacerdotisas se alvoroçam à sua volta, dizendo: chegou o tempo.
Levam-na para o inacessível, para o fundo da casa.
Que procuras tu, farejador?
Comigo foi assim, pensa ele: golpeei o braço, expus-me, criança doce e dramática, em frente do espanto e da comoção das mulheres, caí no abismo, ressuscitei sob a delicadíssima atenção feminina, cresceram-me os braços e as pernas, insinuou-se em mim um novo ritmo, soube que ultrapassei um perigo e fiquei de uma outra maneira diante de tudo.
Depois diz: aconteceu-lhe o mesmo a ela, mas de um modo particular.
Deve existir um sinal.
Havia no soalho, junto da cadeira, uma pequena mancha de sangue.
E ao longo do quarto, até à porta, um rasto de pingos de sangue.
E havia no corredor, ao longo do corredor — havia sangue.
Acerca das ameixas já eu sabia tudo, pensa ele.
Acerca de sangue de golpes no braço, pensa ele, já eu sabia tudo.
Quanto ao sangue de uma irmã de doze anos que de repente pára de comer ameixas e olha a parede e fica em pânico e grita e atrai as mulheres e é arrastada para o fundo da casa — começo a saber uma pequena coisa.
Tenho medo.
Quando uma mulher tiver fluxo de sangue, e o sangue lhe manar do corpo, ficará sete dias em reclusão, na impureza das suas regras.
Todo aquele que a tocar ficará imundo até à tarde.
O leito em que ela se deitar ficará imundo, e o sítio em que se sentar ficará imundo.
Todo aquele que tocar no seu leito deverá limpar as vestes, e lavar-se em água, e ficará imundo até à tarde.
Todo aquele que tocar num móvel, seja qual for, onde ela se tenha sentado, deverá limpar as vestes, e lavar-se-á em água, e ficará imundo até à tarde.
Se um objecto se encontrar no leito ou no sítio onde ela se sentou, aquele que lhe tocar ficará imundo até à tarde.
Se um homem se deitar com ela, atingi-lo-á a impureza das regras.
Ficará imundo durante sete dias.
O leito onde se deitar ficará imundo.
Principiou assim um tempo novo, uma coisa difícil a favor ou contra a qual ele não possuía qualquer arma.
Se se passasse pelos dias brancos e lisos, talvez nada se notasse, mas ao fundo deles vibrava o ambíguo e cerrado transe feminino.
O crescimento dramático e obscuro da irmã perpetuava-se algures, era o intangível e terrível remate desses dias tão planos.
Deve-se acreditar nos arquitectos, na tradição?
É verdade que uma casa se construíra e nela se instalara um campo de forças, de linhas cruzadas e tensas onde assentava o equilíbrio.
Podia-se então, sob a luz peremptória de setembro, averiguar o valor das pequenas coisas, o sentido de algumas transformações e, embora nada disso se fizesse sem alguma surpresa e sofrimento, ah, ressuscitava-se, sim, ressuscitava-se sempre.
Na verdade, não existia mácula nenhuma.
Metamorfoses, se as havia — e havia — davam-se dentro do próprio sistema de que se fazia parte.
Já se falara em terror?
Sim, falara-se na terra que treme debaixo dos pés, no medo e na confusão.
Não se falara contudo em mácula.
O que estava dentro de uma pessoa crescia, era certo, crescia por vezes espectacularmente, tornava estranhos e inóspitos, por um tempo, o lugar e o estilo — mas recuperava-se tudo, e pensava-se depois: descubro novos dons dentro de mim, eu cresço.
Mas que o mundo crescesse, ele, que o mundo fosse tão brutalmente activo, e não matéria apenas expectante à espera do nosso talento que crescia, isso, ah isso.
Isso não, não se sabia.
Tinha-se medo.
Havia sangue — um sangue corruptor.
Afinal, o trabalho das mulheres era o da ocultação da sua mácula.
Não se tratava de uma riqueza que fosse necessário decifrar, fosse difícil pela sua mesma natureza, mas cujo singular valor se relacionava obscuramente com o crescimento de uma criança.
As mulheres eram secretamente impuras, inspiravam o terror.
Eis que ela grita, aquela que agora se inicia, mas que em si trazia os húmidos e soturnos germens do mal, todas as virtualidades demoníacas.
E se olhares para o alvoroço feminino, com o teu coração tão acessível ao patético, onde o gesto e o movimento curvo se gravam pela impressividade da graça e da inspirada reticência — se olhares assim, aprendiz, ficas a saber que as mulheres continuam o seu trabalho de surpreendentes tecedeiras do milagre.
Mas descobriste outra coisa: que há uma mentira.
Descobriste isto: as mulheres nem roçam por ti.
Nunca soubeste nada, não decifraste o menor sinal, elas sempre estiveram a uma inimaginável distância.
Se perguntasses: o que há em setembro?, apareceriam todas as mentiras.
Maria: a roupa seca mais depressa; Francisca: é o melhor tempo de praia; Filipa: a luz estonteia; Luísa: pode-se dormir ao ar livre; Merícia: custa a adormecer.
Mas em setembro aparece a menstruação.
E ele anda pela casa, em volta daquele círculo de treva ardente, rondando a sagrada vileza das mulheres.
Mas há nessa espécie de desavinda sede de conhecimento, ou nessa angustiosa fascinação, uma repugnância e um medo próximos do amor, um silêncio crispado e atento que quase se abre num louvor incoerente.
Todo aquele… todo aquele que tocar… ficará imundo…
Sim, arrebatam-na, e ela cresce, cresce.
Que é isso de pernas e braços que se põem ridiculamente a sair do seu tamanho, como tomados de um ímpeto próprio, comparado com aquilo que nem se nomeia, não se pode ver, e é sagrado e intocável pelo poder da sua própria maldição?
Uma irmã come ameixas, e isso é mentira.
Ele olhou-a, a ela, e olhou as outras raparigas, e a mãe, e a avó.
Aprendia, pensava ele, aprendia.
Tocava-lhes nos vestidos, via-as pentear-se, andar, falar, calarem-se.
O grito, sim, o grito era o limiar: a primeira e última verdade.
Depois, a treva.
E a irmã estava de repente no seu lugar — a ausência perfeita.
Em setembro, as crianças não dormem.
São rapazinhos de rosto atemorizado, o olhar aberto e imóvel, as mãos espalmadas sobre a colcha.
Talvez pudessem ficar assim, até serem homens, e o que cresceria então neles?
Quem sabe se apenas os cabelos e as unhas?
Mas ele levanta-se no meio da sua noite, um destes rapazinhos, porque afinal existe a força do amor.
Levanta-se para novos corredores e escadas — e anda como um sonâmbulo comido pela febre.
Que o crime é uma vocação — sim, diga-se dessa maneira; diga-se que o crime é uma vocação, do mesmo modo que o conhecimento.
Que são uma só coisa, isso; que o crime e o conhecimento são uma só coisa: uma vocação.
Ele levanta-se na sua noite, cheio de confuso amor, e precipita-se na sua silenciosa vocação: o crime do conhecimento.
E assim se aproxima, tacteando, com as mãos trementes de febre, dos lugares sagrados.
Bem pode ser que haja setembro, luz, coisas aparentemente fáceis, nenhuma dúvida.
Mas agora é sempre noite, sempre um fervor culpado, a descoberta da violação.
Pode-se falar de alegria?
Pode.
É disso mesmo, é de uma monstruosa alegria aquilo de que se fala.
Assim se caminha pelos corredores e quartos, pelo equívoco das velhas arquitecturas, e a inspiração é esta: uma alegria cujas dimensões são ainda imperscrutáveis.
Não se conte isto em tempo: foi muito tempo, ou foi muito pouco.
Não há tempo.
Porque esta alegria, este amor, este medo que anda, esta violação servida por minúcias mesquinhas, estão prontos para o muito ou o pouco tempo.
Exerce-se, e nisso se basta.
É uma aranha, tem as virtudes inteligentes, miúdas e tenazes da aranha.
Aquele rapazinho que fora apanhado pelo espanto e o terror, que se deitara de mãos abertas como fulminado, e estava pálido e já não sabia nada, esse, sim, esse.
É desse que se fala.
Pois levantou-se, e agora procura, cada vez mais perto, mais perto.
É ele.
E um dia então descobre um pano manchado de sangue menstrual e mete-o debaixo da camisa, contra a sua própria carne.
Parece que não chegou a deixar a cama, porque podemos encontrá-lo tal como estava: deitado de mãos estendidas, respirando com a boca entreaberta, e o olhar fixo no tecto.
Talvez um resto de sorriso fugindo dos lábios, ou o princípio de um sorriso.
Mas agora é ele que desaparece, cerra-se, corta todas as pontes que poderiam conduzir ao seu segredo.
Fica só.
Não atravessem corredores, nem subam ou desçam escadas.
Nunca o encontrarão.
Lentamente, a mão que talvez se julgasse adormecida sobe da colcha.
Nunca esteve tão acordada, nunca foi tão forte — aquela mão de rapazinho deitado.
Desabotoa a camisa — ela, a mão, a mão que sabe — e tira o pano para fora.
É sobre um rosto de olhos fechados que essa mão parece voar docemente, com o pano vermelho bem agarrado.
A mão desce sobre o rosto, e o que se poderia ver seria um fremir de narinas, e um tremer de lábios.
O odor tão vivo daquele sangue morto enche-o, passa pelo olfacto e enche-o turvamente.
Sim, sim, também isso, também isso é verdade: um beijo — o beijo do amor.
E, pelas pálpebras fechadas, lágrimas para que não há nome.
Quando ele abre os olhos, talvez ninguém saiba, mas abre-os para a alegria — a mais terrível das alegrias.
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Herberto Helder
Os Ritmos 15
Mandaram-me fazer um electro-encefalograma.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
580
Herberto Helder
Os Ritmos 16
Este lugar não existe, fica na Arábia Saudita, no deserto.
Gosto do deserto.
Levei tábuas e pregos.
Ferramentas, as belas ferramentas dos homens.
Levei água, víveres, sementes.
Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos — também não eram sementes de máquinas.
As belas máquinas dos homens.
Não me lembro se fui pelo ar.
Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas.
Não me lembro de quando se vai deixando.
Foi portanto pelo ar.
Levei tudo para experimentar o deserto.
Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas — as belas ferramentas.
Tenho uma pequena ciência.
Aprendi.
Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto.
Ficava no meio.
No meio é bom — há uma coisa que se chama à volta.
Serve para estar bem só.
Comprei tábuas, sementes e águas.
Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo.
Eram sementes de cabeças de crianças.
Não serão nabos, ou rosas, ou sementes de algodão?, perguntei no ervanário.
Não serão sementes de sono, ou sementes de tabaco, ou daquelas sementes de paisagem verde ocidental?
Eram sementes de cabeças de crianças.
Tenho uma pequena ciência.
Fiz como nos livros.
Dividi-me em sete dias.
Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego.
Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos.
Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia.
Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto.
No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre.
Foi então que senti o sangue bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia.
No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão — as sementes — lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento.
Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra — era então o sexto dia.
E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira.
Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso próprio corpo solitário sente deitado sobre a terra.
Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia.
Era uma sementeira de cabeças de crianças.
Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário.
Não eram.
Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças — era terrível.
Seriam verdes-garrafa?
Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças — vivas, oscilantes, latejantes sobre o pedúnculo que irrompia do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria.
Começaram então a sussurrar — e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo.
Mas eram cabeças de crianças.
E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças.
Eu nunca mais dormiria — era de noite, era agora a minha noite.
E então elas começaram a cantar — na minha noite.
Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa — e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes.
No deserto.
O meu coração nunca mais dormiria.
Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário.
Eram cabeças de crianças.
Gosto do deserto.
Levei tábuas e pregos.
Ferramentas, as belas ferramentas dos homens.
Levei água, víveres, sementes.
Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos — também não eram sementes de máquinas.
As belas máquinas dos homens.
Não me lembro se fui pelo ar.
Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas.
Não me lembro de quando se vai deixando.
Foi portanto pelo ar.
Levei tudo para experimentar o deserto.
Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas — as belas ferramentas.
Tenho uma pequena ciência.
Aprendi.
Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto.
Ficava no meio.
No meio é bom — há uma coisa que se chama à volta.
Serve para estar bem só.
Comprei tábuas, sementes e águas.
Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo.
Eram sementes de cabeças de crianças.
Não serão nabos, ou rosas, ou sementes de algodão?, perguntei no ervanário.
Não serão sementes de sono, ou sementes de tabaco, ou daquelas sementes de paisagem verde ocidental?
Eram sementes de cabeças de crianças.
Tenho uma pequena ciência.
Fiz como nos livros.
Dividi-me em sete dias.
Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego.
Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos.
Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia.
Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto.
No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre.
Foi então que senti o sangue bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia.
No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão — as sementes — lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento.
Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra — era então o sexto dia.
E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira.
Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso próprio corpo solitário sente deitado sobre a terra.
Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia.
Era uma sementeira de cabeças de crianças.
Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário.
Não eram.
Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças — era terrível.
Seriam verdes-garrafa?
Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças — vivas, oscilantes, latejantes sobre o pedúnculo que irrompia do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria.
Começaram então a sussurrar — e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo.
Mas eram cabeças de crianças.
E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças.
Eu nunca mais dormiria — era de noite, era agora a minha noite.
E então elas começaram a cantar — na minha noite.
Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa — e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes.
No deserto.
O meu coração nunca mais dormiria.
Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário.
Eram cabeças de crianças.
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Herberto Helder
Os Ritmos 13
Atravessei depressa a juventude.
Tinha duas coisas — a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade — estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas, eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.
Encontrei um homem louco que tinha uma frota de quebra-gelos no sul da Itália.
Contou-me também que descobrira um processo novo de prever os terramotos.
Construíra uma casa no meio da planície — dizia ele — e criara veados a toda a volta.
Quando se aproximava um tremor de terra, os veados vinham para junto da casa, de cornos trémulos.
Era uma planície de cornos trémulos.
Encontro pessoas assim: loucas, sérias — gente total.
Falam-me destas coisas, ou de dinheiro, progresso, política e felicidade.
Vê-se como me encontro desorientado, com a minha idade e as coisas que são dela ou não são.
Fui aos psicanalistas e mandaram-me deitar num divã.
Tenho a alegria ou o terror — por onde devo começar?
Fale do que quiser — diziam.
Eu estava de olhos abertos, deitado, na obscuridade do gabinete.
Ainda assim, distinguia bem uma reprodução medíocre das Musas Inquietantes, de Chirico, na parede em frente.
Representa a Piazza Vecchia, em Florença, com o Palácio Palatino ao fundo, bastante vermelho.
O céu tem a cor das garrafas verdes.
Representa chaminés de fábricas.
A atmosfera é de ameaçadora suspensão.
No espaço essencial, representa as terríveis figuras inspiradoras.
São estátuas que o não imitam, possuem mantos pregueados.
Espalham-se em volta os frios objectos do seu jogo.
Um bastão cilíndrico, paralelepípedos de cor, um cubo azul onde se senta a mulher de pedra branca, com seu escudo rubro ao lado.
A cabeça de uma das estátuas tem a forma de grande pêra ou bola de rugby.
Outra não tem cabeça.
No pescoço decepado, que não sangra, floresce um rebento negro.
Poderia segurar nas mãos a sua própria cabeça de cautchou.
Disse que o céu é tremendamente verde.
Sim, há uma figura disfarçada na sombra.
Esta ameaça total ou suspeita, ou longamente elaborada pergunta, suspende-se sobre abismos trementes.
Julgo que se poderia enlouquecer, olhando essas linhas vivas e áridas durante vinte e quatro horas.
Eu disse: tive um sonho.
Dei-lhe um nome, dou um nome a todos os meus sonhos.
Este chama-se — Os Animais Domésticos.
Era uma sala de teatro.
Ao fundo, em vez das portas de entrada e saída, havia uma esplanada no passeio de uma rua larga, com árvores, movimento e um céu vibrante por cima.
A plateia estava cheia de pessoas que conversavam umas com as outras, levantavam-se, sentavam-se — trocavam de lugares.
Eu encontrava-me no palco, deitado, com a cabeça no colo de uma velha sentada no chão.
Uma telefonia monstruosa, ocupando quase todo o palco, emitia uma louca canção — violenta, insuportável.
Um jovem mexia nos botões da telefonia.
A mesma canção violenta — sempre, sempre.
Depois levantei-me e desci para a plateia, misturando-me às pessoas, falando com elas, indo de aqui para ali.
De repente, encontrei-me na esplanada, despedindo-me de uma mulher que ia para a Suíça.
Vou para a Suíça, adeus.
Levantei-me para dar-lhe um beijo de despedida, e disse-lhe: adeus, viaja, viaja, faz bem viajar — a Suíça.
Sim, sim, sim, disse ela, sim.
Eu estava de pé, com a mão dela entre as minhas, e dizia-lhe: viaja, viaja, é muito instrutivo.
Sim, sim, dizia ela, e afastava-se, sim, dizia afastando-se, sim, sim.
Sentei-me e ouvi ao longe o grito da mulher: sim, de avião, sim, sim.
Respondi: a Suíça.
Reparei de súbito que conservava nas minhas a mão da mulher.
Fiquei preocupado.
Como se arranjará ela na Suíça, sem a mão direita?
Então atirei a mão para o ar.
A mão voou rapidamente em direcção à Suíça.
Resolvi passear pela cidade.
Mas, antes, fui espreitar para dentro da sala.
Na voz grave de um homem, a rádio transmitia agora o boletim meteorológico.
Previsão para amanhã: tempestade de areia no deserto, tempestade de neve no pólo, maremoto no mar, terramoto na terra, muita luz, muita treva.
Eu andava à procura pelas ruas.
Era uma cidade confusa, de casas muito baixas, sem portas, com grandes janelas.
Junto de cada janela, no interior, uma cama desfeita.
Eu espreitava para dentro destas casas de um só piso.
Todas as camas estavam vazias, menos uma, onde se encontrava uma criança de colo, nua, uma menina.
Uma menina.
Uma menina alarmante.
Tinha um sexo de mulher, cheio de pêlos eriçados.
Tirei então a criança da cama, pela janela, e levando-a ao colo voltei para o teatro, através das ruas vazias.
Pensava: é horrível, horrível.
É uma espécie de glória negra.
É bela e horrível.
É bela, bela, bela.
É horrivelmente bela.
É uma espécie de negro, negro triunfo.
No teatro, a criança transformou-se num enorme ramo de cravos negros que estremeciam nos meus braços, tremiam, pareciam respirar, viver tremulamente, cheios de seiva negra.
Comecei a colocar um cravo na cabeça de cada pessoa da plateia, como se cada cabeça fosse a boca de uma jarra.
Estavam agora no palco duas pessoas vestidas de espelho, em frente uma da outra, de perfil para a plateia, fazendo uma com o lado esquerdo do corpo aquilo que a outra fazia com o direito, numa simultaneidade rigorosa.
A cabeça de uma das figuras era branca e a da outra era negra.
A telefonia transmitia uma canção vertiginosa, e os cravos negros que eu ainda tinha nas mãos transformaram-se em fumo.
As minhas mãos estavam cobertas de sangue.
Então a música parou abruptamente, e a mesma voz que lera o boletim meteorológico disse no meio de um silêncio total:
Nascido para o inferno.
Tinha duas coisas — a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade — estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas, eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.
Encontrei um homem louco que tinha uma frota de quebra-gelos no sul da Itália.
Contou-me também que descobrira um processo novo de prever os terramotos.
Construíra uma casa no meio da planície — dizia ele — e criara veados a toda a volta.
Quando se aproximava um tremor de terra, os veados vinham para junto da casa, de cornos trémulos.
Era uma planície de cornos trémulos.
Encontro pessoas assim: loucas, sérias — gente total.
Falam-me destas coisas, ou de dinheiro, progresso, política e felicidade.
Vê-se como me encontro desorientado, com a minha idade e as coisas que são dela ou não são.
Fui aos psicanalistas e mandaram-me deitar num divã.
Tenho a alegria ou o terror — por onde devo começar?
Fale do que quiser — diziam.
Eu estava de olhos abertos, deitado, na obscuridade do gabinete.
Ainda assim, distinguia bem uma reprodução medíocre das Musas Inquietantes, de Chirico, na parede em frente.
Representa a Piazza Vecchia, em Florença, com o Palácio Palatino ao fundo, bastante vermelho.
O céu tem a cor das garrafas verdes.
Representa chaminés de fábricas.
A atmosfera é de ameaçadora suspensão.
No espaço essencial, representa as terríveis figuras inspiradoras.
São estátuas que o não imitam, possuem mantos pregueados.
Espalham-se em volta os frios objectos do seu jogo.
Um bastão cilíndrico, paralelepípedos de cor, um cubo azul onde se senta a mulher de pedra branca, com seu escudo rubro ao lado.
A cabeça de uma das estátuas tem a forma de grande pêra ou bola de rugby.
Outra não tem cabeça.
No pescoço decepado, que não sangra, floresce um rebento negro.
Poderia segurar nas mãos a sua própria cabeça de cautchou.
Disse que o céu é tremendamente verde.
Sim, há uma figura disfarçada na sombra.
Esta ameaça total ou suspeita, ou longamente elaborada pergunta, suspende-se sobre abismos trementes.
Julgo que se poderia enlouquecer, olhando essas linhas vivas e áridas durante vinte e quatro horas.
Eu disse: tive um sonho.
Dei-lhe um nome, dou um nome a todos os meus sonhos.
Este chama-se — Os Animais Domésticos.
Era uma sala de teatro.
Ao fundo, em vez das portas de entrada e saída, havia uma esplanada no passeio de uma rua larga, com árvores, movimento e um céu vibrante por cima.
A plateia estava cheia de pessoas que conversavam umas com as outras, levantavam-se, sentavam-se — trocavam de lugares.
Eu encontrava-me no palco, deitado, com a cabeça no colo de uma velha sentada no chão.
Uma telefonia monstruosa, ocupando quase todo o palco, emitia uma louca canção — violenta, insuportável.
Um jovem mexia nos botões da telefonia.
A mesma canção violenta — sempre, sempre.
Depois levantei-me e desci para a plateia, misturando-me às pessoas, falando com elas, indo de aqui para ali.
De repente, encontrei-me na esplanada, despedindo-me de uma mulher que ia para a Suíça.
Vou para a Suíça, adeus.
Levantei-me para dar-lhe um beijo de despedida, e disse-lhe: adeus, viaja, viaja, faz bem viajar — a Suíça.
Sim, sim, sim, disse ela, sim.
Eu estava de pé, com a mão dela entre as minhas, e dizia-lhe: viaja, viaja, é muito instrutivo.
Sim, sim, dizia ela, e afastava-se, sim, dizia afastando-se, sim, sim.
Sentei-me e ouvi ao longe o grito da mulher: sim, de avião, sim, sim.
Respondi: a Suíça.
Reparei de súbito que conservava nas minhas a mão da mulher.
Fiquei preocupado.
Como se arranjará ela na Suíça, sem a mão direita?
Então atirei a mão para o ar.
A mão voou rapidamente em direcção à Suíça.
Resolvi passear pela cidade.
Mas, antes, fui espreitar para dentro da sala.
Na voz grave de um homem, a rádio transmitia agora o boletim meteorológico.
Previsão para amanhã: tempestade de areia no deserto, tempestade de neve no pólo, maremoto no mar, terramoto na terra, muita luz, muita treva.
Eu andava à procura pelas ruas.
Era uma cidade confusa, de casas muito baixas, sem portas, com grandes janelas.
Junto de cada janela, no interior, uma cama desfeita.
Eu espreitava para dentro destas casas de um só piso.
Todas as camas estavam vazias, menos uma, onde se encontrava uma criança de colo, nua, uma menina.
Uma menina.
Uma menina alarmante.
Tinha um sexo de mulher, cheio de pêlos eriçados.
Tirei então a criança da cama, pela janela, e levando-a ao colo voltei para o teatro, através das ruas vazias.
Pensava: é horrível, horrível.
É uma espécie de glória negra.
É bela e horrível.
É bela, bela, bela.
É horrivelmente bela.
É uma espécie de negro, negro triunfo.
No teatro, a criança transformou-se num enorme ramo de cravos negros que estremeciam nos meus braços, tremiam, pareciam respirar, viver tremulamente, cheios de seiva negra.
Comecei a colocar um cravo na cabeça de cada pessoa da plateia, como se cada cabeça fosse a boca de uma jarra.
Estavam agora no palco duas pessoas vestidas de espelho, em frente uma da outra, de perfil para a plateia, fazendo uma com o lado esquerdo do corpo aquilo que a outra fazia com o direito, numa simultaneidade rigorosa.
A cabeça de uma das figuras era branca e a da outra era negra.
A telefonia transmitia uma canção vertiginosa, e os cravos negros que eu ainda tinha nas mãos transformaram-se em fumo.
As minhas mãos estavam cobertas de sangue.
Então a música parou abruptamente, e a mesma voz que lera o boletim meteorológico disse no meio de um silêncio total:
Nascido para o inferno.
1 049
Herberto Helder
Ii L
Leia-se esta paisagem da direita para a esquerda e vice-versa
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
1 203
Fernando Pessoa
FAUSTO: O casamento
A separação (...) em si
Nada valem. Perante o pensamento
São fórmulas vazias. Mas o homem,
Na sua vida humana e colectiva,
Não vive em metafísica. O real
Puerilidade tem, contradições
Necessárias a ele. O pensamento
Não, a lei da vida. Tu não vês
Que o mais real que há, base de tudo,
O movimento, uma contradição
Suprema é e [...]. Tu não leste
De que formas de elixir (...)
O próprio ser, a própria vida são
Qual fórmulas perante o pensamento?
Pertence aos ignorantes e aos doidos
Desfazer convenções...
[ANTÓNIO?]
Sim, mas os génios?
FAUSTO:
Esses, porque são doidos. Ignorando
As leves e ligeiras convenções
Que excessos do útil e do usual
As fórmulas são às necessidades
Da vida do homem. Só a decadência
Generaliza e se despreza.
Mas eu, se frio estou e confrangido
Até ao seio d'alma, não perdi
O sentimento de dever perante
Os homens pr’a que busque vãos e inúteis
Impossíveis progressos, semi-doido
Semi-inconsciente da loucura.
E o raciocínio em mim não dorme nunca
E esse obriga-me a desdenhar as fracas,
Vazias teorias que pretendem
Por sentimentos a verdade obter
E por razões vãs de sentimento nadas.
Nojo, sim tudo, filho! nojo, nojo!
O homem vive em inconsciência, nasce
E vive e morre inconscientemente
Sem sequer do mistério aperceber-se,
Mais perto que palavras, do que o cerca.
Pensar, sentir, amar — ah, se tu visses
Como eu o fundo da inconsciência vã
Em que tudo se move. Se pudesses
Compreender...
Bem sei, António,
Mal transpuseste o limiar da porta
Já meus (...) argumentos desdenhaste.
Ou por doido me tens, ou por muito
Escravo do passado. Eu! Mas assim é:
Consciente só... (ia a dizer eu) sim,
Conscientes poucos.
Havendo isto, há a vida; não a havendo
Mais vida já não há. E assim de todas
As vidas existimos — da do mundo
À da sociedade humana, António.
Impulsos jovens
Que roubam a capa ao pensamento
E parecem ao longe raciocínios,
Mas a quem o pensamento não conhece.
Eu que levei a vida a conhecê-lo
Em tão débeis palavras não me engano.
É [...] a ilustração,
António, mas é certa. A humanidade
E as suas mágoas, dores está acima
De nossa frágil preocupação
De novidade e (...) progresso.
Eu amo a humanidade — antes amei-a
(Que eu já não amo nada) se inda sinto
Como que amor por ela é por lembrança
Ou instinto daquilo que senti.
Nada valem. Perante o pensamento
São fórmulas vazias. Mas o homem,
Na sua vida humana e colectiva,
Não vive em metafísica. O real
Puerilidade tem, contradições
Necessárias a ele. O pensamento
Não, a lei da vida. Tu não vês
Que o mais real que há, base de tudo,
O movimento, uma contradição
Suprema é e [...]. Tu não leste
De que formas de elixir (...)
O próprio ser, a própria vida são
Qual fórmulas perante o pensamento?
Pertence aos ignorantes e aos doidos
Desfazer convenções...
[ANTÓNIO?]
Sim, mas os génios?
FAUSTO:
Esses, porque são doidos. Ignorando
As leves e ligeiras convenções
Que excessos do útil e do usual
As fórmulas são às necessidades
Da vida do homem. Só a decadência
Generaliza e se despreza.
Mas eu, se frio estou e confrangido
Até ao seio d'alma, não perdi
O sentimento de dever perante
Os homens pr’a que busque vãos e inúteis
Impossíveis progressos, semi-doido
Semi-inconsciente da loucura.
E o raciocínio em mim não dorme nunca
E esse obriga-me a desdenhar as fracas,
Vazias teorias que pretendem
Por sentimentos a verdade obter
E por razões vãs de sentimento nadas.
Nojo, sim tudo, filho! nojo, nojo!
O homem vive em inconsciência, nasce
E vive e morre inconscientemente
Sem sequer do mistério aperceber-se,
Mais perto que palavras, do que o cerca.
Pensar, sentir, amar — ah, se tu visses
Como eu o fundo da inconsciência vã
Em que tudo se move. Se pudesses
Compreender...
Bem sei, António,
Mal transpuseste o limiar da porta
Já meus (...) argumentos desdenhaste.
Ou por doido me tens, ou por muito
Escravo do passado. Eu! Mas assim é:
Consciente só... (ia a dizer eu) sim,
Conscientes poucos.
Havendo isto, há a vida; não a havendo
Mais vida já não há. E assim de todas
As vidas existimos — da do mundo
À da sociedade humana, António.
Impulsos jovens
Que roubam a capa ao pensamento
E parecem ao longe raciocínios,
Mas a quem o pensamento não conhece.
Eu que levei a vida a conhecê-lo
Em tão débeis palavras não me engano.
É [...] a ilustração,
António, mas é certa. A humanidade
E as suas mágoas, dores está acima
De nossa frágil preocupação
De novidade e (...) progresso.
Eu amo a humanidade — antes amei-a
(Que eu já não amo nada) se inda sinto
Como que amor por ela é por lembrança
Ou instinto daquilo que senti.
1 948
Manuel Bandeira
Balanço de Março de 1959
Março. Visita da princesa inglesa.
Raivou o calor desabaladamente.
Foi culpa mesmo da duquesa,
Que é Kent.
Fui ao Museu de Arte Moderna,
À exposição dos neoconcretos.
Motivos por demais secretos
Poderão construir obra eterna?
Em Lígia, tão dotada, a pintura transcende
À tela e incorpora a moldura.
Vendo e escutando é que se aprende:
Aprendi, mas não vi pintura.
Uma palavra só e em torno
Muito branco basta a Gullar
Para um belo poema compor
No estilo mais oracular.
Minha amiguinha X pretende
Que o entende. Será que entende?
Jaime Maurício me apresenta
era Pedrosa, hoje Martins.
Saio azul na tarde nevoenta,
Neoconcretizado até os rins.
Deixa Boto — última prova
Em sua terrena lida —
"Os movimentos da vida
Pelos silêncios da cova."
Raivou o calor desabaladamente.
Foi culpa mesmo da duquesa,
Que é Kent.
Fui ao Museu de Arte Moderna,
À exposição dos neoconcretos.
Motivos por demais secretos
Poderão construir obra eterna?
Em Lígia, tão dotada, a pintura transcende
À tela e incorpora a moldura.
Vendo e escutando é que se aprende:
Aprendi, mas não vi pintura.
Uma palavra só e em torno
Muito branco basta a Gullar
Para um belo poema compor
No estilo mais oracular.
Minha amiguinha X pretende
Que o entende. Será que entende?
Jaime Maurício me apresenta
era Pedrosa, hoje Martins.
Saio azul na tarde nevoenta,
Neoconcretizado até os rins.
Deixa Boto — última prova
Em sua terrena lida —
"Os movimentos da vida
Pelos silêncios da cova."
539
Herberto Helder
1E
As crianças que há no mundo, vindas de lunações de objectos
potentes, fechados,
pulsando,
suspensas pela alumiação que as toma braço a braço;
que têm a despontar nas costas
um astro de basalto do seu tamanho.
Refulgem pela boca, ouvem as vozes.
Devoraram um alimento ardente.
Dormem.
Só é preciso pensá-las, vê-las, pô-las
à mesa com as mãos sobre a toalha, entre facas,
louça, carne
tóxica. Ou soprá-las para que divaguem numa força de ar.
Transmutavam-se.
Que transparência no sono, que ciência.
Alguém as encontrou, não falam, queimam-nas
o combustível astral, a nutrição
violenta. A sua arte monstruosa
é a atenção nos dedos:
separar pelas fendas os planetas,
torso mais torso, membros altos, o cérebro selado de todos
os mortos. Mostram
isto: que a arte que dá a vida
mata.
Ininterruptas. Assombrosas. Contempladas.
potentes, fechados,
pulsando,
suspensas pela alumiação que as toma braço a braço;
que têm a despontar nas costas
um astro de basalto do seu tamanho.
Refulgem pela boca, ouvem as vozes.
Devoraram um alimento ardente.
Dormem.
Só é preciso pensá-las, vê-las, pô-las
à mesa com as mãos sobre a toalha, entre facas,
louça, carne
tóxica. Ou soprá-las para que divaguem numa força de ar.
Transmutavam-se.
Que transparência no sono, que ciência.
Alguém as encontrou, não falam, queimam-nas
o combustível astral, a nutrição
violenta. A sua arte monstruosa
é a atenção nos dedos:
separar pelas fendas os planetas,
torso mais torso, membros altos, o cérebro selado de todos
os mortos. Mostram
isto: que a arte que dá a vida
mata.
Ininterruptas. Assombrosas. Contempladas.
993
Herberto Helder
1G
Cada sítio tem um mapa de luas. Há uma criança radial vista
pelas paisagens, crispada através
dos diamantes.
Em cada sítio há uma árvore de diamantes, uma constelação
na fornalha. Abaixa-te,
vara alta, que essa criança de cabeça habituada aos meteoros
delira, põe-te os dedos,
deita um braço de fora, serve
de estrela. Por acto
de sumptuosidade. Há uma palavra com uma rosa
reluzente. Poros frios, nós de bronze:
a madeira está cheia
de respiração. Apedra arrancada ao mundo está cheia
de respiração. E as luas secam pedra
e madeira. E uma imagem da atenção de tudo.
Quando alguém escreve, arde o papel por onde
passa a imagem. E na criança assim escrita dentro
de um saco radioso, a noite contempla-se
a si própria. Trabalha-se nas partes
doces e ocultas
da morte, engrandecendo a mão voltaica
que a escreve em nome — essa última ciência:
unânime,
fundamental,
pelas paisagens, crispada através
dos diamantes.
Em cada sítio há uma árvore de diamantes, uma constelação
na fornalha. Abaixa-te,
vara alta, que essa criança de cabeça habituada aos meteoros
delira, põe-te os dedos,
deita um braço de fora, serve
de estrela. Por acto
de sumptuosidade. Há uma palavra com uma rosa
reluzente. Poros frios, nós de bronze:
a madeira está cheia
de respiração. Apedra arrancada ao mundo está cheia
de respiração. E as luas secam pedra
e madeira. E uma imagem da atenção de tudo.
Quando alguém escreve, arde o papel por onde
passa a imagem. E na criança assim escrita dentro
de um saco radioso, a noite contempla-se
a si própria. Trabalha-se nas partes
doces e ocultas
da morte, engrandecendo a mão voltaica
que a escreve em nome — essa última ciência:
unânime,
fundamental,
1 160
Fernando Pessoa
WOE SUPREME
A friend said once to me: «All that thou writest,
Surely 'tis fancy, and pretence, and feigned;
Surely the moaning wherewith thou affrightest
The healthy mind is preconceived and strained!
´ln all the songs and tales that thou indictest
Why's there no word that is not hard or pained?
Why in good things and true thou not delightest,
But even in youth by thee joys are disdained?»
Because, dear friend, thought to be mad is sweet
Sometimes, and though at others nameless woe,
Yet never human pain the pain can meet
Of the mad brain that doth its madness know;
Because my science learn'd has made complete
The knowledge of an ill that cannot go.
Surely 'tis fancy, and pretence, and feigned;
Surely the moaning wherewith thou affrightest
The healthy mind is preconceived and strained!
´ln all the songs and tales that thou indictest
Why's there no word that is not hard or pained?
Why in good things and true thou not delightest,
But even in youth by thee joys are disdained?»
Because, dear friend, thought to be mad is sweet
Sometimes, and though at others nameless woe,
Yet never human pain the pain can meet
Of the mad brain that doth its madness know;
Because my science learn'd has made complete
The knowledge of an ill that cannot go.
1 385
Fábio Afonso de Almeida
Sebastiana e a Pedrap
Todo o dia que amanhece
Com chuva ou com sol, sempre acontece
Sebastiana devagarinho, como um anjo
Chega `a nascente da água mineral
Rác, rác, rác, rác
Sebastiana raspa o pé na pedra
O pé raspa a pedra de Sebastiana
(Será que a pedra tem espírito?)
Sebastiana, sim, tem a pedra preferida
Áspera, redonda e oferecida
Pedaço de rocha primitiva e úmida
De uma razão qualquer que desconheço
Testemunho o encontro todos os dias
Nas brumas das manhãs tão frias
E fico cismando, como de hábito
Sobre fatos pretéritos e misteriosos
Quando na terra primeva do planalto central
Entre raios e abalos sísmicos de força brutal
Feios dinossauros passearam pelo parque
E a água fria brotou da rocha
Cristalina e pura, correu por milhões de anos
No santuário mágico do poço dos anjos
Alvoradas e arrebóis sem conta se sucederam
O tempo hipnotizado se liquefez em eras...
No fundo do poço desde sempre e agora
A pedra, fico pensando, esperou a hora
De passar a magia destas eras
A quem, no fundo, sempre soubesse
Alguém como Sebastiana, de outras vidas
(Imagino que tão antigas e sofridas)
Para trazer a manhã sempre calma
Deste suceder infinito, presente para mim
Sebastiana rala o pé na pedra
O pé rala a pedra de Sebastiana
O tempo vira água pura e pedra
Como se não existisse
Ou como se fosse Sebastiana...
Rác, rác, rác, rác....
Com chuva ou com sol, sempre acontece
Sebastiana devagarinho, como um anjo
Chega `a nascente da água mineral
Rác, rác, rác, rác
Sebastiana raspa o pé na pedra
O pé raspa a pedra de Sebastiana
(Será que a pedra tem espírito?)
Sebastiana, sim, tem a pedra preferida
Áspera, redonda e oferecida
Pedaço de rocha primitiva e úmida
De uma razão qualquer que desconheço
Testemunho o encontro todos os dias
Nas brumas das manhãs tão frias
E fico cismando, como de hábito
Sobre fatos pretéritos e misteriosos
Quando na terra primeva do planalto central
Entre raios e abalos sísmicos de força brutal
Feios dinossauros passearam pelo parque
E a água fria brotou da rocha
Cristalina e pura, correu por milhões de anos
No santuário mágico do poço dos anjos
Alvoradas e arrebóis sem conta se sucederam
O tempo hipnotizado se liquefez em eras...
No fundo do poço desde sempre e agora
A pedra, fico pensando, esperou a hora
De passar a magia destas eras
A quem, no fundo, sempre soubesse
Alguém como Sebastiana, de outras vidas
(Imagino que tão antigas e sofridas)
Para trazer a manhã sempre calma
Deste suceder infinito, presente para mim
Sebastiana rala o pé na pedra
O pé rala a pedra de Sebastiana
O tempo vira água pura e pedra
Como se não existisse
Ou como se fosse Sebastiana...
Rác, rác, rác, rác....
753
Carlos Drummond de Andrade
A Abgar Renault
A contagem de tempo
do poeta
não é a do relógio
nem a da folhinha.
É amadurecer de poemas
a envolvê-lo e tirar-lhe
toda marca de tempo
de folhinha
e relógio
e a situá-lo
na franja além do tempo
onde paira o sentido
a razão última das coisas
imersas de poesia.
do poeta
não é a do relógio
nem a da folhinha.
É amadurecer de poemas
a envolvê-lo e tirar-lhe
toda marca de tempo
de folhinha
e relógio
e a situá-lo
na franja além do tempo
onde paira o sentido
a razão última das coisas
imersas de poesia.
1 427
Carlos Drummond de Andrade
Folheando Disegni, de Kantor
Kantor:
o desenho torna-se modo de possuir as coisas
o desenho torna-se modo de absorver a coisa
o desenho torna-se modo de viver a coisa
o desenho torna-se modo de oferecer a coisa
em sua realidade não circunstancial.
Kantor:
a palavra torna-se a última projeção do desenho
a palavra transporta o desenho para o sentimento do desenho
a palavra incorpora-se ao desenho
a coisa o desenho a palavra
fundem-se em generosa radiação.
Kantor:
invade o país dos signos e deles faz sua mansão.
o desenho torna-se modo de possuir as coisas
o desenho torna-se modo de absorver a coisa
o desenho torna-se modo de viver a coisa
o desenho torna-se modo de oferecer a coisa
em sua realidade não circunstancial.
Kantor:
a palavra torna-se a última projeção do desenho
a palavra transporta o desenho para o sentimento do desenho
a palavra incorpora-se ao desenho
a coisa o desenho a palavra
fundem-se em generosa radiação.
Kantor:
invade o país dos signos e deles faz sua mansão.
1 046
Carlos Drummond de Andrade
Exercitia, de José Geraldo Nogueira Moutinho
A procura do número
na lição de Agostinho
e o encontro da poesia
no Oriente deserto
(sans ennui)
na escala de Alcavala
na maçã de Cézanne
— flecha em voo andorinho —
tudo revela a arte,
o engenho, a fina parte
da lucidez no sonho
de Nogueira Moutinho.
na lição de Agostinho
e o encontro da poesia
no Oriente deserto
(sans ennui)
na escala de Alcavala
na maçã de Cézanne
— flecha em voo andorinho —
tudo revela a arte,
o engenho, a fina parte
da lucidez no sonho
de Nogueira Moutinho.
1 103
Herberto Helder
26
rosto de osso, cabelo rude, boca agra,
e tão escuro em baixo até em
cima a linha
de ignição das pupilas
em que te hás-de tornar, em que nome, com que
potência e inclinação de cabeça?
o rosto muito, o ofício turvo, o génio, o jogo,
as mãos inexplicáveis,
a luz nas mãos faz raiar os dedos,
que a luz se desenvolva,
e a madeira se enrole sobre si mesma e teça e esconda a obra
e retorne e abra e mostre então
a abundância intrínseca,
porque se eriça num arrepio e se alvoroça
o espaço, e brilha quando,
no dia global,
espacial, no visível,
o caos alimenta a ordem estilística:
iluminação,
razão de obra de dentro para fora
— mais um estio até que a força da fruta remate a forma
e tão escuro em baixo até em
cima a linha
de ignição das pupilas
em que te hás-de tornar, em que nome, com que
potência e inclinação de cabeça?
o rosto muito, o ofício turvo, o génio, o jogo,
as mãos inexplicáveis,
a luz nas mãos faz raiar os dedos,
que a luz se desenvolva,
e a madeira se enrole sobre si mesma e teça e esconda a obra
e retorne e abra e mostre então
a abundância intrínseca,
porque se eriça num arrepio e se alvoroça
o espaço, e brilha quando,
no dia global,
espacial, no visível,
o caos alimenta a ordem estilística:
iluminação,
razão de obra de dentro para fora
— mais um estio até que a força da fruta remate a forma
576
Fernando Pessoa
HORROR
In the darkness of my soul,
Just as dark as the souls of men,
By the blessing of their eternal curse,
Flashes like a bodiless ghoul,
In its rare fulness above all ken,
The sense of the sense of the universe.
And such a cowardice of thought,
Absorbing all my life and all
I have in me, more gall than gall,
Takes me, that I fear to open my eyes
And my mind to a most horrid surprise,
And I feel my being near to suppression
In a horror past Fancy's confession.
More than the cowardest of beasts
Before a gaping flash overhead,
More than the drunkard in his unrests
Who sees visions of more than dread,
More than all that fear can conceive,
More than madness can make to believe,
More than cannot be imagined,
The sense of the mystery of all,
When it flashes on me full as can be,
Doth my maddened soul appal.
Speak it not ‑ nor can it be spoken, -
No, not the shadow of the sensation,
Of the chord of sanity that is broken
In me by that moment's distress
And intensity of negation;
Think it not, thought is powerless
This horror less than to express.
The meanest thing grows terrible
And the basest thought sublime -
All in a world more horrible
Than the sense of the soul of time,
Than the fear of the depth of death,
Than the remorse of more than crime.
‘Tis half as if its solution it brought,
That mystery that foul is as rot.
Yet if it did so bring
Dead were my thought
And my whole self dead as any thing:
'Tis this that coarsely men can name,
Looking on the face of God.
And that feeling, that sense can more than maim
The spirit, more than make it a clod;
It would kill outright straight, outright,
With a shock of which hell is no mirror,
More than is known in terror,
More than is dreamt of fright.
Just as dark as the souls of men,
By the blessing of their eternal curse,
Flashes like a bodiless ghoul,
In its rare fulness above all ken,
The sense of the sense of the universe.
And such a cowardice of thought,
Absorbing all my life and all
I have in me, more gall than gall,
Takes me, that I fear to open my eyes
And my mind to a most horrid surprise,
And I feel my being near to suppression
In a horror past Fancy's confession.
More than the cowardest of beasts
Before a gaping flash overhead,
More than the drunkard in his unrests
Who sees visions of more than dread,
More than all that fear can conceive,
More than madness can make to believe,
More than cannot be imagined,
The sense of the mystery of all,
When it flashes on me full as can be,
Doth my maddened soul appal.
Speak it not ‑ nor can it be spoken, -
No, not the shadow of the sensation,
Of the chord of sanity that is broken
In me by that moment's distress
And intensity of negation;
Think it not, thought is powerless
This horror less than to express.
The meanest thing grows terrible
And the basest thought sublime -
All in a world more horrible
Than the sense of the soul of time,
Than the fear of the depth of death,
Than the remorse of more than crime.
‘Tis half as if its solution it brought,
That mystery that foul is as rot.
Yet if it did so bring
Dead were my thought
And my whole self dead as any thing:
'Tis this that coarsely men can name,
Looking on the face of God.
And that feeling, that sense can more than maim
The spirit, more than make it a clod;
It would kill outright straight, outright,
With a shock of which hell is no mirror,
More than is known in terror,
More than is dreamt of fright.
1 832
Fernando Pessoa
Diálogo na treva?
Cresce em mim uma onda de agonia
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
1 338
Herberto Helder
3H
Os cometas dão a volta e batem as caudas.
Têm luz própria, estes peixes orbitais
e crisântemos. Nos viveiros das bolhas, ébrios de oxigénio.
As águas atravessam as trevas.
Atravessam-nas os animais de coração translúcido entre os ombros.
Quando um abraço engrandece tudo, cabem na barragem
espádua a espádua.
As palavras com bolhas dos pulmões à boca.
ÚLTIMA CIÊNCIA 401
E no bravio espaço de nome a nome — desabrochadamente:
guelras, e os cometas florais
derramados.
Quando a loucura abala as residências vivas
entre a água e a instantânea
atmosfera
dos besouros, altos, todos, furiosos
como jóias. Quando a loucura me abala
com ar e água.
Têm luz própria, estes peixes orbitais
e crisântemos. Nos viveiros das bolhas, ébrios de oxigénio.
As águas atravessam as trevas.
Atravessam-nas os animais de coração translúcido entre os ombros.
Quando um abraço engrandece tudo, cabem na barragem
espádua a espádua.
As palavras com bolhas dos pulmões à boca.
ÚLTIMA CIÊNCIA 401
E no bravio espaço de nome a nome — desabrochadamente:
guelras, e os cometas florais
derramados.
Quando a loucura abala as residências vivas
entre a água e a instantânea
atmosfera
dos besouros, altos, todos, furiosos
como jóias. Quando a loucura me abala
com ar e água.
1 091
Flávio Sátiro Fernandes
Augusto dos Anjos e a Escola do Recife
O tema que trago à consideração dos que compõem este Conselho Estadual de Cultura tem sido tocado, apenas, de leve, por quantos se interessam pela vida e pela obra do maior dos poetas paraibanos - Augusto de Carvalho Rodrigues dos anjos - cujo centenário de nascimento todo o Brasil, este ano, comemora.
De fato, Agripino Grieco chama-o, de passagem, "epígono retardado da Escola do Recife" (1); Ferreira Gullar alude ao contato de Augusto com o "espírito cientificista que se tornara tradição da famosa Escola do Recife, a partir de Tobias Barreto" (2); Jamil Almansur Haddad proclama que a "geração de Augusto dos Anjos ainda é herdeira da escola do Recife, do pontificado de Sílvio Romero e Tobias Barreto e acaba sendo um florescimento brasileiro da poesia científica" (3); Pinto Ferreira, em considerações sobre a Escola do Recife, reconhece ter sido Augusto, "não diretamente ligado ao magistério de Tobias, porém influenciado pelo evolucionismo, dentro do clima ideológico da Escola". (4)
O tema, pois, não é original. Cabe-me, apenas, o esforço de tratá-lo mais demoradamente e, pela primeira vez, na província.
Dito isso, perguntaríamos: Que aproximações poderiam ser estabelecidas entre Augusto dos Anjos e a Escola do Recife? Que influências teria o nosso grande vate recebido daquele movimento? Quais os sinais dessas influências na obra de Augusto?
Para responder a tais perquirições e para exata compreensão das influências recebidas por Augusto das idéias em voga, ao seu tempo, no Recife, creio necessário expor, inicialmente, o que foi a Escola do Recife, suas figuras luminares, suas fases, as teorias nela discutidas.
A Escola do Recife
O que se convencionou chamar de Escola do Recife foi um movimento cultural de ampla repercussão, congregando pensadores, estudiosos, juristas, sociólogos, poetas, preocupados em debater os mais variados temas dentro de suas respectivas especialidades. A Escola do Recife não teve um ideário próprio e definido. Antes, foi um movimento heterogêneo, um cadinho de filosofias, de sociologias, de correntes literárias e jurídicas. Conforme assinala Pinto Ferreira, o grande esforço válido da Escola do Recife foi o convite ao debate filosófico e cultural.
A Escola teve, primitivamente, três fase, Digo primitivamente porque, consoante ainda Pinto Ferreira, "este movimento de idéias não ficou estacionado no tempo, os segmentos do tempo lhe foram indiferentes". Para o mestre pernambucano, a Escola do Recife "e um movimento dinâmico que sobrevive na atualidade, em uma nova fase de desenvolvimento". (5)
Primitivamente, pois, a Escola teve três fases: a fase poética, a fase crítico-filosófica e a fase jurídica. Durante essas três fases, vários nomes podem ser identificados como exponenciais da Escola: Tobias Barreto, sem dúvida, a maior figura do movimento, Castro Alves, Sílvio Romero, Clóvis Beviláqua, Martins Junior, Artur Orlando e outros mais.
O primeiro período - da poesia - iniciou-se de 1862 a 1863, conforme esclarece Clóvis Beviláqua. (6) Essa fase corresponde à formação daquela corrente denominada por Capistrano de Abreu, "escola condoreira", integrada por Tobias Barreto e Castro Alves, notadamente, bem como por Vitoriano Palhares, Guimarães Junior, Antônio Alves Carvalho, Xavier Lima (7) e Sílvio Romero. (8)
Lançam-se por essa época os fundamentos da poesia filosófico-científica.
Tobias Barreto embebe-se do panteísmo do "Ahasverus", de Edgar Quinet e em sua poesia já estremece "um brado de revolta de um espírito abalado pelos desgostos e pela filosofia do século". (9) Dessa fase é o poema O Gênio da Humanidade, síntese da evolução humana, provavelmente inspirado no Ahasverus. Outro de seus poemas, Ignorabimus, traz à tona preocupações religiosas do autor:
Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo
E surdo ao brado do Universo inteiro...
De dúvidas cruéis prisioneiro,
Tomba por terra o pensamento altivo.
Dizem que Cristo, o filho de Deus vivo,
A quem chamam também Deus verdadeiro,
Veio o mundo remir do cativeiro!...
E eu vejo o mundo ainda tão cativo!
Se os reis são sempre os reis, se o povo ignaro
Não deixou de provar o duro freio
Da travessia e da miséria o trato;
Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,
Se o homem chora e continua escravo,
De que foi que Jesus salvar-nos veio?...
E em outro, intitulado Epicurismo, defende essa filosofia de vida:
Se as crenças são um engodo,
Se falha o verbo da fé,
Se o homem se acaba todo
Com a matéria que ele é,
Se o coração nada aspira,
Se este bater é mentiroso,
Se além não há desfrutar,
Da vida a idéia suprema,
O grande, o sábio problema
É viver muito e gozar...
Também Sílvio Romero cultiva a poesia científica. E mais: foi seu ardente defensor, conforme assinala França Pereira, no Prefácio à segunda edição de A poesia científica, de Martins Junior. (10)
São, assim, Tobias e Sílvio Romero os precursores da chamada poesia filosófico-científica, que vai ter, ainda, na Escola do Recife, um teorizador e praticante apaixonado, na pessoa de Martins Junior, de que falarei adiante.
A segunda fase é a fase crítico-filosófica, iniciada pelos anos de 1868 a 1870 e que se estende até 1882, quando, com o concurso de Tobias Barreto, para professor da Faculdade de Direito, tem começo a fase jurídica da Escola.
Durante a segunda fase têm curso as mais diversas correntes filosóficas, críticas e religiosas, sobressaindo-se como autores mas acatados e discutidos Spencer, Heckel, Hartmann, Schopenhauer, Kant. Mas é fora de discussão que nessa época a Escola elege, por intermédio de Tobias, notadamente, o monismo e o evolucionismo, como as idéias principais de seu pensamento, a ponto de Luís Washington Vita, citado por Pinto Ferreira, observar que a doutrina adotada pelos pioneiros da Escola do Recife foi um somatório daquelas duas teorias. (11)
O evolucionismo teve, como se sabe, em Herbert Spencer um de seus mais importantes defensores. A nota fundamental que o evolucionismo spenceriano distingue na evolução é o progresso. Evolução significa progresso, conforme proclama o filósofo inglês em seu ensaio intitulado Progresso. O progresso, segundo Spencer, investe todos os aspectos da realidade. "Quer se trate - diz ele no ensaio citado - do desenvolvimento da Terra, quer se trate do desenvolvimento da vida na sua superfície ou do desenvolvimento da sociedade, ou do governo, ou da indústria, ou do comércio, ou da linguagem, ou da literatura, ou da ciência, ou da arte, sempre no fundo de todo progresso está a evolução que vai do simples ao complexo através de diferenciações sucessivas". (12)
E nos seus Primeiros Princípios, assim definia a evolução: "A evolução é uma integração da matéria e uma concomitante dissipação de movimento, durante a qual a matéria passa de uma homogeneidade indefinida e incoerente para uma heterogeneidade definida e coerente e durante a qual o movimento conservado é passível de uma transformação paralela". (13)
Ao lado do evolucionismo, a outra doutrina, também acatada pelos pensadores foi o monismo, cuja figura maior foi, sem dúvida, o filósofo alemão Ernst Haeckel.
Spencer e Haeckel dominam, por conseguinte, com suas idéias, o ambiente cultural do Recife, de fins do século passado e princípios do atual, graças à ação intelectual de Tobias Barreto, o grande mentor da Escola do Recife, e da dos demais que o acompanhavam naquele movimento.
Finalmente, a terceria fase da Escola, a fase jurídica, inicia-se em 1882, ano em que Tobias presta concurso para professor da Faculdade de Direito do Recife. Despontam nessa fase, além do grande sergipano, as figuras de Clóvis Beviláqua, José Izidro Martins Junior e Artur Orlando, este mais sociólogo que jurista.
Deles
De fato, Agripino Grieco chama-o, de passagem, "epígono retardado da Escola do Recife" (1); Ferreira Gullar alude ao contato de Augusto com o "espírito cientificista que se tornara tradição da famosa Escola do Recife, a partir de Tobias Barreto" (2); Jamil Almansur Haddad proclama que a "geração de Augusto dos Anjos ainda é herdeira da escola do Recife, do pontificado de Sílvio Romero e Tobias Barreto e acaba sendo um florescimento brasileiro da poesia científica" (3); Pinto Ferreira, em considerações sobre a Escola do Recife, reconhece ter sido Augusto, "não diretamente ligado ao magistério de Tobias, porém influenciado pelo evolucionismo, dentro do clima ideológico da Escola". (4)
O tema, pois, não é original. Cabe-me, apenas, o esforço de tratá-lo mais demoradamente e, pela primeira vez, na província.
Dito isso, perguntaríamos: Que aproximações poderiam ser estabelecidas entre Augusto dos Anjos e a Escola do Recife? Que influências teria o nosso grande vate recebido daquele movimento? Quais os sinais dessas influências na obra de Augusto?
Para responder a tais perquirições e para exata compreensão das influências recebidas por Augusto das idéias em voga, ao seu tempo, no Recife, creio necessário expor, inicialmente, o que foi a Escola do Recife, suas figuras luminares, suas fases, as teorias nela discutidas.
A Escola do Recife
O que se convencionou chamar de Escola do Recife foi um movimento cultural de ampla repercussão, congregando pensadores, estudiosos, juristas, sociólogos, poetas, preocupados em debater os mais variados temas dentro de suas respectivas especialidades. A Escola do Recife não teve um ideário próprio e definido. Antes, foi um movimento heterogêneo, um cadinho de filosofias, de sociologias, de correntes literárias e jurídicas. Conforme assinala Pinto Ferreira, o grande esforço válido da Escola do Recife foi o convite ao debate filosófico e cultural.
A Escola teve, primitivamente, três fase, Digo primitivamente porque, consoante ainda Pinto Ferreira, "este movimento de idéias não ficou estacionado no tempo, os segmentos do tempo lhe foram indiferentes". Para o mestre pernambucano, a Escola do Recife "e um movimento dinâmico que sobrevive na atualidade, em uma nova fase de desenvolvimento". (5)
Primitivamente, pois, a Escola teve três fases: a fase poética, a fase crítico-filosófica e a fase jurídica. Durante essas três fases, vários nomes podem ser identificados como exponenciais da Escola: Tobias Barreto, sem dúvida, a maior figura do movimento, Castro Alves, Sílvio Romero, Clóvis Beviláqua, Martins Junior, Artur Orlando e outros mais.
O primeiro período - da poesia - iniciou-se de 1862 a 1863, conforme esclarece Clóvis Beviláqua. (6) Essa fase corresponde à formação daquela corrente denominada por Capistrano de Abreu, "escola condoreira", integrada por Tobias Barreto e Castro Alves, notadamente, bem como por Vitoriano Palhares, Guimarães Junior, Antônio Alves Carvalho, Xavier Lima (7) e Sílvio Romero. (8)
Lançam-se por essa época os fundamentos da poesia filosófico-científica.
Tobias Barreto embebe-se do panteísmo do "Ahasverus", de Edgar Quinet e em sua poesia já estremece "um brado de revolta de um espírito abalado pelos desgostos e pela filosofia do século". (9) Dessa fase é o poema O Gênio da Humanidade, síntese da evolução humana, provavelmente inspirado no Ahasverus. Outro de seus poemas, Ignorabimus, traz à tona preocupações religiosas do autor:
Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo
E surdo ao brado do Universo inteiro...
De dúvidas cruéis prisioneiro,
Tomba por terra o pensamento altivo.
Dizem que Cristo, o filho de Deus vivo,
A quem chamam também Deus verdadeiro,
Veio o mundo remir do cativeiro!...
E eu vejo o mundo ainda tão cativo!
Se os reis são sempre os reis, se o povo ignaro
Não deixou de provar o duro freio
Da travessia e da miséria o trato;
Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,
Se o homem chora e continua escravo,
De que foi que Jesus salvar-nos veio?...
E em outro, intitulado Epicurismo, defende essa filosofia de vida:
Se as crenças são um engodo,
Se falha o verbo da fé,
Se o homem se acaba todo
Com a matéria que ele é,
Se o coração nada aspira,
Se este bater é mentiroso,
Se além não há desfrutar,
Da vida a idéia suprema,
O grande, o sábio problema
É viver muito e gozar...
Também Sílvio Romero cultiva a poesia científica. E mais: foi seu ardente defensor, conforme assinala França Pereira, no Prefácio à segunda edição de A poesia científica, de Martins Junior. (10)
São, assim, Tobias e Sílvio Romero os precursores da chamada poesia filosófico-científica, que vai ter, ainda, na Escola do Recife, um teorizador e praticante apaixonado, na pessoa de Martins Junior, de que falarei adiante.
A segunda fase é a fase crítico-filosófica, iniciada pelos anos de 1868 a 1870 e que se estende até 1882, quando, com o concurso de Tobias Barreto, para professor da Faculdade de Direito, tem começo a fase jurídica da Escola.
Durante a segunda fase têm curso as mais diversas correntes filosóficas, críticas e religiosas, sobressaindo-se como autores mas acatados e discutidos Spencer, Heckel, Hartmann, Schopenhauer, Kant. Mas é fora de discussão que nessa época a Escola elege, por intermédio de Tobias, notadamente, o monismo e o evolucionismo, como as idéias principais de seu pensamento, a ponto de Luís Washington Vita, citado por Pinto Ferreira, observar que a doutrina adotada pelos pioneiros da Escola do Recife foi um somatório daquelas duas teorias. (11)
O evolucionismo teve, como se sabe, em Herbert Spencer um de seus mais importantes defensores. A nota fundamental que o evolucionismo spenceriano distingue na evolução é o progresso. Evolução significa progresso, conforme proclama o filósofo inglês em seu ensaio intitulado Progresso. O progresso, segundo Spencer, investe todos os aspectos da realidade. "Quer se trate - diz ele no ensaio citado - do desenvolvimento da Terra, quer se trate do desenvolvimento da vida na sua superfície ou do desenvolvimento da sociedade, ou do governo, ou da indústria, ou do comércio, ou da linguagem, ou da literatura, ou da ciência, ou da arte, sempre no fundo de todo progresso está a evolução que vai do simples ao complexo através de diferenciações sucessivas". (12)
E nos seus Primeiros Princípios, assim definia a evolução: "A evolução é uma integração da matéria e uma concomitante dissipação de movimento, durante a qual a matéria passa de uma homogeneidade indefinida e incoerente para uma heterogeneidade definida e coerente e durante a qual o movimento conservado é passível de uma transformação paralela". (13)
Ao lado do evolucionismo, a outra doutrina, também acatada pelos pensadores foi o monismo, cuja figura maior foi, sem dúvida, o filósofo alemão Ernst Haeckel.
Spencer e Haeckel dominam, por conseguinte, com suas idéias, o ambiente cultural do Recife, de fins do século passado e princípios do atual, graças à ação intelectual de Tobias Barreto, o grande mentor da Escola do Recife, e da dos demais que o acompanhavam naquele movimento.
Finalmente, a terceria fase da Escola, a fase jurídica, inicia-se em 1882, ano em que Tobias presta concurso para professor da Faculdade de Direito do Recife. Despontam nessa fase, além do grande sergipano, as figuras de Clóvis Beviláqua, José Izidro Martins Junior e Artur Orlando, este mais sociólogo que jurista.
Deles
1 785
Herberto Helder
3I
Pavões, glicínias, abelhas — e no leque gradual da luz,
enxames de bagas preciosas.
As águas encharcam a roupa até ao sono.
E a música ultramarina através dos meses em búzio.
É a experiência da morte nas imagens.
O comércio da terra: espuma que se desfolha nas superfícies
repentinas, bebedeira de floras,
o som que a agonia transmuda
em pensamento. Basta às vezes tocar na cara
às escuras, na idade
às escuras, entre espumas inundando os dias
sala a sala — basta para tantas ciências
de uma vida louca.
Como se ardeu até ficar de ouro!
E o coração do ouro era uma pálpebra
soldada
sobre elementos líricos, vivos,
terríficos.
A pupila via tudo de dentro para fora.
Essa luz feroz na alma húmida.
Tornava tão inocente o mundo: as formas
que o mundo queimara. O que era largo.
Abrasado. O que a morte já tocava
às escuras, na cara.
enxames de bagas preciosas.
As águas encharcam a roupa até ao sono.
E a música ultramarina através dos meses em búzio.
É a experiência da morte nas imagens.
O comércio da terra: espuma que se desfolha nas superfícies
repentinas, bebedeira de floras,
o som que a agonia transmuda
em pensamento. Basta às vezes tocar na cara
às escuras, na idade
às escuras, entre espumas inundando os dias
sala a sala — basta para tantas ciências
de uma vida louca.
Como se ardeu até ficar de ouro!
E o coração do ouro era uma pálpebra
soldada
sobre elementos líricos, vivos,
terríficos.
A pupila via tudo de dentro para fora.
Essa luz feroz na alma húmida.
Tornava tão inocente o mundo: as formas
que o mundo queimara. O que era largo.
Abrasado. O que a morte já tocava
às escuras, na cara.
989
Herberto Helder
3K
De todos os sítios do parque uma vibração ataca
a estátua que sobe o dia
inclinado, que entra no escuro com os olhos brancos.
O ar ilumina-lhe a boca.
Com dedos de ouro brusco a noite fecha-lhe
os músculos. Mas abrem-nos um fluxo de seiva,
uma temperatura de química
radiosa. Porque é no centro dessa massa
territorial
que o sangue estremece e desabrocha
entre pedra e aura.
—Alenta estátua carregando a sua estrela até se atrasar
noutras pupilas deslumbradas.
a estátua que sobe o dia
inclinado, que entra no escuro com os olhos brancos.
O ar ilumina-lhe a boca.
Com dedos de ouro brusco a noite fecha-lhe
os músculos. Mas abrem-nos um fluxo de seiva,
uma temperatura de química
radiosa. Porque é no centro dessa massa
territorial
que o sangue estremece e desabrocha
entre pedra e aura.
—Alenta estátua carregando a sua estrela até se atrasar
noutras pupilas deslumbradas.
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