Poemas neste tema
Dinheiro e Riqueza
Eduardo Valente da Fonseca
Onde nem tudo o que luz é oiro
Somos talvez até um país rico,
e tivemos Camões, e tivemos pessoa e o infante,
mas a beleza está nos escombros,
e atola-se na areia e morre sem nos ver.
porque se eu abro a minha mão à noite
e nela só vejo as linhas do destino,
de que me vale a história do meu povo?
Sim, é possível que a profética rosa do oriente
ainda venha pelo rio da primavera
ancorar na solidão imensa deste cais.
e tivemos Camões, e tivemos pessoa e o infante,
mas a beleza está nos escombros,
e atola-se na areia e morre sem nos ver.
porque se eu abro a minha mão à noite
e nela só vejo as linhas do destino,
de que me vale a história do meu povo?
Sim, é possível que a profética rosa do oriente
ainda venha pelo rio da primavera
ancorar na solidão imensa deste cais.
1 008
Fernando Tavares Rodrigues
Confissão
Entre números
e cifrões transfigurado
Como se também fosse o que fingia.
E o amor por amar que me doía
Neste corpo de amor desocupado.
Assim vestia, dia a dia, o meu ofício
Dessa cor que não serve os namorados:
A gravata, o colarinho de silício
E os gestos tão iguais, tão estudados
Para ganhar um pão que nunca quis
Virei os meus sonhos do avesso
Em vez de continuar a ser feliz.
E hoje só sei que o não mereço,
Que a imagem que criei já não condiz
Com aquele que, mesmo assim, ainda pareço.
e cifrões transfigurado
Como se também fosse o que fingia.
E o amor por amar que me doía
Neste corpo de amor desocupado.
Assim vestia, dia a dia, o meu ofício
Dessa cor que não serve os namorados:
A gravata, o colarinho de silício
E os gestos tão iguais, tão estudados
Para ganhar um pão que nunca quis
Virei os meus sonhos do avesso
Em vez de continuar a ser feliz.
E hoje só sei que o não mereço,
Que a imagem que criei já não condiz
Com aquele que, mesmo assim, ainda pareço.
1 087
Golgona Anghel
Estou estendido no meu leito de morte
Estou estendido no meu leito de morte,
rodeado de chás da Malásia e ovas de esturjão.
Tenho as mãos fracas.
Mal consigo fazer abanar os cubos de gelo no copo.
Queria, talvez, mais carne, mais sol e mais sabor.
Respiro por enquanto por um tubo.
Transpiro Bushmills.
Chamo-te de tempo a tempos
e a minha voz faz eco.
Tens uma televisão só para ti,
mas não ouves bem, nem usas aparelho.
Com as ancas grossas de beduína,
saltas de uma crónica da expansão ultramarina,
para me limpares o pó dos cornos e trocares os lençóis azedos.
O teu ofício é seres parda, solta na fala,
simplória nos gestos.
Não lavras nem crias.
Os vidros tremem quando falas.
Os gatos fogem quando chegas.
Queres-me morto.
Só não és perigosa
porque és uma preguiçosa de merda
e te faltam a auto-disciplina,
frieza e distanciamento necessários.
Queres mais é umas férias na Disneylândia.
Queres de mim tudo menos a cadela e a porra desta vida.
Queres de mim um colar de margaridas,
uma nuvem
e um par de sapatos puma.
rodeado de chás da Malásia e ovas de esturjão.
Tenho as mãos fracas.
Mal consigo fazer abanar os cubos de gelo no copo.
Queria, talvez, mais carne, mais sol e mais sabor.
Respiro por enquanto por um tubo.
Transpiro Bushmills.
Chamo-te de tempo a tempos
e a minha voz faz eco.
Tens uma televisão só para ti,
mas não ouves bem, nem usas aparelho.
Com as ancas grossas de beduína,
saltas de uma crónica da expansão ultramarina,
para me limpares o pó dos cornos e trocares os lençóis azedos.
O teu ofício é seres parda, solta na fala,
simplória nos gestos.
Não lavras nem crias.
Os vidros tremem quando falas.
Os gatos fogem quando chegas.
Queres-me morto.
Só não és perigosa
porque és uma preguiçosa de merda
e te faltam a auto-disciplina,
frieza e distanciamento necessários.
Queres mais é umas férias na Disneylândia.
Queres de mim tudo menos a cadela e a porra desta vida.
Queres de mim um colar de margaridas,
uma nuvem
e um par de sapatos puma.
1 078
Golgona Anghel
Aos Sábados repousava
Aos Sábados repousava:
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.
Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.
Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.
590
Fernando Pessoa
V - How can I think, or edge my thoughts to action,
How can I think, or edge my thoughts to action,
When the miserly press of each day's need
Aches to a narrowness of spilled distraction
My soul appalled at the world's work's time-greed?
How can I pause my thoughts upon the task
My soul was born to think that it must do
When every moment has a thought to ask
To fit the immediate craving of its cue?
The coin I'd heap for marrying my Muse
And build our home i'th' greater Time-to-be
Becomes dissolved by needs of each day's use
And I feel beggared of infinity,
Like a true-Christian sinner, each day flesh-driven
By his own act to forfeit his wished heaven.
When the miserly press of each day's need
Aches to a narrowness of spilled distraction
My soul appalled at the world's work's time-greed?
How can I pause my thoughts upon the task
My soul was born to think that it must do
When every moment has a thought to ask
To fit the immediate craving of its cue?
The coin I'd heap for marrying my Muse
And build our home i'th' greater Time-to-be
Becomes dissolved by needs of each day's use
And I feel beggared of infinity,
Like a true-Christian sinner, each day flesh-driven
By his own act to forfeit his wished heaven.
3 858
Joaquim Azinhal Abelho
Comoção Rural
Já não há quem queira dar
uma filha a um ganhão…
Senhor Pai, senhora mãe,
que grande desolação.
Já bati a sete portas
por mais de mil e uma vez;
Vá-se embora seu ganhão,
disseram com altivez…
A minha filha é prendada,
não é para qualquer tunante,
sabe ler, sabe escrever
e todo o seu consoante.
O que é que tem um ganhão?
Um azinho dum pau torto;
só vive das tristes ervas,
não tem onde cair morto.
Os olhos já não são olhos,
estão estão desfeitos em chorar,
porque a um pobre ganhão
já não há quem queira dar
nem mulher para dormir
nem a filha para mulher;
nem quem o ajude a vestir,
nem quem o ajude a morrer.
Ramos secos, estéreis flores,
pedras de arestas cortantes
perdidas num vendaval,
perdidas numa aflição…
Eu já não posso gritar;
Senhor Pai, senhora Mãe,
que grande desolação
nestes matagais com longes,
aonde os anjos se afundam
em humus e punição!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
uma filha a um ganhão…
Senhor Pai, senhora mãe,
que grande desolação.
Já bati a sete portas
por mais de mil e uma vez;
Vá-se embora seu ganhão,
disseram com altivez…
A minha filha é prendada,
não é para qualquer tunante,
sabe ler, sabe escrever
e todo o seu consoante.
O que é que tem um ganhão?
Um azinho dum pau torto;
só vive das tristes ervas,
não tem onde cair morto.
Os olhos já não são olhos,
estão estão desfeitos em chorar,
porque a um pobre ganhão
já não há quem queira dar
nem mulher para dormir
nem a filha para mulher;
nem quem o ajude a vestir,
nem quem o ajude a morrer.
Ramos secos, estéreis flores,
pedras de arestas cortantes
perdidas num vendaval,
perdidas numa aflição…
Eu já não posso gritar;
Senhor Pai, senhora Mãe,
que grande desolação
nestes matagais com longes,
aonde os anjos se afundam
em humus e punição!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
435
Mário Chamie
Agiotagem
um
dois
três
o juro:o prazo
o pôr / o cento / o mês / o ágio
p o r c e n t a g i o.
dez
cem
mil
o lucro:o dízimo
o ágio / a mora / a monta em péssimo
e m p r é s t i m o.
muito
nada
tudo
a quebra:a sobra
a monta / o pé / o cento / a quota
h a j a n o t a
agiota.
dois
três
o juro:o prazo
o pôr / o cento / o mês / o ágio
p o r c e n t a g i o.
dez
cem
mil
o lucro:o dízimo
o ágio / a mora / a monta em péssimo
e m p r é s t i m o.
muito
nada
tudo
a quebra:a sobra
a monta / o pé / o cento / a quota
h a j a n o t a
agiota.
1 538
Mário Chamie
SIDERURGIA S.O.S.
Se der o ouro sidéreo opus horáriO
Sem sol o sal do erário saláriO
Ser der orgia semistério o empresáriO
Siderurgia do opus o só do eráriO
Se der a via do pus opus erradO
Se der o certo no errado o empregadO
Se der errado no certo o emprecáriO
Sem sol o sal do erário saláriO
Ser der orgia semistério o empresáriO
Siderurgia do opus o só do eráriO
Se der a via do pus opus erradO
Se der o certo no errado o empregadO
Se der errado no certo o emprecáriO
1 016
Ernesto de Melo e Castro
Autobiografia fenómeno-F(re)udiana
fui chulo dancei a chula
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
1 275
Ernesto de Melo e Castro
Paga e repaga
A paga
eu gostaria muito sim talvez
dar uma enorme foda todo o mês
numa mulher que se chamasse Inês
e que tivesse um gato siamês
que não me chateasse cada vez
que nela me pusesse de viés
porque as mulheres pensam que talvez
no foder se paga tudo de uma vez
mas nunca se lembram que ao invés
o pagar nada tem com as fodas que dês
porque ainda ontem dei ai umas dez
e a paga que tive foi um chato burguês
A repaga
não penses tu proleta fodilhão
que lá por seres caralho
tens razão
nem que todas as fodas que me dês
são a fácil desforra
do tesão
porque a cona é que sabe
do vir ou do não vir
e só no seu sorrir
é que o caralho sobe
mas se és mal pago
não vais morrer de fomes
e se me pagas
não pagas o que comes.
(e o chato talvez
não seja mais
que o teu retrato
português)
eu gostaria muito sim talvez
dar uma enorme foda todo o mês
numa mulher que se chamasse Inês
e que tivesse um gato siamês
que não me chateasse cada vez
que nela me pusesse de viés
porque as mulheres pensam que talvez
no foder se paga tudo de uma vez
mas nunca se lembram que ao invés
o pagar nada tem com as fodas que dês
porque ainda ontem dei ai umas dez
e a paga que tive foi um chato burguês
A repaga
não penses tu proleta fodilhão
que lá por seres caralho
tens razão
nem que todas as fodas que me dês
são a fácil desforra
do tesão
porque a cona é que sabe
do vir ou do não vir
e só no seu sorrir
é que o caralho sobe
mas se és mal pago
não vais morrer de fomes
e se me pagas
não pagas o que comes.
(e o chato talvez
não seja mais
que o teu retrato
português)
1 111
Natalício Barroso
O Mercador
Deus, como se fosse o artífice meticuloso
e um mercador de pedras preciosas,
bordou o Universo num tapete
enrolou-o
e saiu com ele pelas ruas de Nova York.
Tinha muitas estrelas para vender.
Cada uma delas valia milhões.
Mas como o Universo não é composto só de estrelas
mas de cometas, anéis e arco-íris
(para não falar nos meteoros, etc.)
Deus também bordou a sua sombra, como se fosse um halo de
luz,
em volta do Universo.
Em Nova York, Washington e Maryland
Deus carregou o tapete sobre os ombros
e anunciou-o levando uma lua cheia na cabeça
e um relâmpago tão enredado quanto uma serpente nos
braços;
mas ninguém quis comprar.
Nem mesmo os árabes, donos de camelos
petróleo
e oásis no deserto;
nem os turistas,
cada um mais atarefado do que o outro,
que todos os dias desembarcam em Miami.
Estavam todos muito preocupados
com a cotação da bolsa em Wall Street
e com o dsempenho de alguns pilotos na Fórmula 1.
O Universo, para eles,
não era precioso:
— nem o Universo
nem os astros;
por isso Deus sentou-se numa grande nuvem,
quando se sentiu cansado;
abriu o tapete e pensou:
"— A Lua", disse ele olhando para a Lua,
"não vale um dólar;
o Sol, que eu pensava valer alguma coisa,
não vale nada (nem um raio de atenção)
e os anéis de Saturno que, para mim,
eram incalculáveis nem mesmo suscitaram
atenção".
Deus ficou tão ofendido
quando percebeu isso que, no lugar de desenrolar
e guardar o Universo a seus pés,
enrolou e guardou a sua sombra.
e um mercador de pedras preciosas,
bordou o Universo num tapete
enrolou-o
e saiu com ele pelas ruas de Nova York.
Tinha muitas estrelas para vender.
Cada uma delas valia milhões.
Mas como o Universo não é composto só de estrelas
mas de cometas, anéis e arco-íris
(para não falar nos meteoros, etc.)
Deus também bordou a sua sombra, como se fosse um halo de
luz,
em volta do Universo.
Em Nova York, Washington e Maryland
Deus carregou o tapete sobre os ombros
e anunciou-o levando uma lua cheia na cabeça
e um relâmpago tão enredado quanto uma serpente nos
braços;
mas ninguém quis comprar.
Nem mesmo os árabes, donos de camelos
petróleo
e oásis no deserto;
nem os turistas,
cada um mais atarefado do que o outro,
que todos os dias desembarcam em Miami.
Estavam todos muito preocupados
com a cotação da bolsa em Wall Street
e com o dsempenho de alguns pilotos na Fórmula 1.
O Universo, para eles,
não era precioso:
— nem o Universo
nem os astros;
por isso Deus sentou-se numa grande nuvem,
quando se sentiu cansado;
abriu o tapete e pensou:
"— A Lua", disse ele olhando para a Lua,
"não vale um dólar;
o Sol, que eu pensava valer alguma coisa,
não vale nada (nem um raio de atenção)
e os anéis de Saturno que, para mim,
eram incalculáveis nem mesmo suscitaram
atenção".
Deus ficou tão ofendido
quando percebeu isso que, no lugar de desenrolar
e guardar o Universo a seus pés,
enrolou e guardou a sua sombra.
1 044
Noel Rosa
Cem Mil-Réis
Você me pediu cem mil-réis
Pra comprar um soirée
E um tamborim
O organdi anda barato pra cachorro
E um gato lá no morro
Não é tão caro assim
Não custa nada
Preencher formalidade
Tamborim pra batucada
Soirée pra sociedade
Sou bem sensato
Seu pedido atendi
Já tenho a pele do gato
Falta o metro de organdi
Sei que você
Num dia faz um tamborim
Mas ninguém faz um soirée
Com meio metro de cetim
De soirée
você num baile se destaca
Mas não quero mais você
Porque não sei vestir casaca.
Pra comprar um soirée
E um tamborim
O organdi anda barato pra cachorro
E um gato lá no morro
Não é tão caro assim
Não custa nada
Preencher formalidade
Tamborim pra batucada
Soirée pra sociedade
Sou bem sensato
Seu pedido atendi
Já tenho a pele do gato
Falta o metro de organdi
Sei que você
Num dia faz um tamborim
Mas ninguém faz um soirée
Com meio metro de cetim
De soirée
você num baile se destaca
Mas não quero mais você
Porque não sei vestir casaca.
997
Pablo Neruda
Vii - Os Outros Homens
Em troca eu, pecador pescador,
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
973
Pablo Neruda
Vi - Os Homens
Eu sou Ramón Gonzáles Barbagelata, de qualquer parte,
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
1 007
Gregório de Matos
Coplas
Não sei, para que é nascer
neste Brasil empestado
um homem branco, e honrado
sem outra raça.
Terra tão grosseira, e crassa,
que a ninguém se tem respeito,
salvo quem mostra algum jeito
de ser Mulato.
Aqui o cão arranha o gato,
não por ser mais valentão,
mas porque sempre a um cão
outros acodem.
Os Brancos aqui não podem
mais que sofrer, e calar,
e se um negro vão matar,
chovem despesas.
Não lhe valem as defesas
do atrevimento de um cão,
porque acode a Relação
sempre faminta.
Logo a fazenda, e a quinta
vai com tudo o mais à praça,
onde se vende de graça,
ou fiado.
Que aguardas, homem honrado,
vendo tantas sem-razões,
que não vás para as nações
de Berberia,
Porque lá se te faria
com essa barbaridade
mais razão, e mais verdade,
que aqui fazem.
Porque esperas, que te engranzem,
e esgotem os cabedais,
os que tens por naturais,
sendo estrangeiros!
Ao cheiro dos teus dinheiros
vêm como cabedal tão fraco,
que tudo cabe num saco,
que anda às costas.
Os pés são duas lagostas
de andar montes, passar vaus,
as mãos são dois bacalhaus
já bem ardidos.
Sendo dous anos corridos,
na loja estão recostados
mais doces, enfidalgados,
que os mesmos Godos.
A mim me faltam apodos,
com que apodar estes tais
maganos de três canais
até a ponta.
Há outros de pior conta,
que entre esses, e entre aqueles
vêem cheios de PP, e LL
atrás do ombro.
De nada disso me assombro
pois bota aqui o Senhor
outros de marca maior
gualde, e tostada.
Perguntai à gente honrada,
por que causa se desterra;
diz que tem, quem lá na terra
lhe queima o sangue.
Vem viver ao pé de um mangue,
e já vos veda o mangal,
porque tem mais cabedal,
que Porto Rico.
Se algum vem de agudo bico,
lá vão prendê-lo ao sertão,
e ei-lo bugio em grilhão
entre os galfarros.
A terra é para os bizarros,
que vêm na sua terrinha
com mais gorda camisinha,
que um traquete.
Que me dizeis do clerguete,
que mandaram degradado
por dar o óleo sagrado
à sua Puta.
E a velhaca dissoluta
destra de todo o artifício
fez co óleo um malefício
ao mesmo Zote.
Folgo de ver tanto asnote,
que com seus risonhos lábios
andam zombando dos sábios
e entendidos.
E porque são aplaudidos
de outros de sua facção,
se fazem coa discrição
como com terra.
E dizendo ferra ferra,
quando vão a por o pé,
conhecem, que em boa fé
são uns asninhos.
Porque com quatro ditinhos
de conceitos estudados
não podem ser graduados
nas ciências.
Então suas negligências
os vão conhecendo ali,
porque de si para si
ninguém se engana.
Mas em vindo outra semana,
já caem no pecado velho,
e presumem dar conselho
a um Catão.
Aqui frisava o Frisão,
que foi o Heresiarca,
porque mais da sua alparca
o aprenderam.
As Mulatas me esqueceram,
a quem com veneração
darei o meu beliscão
pelo amoroso.
Geralmente é mui custoso
o conchego das Mulatas,
que se foram mais baratas,
não há mais Flandes.
Aos que presumem de grandes,
porque têm casa, e são forras
têm, e chamam de cachorras
às mais do trato.
Angelinha do Sapato,
valeria um pino de Ouro,
porém tem o cagadouro
muito baixo.
Traz o amigo cabisbaixo
com muitas aleivosias,
sendo, que às Ave-Marias
lhe fecha a porta.
Mas isso porém que importa
se ao fechar se põe já nua,
e sobre o plantar na rua
ainda a veste.
Fica dentro, quem a investe,
e o de fora suspirando
lhe grita de quando em quando
ora isto basta.
Há gente de tão má casta,
e de tão ruim catadura,
que até esta cornadura
bebe, e verte.
Todos Agrela converte,
porque se com tão ruim puta
a alma há de ser dissoluta,
antes mui Santa.
Quem encontra ossada tanta
nos beiços de uma caveira,
vai fugindo de carreira,
e a Deus busca.
Em uma cova se ofusca,
como eu estou ofuscado,
chorando o magro pecado,
que fiz com ela.
É mui semelhante a Agrela
a Mingota dos Negreiros,
que me mamou os dinheiros,
e pôs-me à orça.
A Mangá com ser de alcorça
dá-se a um Pardo vaganau,
que a cunha do mesmo pau
melhor atocha.
À Mariana da Rocha,
por outro nome a Pelica,
nenhum homem já dedica
a sua prata.
Não há no Brasil Mulata
que valha um recado só.
Mas Joana Picaró
O Brasil todo.
Se em gostos não me acomodo
das mais, não haja disputa,
cada um gabe a sua puta,
e haja sossego.
Porque eu calo o meu emprego
e o fiz com toda atenção,
porque tal veneração
se lhe devia.
Fica-te em boa, Bahia,
que eu me vou por esse mundo
cortando pelo mar fundo
numa barquinha.
Porque inda que és pátria minha,
sou segundo Cipião,
que com dobrada razão
a minha idéia
te diz "non possedebis ossa mea".
neste Brasil empestado
um homem branco, e honrado
sem outra raça.
Terra tão grosseira, e crassa,
que a ninguém se tem respeito,
salvo quem mostra algum jeito
de ser Mulato.
Aqui o cão arranha o gato,
não por ser mais valentão,
mas porque sempre a um cão
outros acodem.
Os Brancos aqui não podem
mais que sofrer, e calar,
e se um negro vão matar,
chovem despesas.
Não lhe valem as defesas
do atrevimento de um cão,
porque acode a Relação
sempre faminta.
Logo a fazenda, e a quinta
vai com tudo o mais à praça,
onde se vende de graça,
ou fiado.
Que aguardas, homem honrado,
vendo tantas sem-razões,
que não vás para as nações
de Berberia,
Porque lá se te faria
com essa barbaridade
mais razão, e mais verdade,
que aqui fazem.
Porque esperas, que te engranzem,
e esgotem os cabedais,
os que tens por naturais,
sendo estrangeiros!
Ao cheiro dos teus dinheiros
vêm como cabedal tão fraco,
que tudo cabe num saco,
que anda às costas.
Os pés são duas lagostas
de andar montes, passar vaus,
as mãos são dois bacalhaus
já bem ardidos.
Sendo dous anos corridos,
na loja estão recostados
mais doces, enfidalgados,
que os mesmos Godos.
A mim me faltam apodos,
com que apodar estes tais
maganos de três canais
até a ponta.
Há outros de pior conta,
que entre esses, e entre aqueles
vêem cheios de PP, e LL
atrás do ombro.
De nada disso me assombro
pois bota aqui o Senhor
outros de marca maior
gualde, e tostada.
Perguntai à gente honrada,
por que causa se desterra;
diz que tem, quem lá na terra
lhe queima o sangue.
Vem viver ao pé de um mangue,
e já vos veda o mangal,
porque tem mais cabedal,
que Porto Rico.
Se algum vem de agudo bico,
lá vão prendê-lo ao sertão,
e ei-lo bugio em grilhão
entre os galfarros.
A terra é para os bizarros,
que vêm na sua terrinha
com mais gorda camisinha,
que um traquete.
Que me dizeis do clerguete,
que mandaram degradado
por dar o óleo sagrado
à sua Puta.
E a velhaca dissoluta
destra de todo o artifício
fez co óleo um malefício
ao mesmo Zote.
Folgo de ver tanto asnote,
que com seus risonhos lábios
andam zombando dos sábios
e entendidos.
E porque são aplaudidos
de outros de sua facção,
se fazem coa discrição
como com terra.
E dizendo ferra ferra,
quando vão a por o pé,
conhecem, que em boa fé
são uns asninhos.
Porque com quatro ditinhos
de conceitos estudados
não podem ser graduados
nas ciências.
Então suas negligências
os vão conhecendo ali,
porque de si para si
ninguém se engana.
Mas em vindo outra semana,
já caem no pecado velho,
e presumem dar conselho
a um Catão.
Aqui frisava o Frisão,
que foi o Heresiarca,
porque mais da sua alparca
o aprenderam.
As Mulatas me esqueceram,
a quem com veneração
darei o meu beliscão
pelo amoroso.
Geralmente é mui custoso
o conchego das Mulatas,
que se foram mais baratas,
não há mais Flandes.
Aos que presumem de grandes,
porque têm casa, e são forras
têm, e chamam de cachorras
às mais do trato.
Angelinha do Sapato,
valeria um pino de Ouro,
porém tem o cagadouro
muito baixo.
Traz o amigo cabisbaixo
com muitas aleivosias,
sendo, que às Ave-Marias
lhe fecha a porta.
Mas isso porém que importa
se ao fechar se põe já nua,
e sobre o plantar na rua
ainda a veste.
Fica dentro, quem a investe,
e o de fora suspirando
lhe grita de quando em quando
ora isto basta.
Há gente de tão má casta,
e de tão ruim catadura,
que até esta cornadura
bebe, e verte.
Todos Agrela converte,
porque se com tão ruim puta
a alma há de ser dissoluta,
antes mui Santa.
Quem encontra ossada tanta
nos beiços de uma caveira,
vai fugindo de carreira,
e a Deus busca.
Em uma cova se ofusca,
como eu estou ofuscado,
chorando o magro pecado,
que fiz com ela.
É mui semelhante a Agrela
a Mingota dos Negreiros,
que me mamou os dinheiros,
e pôs-me à orça.
A Mangá com ser de alcorça
dá-se a um Pardo vaganau,
que a cunha do mesmo pau
melhor atocha.
À Mariana da Rocha,
por outro nome a Pelica,
nenhum homem já dedica
a sua prata.
Não há no Brasil Mulata
que valha um recado só.
Mas Joana Picaró
O Brasil todo.
Se em gostos não me acomodo
das mais, não haja disputa,
cada um gabe a sua puta,
e haja sossego.
Porque eu calo o meu emprego
e o fiz com toda atenção,
porque tal veneração
se lhe devia.
Fica-te em boa, Bahia,
que eu me vou por esse mundo
cortando pelo mar fundo
numa barquinha.
Porque inda que és pátria minha,
sou segundo Cipião,
que com dobrada razão
a minha idéia
te diz "non possedebis ossa mea".
2 461
Pablo Neruda
XIX
Contaram o ouro que tem
o território do milho?
Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?
Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?
De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
o território do milho?
Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?
Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?
De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
1 026
Chico Buarque
Folhetim
Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim
E, se tiveres renda
Aceito uma prenda
Qualquer coisa assim
Como uma pedra falso
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim
E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis
Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte
Te afasta de mim
Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim
E, se tiveres renda
Aceito uma prenda
Qualquer coisa assim
Como uma pedra falso
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim
E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis
Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte
Te afasta de mim
Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim
3 383
Ona Gaia
Quero os Quadrados
QUERO OS QUADRADOS
OS REDONDOS, OS CURVOS
TODOS AGORA
PERFEITAMENTE CONCRETOS
NO MEU BOLSO
NA MINHA CAMA
À BEIRA MAR.
OS REDONDOS, OS CURVOS
TODOS AGORA
PERFEITAMENTE CONCRETOS
NO MEU BOLSO
NA MINHA CAMA
À BEIRA MAR.
791
Leal de Souza
Noturno
As luzes de ouro da cidade
Vaporam fúlgida neblina...
Esquivo ideal — felicidade,
Qual dessas luzes te ilumina ?
Fria a vontade e o peito ardente,
De bens e males sob os rastros,
O homem aos sonhos ergue a mente
E não levanta o olhar aos astros.
Por essas luzes atraídos,
Filhos do vale e da planura,
De longe vieram, atrevidos,
Bater às portas da ventura ...
As luzes de ouro da cidade
Vaporam fúlgida neblina...
Esquivo ideal — felicidade,
Qual dessas luzes te ilumina?...
Vaporam fúlgida neblina...
Esquivo ideal — felicidade,
Qual dessas luzes te ilumina ?
Fria a vontade e o peito ardente,
De bens e males sob os rastros,
O homem aos sonhos ergue a mente
E não levanta o olhar aos astros.
Por essas luzes atraídos,
Filhos do vale e da planura,
De longe vieram, atrevidos,
Bater às portas da ventura ...
As luzes de ouro da cidade
Vaporam fúlgida neblina...
Esquivo ideal — felicidade,
Qual dessas luzes te ilumina?...
937
João Quental
Aurora
"vôo sem pássaro dentro"
(Adolfo Casais Monteiro)
Não há dinheiro, vai-te embora, porque o telefone
não toca, alta madrugada? sei acordaria a famí1ia
que cavou um buraco na noite e não pode ser
incomodada mesmo que às vezes a fumaça histérica do
cigarro torne o nosso sono rancoroso dúbio estivemos
a conversar não adiantou nada novidades?
Não há dinheiro pois não venha quando quiser
amo-te com decepção nem tive o que olhei
em teus olhos resgatados, vírgulas para os amores,
assim não virão roer todos ao mesmo tempo
e o que peço é alguma coisa o que é eu não sei.
Não há dinheiro se o antes foi velho e o
depois pacífica compreensão difícil conhecer-te
os desejos de cegueira em cegueira permaneço
inocente esta raiva contra quem perguntaria
estamos aqui mas a vigília cansa dirige?
Vai, adormece logo, quantas vezes será
preciso dizer-te não sairei mais estou feliz
vigiarei ainda a porta a tranca não foi esquecida
desaconselho, qualquer, rancores, dorme, anos
gastei esperando, reuniu meus papéis velhos.
Vai, onde puseste as mãos nasceu logo
um segredo indócil quantas tardes lerás
essas bobagens boa literatura aqui no
canto da estante deves tentar o mundo
se vinga a gratidão teu prazer não é o meu.
Vai, ver-se doido é um despropósito e
não chegaremos a nos divertir sempre alguém
aparece sem dúvida cansaço homenagens constantes
ao mesmo deus assíduo irei só mas espero
concluir algo nem que seja fim nem que durma.
Não há noite que não acabe em
um final nada impede os finais a
escuridão é prévia mas não interessa
povoamos, cálculo puro, de civilizadas estrelas
os olhos desse pássaro morto em viagem.
(1989)
(Adolfo Casais Monteiro)
Não há dinheiro, vai-te embora, porque o telefone
não toca, alta madrugada? sei acordaria a famí1ia
que cavou um buraco na noite e não pode ser
incomodada mesmo que às vezes a fumaça histérica do
cigarro torne o nosso sono rancoroso dúbio estivemos
a conversar não adiantou nada novidades?
Não há dinheiro pois não venha quando quiser
amo-te com decepção nem tive o que olhei
em teus olhos resgatados, vírgulas para os amores,
assim não virão roer todos ao mesmo tempo
e o que peço é alguma coisa o que é eu não sei.
Não há dinheiro se o antes foi velho e o
depois pacífica compreensão difícil conhecer-te
os desejos de cegueira em cegueira permaneço
inocente esta raiva contra quem perguntaria
estamos aqui mas a vigília cansa dirige?
Vai, adormece logo, quantas vezes será
preciso dizer-te não sairei mais estou feliz
vigiarei ainda a porta a tranca não foi esquecida
desaconselho, qualquer, rancores, dorme, anos
gastei esperando, reuniu meus papéis velhos.
Vai, onde puseste as mãos nasceu logo
um segredo indócil quantas tardes lerás
essas bobagens boa literatura aqui no
canto da estante deves tentar o mundo
se vinga a gratidão teu prazer não é o meu.
Vai, ver-se doido é um despropósito e
não chegaremos a nos divertir sempre alguém
aparece sem dúvida cansaço homenagens constantes
ao mesmo deus assíduo irei só mas espero
concluir algo nem que seja fim nem que durma.
Não há noite que não acabe em
um final nada impede os finais a
escuridão é prévia mas não interessa
povoamos, cálculo puro, de civilizadas estrelas
os olhos desse pássaro morto em viagem.
(1989)
772
Pablo Neruda
A rua
Também te amo, rua repleta de rostos que arrastam sapatos, sapatos
que riscam a roda do orbe insultando armazéns,
e vivo no leito de um rio infinito de mercadorias,
retiro as mãos da devorante cinza que cai,
que envolvem a roupa que sai do cinema,
colo-me aos vidros olhando com fome chapéus que comeria
ou alfaias que querem matar-me com olhos de cólera verde
ou sabonetes tão suaves que se fizeram com suco de lua
ou livros de pele incitante que me ensinariam talvez a morrer
ou máquinas óticas que fotografam até tua tristeza
ou divãs dispostos às seduções mais inoxidáveis
ou o claro alumínio das caçarolas especializadas em ovos e aspargos
ou os trajes de bispo que a miúdo levam bolsos do Diabo
ou ferrarias amadas pela exatidão da minha alma
ou farmácias pálidas que ocultam, como as serpentes, sob o algodão
presas de arsênico, dentes de estricnina e unguentos letais,
ou tapetes vinílicos, estocolmos, brocados, milanos8
terylén, canhamaço, borlón9 e colchões de todo sossego
ou relógios que vão medir-nos e por fim tragar-nos
ou cadeiras de praia dobráveis adaptáveis a todo traseiro
ou teares com ratier, 1,36 Diederich, complicados e abstratos,
ou baixelas completas ou sofás floreados com capa
ou implacáveis espelhos que esperam demonstrar a
vingança da água
ou escopetas de repetição tão suavíssimas como um
focinho de lebre
ou adegas que se atulharam de cimento; e eu fecho os olhos:
são os ovos de Deus estes sacos terríveis que continuam parindo este mundo.
que riscam a roda do orbe insultando armazéns,
e vivo no leito de um rio infinito de mercadorias,
retiro as mãos da devorante cinza que cai,
que envolvem a roupa que sai do cinema,
colo-me aos vidros olhando com fome chapéus que comeria
ou alfaias que querem matar-me com olhos de cólera verde
ou sabonetes tão suaves que se fizeram com suco de lua
ou livros de pele incitante que me ensinariam talvez a morrer
ou máquinas óticas que fotografam até tua tristeza
ou divãs dispostos às seduções mais inoxidáveis
ou o claro alumínio das caçarolas especializadas em ovos e aspargos
ou os trajes de bispo que a miúdo levam bolsos do Diabo
ou ferrarias amadas pela exatidão da minha alma
ou farmácias pálidas que ocultam, como as serpentes, sob o algodão
presas de arsênico, dentes de estricnina e unguentos letais,
ou tapetes vinílicos, estocolmos, brocados, milanos8
terylén, canhamaço, borlón9 e colchões de todo sossego
ou relógios que vão medir-nos e por fim tragar-nos
ou cadeiras de praia dobráveis adaptáveis a todo traseiro
ou teares com ratier, 1,36 Diederich, complicados e abstratos,
ou baixelas completas ou sofás floreados com capa
ou implacáveis espelhos que esperam demonstrar a
vingança da água
ou escopetas de repetição tão suavíssimas como um
focinho de lebre
ou adegas que se atulharam de cimento; e eu fecho os olhos:
são os ovos de Deus estes sacos terríveis que continuam parindo este mundo.
539
Madi
Novo Amor
Novo Amor
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
868
Jonas da Silva
Barro Amarelo
Do cemitério o chão, aqui, a cova,
Parece de oiro: é lindo este amarelo.
Aqui vieram fazer o seu castelo
Os que passaram pela Grande Prova.
Os que têm fome de oiro, os que uma trova
À auricídia cantaram com desvelo,
Aqui o têm sob a folha do cutelo
Da Morte, curvo como a Lua Nova.
As raízes das árvores tenazes
Não penetram no solo socalcado;
No entanto viçam rosas e lilases.
— Vais em visita a alguém que tua alma chora?
Liga-te a argila os pés ao chão... Cuidado!
Este barro amarelo te devora! ...
Parece de oiro: é lindo este amarelo.
Aqui vieram fazer o seu castelo
Os que passaram pela Grande Prova.
Os que têm fome de oiro, os que uma trova
À auricídia cantaram com desvelo,
Aqui o têm sob a folha do cutelo
Da Morte, curvo como a Lua Nova.
As raízes das árvores tenazes
Não penetram no solo socalcado;
No entanto viçam rosas e lilases.
— Vais em visita a alguém que tua alma chora?
Liga-te a argila os pés ao chão... Cuidado!
Este barro amarelo te devora! ...
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Hardi Filho
Esdrúxulo
A prata, o caviar, a mesa elástica,
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
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