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Fernando Pessoa
Cessa o teu canto!
Cessa o teu canto!
Cessa, que, enquanto
O ouvi, ouvia
Uma outra voz
Como que vindo
Nos interstícios
Do brando encanto
Com que o teu canto
Vinha até nós.
Ouvi-te e ouvi-a
No mesmo tempo
E diferentes
Juntas a cantar.
E a melodia
Que não havia,
Se agora a lembro,
Faz-me chorar.
Foi tua voz
Encantamento
Que, sem querer,
Nesse momento,
Vago acordou
Um ser qualquer
Alheio a nós
Que nos falou?
Não sei. Não cantes!
Deixa-me ouvir
Qual o silêncio
Que há a seguir
A tu cantares!
Ah, nada, nada!
Só os pesares
De ter ouvido,
De ter querido
Ouvir para além
Do que é o sentido
Que uma voz tem.
Que anjo, ao ergueres
A tua voz,
Sem o saberes
Veio baixar
Sobre esta terra
Onde a alma erra
E com as asas
Soprou as brasas
De ignoto lar?
Não cantes mais!
Quero o silêncio
Para dormir
Qualquer memória
Da voz ouvida,
Desentendida,
Que foi perdida
Por eu a ouvir...
09/05/1934
Cessa, que, enquanto
O ouvi, ouvia
Uma outra voz
Como que vindo
Nos interstícios
Do brando encanto
Com que o teu canto
Vinha até nós.
Ouvi-te e ouvi-a
No mesmo tempo
E diferentes
Juntas a cantar.
E a melodia
Que não havia,
Se agora a lembro,
Faz-me chorar.
Foi tua voz
Encantamento
Que, sem querer,
Nesse momento,
Vago acordou
Um ser qualquer
Alheio a nós
Que nos falou?
Não sei. Não cantes!
Deixa-me ouvir
Qual o silêncio
Que há a seguir
A tu cantares!
Ah, nada, nada!
Só os pesares
De ter ouvido,
De ter querido
Ouvir para além
Do que é o sentido
Que uma voz tem.
Que anjo, ao ergueres
A tua voz,
Sem o saberes
Veio baixar
Sobre esta terra
Onde a alma erra
E com as asas
Soprou as brasas
De ignoto lar?
Não cantes mais!
Quero o silêncio
Para dormir
Qualquer memória
Da voz ouvida,
Desentendida,
Que foi perdida
Por eu a ouvir...
09/05/1934
4 467
Álvaro Feijó
Nossa Senhora da Apresentação
O altar as vagas
o dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas.
Ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na distância
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
os círios murchos das igrejas velhas
mas o lume de estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
Aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios doiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasgões da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos nos intervalos das campanhas,
aos bichanos que limpam de cabeças
e tripas de pescado
as muralhas do cais.
O dossel a espuma.
O altar das vagas
— e que altar enorme! —
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
— a Fome!
o dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas.
Ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na distância
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
os círios murchos das igrejas velhas
mas o lume de estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
Aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios doiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasgões da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos nos intervalos das campanhas,
aos bichanos que limpam de cabeças
e tripas de pescado
as muralhas do cais.
O dossel a espuma.
O altar das vagas
— e que altar enorme! —
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
— a Fome!
1 996
Carlos de Oliveira
Rumor de água
Rumor de água
Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refractada.
A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada.
de Colheita Perdida
Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refractada.
A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada.
de Colheita Perdida
2 333
Fernando Pessoa
Houve um ritmo no meu sono,
Houve um ritmo no meu sono.
Quando acordei o perdi.
Porque saí do abandono
De mim mesmo, em que vivi?
Não sei que era o que não era.
Sei que suave me embalou,
Como se o embalar quisera
Tornar-me outra vez quem sou.
Houve uma música finda
Quando acordei de a sonhar.
Mas não morreu: dura ainda
No que me faz não pensar.
11/06/1934
Quando acordei o perdi.
Porque saí do abandono
De mim mesmo, em que vivi?
Não sei que era o que não era.
Sei que suave me embalou,
Como se o embalar quisera
Tornar-me outra vez quem sou.
Houve uma música finda
Quando acordei de a sonhar.
Mas não morreu: dura ainda
No que me faz não pensar.
11/06/1934
4 663
Alípio Nunes da Mata
Habeo Tibi Gratiam
Em mãos a tua poética saudação
que me será o bom farol na vida,
pois ela me aponta o caminho à lida
e a terei como verdadeira bênção.
Bem vejo que é um homem de grande alma
e qual nobre sacerdote de Cristo
de tua bondade o gesto ficou visto
na fidalguia de tua formosa calma.
Teu soneto enaltece a gente minha
que admira a pulcritude do bem estro
que, em tempos vividos, eu também tinha.
que me será o bom farol na vida,
pois ela me aponta o caminho à lida
e a terei como verdadeira bênção.
Bem vejo que é um homem de grande alma
e qual nobre sacerdote de Cristo
de tua bondade o gesto ficou visto
na fidalguia de tua formosa calma.
Teu soneto enaltece a gente minha
que admira a pulcritude do bem estro
que, em tempos vividos, eu também tinha.
1 037
Robert Desnos
Se glisser dans ton ombre à la faveur de la nuit
Se glisser dans ton ombre à la faveur de la nuit
Suivre tes pas, ton ombre à la fenêtre.
Cette ombre à la fenêtre cest toi, ce nest pas une ombre, cest toi.
Nouvre pas cette fenêtre derrière les rideaux de laquelle tu bouges.
Ferme les yeux.
Je voudrais les fermer avec mes lèvres.
Mais la fenêtre souvre et le vent, le vent qui balance bizarrement la flamme et le drapeau entoure ma fuite de son manteau.
La fenêtre souvre : ce nest pas toi.
Je le savais bien.
Suivre tes pas, ton ombre à la fenêtre.
Cette ombre à la fenêtre cest toi, ce nest pas une ombre, cest toi.
Nouvre pas cette fenêtre derrière les rideaux de laquelle tu bouges.
Ferme les yeux.
Je voudrais les fermer avec mes lèvres.
Mais la fenêtre souvre et le vent, le vent qui balance bizarrement la flamme et le drapeau entoure ma fuite de son manteau.
La fenêtre souvre : ce nest pas toi.
Je le savais bien.
1 612
Ana Cristina Cesar
Sem você
Sem você bem que sou lago, montanha.
Penso num homem chamado Herberto.
Me deito a fumar debaixo da janela.
Respiro com vertigem. Rolo no colchão.
E sem bravata, coração, aumenta o preço.
Penso num homem chamado Herberto.
Me deito a fumar debaixo da janela.
Respiro com vertigem. Rolo no colchão.
E sem bravata, coração, aumenta o preço.
2 013
Carlos de Oliveira
Soneto Fiel
Vocábulos de sílica,
aspereza,chuva nas dunas,tojos,animaiscaçados entre névoas
matinais,a beleza que têm se é beleza.O trabalho da
plaina portuguesa,as ondas de madeira
artesanaisdeixando o seu fulgor nos areais,a solidão coalhada
sobre a mesa.As sílabas de cedro, de
papel,a espuma vegetal, o selo de água,caindo-me nas
mãos desde o início.O abat-jour,o seu luar
fiel,insinuando sem amor nem mágoaa noite que cercou o meu
ofício.
aspereza,chuva nas dunas,tojos,animaiscaçados entre névoas
matinais,a beleza que têm se é beleza.O trabalho da
plaina portuguesa,as ondas de madeira
artesanaisdeixando o seu fulgor nos areais,a solidão coalhada
sobre a mesa.As sílabas de cedro, de
papel,a espuma vegetal, o selo de água,caindo-me nas
mãos desde o início.O abat-jour,o seu luar
fiel,insinuando sem amor nem mágoaa noite que cercou o meu
ofício.
2 295
Luís de Camões
Glosa a mote alheio
Vejo-a na alma pintada,
Quando me pede o desejo
O natural que não vejo.
Se só no ver puramente
Me transformei no que vi,
De vista tão excelente
Mal poderei ser ausente,
Enquanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
A traz tão bem debuxada
E a memória tanto voa,
Que, se a não vejo em pessoa,
Vejo-a na alma pintada.
O desejo, que se estende
Ao que menos se concede,
Sobre vós pede e pretende,
Como o doente que pede
O que mais se lhe defende.
Eu, que em ausência vos vejo,
Tenho piedade e pejo
De me ver tão pobre estar,
Que então não tenho que dar,
Quando me pede o desejo.
Como àquele que cegou
É cousa vista e notória,
Que a Natureza ordenou
Que se lhe dobre em memória
O que em vista lhe faltou,
Assim a mim, que não rejo
Os olhos ao que desejo,
Na memória e na firmeza
Me concede a Natureza
O natural que não vejo.
Quando me pede o desejo
O natural que não vejo.
Se só no ver puramente
Me transformei no que vi,
De vista tão excelente
Mal poderei ser ausente,
Enquanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
A traz tão bem debuxada
E a memória tanto voa,
Que, se a não vejo em pessoa,
Vejo-a na alma pintada.
O desejo, que se estende
Ao que menos se concede,
Sobre vós pede e pretende,
Como o doente que pede
O que mais se lhe defende.
Eu, que em ausência vos vejo,
Tenho piedade e pejo
De me ver tão pobre estar,
Que então não tenho que dar,
Quando me pede o desejo.
Como àquele que cegou
É cousa vista e notória,
Que a Natureza ordenou
Que se lhe dobre em memória
O que em vista lhe faltou,
Assim a mim, que não rejo
Os olhos ao que desejo,
Na memória e na firmeza
Me concede a Natureza
O natural que não vejo.
8 420
Fernando Pessoa
Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.
Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.
Melhor entre onde os ramos
Tecem dosséis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.
10/10/1933
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.
Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.
Melhor entre onde os ramos
Tecem dosséis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.
10/10/1933
5 984
Florbela Espanca
A Tua Voz Na Primavera
Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!
Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo beijo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!
Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos...
Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!
Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo beijo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!
Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos...
Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!
6 846
Luisa Bagão
Cheiro a Terra Molhada
Cheiro a terra molhada
o deserto
a noite e o choro
da criança que acaba de nascer
o ponteiro do relógio
imaginário
que não marca tempos ou memórias
a carne e a pólvora
o sangue
uma secreta raiva
desesperante de amor e solidão:
o descobrir de um mar em teus olhos.
o deserto
a noite e o choro
da criança que acaba de nascer
o ponteiro do relógio
imaginário
que não marca tempos ou memórias
a carne e a pólvora
o sangue
uma secreta raiva
desesperante de amor e solidão:
o descobrir de um mar em teus olhos.
1 079
Jorge de Lima
Inverno
Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá f ora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha dágua,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá f ora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha dágua,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!
8 659
Eugénio de Andrade
Cristalizações
1.
Com palavras amo.
2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.
3.
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.
4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.
5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?
6.
Estou de passagem:
ama o efémero.
7.
Onde espero morrer
será amanhã ainda?
de Ostinato Rigore
Com palavras amo.
2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.
3.
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.
4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.
5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?
6.
Estou de passagem:
ama o efémero.
7.
Onde espero morrer
será amanhã ainda?
de Ostinato Rigore
6 333
Sylvia Plath
Febre, 40°
Pura? Como assim?
As línguas do inferno
São sujas, sujas como as três
Línguas do sujo e gordo Cérbero
Que arfa ao portão. Incapaz
De lamber e limpar
O membro em febre, o pecado, o pecado.
A chama chora.
O cheiro inconfundível
De um toco de vela!
Amor, amor, a fumaça escapa de mim
Como a écharpe de Isadora, e temo
Que uma das pontas ancore-se na roda.
Uma fumaça amarela e lenta assim
faz de si seu elemento. Não vai subir,
Mas envolver o globo
Sufocando o velho e o oprimido,
O frágil
Bebê em seu berço,
Orquídea pálida
Suspensa em seu jardim suspenso no ar,
Leopardo diabólico!
A radiação o embarque
E o mata em uma hora.
Engordurando os corpos dos adúlteros
Como as cinzas de Hiroshima que os devora.
O pecado. O pecado.
Meu bem, passei a noite
Me virando, indo e vindo, indo e vindo,
Os lençóis me oprimindo como o beijo de um devasso.
Três dias. Três noites.
Limonada, canja
Aguarda, água me deixe enjoada.
Sou pura demais pra você ou pra qualquer um.
Seu corpo
Me ofende como o mundo ofende Deus. Sou uma lanterna –
Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele folheada a ouro
Infinitamente delicada e infinitamente cara.
Meu calor não te assusta. Nem minha luz.
Sou uma camélia imensa
Que oscila e jorra e brilha, gozo a gozo.
Acho que estou chegando,
Acho que posso levantar –
Contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu
Sou uma virgem pura
De acetileno
Cercada de rosas,
De beijos, de querubins,
Ou do que sejam essas coisas róseas.
Não você, nem ele,
Não ele, nem ele
(Eu me dissolvo toda, anágua de puta velha) –
Ao Paraíso.
As línguas do inferno
São sujas, sujas como as três
Línguas do sujo e gordo Cérbero
Que arfa ao portão. Incapaz
De lamber e limpar
O membro em febre, o pecado, o pecado.
A chama chora.
O cheiro inconfundível
De um toco de vela!
Amor, amor, a fumaça escapa de mim
Como a écharpe de Isadora, e temo
Que uma das pontas ancore-se na roda.
Uma fumaça amarela e lenta assim
faz de si seu elemento. Não vai subir,
Mas envolver o globo
Sufocando o velho e o oprimido,
O frágil
Bebê em seu berço,
Orquídea pálida
Suspensa em seu jardim suspenso no ar,
Leopardo diabólico!
A radiação o embarque
E o mata em uma hora.
Engordurando os corpos dos adúlteros
Como as cinzas de Hiroshima que os devora.
O pecado. O pecado.
Meu bem, passei a noite
Me virando, indo e vindo, indo e vindo,
Os lençóis me oprimindo como o beijo de um devasso.
Três dias. Três noites.
Limonada, canja
Aguarda, água me deixe enjoada.
Sou pura demais pra você ou pra qualquer um.
Seu corpo
Me ofende como o mundo ofende Deus. Sou uma lanterna –
Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele folheada a ouro
Infinitamente delicada e infinitamente cara.
Meu calor não te assusta. Nem minha luz.
Sou uma camélia imensa
Que oscila e jorra e brilha, gozo a gozo.
Acho que estou chegando,
Acho que posso levantar –
Contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu
Sou uma virgem pura
De acetileno
Cercada de rosas,
De beijos, de querubins,
Ou do que sejam essas coisas róseas.
Não você, nem ele,
Não ele, nem ele
(Eu me dissolvo toda, anágua de puta velha) –
Ao Paraíso.
1 084
Artur de Azevedo
Por decoro
Quando me esperas, palpitando amores,
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;
quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;
os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranqüilos,
olham, meu doce amor, de tal maneira,
que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;
quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;
os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranqüilos,
olham, meu doce amor, de tal maneira,
que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.
1 742
Manuel António Pina
Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas,as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo,agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu,pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor,permite que algo permanença,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte,nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agoa o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint."
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas,as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo,agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu,pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor,permite que algo permanença,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte,nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agoa o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint."
4 853
Celso Emilio Ferreiro
Non
Si dixese que sí,
que todo está moi ben,
que o mundo está moi bon,
que cada quén é quén...
Conformidá.
Ademiración.
Calar, calar, calar,
e moita precaución.
Si dixese que acaso
as cousas son esí,
porque sí,
veleí,
e non lle demos voltas.
(Si aquíl está enriba
i aquil outro debaixo
é por culpa da vida.
Si algunhos van de porta en porta
cun saco de cinza ás costas
é porque son unhos docas).
Si dixera que sí...
Entón sería o intre
de falar seriamente
da batalla de froles
nas festas do patrón.
Pero non.
que todo está moi ben,
que o mundo está moi bon,
que cada quén é quén...
Conformidá.
Ademiración.
Calar, calar, calar,
e moita precaución.
Si dixese que acaso
as cousas son esí,
porque sí,
veleí,
e non lle demos voltas.
(Si aquíl está enriba
i aquil outro debaixo
é por culpa da vida.
Si algunhos van de porta en porta
cun saco de cinza ás costas
é porque son unhos docas).
Si dixera que sí...
Entón sería o intre
de falar seriamente
da batalla de froles
nas festas do patrón.
Pero non.
1 281
Cruz e Sousa
ACROBATA DA DOR
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...
Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas daço. . .
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...
Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas daço. . .
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
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Natália Correia
A Defesa do Poeta
Senhores jurados sou um
poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com
uma camisa de vento ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de
armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim Sou em código o azul
de todos (curtido couro de cicatrizes) uma
avaria cantante na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte
serei não há cidade sem o parque do sono que
vos roubei Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição de raptar-me em
crianças que salvo do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes
sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis Senhores
heróis até aos dentes puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais
além Senhores três quatro cinco e sete que
medo vos pôs na ordem ? que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ? Senhores
juízes que não molhais a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante
minha defesa Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever ó
subalimentados do sonho ! a poesia é para comer.
de A Mosca Iluminada(1972)
poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com
uma camisa de vento ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de
armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim Sou em código o azul
de todos (curtido couro de cicatrizes) uma
avaria cantante na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte
serei não há cidade sem o parque do sono que
vos roubei Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição de raptar-me em
crianças que salvo do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes
sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis Senhores
heróis até aos dentes puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais
além Senhores três quatro cinco e sete que
medo vos pôs na ordem ? que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ? Senhores
juízes que não molhais a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante
minha defesa Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever ó
subalimentados do sonho ! a poesia é para comer.
de A Mosca Iluminada(1972)
3 291
Fernando Pessoa
Passos tardam na relva
Passos tardam na relva
Entre o luar e o luar,
Tudo é eflúvio e selva.
Sente-se alguém passar.
Passa, pisando leve
O chão que o luar desmente,
Num pálido hausto leve
De pisar levemente.
É elfo, é gnomo, é fada
A forma que ninguém vê?
Lembro: não houve nada.
Sinto, e a saudade crê.
05/09/1933
Entre o luar e o luar,
Tudo é eflúvio e selva.
Sente-se alguém passar.
Passa, pisando leve
O chão que o luar desmente,
Num pálido hausto leve
De pisar levemente.
É elfo, é gnomo, é fada
A forma que ninguém vê?
Lembro: não houve nada.
Sinto, e a saudade crê.
05/09/1933
4 855
Jorge de Lima
Pelo Silêncio
Pelo silêncio que a envolveu, por essa
aparente distância inatingida,
pela disposição de seus cabelos
arremessados sobre a noite escura:
pela imobilidade que começa
a afastá-la talvez da humana vida
provocando-nos o hábito de vê-la
entre estrelas do espaço e da loucura;
pelos pequenos astros e satélites
formando nos cabelos um diadema
a iluminar o seu formoso manto,
vós que julgais extinta Mira-Celi
observai neste mapa o vivo poema
que é a vida oculta dessa eterna infanta.
aparente distância inatingida,
pela disposição de seus cabelos
arremessados sobre a noite escura:
pela imobilidade que começa
a afastá-la talvez da humana vida
provocando-nos o hábito de vê-la
entre estrelas do espaço e da loucura;
pelos pequenos astros e satélites
formando nos cabelos um diadema
a iluminar o seu formoso manto,
vós que julgais extinta Mira-Celi
observai neste mapa o vivo poema
que é a vida oculta dessa eterna infanta.
7 068
Mário de Sá-Carneiro
Serradura
Serradura
A minha vida sentou-se
E não há quem a levante ,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
E ei-la,a mona ,lá está,
Estendida ,a perna traçada ,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada .
Pois é assim:a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.
Vai aos Cafés,pede um bock,
Lê o "Matin" de castigo ,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo!
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa ,mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.
Folhetim da "Capital"
Pelo o nosso Júlio Dantas -
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual …
O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…
Qualquer dia ,pela certa ,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate ,
Se encontra uma porta aberta…
Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
-P´ra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:
O que era fácil -partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel
A gritar "Viva a Alemanha"…
Mas a minha Alma,em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade.
Vou deixá-la-decidido-
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um final mais raffiné.
A minha vida sentou-se
E não há quem a levante ,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
E ei-la,a mona ,lá está,
Estendida ,a perna traçada ,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada .
Pois é assim:a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.
Vai aos Cafés,pede um bock,
Lê o "Matin" de castigo ,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo!
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa ,mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.
Folhetim da "Capital"
Pelo o nosso Júlio Dantas -
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual …
O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…
Qualquer dia ,pela certa ,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate ,
Se encontra uma porta aberta…
Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
-P´ra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:
O que era fácil -partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel
A gritar "Viva a Alemanha"…
Mas a minha Alma,em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade.
Vou deixá-la-decidido-
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um final mais raffiné.
7 272
Manuel Alegre
Regresso
E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.
Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.
Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.
De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.
Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.
Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.
De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.
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