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Augusto Massi
RONDÓ DA CONSOLAÇÃO
Nossa Senhora da Consolação
Protegei-nos em nossa peregrinação
Ao cruzar tua estéril e única praça,
Teus hotéis baratos, cartórios às traças
E, no Mackenzie, o graffito da mijada.
Consolai
Estendei-nos suas mãos de asfalto
E o refrão que nos toma de assalto
Mal partimos de tua morada.
Consolai
Dissipai minha solidão de pária,
Na tua ampla quadra mortuária,
Bombeiros chamuscados de mistério,
E o vasto paredão do cemitério.
Nossa Senhora da Consolação,
Consolai
Das tarefas fatigantes da errância,
Procuro novas capelas tão em voga,
A santa prostituição de Dona Olga,
Consolai
Olhai, Nossa Senhora das variedades,
Pelo Sujinho, a melhor bisteca da cidade,
Pela longa lista de lojas de lustres,
Pelo Riviera dos anônimos ilustres,
Pelas seis salas do Belas Artes,
Consolai
Vago na multidão que te envenena,
Infortúnios que a miséria encena.
Em qualquer trecho desta rua,
Consolai
Nossa Senhora da Consolação,
Aforismo trágico da contradição,
Bizarra colisão entre vida e arte,
Ruga enraizada no rosto da cidade,
Nosso último verso moderno,
Consolai
Protegei-nos em nossa peregrinação
Ao cruzar tua estéril e única praça,
Teus hotéis baratos, cartórios às traças
E, no Mackenzie, o graffito da mijada.
Consolai
Estendei-nos suas mãos de asfalto
E o refrão que nos toma de assalto
Mal partimos de tua morada.
Consolai
Dissipai minha solidão de pária,
Na tua ampla quadra mortuária,
Bombeiros chamuscados de mistério,
E o vasto paredão do cemitério.
Nossa Senhora da Consolação,
Consolai
Das tarefas fatigantes da errância,
Procuro novas capelas tão em voga,
A santa prostituição de Dona Olga,
Consolai
Olhai, Nossa Senhora das variedades,
Pelo Sujinho, a melhor bisteca da cidade,
Pela longa lista de lojas de lustres,
Pelo Riviera dos anônimos ilustres,
Pelas seis salas do Belas Artes,
Consolai
Vago na multidão que te envenena,
Infortúnios que a miséria encena.
Em qualquer trecho desta rua,
Consolai
Nossa Senhora da Consolação,
Aforismo trágico da contradição,
Bizarra colisão entre vida e arte,
Ruga enraizada no rosto da cidade,
Nosso último verso moderno,
Consolai
1 058
Anna Akhmatova
Música
Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
3 054
Álvaro Feijó
Os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste
I
Quando eu morrer — e hei de morrer primeiro
Do que tu — não deixes de fechar-me os olhos
Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
E ver-te-ás de corpo inteiro.
Como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
Dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
Fecha-me os olhos com um beijo.
(Eu, Marco Póli)
Farei a nebulosa travessia
E o rastro da minha barca
Segui-los-á em pensamento. Abarca
Nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
Ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus,
II
Não um adeus distante
Ou um adeus de quem não torna cá,
Nem espera tornar. Um adeus de até já,
Como a alguém que se espera a cada instante.
Que eu voltarei. Eu sei que hei de voltar
De novo para ti, no mesmo barco
Sem remos e sem velas, pelo charco
Azul do céu, cansado de lá estar.
E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora
Assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
To peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
Talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?
Quando eu morrer — e hei de morrer primeiro
Do que tu — não deixes de fechar-me os olhos
Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
E ver-te-ás de corpo inteiro.
Como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
Dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
Fecha-me os olhos com um beijo.
(Eu, Marco Póli)
Farei a nebulosa travessia
E o rastro da minha barca
Segui-los-á em pensamento. Abarca
Nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
Ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus,
II
Não um adeus distante
Ou um adeus de quem não torna cá,
Nem espera tornar. Um adeus de até já,
Como a alguém que se espera a cada instante.
Que eu voltarei. Eu sei que hei de voltar
De novo para ti, no mesmo barco
Sem remos e sem velas, pelo charco
Azul do céu, cansado de lá estar.
E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora
Assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
To peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
Talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?
4 819
Calex Fagundes
Vagina
I
Teus lábios,
doce mel de frutas sazonais,
se oferecem livres
ao desfrutar dos beijos.
Tua boca molhada,
ostra aberta ao desejo,
saliva de todas delícias.
A flor de todas carícias
tuas pétalas
ficam expostas aos meus sentidos.
Abre-se,
jardim das virtudes,
fazendo-se carne
e despeja sobre mim
tua água farta.
O calor de teus ermos,
o vale de tua sombra,
transmite-me, dentro de ti,
a dádiva profana da terra onde
todos os frutos habitam
e se depositam
todas as sementes.
Sabe-se que tu, mulher,
antes de mais nada
tens a vagina preparada
para afirmar-te fêmea
a qualquer tempo.
II
Tenho a ânsia infinita de te possuir
até o fundo, sem qualquer constrangimento.
E ao mesmo tempo quero fazer-te sentir
-se, então, senhora nem que por um momento.
Em meio à faina, meio da batalha.
Espada em riste, sem traço de clemência.
Afasto as portas de tua residência
e cravo tudo rompendo a tua malha.
E ao sentir-se tão fundo lancetada
tua vagina entrega-se de todo,
vibra por dentro, toda encharcada
e me domina enquanto eu a fodo.
E a luta afasta de nós todas as éticas
no afã de possuir a alma alheia.
Uma ciranda entoada sem poéticas,
uma charanga expressa em carne, nervo e veia.
E eu te domo, gazela desfreada.
E eu te como, boceta enfurecida.
Eu te quero assim, escancarada,
pra despejar em ti a minha vida.
E se aproxima a última estocada
o frenesi expresso, uníssono dueto
tua boceta me traga esfaimada
e te devoro no teu fundo aposento.
Mas num momento em que tudo é mais tudo,
como se fizesse a morte inquilina.
nesse instante supremo eu fico mudo
e me rendo, inteiro, em tua vagina.
Teus lábios,
doce mel de frutas sazonais,
se oferecem livres
ao desfrutar dos beijos.
Tua boca molhada,
ostra aberta ao desejo,
saliva de todas delícias.
A flor de todas carícias
tuas pétalas
ficam expostas aos meus sentidos.
Abre-se,
jardim das virtudes,
fazendo-se carne
e despeja sobre mim
tua água farta.
O calor de teus ermos,
o vale de tua sombra,
transmite-me, dentro de ti,
a dádiva profana da terra onde
todos os frutos habitam
e se depositam
todas as sementes.
Sabe-se que tu, mulher,
antes de mais nada
tens a vagina preparada
para afirmar-te fêmea
a qualquer tempo.
II
Tenho a ânsia infinita de te possuir
até o fundo, sem qualquer constrangimento.
E ao mesmo tempo quero fazer-te sentir
-se, então, senhora nem que por um momento.
Em meio à faina, meio da batalha.
Espada em riste, sem traço de clemência.
Afasto as portas de tua residência
e cravo tudo rompendo a tua malha.
E ao sentir-se tão fundo lancetada
tua vagina entrega-se de todo,
vibra por dentro, toda encharcada
e me domina enquanto eu a fodo.
E a luta afasta de nós todas as éticas
no afã de possuir a alma alheia.
Uma ciranda entoada sem poéticas,
uma charanga expressa em carne, nervo e veia.
E eu te domo, gazela desfreada.
E eu te como, boceta enfurecida.
Eu te quero assim, escancarada,
pra despejar em ti a minha vida.
E se aproxima a última estocada
o frenesi expresso, uníssono dueto
tua boceta me traga esfaimada
e te devoro no teu fundo aposento.
Mas num momento em que tudo é mais tudo,
como se fizesse a morte inquilina.
nesse instante supremo eu fico mudo
e me rendo, inteiro, em tua vagina.
7 992
Fernando Tanajura Menezes
Poucas palavras
Fique nu no meu quarto.
Mostre toda sua gana.
Dê um beijo moreno.
Diga que ainda me ama.
Negue que teve outras.
Vista a roupa ligeiro.
Vá correr pelo mundo.
Minta que é o primeiro.
Faça assim um romance.
Conte a intimidade.
Fale tudo que sente.
Prove a toda cidade.
Volte logo que possa.
Bata a porta de leve.
Caia louco em meus braços.
Fale não. Seja breve.
Mostre toda sua gana.
Dê um beijo moreno.
Diga que ainda me ama.
Negue que teve outras.
Vista a roupa ligeiro.
Vá correr pelo mundo.
Minta que é o primeiro.
Faça assim um romance.
Conte a intimidade.
Fale tudo que sente.
Prove a toda cidade.
Volte logo que possa.
Bata a porta de leve.
Caia louco em meus braços.
Fale não. Seja breve.
930
Ferreira Gullar
Isso e Aquilo
Você é
seu corpo
sua voz seu osso
você é seu cheiro
e o cheiro do outro
o prazer do beijo
você é seu gozo
o que vai morrer
quando o corpo morra
mas também aquela
alegria (verso
melodia)
que intangível, adeja
acima
do que a morte beija.
seu corpo
sua voz seu osso
você é seu cheiro
e o cheiro do outro
o prazer do beijo
você é seu gozo
o que vai morrer
quando o corpo morra
mas também aquela
alegria (verso
melodia)
que intangível, adeja
acima
do que a morte beija.
3 005
Amélia Rodrigues
Desejo
Quando a luz do teu olhar
Perpassa sobre o meu corpo
Nu...
Quando os teus dedos longos
Acariciam a minha pele
Envolvendo-me
Num sentimento rico,
Infinito...
Quando os teus músculos
Contraem-se sob mim,
Elevando-me às estrelas,
À lua, ao prazer...
Quando sorvo o teu sêmen
Doce
Entre carícias e afagos...
Sinto que te amo!
Enlouqueço ao pensar
Que vais partir
Levando contigo
Toda a beleza do teu corpo,
Da tua alma.
Sinto que te amo
E tenho ganas de gritar,
Ao mundo,
Todo o meu amor,
Entregando-te a minha vida
Para suprir a tua
Nas carências do teu coração.
Desejo o teu calor
Abrasante,
Queimando as minhas mucosas
E ardendo-me de prazer ...
Desejo a tua voz,
O teu sorriso,
O teu amor...
Desejo você,
TODO,
Sem mistérios, sem afrontas,
Simplesmente...
Quero envolver-te em meus braços
Fazer-te líquido
Na solidez dos meus carinhos,
Sorver-te por inteiro
E saborear o teu gozo
Sedenta de amor.
Perpassa sobre o meu corpo
Nu...
Quando os teus dedos longos
Acariciam a minha pele
Envolvendo-me
Num sentimento rico,
Infinito...
Quando os teus músculos
Contraem-se sob mim,
Elevando-me às estrelas,
À lua, ao prazer...
Quando sorvo o teu sêmen
Doce
Entre carícias e afagos...
Sinto que te amo!
Enlouqueço ao pensar
Que vais partir
Levando contigo
Toda a beleza do teu corpo,
Da tua alma.
Sinto que te amo
E tenho ganas de gritar,
Ao mundo,
Todo o meu amor,
Entregando-te a minha vida
Para suprir a tua
Nas carências do teu coração.
Desejo o teu calor
Abrasante,
Queimando as minhas mucosas
E ardendo-me de prazer ...
Desejo a tua voz,
O teu sorriso,
O teu amor...
Desejo você,
TODO,
Sem mistérios, sem afrontas,
Simplesmente...
Quero envolver-te em meus braços
Fazer-te líquido
Na solidez dos meus carinhos,
Sorver-te por inteiro
E saborear o teu gozo
Sedenta de amor.
2 051
Gregório de Matos
Anjo Bento
Destes que campam no mundo
Sem ter engenho profundo
E, entre gabos dos amigos,
Os vemos em papafigos
Sem tempestade, nem vento:
Anjo Bento!
De quem com letras secretas
Tudo o que alcança é por tretas,
Baculejando sem pejo,
Por matar o seu desejo,
Desde a manhã té à tarde:
Deus me guarde!
Do que passeia farfante,
Muito prezado de amante,
Por fora luvas, galões,
Insígnias, armas, bastões,
Por dentro pão bolorento:
Anjo Bento!
Destes beatos fingidos,
Cabisbaixos, encolhidos,
Por dentro fatais maganos,
Sendo nas caras uns Janos:
Que fazem do vício alarde:
Deus me guarde!
Que vejamos teso andar
Quem mal sabe engatinhar,
Muito inteiro e presumido,
Ficando o outro abatido
Com maior merecimento:
Anjo Bento!
Destes avaros mofinos,
Que põem na mesa pepinos,
De toda a iguaria isenta,
Com seu limão e pimenta,
Porque diz que o queima e arde:
Deus me guarde!
Sem ter engenho profundo
E, entre gabos dos amigos,
Os vemos em papafigos
Sem tempestade, nem vento:
Anjo Bento!
De quem com letras secretas
Tudo o que alcança é por tretas,
Baculejando sem pejo,
Por matar o seu desejo,
Desde a manhã té à tarde:
Deus me guarde!
Do que passeia farfante,
Muito prezado de amante,
Por fora luvas, galões,
Insígnias, armas, bastões,
Por dentro pão bolorento:
Anjo Bento!
Destes beatos fingidos,
Cabisbaixos, encolhidos,
Por dentro fatais maganos,
Sendo nas caras uns Janos:
Que fazem do vício alarde:
Deus me guarde!
Que vejamos teso andar
Quem mal sabe engatinhar,
Muito inteiro e presumido,
Ficando o outro abatido
Com maior merecimento:
Anjo Bento!
Destes avaros mofinos,
Que põem na mesa pepinos,
De toda a iguaria isenta,
Com seu limão e pimenta,
Porque diz que o queima e arde:
Deus me guarde!
7 148
Fernando Pessoa
O ANDAIME
O ANDAIME
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.
A sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que a minha sp'rança
Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam – verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.
Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só as lembranças,
Mas as mortas esperanças –
Mortas, porque hão-de morrer.
Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim –
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser – muro
Do meu deserto jardim.
Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.
(Presença, nº 31-32, Junho de 1931)
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.
A sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que a minha sp'rança
Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam – verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.
Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só as lembranças,
Mas as mortas esperanças –
Mortas, porque hão-de morrer.
Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim –
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser – muro
Do meu deserto jardim.
Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.
(Presença, nº 31-32, Junho de 1931)
4 971
Bocage
Fiei-me nos sorrisos da Ventura
Fiei-me nos sorrisos da Ventura,
Em mimos feminis. Como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.
No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e oco,
Pareço, até no tom lúgubre e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura.
Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta!
Ah!, não me roubou tudo a negra Sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.
Em mimos feminis. Como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.
No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e oco,
Pareço, até no tom lúgubre e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura.
Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta!
Ah!, não me roubou tudo a negra Sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.
2 780
Mário Rui de Oliveira
Em estado puro
Em estado puro
Numa das esculturas de Giacometti, tocadas ainda de fogo, um homem
caminha, em movimento solitário e eterno. Não sabemos se entra, se
sai da morte, mas conseguimos reconhecer, na nobreza do cobre, a
própria condição humana. Como benção ou danação, o escultor devolve-
nos a vida em estado puro.
Viver é também isso. Percorrer um campo de anémonas, quase com
vergonha do que trazemos escondido, na mão.
Numa das esculturas de Giacometti, tocadas ainda de fogo, um homem
caminha, em movimento solitário e eterno. Não sabemos se entra, se
sai da morte, mas conseguimos reconhecer, na nobreza do cobre, a
própria condição humana. Como benção ou danação, o escultor devolve-
nos a vida em estado puro.
Viver é também isso. Percorrer um campo de anémonas, quase com
vergonha do que trazemos escondido, na mão.
961
Gláucia Lemos
Poema do Amanhecer
Que hoje o meu primeiro pensamento
seja como a luz branca da manhã
que envolve os picos
e as pontas da grama.
E faça amanhecerem as emoções.
Que nessa luz eu esteja.
Que hoje a minha intenção primeira
seja como a mão de Deus na estrada certa
ou bastão de pastor
na trilha verde.
E nessa mão me vejas.
Que hoje a minha sílaba primeira
não se abra em meu lábio,
e eu me cale.
Que nada te dirá mais que o meu beijo.
E que esse beijo eu seja.
13.06.96
seja como a luz branca da manhã
que envolve os picos
e as pontas da grama.
E faça amanhecerem as emoções.
Que nessa luz eu esteja.
Que hoje a minha intenção primeira
seja como a mão de Deus na estrada certa
ou bastão de pastor
na trilha verde.
E nessa mão me vejas.
Que hoje a minha sílaba primeira
não se abra em meu lábio,
e eu me cale.
Que nada te dirá mais que o meu beijo.
E que esse beijo eu seja.
13.06.96
2 009
Antônio Mendes Cardoso
Poema
Na espuma verde
do mar
desenharei o teu nome,
Em cada areia
da praia
em cada pólen
da flor
em cada gota
do orvalho
o teu nome
deixarei gravado
No protesto calado
de cada homem ultrajado
em cada insulto
em cada folha caída
em cada boca faminta
hei de escrever
o teu nome
Nos seis férteis
das virgens
nos sorrisos perenes
das mães
nos dedos dos namorados
no embrião da semente
na luz irreal das estrelas
nos limites do tempo
hei de uma esperança semear.
do mar
desenharei o teu nome,
Em cada areia
da praia
em cada pólen
da flor
em cada gota
do orvalho
o teu nome
deixarei gravado
No protesto calado
de cada homem ultrajado
em cada insulto
em cada folha caída
em cada boca faminta
hei de escrever
o teu nome
Nos seis férteis
das virgens
nos sorrisos perenes
das mães
nos dedos dos namorados
no embrião da semente
na luz irreal das estrelas
nos limites do tempo
hei de uma esperança semear.
1 364
Fernando Pessoa
EU
Sou louco e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.
Depois, malograda trajectória
Do meu destino sem esperança,
Perdi, na névoa da noite inglória
O saber e o ousar da aliança.
Só guardo como um anel pobre
Que a todo o herdado só faz rico
Um frio perdido que me cobre
Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.
24/09/1923
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.
Depois, malograda trajectória
Do meu destino sem esperança,
Perdi, na névoa da noite inglória
O saber e o ousar da aliança.
Só guardo como um anel pobre
Que a todo o herdado só faz rico
Um frio perdido que me cobre
Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.
24/09/1923
5 773
Jorge de Sena
Tendo lido uma carta
Tendo lido uma carta acerca de um seu livro de poemas ,que oferecera
Por que entristeço ao ler o que de meus
versos escrevem,se não é de mim
que escrevem?
Será que chora em mim o que meus versos foram
antes de ser meus?
Por que pergunto,se já sei por quê?
Escuto longamente,leio,espero,
e o poema é voz de toda a gente,todos eles,que,
não se tendo ouvido,não a sabem sua.
E vêm chorar em mim o coração traído,
a música perdida em distracções urgentes,
uma palavras que ninguém falou.
Não entristeço,pois.Apenas sou pergunta,
e,sendo eu,me esqueço ao perguntar.
de Post-Scriptum(1960)
Por que entristeço ao ler o que de meus
versos escrevem,se não é de mim
que escrevem?
Será que chora em mim o que meus versos foram
antes de ser meus?
Por que pergunto,se já sei por quê?
Escuto longamente,leio,espero,
e o poema é voz de toda a gente,todos eles,que,
não se tendo ouvido,não a sabem sua.
E vêm chorar em mim o coração traído,
a música perdida em distracções urgentes,
uma palavras que ninguém falou.
Não entristeço,pois.Apenas sou pergunta,
e,sendo eu,me esqueço ao perguntar.
de Post-Scriptum(1960)
3 684
Alcides Werk
O Lago das 7 Ihas
No Lago das 7 ilhas
há 7 ilhas plantadas
e um mundo verde ao redor.
Em cada ilha uma casa
em cada casa uma virgem
em cada virgem um amor.
No Lago das 7 ilhas
há peixes e tartarugas
e o boto namorador.
Da lama humosa do lago
brotam mil vitórias-régias
- em cada uma uma flor.
No Lago das 7 ilhas,
que guarda o dom encantado
de ser filho do Equador,
há 7 moças bonitas
que vivem nas palafitas
sonhando com seu senhor.
No Lago das 7 ilhas,
somando todas as filhas
do caboclo pescador,
há 7 cunhãs pejadas
de tanto amar a paisagem
e o boto conquistador.
há 7 ilhas plantadas
e um mundo verde ao redor.
Em cada ilha uma casa
em cada casa uma virgem
em cada virgem um amor.
No Lago das 7 ilhas
há peixes e tartarugas
e o boto namorador.
Da lama humosa do lago
brotam mil vitórias-régias
- em cada uma uma flor.
No Lago das 7 ilhas,
que guarda o dom encantado
de ser filho do Equador,
há 7 moças bonitas
que vivem nas palafitas
sonhando com seu senhor.
No Lago das 7 ilhas,
somando todas as filhas
do caboclo pescador,
há 7 cunhãs pejadas
de tanto amar a paisagem
e o boto conquistador.
1 654
Gregório de Matos
Segunda Impaciência Do Poeta
Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
5 665
Bocage
Apenas vi do dia a luz brilhante
Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá em Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte doravante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.
Lá em Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte doravante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.
5 721
Ascenso Ferreira
A Mula de Padre
Um dia no engenho,
Já tarde da noite
Que estava tão preta
Como carvão...
A gente falava de assombração:
— O avô de Zé Pinga-Fogo
Amanheceu morto na mata
Com o peito varado
Pela canela do Pé-de-Espeto!
— O cachorro de Brabo Manso
Levou, sexta-feira passada,
Uma surra das caiporas!
— A Mula de Padre quis beber o sangue
Da mulher de Chico Lolão...
Na noite preta como carvão
A gente falava de assombração!
Lá em baixo a almanjarra,
A rara almanjarra,
Gemia e rangia
Oue o Engenho Alegria
É bom moedor...
Eh Andorinha!
Eh Moça-Branca!
Eh Beija-Flor. . .
Pela bagaceira
Os bois ruminavam
E as éguas pastavam
Esperando a vez
De entrar no rojão...
Foi quando se deu
A coisa esquisita:
Mordendo, rinchando,
As pôpas e aos pulos
Se pondo de pé
Com artes do cão,
Surgiu uma besta sem ser dali não...
— Atallia a bicha, Baraúna!
— Sustenta o laço, Maracanã!
E a besta agarrada
Entrou na almanjarra,
Tocou-se-lhe a peia
Até de manhã ...
E depois que ela foi solta
Entupiu no oco do mundo!
Num abrir e fechar dolhos
A maldita se encantou...
De tardinha.
Gente vinda
Da cidade
Trouxe a nova
De que a ama
De seu padre
Serrador
Amanhecera tão surrada
Que causa compaixão!
.....................................
Na noite tão preta como carvão
A gente falava de assombração
Já tarde da noite
Que estava tão preta
Como carvão...
A gente falava de assombração:
— O avô de Zé Pinga-Fogo
Amanheceu morto na mata
Com o peito varado
Pela canela do Pé-de-Espeto!
— O cachorro de Brabo Manso
Levou, sexta-feira passada,
Uma surra das caiporas!
— A Mula de Padre quis beber o sangue
Da mulher de Chico Lolão...
Na noite preta como carvão
A gente falava de assombração!
Lá em baixo a almanjarra,
A rara almanjarra,
Gemia e rangia
Oue o Engenho Alegria
É bom moedor...
Eh Andorinha!
Eh Moça-Branca!
Eh Beija-Flor. . .
Pela bagaceira
Os bois ruminavam
E as éguas pastavam
Esperando a vez
De entrar no rojão...
Foi quando se deu
A coisa esquisita:
Mordendo, rinchando,
As pôpas e aos pulos
Se pondo de pé
Com artes do cão,
Surgiu uma besta sem ser dali não...
— Atallia a bicha, Baraúna!
— Sustenta o laço, Maracanã!
E a besta agarrada
Entrou na almanjarra,
Tocou-se-lhe a peia
Até de manhã ...
E depois que ela foi solta
Entupiu no oco do mundo!
Num abrir e fechar dolhos
A maldita se encantou...
De tardinha.
Gente vinda
Da cidade
Trouxe a nova
De que a ama
De seu padre
Serrador
Amanhecera tão surrada
Que causa compaixão!
.....................................
Na noite tão preta como carvão
A gente falava de assombração
2 444
Fernando Pessoa
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.
Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.
Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
4 896
José Eustáquio da Silva
Fazer Amor
fazer amor requer arte inconsciente
fazer amor transcende o feio e o bonito
fazer amor requer a alma despida
fazer amor transcende a sexualidade
fazer amor é ignorar todos os conceitos formais da humanidade
e se entregar como quem se doa a si mesmo
fazer amor não tem vínculo algum
com o lado físico dos seres
fazer amor é um divindade.
divindade que advém do mais nobre dom da vida : a própria vida.
fazer amor é enlouquecer a anatomia.
não importa a forma.
o que importa é não importar com coisa nenhuma.
fazer amor é fazer de inconcebíveis palavrões um lindo poema.
fazer amor é fazer do corpo um banquete de sonhos
e fazer da alma o berço do gozo...
fazer amor transcende o feio e o bonito
fazer amor requer a alma despida
fazer amor transcende a sexualidade
fazer amor é ignorar todos os conceitos formais da humanidade
e se entregar como quem se doa a si mesmo
fazer amor não tem vínculo algum
com o lado físico dos seres
fazer amor é um divindade.
divindade que advém do mais nobre dom da vida : a própria vida.
fazer amor é enlouquecer a anatomia.
não importa a forma.
o que importa é não importar com coisa nenhuma.
fazer amor é fazer de inconcebíveis palavrões um lindo poema.
fazer amor é fazer do corpo um banquete de sonhos
e fazer da alma o berço do gozo...
1 638
Ruth Souza Saleme
Estranho furto
Na noite silenciosa e azulada
No pousar do orvalho sobre as ramagens,
Durante o repouso sereno das aves
E no desabrochar das damas da noite,
Quero roubar teus sentidos a mão armada,
Assaltar teu corpo e recolher teus sentimentos,
Como larápia discípula de cupido!
Quero pegar-te desarmado
Numa hora qualquer desta noite.
Amanhã, não importa! ...
Quero que teu coração se surpreenda,
Se assuste e me prenda em teus afetos.
Depois, no calabouço dos gemidos,
O tilintar das correntes partindo
No auge dos apertos e abraços sôfregos...
Passarei a vida na cadeia das quimeras,
E nas grades deste grande amor,
Narrando a história de um estranho furto,
Entre um homem tímido e uma mulher apaixonada.
No pousar do orvalho sobre as ramagens,
Durante o repouso sereno das aves
E no desabrochar das damas da noite,
Quero roubar teus sentidos a mão armada,
Assaltar teu corpo e recolher teus sentimentos,
Como larápia discípula de cupido!
Quero pegar-te desarmado
Numa hora qualquer desta noite.
Amanhã, não importa! ...
Quero que teu coração se surpreenda,
Se assuste e me prenda em teus afetos.
Depois, no calabouço dos gemidos,
O tilintar das correntes partindo
No auge dos apertos e abraços sôfregos...
Passarei a vida na cadeia das quimeras,
E nas grades deste grande amor,
Narrando a história de um estranho furto,
Entre um homem tímido e uma mulher apaixonada.
1 265
Fernando Pessoa
Aqui onde se espera
Aqui onde se espera
– Sossego, só sossego –
Isso que outrora era,
Aqui onde, dormindo,
– Sossego, só sossego –
Se sente a noite vindo,
E nada importaria
– Sossego, só sossego –
Que fosse antes o dia,
Aqui, aqui estarei
– Sossego, só sossego –
Como no exílio um rei,
Gozando da ventura
– Sossego, só sossego –
De não ter a amargura
De reinar, mas guardando
– Sossego, só sossego –
O nome venerando...
Que mais quer quem descansa
– Sossego, só sossego –
Da dor e da esperança,
Que ter a negação
– Sossego, só sossego –
De todo o coração?
31/08/1933
– Sossego, só sossego –
Isso que outrora era,
Aqui onde, dormindo,
– Sossego, só sossego –
Se sente a noite vindo,
E nada importaria
– Sossego, só sossego –
Que fosse antes o dia,
Aqui, aqui estarei
– Sossego, só sossego –
Como no exílio um rei,
Gozando da ventura
– Sossego, só sossego –
De não ter a amargura
De reinar, mas guardando
– Sossego, só sossego –
O nome venerando...
Que mais quer quem descansa
– Sossego, só sossego –
Da dor e da esperança,
Que ter a negação
– Sossego, só sossego –
De todo o coração?
31/08/1933
5 096
Seamus Heaney
Lightenings viii
Lightenings viii
The annals say: when the monks of Clonmacnoise
Were all at prayers inside the oratory
A ship appeared above them in the air.
The anchor dragged along behind so deep
It hooked itself into the altar rails
And then, as the big hull rocked to a standstill,
A crewman shinned and grappled down the rope
And struggled to release it. But in vain.
This man cant bear our life here and will drown,
The abbot said, unless we help him. So
They did, the freed ship sailed, and the man climbed back
Out of the marvellous as he had known it.
The annals say: when the monks of Clonmacnoise
Were all at prayers inside the oratory
A ship appeared above them in the air.
The anchor dragged along behind so deep
It hooked itself into the altar rails
And then, as the big hull rocked to a standstill,
A crewman shinned and grappled down the rope
And struggled to release it. But in vain.
This man cant bear our life here and will drown,
The abbot said, unless we help him. So
They did, the freed ship sailed, and the man climbed back
Out of the marvellous as he had known it.
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