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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Na tarde morna

Na tarde morna
Passeio a culpa de quem sou,
Ai quem sou! Diz que não torna
Ao pecado que pecou

Passa o sossego
Na meiga tarde e quem sou,
Ai quem sou! Quer o aconchego
Que para sempre emigrou.

A noite cai,
Venenosa; e quem sou?
Ai quem sou! Esboroa e esvai
A certa voz que o chamou.

E eis cumprindo
Os dois destinos, quem sou,
E quem sou? A morte vindo,
Com qual dos dois é que vou?

1 577
2
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Natal

Neste caminho cortado
Entre pureza e pecado
Que chamo vida,
Nesta vertigem de altura
Que me absorve e depura
De tanta queda caída,
É que Tu nasces ainda
Como nasceste
Do ventre da Tua mãe.
Bendita a Tua candura.
Bendita a minha também.

Mas se me perco e Te perco,
Quando me afogo no esterco
Do meu destino cumprido,
À hora em que Te rejeito
E sangra e dói no Teu peito
A chaga de eu ter esquecido,
É que Tu jazes por mim
Como jazeste
No colo da Tua mãe.
Bendita a Tua amargura
Bendita a minha também.

2 388
2
Batista Cepelos

Batista Cepelos

Resignação

Este Anjo do Infortúnio, que me guia
Desde o primeiro albor da tenra idade,
E os lírios roxos da melancolia
Desfolha sobre a minha mocidade...

Este, que me acompanha e me vigia,
Sorrindo-me um sorriso de bondade,
E, na dor, que é o meu pão de cada dia,
Me fortalece contra a iniqüidade...

Este, bendito seja, enquanto eu vivo,
A debater-me em trevas horrorosas,
Como um ansioso pássaro cativo!

E que, sobre o meu túmulo, tristonho,
Distenda as asas misericordiosas,
Quando eu sonhar aquele Grande Sonho...

1 462
2
Nauro Machado

Nauro Machado

Dança Herética

Sou ímpar:
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.

Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?

Sou ímpar em mim e par em Deus.

1 954
2
1
Giselle del Pino

Giselle del Pino

Navegador Coração

Escuta
o fado
E agoniza hereditária.
Se a dor e a solidão
É teu brasão,
Desprenda-se do destino fatal.

Quantas pontes,
Abismos,
Escalar montanhas.
Quantas dores,
Arranhões,
Fissuras.
Ai! Como dói crescer!

Escuta o ritmo de corações afinados,
É pro teu peito que o meu grita.
Leva-me pra sala,
Bote-me ao seu lado
Num pôster sobre o bar...
Escuta o fado.

Minha alma,
É além mar.
Navegador coração
Que aprisionado em porões corsários,
Só deseja chegar.

808
2
Almir Fonseca

Almir Fonseca

Último Soneto

Padecendo no leito de Procusto,
Eu sinto a vida se esvaindo aos poucos,
E às vezes tenho pesadelos loucos
Que ao lembrá-los depois inda me assusto

Levados por espíritos de amoucos,
Num desespero crucial, injusto,
Desço, com a exigüidade do meu busto,
À escuridão das covas e cavoucos.

Mas quebrando os grilhões e os arganéus
Que me atavam às fundas sepulturas,
— Surjo singrando a vastidão dos céus,

Como se navegasse em mansas vagas
Para alcançar as máximas alturas
Do além, buscando esplendorosas plagas...

1 714
2
2
Angela Santos

Angela Santos

Crepúsculo

A
nudez e o frio do que era
acordaram o sonho
maior que o quase - nada
dentro de mim

Eu crescia
por dentro, crescia por fora
ante o espanto e a espera.
e os meus olhos cresciam,
assustados cresciam
e dentro deles um sonho,
mundos
outros.

O meu corpo eternizava
o crepúsculo da Primavera
os cheiros as cores
Maio nos sentidos perpetuado.

Fora de mim,
indiferente
o suceder de estações
pétalas, réstias de sol
árvores despidas, vergadas
pelos ventos outonais.

1 230
2
Jorge de Sena

Jorge de Sena

Declaração

Sinto que vou voltar-me para Ti,
Para Ti — como te descrevem e não há que fugir,
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres,
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranqüila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas
que dão a Tua Mãe,
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retrato,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença atual e simultânea
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos;
sei que poderei servir a propaganda
— olhem-no!, como se converteu —
e sei que o meu orgulho se revoltará
e tirarei prazer de Ti nessa revolta;
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração,
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo,
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia,
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA
À FRENTE?
que hei de renegar tudo,
e por isso Te previno do que sei
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser
— é que eu conheço-me e adivinho os outros
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros,
mas os meus erros também são eu próprio!
e eu sei que hei de ser eu e Tu
e os meus erros entre nós dois
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei,
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo,
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me! ...
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse,
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda...
e para onde me voltarei eu, eu!. . ., senão por Ti
até acreditar em Ti como te fazem?
É melhor assim — não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito,
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
— é só ouvir,
é só ler,
é só pasmar sereno,
é só ficar.

4 164
2
Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

(Poesia, 1935-1940)

3 117
2
Aníbal Teófilo

Aníbal Teófilo

Súplica

A provar que hei perdido a segurança
Desde, Senhora, que cheguei a ver-vos,
Ao juízo recusam-se-me os nervos,
E sucede-me insólita mudança.

Tremo por mim, pesar que a linda e mansa
Face vossa me induza a vir dizer-vos
Esta infinita insânia de querer-vos
E na alma quanto sinto de esperança.

Apiedai-vos de mim, cuja loucura
Em toda parte só divisa abrolhos
Depois de ter o olhar de leve posto

Em vosso airoso talhe, em vossa alvura,
Nas duas noites que mostrais nos olhos,
Nas duas rosas que trazeis no rosto.

944
2
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Emigrante

O drama começa no momento
em que nasce a ideia de "partir"
Aí param os sonhos
E começam os pesadelos.

Emigrante!

Esta é a alcunha que te deram.

A tragédia que isso acarreta
consome anos de existência
aniquilando lentamente
castelos edificados de ilusões
que dos sonhos ainda restam.

Emigrante!
Fantasia dos que ficam

Am’’ricas
Alemanhas
Franças
e outros mundos sempre iguais...

Emigrante!

Suportar esse título tão honradamente
ter que comer o pão que o diabo amassou
ser sempre forasteiro em porta alheia...

Sim, emigrante!

Emigrante = sobrevivência
Gritos de alma
ambição amordaçada
desejos frustrados...

VITA BREVIS num copo de vinho
Esquecer as amarguras
Da "Terra Prometida"

1 346
2
Maranhão Sobrinho

Maranhão Sobrinho

Interlunar

Entre nuvens cruéis de púrpura e gerânio,
rubro como, de sangue, um hoplita messênio
o Sol, vencido, desce o planalto de urânio
do ocaso, na mudez de uni recolhido essênio...

Veloz como um corcel, voando num mito hircânio,
tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio
da tarde, que me evoca os olhos de Estefânio
Mallarmé, sob a unção da tristeza e do gênio!

O ônix das sombras cresce ao trágico declínio
do dia em que, a lembrar piratas do mar Jônio,
põe, no ocaso, clarões vermelhos de assassínio...

Vem a noite e, lembrando os Montes do Infortúnio,
vara o estranho solar da Morte e do Demônio
com as torres medievais as sombras do Interlúnio...

1 781
2
Vera Romariz

Vera Romariz

Penúltima Edição

A linguagem espreita
e ataca
livro é sempre
penúltima edição
da estória da rua

A criança toca o próprio corpo
e constrói poemas sem letra
no proibido desejo
e o diário é parte pequena
do gozo primeiro
que conta sem levar em conta
incontável

A penúltima edição
é mais que a antepenúltima
parcela, apenas, da linguagem
que espreita e ataca
na tela dos loucos
asilados e libertos
que pintam demônios
com as mãos impregnadas
de barbitúricos
no silêncio dos olhos arregalados
da vítima de estupro

Livro é sempre
penúltima edição da estória da rua
e do corpo inteiro
olhos apenas vêem
a edição antiga

1 187
2
Zeferino Brasil

Zeferino Brasil

Zelos

De leve, beijo as suas mãos pequenas,
Alvas, de neve, e, logo, um doce, um breve,
Fino rubor lhe tinge a face, apenas
De leve beijo as suas mãos de neve.

Ela vive entre lírios e açucenas,
E o vento a beija, e, corno o vento, deve
Ser o meu beijo em suas mãos serenas,
— Tão leve o beijo, como o vento é leve.. .

Que essa divina flor, que é tão suave,
Ama o que é leve, como um leve adejo
De vento ou como um garganteio de ave,

E já me basta, para meu tormento,
Saber que o vento a beija, e que o meu beijo
Nunca será tão leve como o vento.. .

1 359
2
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Os Pobres na Estação Rodoviária

Os pobres viajam,
Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.
Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus
eles temem perder a própria viagem
escondida no névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistas
em consultórios assépticos como o algodão
que tapa o nariz dos mortos.
Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências,
não sabem portar-se em público.
O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite escorre
para a pequena boca habituada ao choro.

Na plataforma eles vão o vêm, saltam e seguram
malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidos nos guichês,
sussurram palavras misteriosas
e contemplam os capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida
Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê
que doem na vista delicada
do viajante obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?
Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos lugares
mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.
2 867
2
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Rosário

E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha...
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava...
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.

7 685
2
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Visitação

Que é do anjo das asas rutilantes
Com que lutou Jacob, na madrugada?
Que é desse outro, de falas sussurrantes,
Que surgiu a Maria, a fecundada,

Tão casta e sem pecado como dantes?
Que é da estrela, pela mão de Deus lançada
A guiar os incertos caminhantes
Ao colmo da cabana consagrada?

Onde estão os sinais que Deus envia?
Onde estão, que os procuro noite e dia
Sem nunca ver cumprido o meu desejo?

Não os vejo e não sei se eu, que os procuro,
Os não encontro porque sou impuro,
Ou sou impuro porque os não vejo.

2 100
2
Antônio Augusto de Lima

Antônio Augusto de Lima

A um Otimista

Pensas que são inteiramente nossos
nossos corpos de argila ? Não no creias.
Para reter a vida, em vão anseias:
dela não guardarás sequer destroços.

Não tens, fingido herdeiro de colossos,
destinado a guardar coisas alheias,
nem o sangue que corre em tuas veias,
nem a sutil medula de teus ossos.

Uma voz noutra voz reproduzida,
reproduzindo antiga voz perdida,
o eco responde à voz — eco também...

Ris-te da sombra que refletes ? Ri-se
também de ti a sombra: — quem te disse
que não és — olha atrás! — sombra de alguém?

1 514
2
Renato Russo

Renato Russo

Eduardo e Mônica

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração ?
E quem irá dizer
Que não existe razão ?

Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar:
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque,
Noutro canto da cidade,
Como eles disseram.

Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo prá tentar se conhecer.
Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
- Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir.
Festa estranha, com gente esquisita:
- Eu não estou legal. Não aguento mais birita.
E a Mônica riu e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir prá casa:
- É quase duas, eu vou me ferrar

Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard.
Se encontraram então no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de camelo.
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo.

Eduardo e Mônica eram nada parecidos -
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis.
Ela fazia medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês.
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus,
De Van Gogh e dos Mutantes,
De Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão com seu avô.

Ela falava coisas sobre o Planalto Central,
Também magia e meditação.
E o Eduardo ainda estava
No esquema "escola-cinema-clube-televisão".

E, mesmo com tudo diferente,
Veio mesmo, de repente,
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia,
Como tinha de ser.

Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia,
Teatro e artesanato, e foram viajar.
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar:
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar;
E ela se formou no mesmo mês
Em que ele passou no vestibular.
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois.
E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa,
Que nem feijão com arroz.

Construíram uma casa uns dois anos atrás,
Mais ou menos quando os gêmeos vieram -
Batalharam grana e seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram.

Eduardo e Mônica voltaram prá Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão.
Só que nessas férias não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo
Tá de recuperação

E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração ?
E quem irá dizer
Que não existe razão ?

1 882
2
1
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Os Vivos

Os vivos
são vorazes
são glutões ferozes:
até dos mortos comem
carnes e vozes

Se devoram os mortos
devoram os outros vivos:
pelos olhos e sexo
elogio, sorrisos

Os vivos são dotados
de famintas bocas:
devoram o que vêem
o que cheiram e tocam

Os vivos são fornalhas
em sempre operação:
em sua mente e ventre
tudo vira carvão

O mar a pedra a manhã
são ali combustível:
o vivo, voraz, muda
o visível em visível

O mar a pedra a manhã
- que ele queima em seus risos -
viram pele e cabelos
do corpo, que é ele vivo

e onde habita alguém
- seja espírito ou não -
alimentado também
por essa combustão

que tudo vaporiza.

Mas que agora na pele
desta efêmera mão
é afago de brisa.

1 967
2
Alcides Freitas

Alcides Freitas

Sê Feliz

Se queres ser feliz, afasta-te, querida!
Da minha alma! E, a sorrir, nem mais procure vê-la!
Uma estrela — Que é luz, deve unir-se à vida
Não à treva — o que sou. Mas à lua, a outra estrela!

Tão formosa e tão moça, afeita à brisa mansa
Das manhãs de sorriso e tardes de ventura,
Não calculas a dor do amar sem esperança;
Do ratear, como um cego, a noite da amargura...

A alma, que conheceste, alegre e calma, outrora
Como um trecho de sol, embebido de canto,
Recordas como vive, erma e calada, agora
Em pedaço de abismo encharcado de pranto.

A ti tudo sorri! Nem pensas no futuro
E o pensar no futuro envenena o presente!
Se és tão nova e tão bela, e o teu ser é tão puro
Há de te ser a vida um sonho alvinitente!

A minha alma, querida, é um sítio abandonado
Onde, em antigo tempo, houve trabalho e festa:
Um sitio claro e verde, harmônico e dourado
Como um sonho de flora a uma canção de vesta...
...............................................................................
Só o que vive a sofrer sabe o que é castigo!
Só o que vive de amor sabe o que o amor nos diz.
Tu me amas, talvez... mas atende ao que digo:
Afasta-te de mim, se queres ser feliz!...

930
2
Júlio Maria dos Reis Pereira

Júlio Maria dos Reis Pereira

A tarde

À tarde
ascenderam círios na procissão
— a Procissão das Dores e dos Martírios

Os anjinhos na mão seguram lírios
da cor
dorida dos Poentes
e perfume
intenso como o lume dos delírios.

E, inocentes,
transportam
os negros suplícios
que a carne frágil cortam
— tal qual os nossos vícios ...

E trazem misturados
os cravos e os dados,
pombas, maçãs, um cordeirinho plácido,
as sete espadas,
o cálix repleto de ácido...
.................................................................
E a procissão
prossegue
no domingo plácido! ...

1 204
2
Jorge de Lima

Jorge de Lima

Democracia

Punhos
de redes embalaram o meu canto
Para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
Catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
Carumã me alimentou quando eu era criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
Moleque me ensinou safadezas,
Massoca, tapioca,pipoca, tudo comi,
Bebi cachaça com caju para limpar-me,
Tive maleita, catapora e ínguas,
Bicho-de-pé, saudade, poesia;
Fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
Dizendo coisas, brincando com as crioulas,
Vendo espiritos, abusões, mães-d água,
Conversando com os malucos, conversando sozinho,
Emprenhando tudo o que encontrava,
Abraçando as cobras pelos matos,
Me misturando, me sumindo, me acabando,
Apara salvar a minha alma benzida
E o meu corpo pintado de urucu,
Tatuado de cruzes, de corações, de mãos ligadas,
De nomes de amor em todas as línguas de branco
De mouro ou pagão.

8 746
2
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

De Tudo Restou um Pouco

Do chão,
Se vê o céu
Do sol,
Nos chega a luz
Da cor,
Me lembro o tom
Da música,
Canta-se o refrão
Da poesia,
ficou a palavra

E da palavra
quis a verdade
Da vida,
Tive esperança
De você,
Desejei um beijo
Da paixão,
veio o esquecimento
Do amor,
Guardo a lembrança

E deste filme,
conheço o final
Da lembrança,
Sofro
E de sofrer
pus-me a gritar
Do grito,
ainda estou rouco
De tudo,
restou um pouco.

954
2