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Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Zumbi Saldo

Zumbi, meu Zumbi.
Hoje meu coração eu arranco
Zumbi hoje eu fui ao banco
E ainda estou presa
Escuto os seus sinos
e ainda estou presa na senzala Bamenrindus
Presa definitivamente
Presa absolutamente
à minha conta
corrente.

3 339
Bernardino Lopes

Bernardino Lopes

A Condessa

III

Morria o som da última habanera
Saudoso e lento no metal da orquestra,
Quando esse arrojo da beleza, mestra
Dos floreios do baile, o carro espera.

Daquele boca salta a primavera
Bafejando-lhe o termo da palestra...
E já, sorrindo e meneando a destra,
A mesura simbólica fizera.

Acompanhando-a como que suspira
A ronda alerta dos olhares... Sente
Tão fria a noite! E o conde, sem detê-la,

Naqueles ombros pálidos atira
A seda azul da capa rescendente,
— Um pedaço de céu sobre uma estrela!


Publicado no livro Brasões (1895).

In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 100
Santa Rita Durão

Santa Rita Durão

Canto VII [Vão pelo ar loquazes papagaios

LXIV

Vão pelo ar loquazes papagaios,
Como nuvens voando em cópia ingente,
Iguais na formosura aos verdes Maios,
Proferindo palavras como a gente.
Os periquitos com iguais ensaios.
O canindé, qual Íris reluzente;
Mas falam menos, da pronúncia avaras,
Gritando, as formosíssimas araras.


In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.177. (Série brasileiro-portuguesa, 30)

NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
3 292
Dora Ferreira da Silva

Dora Ferreira da Silva

Murmúrios

Pousa num ramo um sopro de agonia
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.
Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?

1 775
Antônio Sales

Antônio Sales

Pátria Velha

Este país vai todo em polvorosa!
A anarquia por toda parte impera,
a lei sucumbe inerme e dolorosa,
a tirania estúpida prospera.

Da traição medra a planta venenosa,
a semente dos ódios prolifera,
a dilapidação campeia e goza
das vacas gordas a ditosa era...

As eleições são conto de vigário,
couro e cabelo tira-nos e erário,
geme a lavoura, os bancos não têm fundos

Mas — para consolar-nos deste inferno —
brevemente a mensagem do governo
dirá que estamos no melhor dos mundos!

1 887
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Velho

Parado e atento à raiva do silêncio
De um relógio partido e gasto pelo tempo
Estava um velho sentado no banco de um jardim
A recordar fragmentos do passado

Na telefonia tocava uma velha canção
E um jovem cantor falava na solidão
Que sabes tu do canto de estar só assim
Só e abandonado como o velho do jardim?

O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver
A imagem da solidão que irão viver
Quando forem como tu
Um velho sentado num jardim

Passam os dias e sentes que és um perdedor
Já não consegues saber o que tem ou não valor
O teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
Pra dares lugar a outro no teu banco do jardim

O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver
A imagem da solidão que irão viver
Quando forem como tu
Um resto de tudo o que existiu
Quando forem como tu
Um velho sentado num jardim
1 663
Paulo Leminski

Paulo Leminski

a estrela cadente

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

3 672
Santa Rita Durão

Santa Rita Durão

Canto VII [Vêem-se cobras terríveis, monstruosas

LVI

Vêem-se cobras terríveis, monstruosas,
Que afugentam coa vista a gente fraca;
As jibóias, que cingem volumosas
Na cauda um touro, quando o dente o ataca;
Voa entre outras com forças horrorosas,
Batendo a aguda cauda a jararaca,
Com veneno, a quem fere tão presente,
Que logo em convulsão morrer se sente.


In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.175. (Série brasileiro-portuguesa, 30)

NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
3 258
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Palavra

Um rumor irrompe das nocturnas
margens. Sombras deslumbrantes.
Um fulgor que desnuda e que despoja.
Campo de água ágil. Dança

imóvel. Uma cegueira arde
incendiando o tempo. Pátria
áspera de delicado alento.
Soberano marulhar do inexplorável.

Unânime é a pedra. Selvagem
a palavra despedaça a língua.
Um silêncio central domina e orienta
a substância primária. A palavra inicia.

Rapidez da água entre resíduos
obscuros. Talvez o diadema.
Talvez a obscura dança aérea.
O leve poder do fogo, as suas marcas

ácidas. Pulsação
dos poros. Ardor do silêncio
no nocturno centro. Fulgor do desejo.
Uma deusa de água espraia-se nas palavras.
4 418
Batista Cepelos

Batista Cepelos

Resignação

Este Anjo do Infortúnio, que me guia
Desde o primeiro albor da tenra idade,
E os lírios roxos da melancolia
Desfolha sobre a minha mocidade...

Este, que me acompanha e me vigia,
Sorrindo-me um sorriso de bondade,
E, na dor, que é o meu pão de cada dia,
Me fortalece contra a iniqüidade...

Este, bendito seja, enquanto eu vivo,
A debater-me em trevas horrorosas,
Como um ansioso pássaro cativo!

E que, sobre o meu túmulo, tristonho,
Distenda as asas misericordiosas,
Quando eu sonhar aquele Grande Sonho...

1 521
Alphonsus de Guimaraens Filho

Alphonsus de Guimaraens Filho

Canto de Natal

A Criança que dorme
é tua e também minha.
Junto dela a grande noite
se apaga, e se avizinha

a madrugada santa,
com seus rumores castos...
E a Criança repousa,
e a Criança se esquece,

enquanto que no espaço
e no tempo se tece
a coroa de espinhos,
como um luar de sangue
sobre os altos caminhos.


In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. Poema integrante da série O Unigênito, 1946/1947
1 349
Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu

Os Meus Sonhos

I

Como era belo esse tempo
De tão doces ilusões,
De tardes belas, amenas,
De noites sempre serenas,
De estrelas vivas e puras;
Quadra de riso e de flores
Em que eu sonhava venturas,
Em que eu cuidava de amores.

(...)

II

Sonhei que o mundo era um prado
Lindo, lindo, matizado
Das flores do meu jardim;
Sonhei a vida uma estrada
De gozos entrelaçada,
De gozos que não têm fim.

Esses sonhos de magia
Criei-os na fantasia
À meiga luz do luar,
E quando conta segredos
Na rama dos arvoredos
Na brisa que beija o mar.

(...)

III

Mentira, tudo mentira!
Os meus sonhos... ilusões!
As cordas da minha lira
Já não soletram canções,
A mente já não delira,
E se louco num momento
Revolvo no pensamento
Esse passado de amores...
Se triste o peito suspira...
Eu ouço um eco da terra
Bradar-me com voz que aterra:
— Mentira, tudo mentira!

Foram sonhos. Eram lindos,
Eram lindos... mas passaram!
E desses sonhos já findos
Só lembranças me ficaram.
Só lembranças bem saudosas
Dessas noites tão formosas
Em que os sonhos despontaram,
Só lembranças desses sonhos,
Desses sonhos que passaram!...
Hoje vivo, se é que é vida

Andar co'a fronte pendida
Calado e triste a cismar;
E nessa imensa tristeza,
Nessas horas d'incerteza
Em que adormece o luar,
Em que toda a natureza
E' silêncio, amor e paz,
Eu sinto a alma saudosa
Perguntar com voz queixosa:
— Lindos sonhos, onde estais?!
Então um eco medonho
Responde por cada sonho
C'um gemido... e nada mais!

(...)


Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
5 751
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Os Pobres na Estação Rodoviária

Os pobres viajam,
Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.
Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus
eles temem perder a própria viagem
escondida no névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistas
em consultórios assépticos como o algodão
que tapa o nariz dos mortos.
Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências,
não sabem portar-se em público.
O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite escorre
para a pequena boca habituada ao choro.

Na plataforma eles vão o vêm, saltam e seguram
malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidos nos guichês,
sussurram palavras misteriosas
e contemplam os capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida
Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê
que doem na vista delicada
do viajante obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?
Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos lugares
mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.
2 991
Cacaso

Cacaso

Lar Doce Lar

p/Maurício Maestro

Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio.


Publicado no livro Na corda bamba: poesia (1978).

In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.63

NOTA: O poema é a primeira estrofe do poema "Fábula", de 1965, publicado em A PALAVRA CERZIDA. Com o segundo verso alterado para 'onde estou é meu exílio' faz parte do refrão de "Grão de Milho", canção em parceria com Francis Him
8 418
Bráulio de Abreu

Bráulio de Abreu

Vida e Sonhos

Eu quero a vida com sonhos,
eu quero os sonhos com vida.
Não quero a vida sem sonhos,
não quero os sonhos sem vida.

Nos dias de grande lida,
os instantes mais risonhos
são sempre cheios de vida,
são sempre cheios de sonhos.

Esta vontade mantida
com muita vida, com sonhos,
é porque os sonhos têm vida
e porque a vida vida tem sonhos.

Que viva a vida com sonhos,
que vivam sonhos com vida,
e morra a vida sem sonhos,
e morram sonhos sem vida.

1 746
José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

A presença mais pura

Nada no mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
"a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?"

A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
"a que distancia deixaste
o coração?"
3 896
Domingos Caldas Barbosa

Domingos Caldas Barbosa

Vou Morrendo Devagar

Eu sei, cruel, que tu gostas,
Sim gostas de me matar;
Morro, e por dar-te mais gosto,
Vou morrendo devagar:

Eu gosto morrer por ti
Tu gostas ver-me expirar;
Como isto é morte de gosto,
Vou morrendo devagar:

Amor nos uniu em vida,
Na morte nos quer juntar;
Eu, para ver como morres,
Vou morrendo devagar:

Perder a vida é perder-te;
Não tenho que me apressar;
Como te perco morrendo,
Vou morrendo devagar:

O veneno do ciúme
Já principia a lavrar;
Entre pungentes suspeitas
Vou morrendo devagar:

Já me vai calando as veias
Teu veneno de agradar;
E gostando eu de morrer,
Vou morrendo devagar:

Quando não vejo os teus olhos,
Sinto-me então expirar;
Sustentado desperanças,
Vou morrendo devagar:

Os Ciúmes e as Saudades
Cruel morte me vêm dar;
Eu vou morrendo aos pedaços,
Vou morrendo devagar:

É, feliz entre as desgraças,
Quem logo pode acabar;
Eu, por ser mais desgraçado,
Vou morrendo devagar:

A morte, enfim, vem prender-me,
Já lhe não posso escapar;
Mas abrigado a teu Nome,
Vou morrendo devagar.

3 087
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

[2] Uma Asa do Grifo: D. JOÃO O SEGUNDO

Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra —
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.

Seu formidavel vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.

5 902
Cacaso

Cacaso

A Casa

Na minha infância quando chovia
batia sobre o telhado
uma pancada macia
a noite vinha de fora
e dentro de casa caía
meu olho esquerdo dormia
enquanto o outro velava
havia portas rangendo
lá fora o vento miava
no fundo da noite a casa
parece que navegava
meu coração passeava
por uma sala sombria
por este lado se entrava
por este outro se olhava
e por nenhum se saía

Na minha infância quando chovia
batia sobre o meu peito
uma suave agonia
a noite vinha de longe
e dentro da gente caía
meu pai que sempre saía
numa viagem calada
havia vozes chamando
na boca da madrugada
no fundo da noite a casa
parece que despertava
assombração que passava
no sopro da ventania
por este lado se entrava
por este outro se olhava
e por nenhum se saía


In: CACASO. Mar de mineiro: poemas e canções. Fotos de Pedro de Moraes. Il. Malena Barreto. Rio de Janeiro: Grafit Gráf. e Impressos, 1982. Poema integrante da série Sete Preto.

NOTA: Música de Dulce Nune
4 352
António Nobre

António Nobre

Ladainha

Teu coração
dentro do meu descansa,
Teu coraçãop, desde que lá entrou
Tem tão bom dormir essa criança,
Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

Dorme, menino! Dorme..dorme...
O que te importa o que no mundo vai?
Ao acordares desse sono enorme
Tu julgarás que se passou num ai.

Dorme, criança! Dorme sossegada,
Teus sonos brancos ainda por abrir:
Depois, a morte não te custa nada,
Porque a ela te habituaste a dormir...

Dorme, meu anjo ( anoite é tão comprida)
Que doces sonhos tu não hás-de Ter!
Assim, com o hábito de os Ter na vida
Continuarás depois de falecer....

Dorme, meu filho! Cheio de sossego
Esquece-te de tudo e até de mim.
Depois...de olhos fechados, és um cego,
Tu nada vês, meu filho e antes assim.

Dorme os teus sonhos, dorme e não mos digas,
Dorme, filhinho! Dorme, dorme "ó-ó"....
Dorme, a minha alma canta-te cantigas
Que ela é velhinha como a tua avó!

Nenhuma ama tem um pequenino
Tão bom, tão meigo; que feliz eu sou!
E tem tão bom dormir esse menino...
Deitou-se, ali caiu, ali ficou

3 943
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Uma Doença Chamada Homem

Se dividirmos o corpo, se na unidade
as coisas se arranjarem, à revelia de outros corpos,
se de nós a inteligência partir para fora
e de fora vier até nós; se algo assim
com Kipling não nos obrigar à capitulação
e isto for complicado porque em política

repressão nada significa e as palavras constituem
o que elas constituiriam se pensar fosse comer;
se nem na comida conseguimos unanimidade
mas antes uma laranja é fruto
de divisão; se pensamos que ser é ser indivíduo,
trabalhar com os outros, fornicar com os outros;
se a colisão de bocas na treva
não nos atar as línguas; se
por acaso a vida fosse um abuso

de força a esta atavicamente jorrasse
do bico de um pássaro, do furo de uma baleia;
se cada um de nós de repente se dispusesse
a inverter a evolução, a recomeçar outro movimento.

Que aconteceria? Seríamos
inúteis durante algum tempo. Não saberíamos
manipular um motor, estender uma roupa,
ou juntar as mãos. Seríamos

inúteis. Mas dessa inutilidade
não brotaria mais sentido? Que
aconteceria? Alinhar-nos-íamos entre
os gansos? Que
se passaria com a consciência? Oh! o esforço
de se beijar um mamilo, de
se dizer absolutamente porque somos.
Um esforço do qual
cada pessoa emergeria jovem,
um gesto feito quando chega a notícia.
Seríamos inúteis. Inúteis sem remorso.
Extraviados na liberdade de ignorar

a própria morte. Em vez disso sabemos como as coisas
caminham, temos noções exatas acerca de um
fusível, pagamos nossas dívidas,
e saboreamos a sensação

de morrermos muito antes do tempo.

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In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série O Abajur de Píndaro
1 085
Jorge de Lima

Jorge de Lima

Democracia

Punhos
de redes embalaram o meu canto
Para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
Catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
Carumã me alimentou quando eu era criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
Moleque me ensinou safadezas,
Massoca, tapioca,pipoca, tudo comi,
Bebi cachaça com caju para limpar-me,
Tive maleita, catapora e ínguas,
Bicho-de-pé, saudade, poesia;
Fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
Dizendo coisas, brincando com as crioulas,
Vendo espiritos, abusões, mães-d água,
Conversando com os malucos, conversando sozinho,
Emprenhando tudo o que encontrava,
Abraçando as cobras pelos matos,
Me misturando, me sumindo, me acabando,
Apara salvar a minha alma benzida
E o meu corpo pintado de urucu,
Tatuado de cruzes, de corações, de mãos ligadas,
De nomes de amor em todas as línguas de branco
De mouro ou pagão.

8 859
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Canção da Parada do Lucas

Parada do Lucas
— O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Minha alma incendida
Pediria à Noite
Dois seios intactos.

Parada do Lucas
— O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Eu iria aos mangues
Dormir na escureza
Das águas defuntas.

Parada do Lucas
— O trem não parou.

Nada aconteceu
Senão a lembrança
Do crime espantoso
Que o tempo engoliu.
5 606
William Wordsworth

William Wordsworth

I wandered lonely as a cloud

I wandered lonely as a cloud...

I wandered lonely as a cloud

That floats on high oer vales and hills,

When all at once I saw a crowd,

A host, of golden daffodils,

Beside the lake, beneath the trees,

Fluttering and dancing in the breeze.

Continuous as the stars that shine

And twinkle on the milky way,

They stretchd in never-ending line

Along the margin of a bay:

Ten thousand saw I at a glance

Tossing their heads in sprightly dance.

The waves beside them danced, but they

Out-did the sparkling waves in glee:

A Poet could not but be gay

In such a jocund company!

I gazed--and gazed--but little thought

What wealth the show to me had brought;

For oft, when on my couch I lie

In vacant or in pensive mood,

They flash upon that inward eye

Which is the bliss of solitude;

And then my heart with pleasure fills

And dances with the daffodils.

2 809