Lista de Poemas
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Raimundo Correia
Banzo
Visões que n'alma o céu do exílio incuba,
Mortais visões! Fuzila o azul infando...
Coleia, basilisco de ouro, ondeando
O Níger... Bramem leões de fulva juba...
Uivam chacais... Ressoa a fera tuba
Dos cafres, pelas grotas retumbando,
E a estralada das árvores, que um bando
De paquidermes colossais derruba...
Como o guaraz nas rubras penas dorme,
Dorme em nimbos de sangue o sol oculto...
Fuma o saibro africano incandescente...
Vai co'a sombra crescendo o vulto enorme
Do baobá... E cresce n'alma o vulto
De uma tristeza, imensa, imensamente...
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.18
Mortais visões! Fuzila o azul infando...
Coleia, basilisco de ouro, ondeando
O Níger... Bramem leões de fulva juba...
Uivam chacais... Ressoa a fera tuba
Dos cafres, pelas grotas retumbando,
E a estralada das árvores, que um bando
De paquidermes colossais derruba...
Como o guaraz nas rubras penas dorme,
Dorme em nimbos de sangue o sol oculto...
Fuma o saibro africano incandescente...
Vai co'a sombra crescendo o vulto enorme
Do baobá... E cresce n'alma o vulto
De uma tristeza, imensa, imensamente...
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.18
9 452
Luís Veiga Leitão
Não
Não queremos o sangue das crianças
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...
1 998
Álvares de Azevedo
Spleen e Charutos - I Solidão
Nas nuvens cor de cinza do horizonte
A lua amarelada a face embuça;
Parece que tem frio, e no seu leito
Deitou, para dormir, a carapuça.
Ergueu-se, vem da noite a vagabunda
Sem chale, sem camisa e sem mantilha,
Vem nua e bela procurar amantes;
É douda por amor da noite a filha.
As nuvens são uns frades de joelhos,
Rezam adormecendo no oratório;
Todos têm o capuz e bons narizes,
E parecem sonhar o refeitório.
As árvores prateiam-se na praia,
Qual de uma fada os mágicos retiros....
Ó lua, as doces brisas que sussurram
Coam dos lábios como suspiros!
Falando ao coração que nota aérea
Deste céu, destas águas se desata?
Canta assim algum gênio adormecido
Das ondas mortas no lençol de prata?
Minha alma tenebrosa se entristece,
É muda como sala mortuária....
Deito-me só e triste, e sem ter fome
Vejo na mesa a ceia solitária.
Ó lua, ó lua bela dos amores,
Se tu és moça e tens um peito amigo,
Não me deixes assim dormir solteiro,
À meia-noite vem cear comigo!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
A lua amarelada a face embuça;
Parece que tem frio, e no seu leito
Deitou, para dormir, a carapuça.
Ergueu-se, vem da noite a vagabunda
Sem chale, sem camisa e sem mantilha,
Vem nua e bela procurar amantes;
É douda por amor da noite a filha.
As nuvens são uns frades de joelhos,
Rezam adormecendo no oratório;
Todos têm o capuz e bons narizes,
E parecem sonhar o refeitório.
As árvores prateiam-se na praia,
Qual de uma fada os mágicos retiros....
Ó lua, as doces brisas que sussurram
Coam dos lábios como suspiros!
Falando ao coração que nota aérea
Deste céu, destas águas se desata?
Canta assim algum gênio adormecido
Das ondas mortas no lençol de prata?
Minha alma tenebrosa se entristece,
É muda como sala mortuária....
Deito-me só e triste, e sem ter fome
Vejo na mesa a ceia solitária.
Ó lua, ó lua bela dos amores,
Se tu és moça e tens um peito amigo,
Não me deixes assim dormir solteiro,
À meia-noite vem cear comigo!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
6 409
Teófilo Dias
Os Seios
Como serpente arquejante
Se enrosca em férvida areia,
Meu ávido olhar se enleia
No teu colo deslumbrante.
Quando o descobres, no ar
Morno calor se dissolve
Do aroma, em que ele se envolve,
Como em neblina o luar.
Se ao corpo te enrosco os braços,
A terra e os céus estremecem,
E os mundos febris parecem
Derreter-se nos espaços!
E tu nem sequer presumes
Que então, querida, até creio,
Sorver, desfeito em perfumes,
Todo o sangue do teu seio.
Depois que aspiro, ansiado,
Do teu níveo colo o incenso,
Minh'alma semelha um lenço
De viva essência molhado.
Deixa que a louca se deite
Nesse torpor, que extasia,
E que o vinho do deleite
Me espume na fantasia;
Pois não há ópio ou haschis
Que me abrilhante as idéias
Como as fragrâncias sutis
Que fervem nas tuas veias!
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
Se enrosca em férvida areia,
Meu ávido olhar se enleia
No teu colo deslumbrante.
Quando o descobres, no ar
Morno calor se dissolve
Do aroma, em que ele se envolve,
Como em neblina o luar.
Se ao corpo te enrosco os braços,
A terra e os céus estremecem,
E os mundos febris parecem
Derreter-se nos espaços!
E tu nem sequer presumes
Que então, querida, até creio,
Sorver, desfeito em perfumes,
Todo o sangue do teu seio.
Depois que aspiro, ansiado,
Do teu níveo colo o incenso,
Minh'alma semelha um lenço
De viva essência molhado.
Deixa que a louca se deite
Nesse torpor, que extasia,
E que o vinho do deleite
Me espume na fantasia;
Pois não há ópio ou haschis
Que me abrilhante as idéias
Como as fragrâncias sutis
Que fervem nas tuas veias!
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
3 830
Adélia Prado
Artefato Nipônico
A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.
ou é Deus
ou é nada.
2 243
Stela do Patrocínio
É dito: pelo chão você não pode ficar
É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas também você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
(Stela do Patrocínio, em diagramação de sua fala por Viviane Mosé)
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas também você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
(Stela do Patrocínio, em diagramação de sua fala por Viviane Mosé)
3 923
Jorge de Lima
Poema Relativo
Vem, ó
bem-amada
Junto à minha casa
Tem um regato (até quieto o regato).
Não tem pássaros que pena!
Mas os coqueiros fazem,
Quando o vento passa,
Um barulho que às vezes parece
Bate-bate de asas.
Supõe, ó bem-amada,
Se o vento não sopra,
Podem vir borboletas
À procura das minhas jarras
Onde há flores debruçadas,
Tão debruçadas que parecem escutar.
Todos os homens têm seus crentes,
Ó bem-amada:
- os que pregam o amor ao próximo
e os que pregam a morte dele.
Mas tudo é pequeno
E ligeiro no mundo, ó amada.
Só o clamor dos desgraçados
É cada vez mais imenso!
Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
Tem um regato até manso.
E os teus passos podem ir devagar
Pelos caminhos:
- aqui não há a inquietação
de se atravessar o asfaalto
Vem, ó bem-amada,
Porque como te disse
Se não há pásssaros no meu parque,
Pode ser, se o vento
Não soprar forte
Que venham borboletas.
Tudo é relativo
E incerto no mundo.
Também tuas sobrancelhas
Parecem asas abertas.
bem-amada
Junto à minha casa
Tem um regato (até quieto o regato).
Não tem pássaros que pena!
Mas os coqueiros fazem,
Quando o vento passa,
Um barulho que às vezes parece
Bate-bate de asas.
Supõe, ó bem-amada,
Se o vento não sopra,
Podem vir borboletas
À procura das minhas jarras
Onde há flores debruçadas,
Tão debruçadas que parecem escutar.
Todos os homens têm seus crentes,
Ó bem-amada:
- os que pregam o amor ao próximo
e os que pregam a morte dele.
Mas tudo é pequeno
E ligeiro no mundo, ó amada.
Só o clamor dos desgraçados
É cada vez mais imenso!
Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
Tem um regato até manso.
E os teus passos podem ir devagar
Pelos caminhos:
- aqui não há a inquietação
de se atravessar o asfaalto
Vem, ó bem-amada,
Porque como te disse
Se não há pásssaros no meu parque,
Pode ser, se o vento
Não soprar forte
Que venham borboletas.
Tudo é relativo
E incerto no mundo.
Também tuas sobrancelhas
Parecem asas abertas.
4 400
Mafalda Veiga
Cada Lugar Teu
Sei de cor cada lugar teu
Atado em mim
A cada lugar meu
Tento entender o rumo
Que a vida nos faz tomar
Tento esquecer a mágoa
Guardar só o que é bom de guardar
Pensa em mim
Protege o que eu te dou
Eu penso em ti
E dou-te o que de melhor eu sou
Sem ter defesas que me façam falhar
Nesse lugar mais dentro
Onde só chega quem não tem medo de naufragar
Fica em mim que hoje o tempo dói
Como se arrancassem tudo o que já foi
E até o que virá
E até o que eu sonhei
Diz-me que vais guardar e abraçar
Tudo o que eu te dei
Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
E o mundo nos leve pra longe de nós
E que um dia o tempo pareça perdido
E tudo se desfaça num gesto só
Eu vou guardar cada lugar teu
Ancorado em cada lugar meu
E hoje apenas isso me faz acreditar
Que eu vou chegar contigo
Onde só chega quem não tem medo de naufragar
Atado em mim
A cada lugar meu
Tento entender o rumo
Que a vida nos faz tomar
Tento esquecer a mágoa
Guardar só o que é bom de guardar
Pensa em mim
Protege o que eu te dou
Eu penso em ti
E dou-te o que de melhor eu sou
Sem ter defesas que me façam falhar
Nesse lugar mais dentro
Onde só chega quem não tem medo de naufragar
Fica em mim que hoje o tempo dói
Como se arrancassem tudo o que já foi
E até o que virá
E até o que eu sonhei
Diz-me que vais guardar e abraçar
Tudo o que eu te dei
Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
E o mundo nos leve pra longe de nós
E que um dia o tempo pareça perdido
E tudo se desfaça num gesto só
Eu vou guardar cada lugar teu
Ancorado em cada lugar meu
E hoje apenas isso me faz acreditar
Que eu vou chegar contigo
Onde só chega quem não tem medo de naufragar
1 474
Nogueira Tapety
Pesadelo Atroz
Mal sabe ela que todo este desregramento
é o véu sob o qual minha tortura oculto,
Pois quem vive como eu de tormento em tormento,
Necessita viver de tumulto em tumulto...
O que eu busco ao bordel, é a paz do esquecimento,
Mas na noite do vicio em as mágoas sepulto,
Como um ralo a luzir, de momento a momento,
Fere-me o pensamento o clarão do seu vulto.
Foi o vício o recurso extremo, o último apelo,
Que lancei, torturado, ao rumores do mundo,
Para me libertar deste amargo desvelo.
E quanto mais me excedo e em rumores me afundo,
Mais se arraiga em minhalma este atroz pesadelo,
Este afeto infeliz cada vez mais profundo.
é o véu sob o qual minha tortura oculto,
Pois quem vive como eu de tormento em tormento,
Necessita viver de tumulto em tumulto...
O que eu busco ao bordel, é a paz do esquecimento,
Mas na noite do vicio em as mágoas sepulto,
Como um ralo a luzir, de momento a momento,
Fere-me o pensamento o clarão do seu vulto.
Foi o vício o recurso extremo, o último apelo,
Que lancei, torturado, ao rumores do mundo,
Para me libertar deste amargo desvelo.
E quanto mais me excedo e em rumores me afundo,
Mais se arraiga em minhalma este atroz pesadelo,
Este afeto infeliz cada vez mais profundo.
1 159
Edimilson de Almeida Pereira
Família Lugar
Um rio não divide
duas margens.
O que se planta nos lados
é que o separa.
Aqui o cemitério
lá lagoa da trindade.
Aqui os entregues
lá os escolhidos
em severa matemática.
Para um devoto
tudo é muitas coisas.
Uma ravina de águas
que envolve
vivos e mortos.
Por isso é direito
passar a um lado do rio
a capela
e o cemitério.
Em ambos se viaja
bem vestido e forro.
Em ambos espera
um domingo
de várias línguas.
Aqui no cemitério
homens multiplicam.
E o que fazem
está na oficina
do entendimento.
Essa é a margem
silenciosa do rio.
E mal permite
a ruga do tamboril.
Lá a capela
nave sem instrumentos.
Nela o que inspira
é a música os santos
no reinado.
Um negro do rosário
faz uma as outras coisas.
Na ravina do rio
lá e aqui são capela
e cemitério.
Estamos nós, os Bianos,
de enigma resolvido.
A lagoa onde somos
tem idéias de rio.
Aqui e lá peças
dos olhos em movimento.
Como são na diferença
os mesmos Deus
e Zambiapungo.
duas margens.
O que se planta nos lados
é que o separa.
Aqui o cemitério
lá lagoa da trindade.
Aqui os entregues
lá os escolhidos
em severa matemática.
Para um devoto
tudo é muitas coisas.
Uma ravina de águas
que envolve
vivos e mortos.
Por isso é direito
passar a um lado do rio
a capela
e o cemitério.
Em ambos se viaja
bem vestido e forro.
Em ambos espera
um domingo
de várias línguas.
Aqui no cemitério
homens multiplicam.
E o que fazem
está na oficina
do entendimento.
Essa é a margem
silenciosa do rio.
E mal permite
a ruga do tamboril.
Lá a capela
nave sem instrumentos.
Nela o que inspira
é a música os santos
no reinado.
Um negro do rosário
faz uma as outras coisas.
Na ravina do rio
lá e aqui são capela
e cemitério.
Estamos nós, os Bianos,
de enigma resolvido.
A lagoa onde somos
tem idéias de rio.
Aqui e lá peças
dos olhos em movimento.
Como são na diferença
os mesmos Deus
e Zambiapungo.
1 335
Elisa Lucinda
Amanhecimento
De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.
2 665
Hélio Pellegrino
Mar Alto
Esta água é todas as águas,
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.
Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.
Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo — nada.
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.
Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.
Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo — nada.
1 362
Hélio Pellegrino
Aula de Música
O violino principiante
arranha a pele do dia.
Ó dura, lenta porfia
da mão, soletrando o arco.
Ó marinheiro hesitante
— difícil carpintaria —
na construção do teu barco.
arranha a pele do dia.
Ó dura, lenta porfia
da mão, soletrando o arco.
Ó marinheiro hesitante
— difícil carpintaria —
na construção do teu barco.
1 457
Laurindo Rabelo
Último Canto do Cisne
Quando eu morrer, não chorem minha morte,
Entreguem o meu corpo à sepultura;
Pobre, sem pompas, sejam-lhe a mortalha
Os andrajos que deu-me a desventura.
Não mintam ao sepulcro apresentando
Um rico funeral de aspecto nobre:
Como agora a zombar me dizem vivo,
Digam-me também morto — aí vai um pobre!
De amigos hipócritas não quero
Públicas provas de afeição fingida;
Deixem-me morto só, como deixaram-me
Lutar contra a má, sorte toda a vida.
Outros prantos não quero, que não sejam
Esse pranto de fel amargurado
De minha companheira de infortúnios,
Que me adora apesar de desgraçado.
O pranto, açucena de minhalma,
Do coração sincero, dalma sã,
De um anjo que também sente meus males,
De uma virgem que adoro como irmã.
Tenho um jovem amigo, também quero
Que junte em minha eça os prantos seus
Aos de um pobre ancião que perfilhou-me
Quando a filha entregou-me aos Pés de Deus.
Dos meus todos eu sei que terei preces,
Saudades, lágrimas também;
Que não tenho a lembrança de ofendê-los
E sei quanta amizade eles me têm.
E tranqüilo, meu Deus, a vós me entrego,
Pecador de mil culpas carregado,
Mas os prantos dos meus perdão vos pedem,
E o muito que também tenho chorado.
Entreguem o meu corpo à sepultura;
Pobre, sem pompas, sejam-lhe a mortalha
Os andrajos que deu-me a desventura.
Não mintam ao sepulcro apresentando
Um rico funeral de aspecto nobre:
Como agora a zombar me dizem vivo,
Digam-me também morto — aí vai um pobre!
De amigos hipócritas não quero
Públicas provas de afeição fingida;
Deixem-me morto só, como deixaram-me
Lutar contra a má, sorte toda a vida.
Outros prantos não quero, que não sejam
Esse pranto de fel amargurado
De minha companheira de infortúnios,
Que me adora apesar de desgraçado.
O pranto, açucena de minhalma,
Do coração sincero, dalma sã,
De um anjo que também sente meus males,
De uma virgem que adoro como irmã.
Tenho um jovem amigo, também quero
Que junte em minha eça os prantos seus
Aos de um pobre ancião que perfilhou-me
Quando a filha entregou-me aos Pés de Deus.
Dos meus todos eu sei que terei preces,
Saudades, lágrimas também;
Que não tenho a lembrança de ofendê-los
E sei quanta amizade eles me têm.
E tranqüilo, meu Deus, a vós me entrego,
Pecador de mil culpas carregado,
Mas os prantos dos meus perdão vos pedem,
E o muito que também tenho chorado.
3 316
Mafalda Veiga
Charco
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer
Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto
E o que monto atiro fora para nascer outra vez
Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora
Antes sou como uma ideia que se despe do passado
Uma planta enraizada na sina da sua hora
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou.
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer
Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto
E o que monto atiro fora para nascer outra vez
Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora
Antes sou como uma ideia que se despe do passado
Uma planta enraizada na sina da sua hora
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou.
1 555
Gilka Machado
Troversando
Do sucesso na subida
nunca te orgulhes demais
muito difícil na vida
é conservar o cartaz
(...)
Eu não explico a ninguém
pois ainda não compreendi
porque te chamo meu bem
se sofro tanto por ti.
(...)
Entre nuvens no infinito,
sofro a prisão mais prisão...
Sinto-me pássaro aflito
na gaiola de um avião.
Não rias do que te digo
mas sempre na nossa alcova
eu quisera estar contigo
como escova sobre escova.
(...)
Do meu coração me espanto!
O amor só me deu pesar,
como tendo amado tanto
tenho ainda amor para dar?!...
(...)
Publicado no livro Velha poesia (1965).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p.429-432
nunca te orgulhes demais
muito difícil na vida
é conservar o cartaz
(...)
Eu não explico a ninguém
pois ainda não compreendi
porque te chamo meu bem
se sofro tanto por ti.
(...)
Entre nuvens no infinito,
sofro a prisão mais prisão...
Sinto-me pássaro aflito
na gaiola de um avião.
Não rias do que te digo
mas sempre na nossa alcova
eu quisera estar contigo
como escova sobre escova.
(...)
Do meu coração me espanto!
O amor só me deu pesar,
como tendo amado tanto
tenho ainda amor para dar?!...
(...)
Publicado no livro Velha poesia (1965).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p.429-432
2 033
Emílio Moura
Poema
Renasces em ti mesma e por ti mesma.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.
A poesia só me visita para que te realizes,
para que eu te sinta e te compreenda.
Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam?
Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.
De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.
A poesia só me visita para que te realizes,
para que eu te sinta e te compreenda.
Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam?
Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.
De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.
1 303
Eliakin Rufino
Sentimentos Cintilantes
as estrelas que flutuam nesse rio
são os olhos das serpentes encantadas
cobras grandes habitantes dessas águas
e estas luzes que vagueiam pelas praias
claridades de paixão e de areia
são meus olhos
encharcando o chão das várzeas
são de alegria estas lágrimas brilhantes
são diamantes que meus olhos choram
são loucos sentimentos cintilantes
são os olhos das serpentes encantadas
cobras grandes habitantes dessas águas
e estas luzes que vagueiam pelas praias
claridades de paixão e de areia
são meus olhos
encharcando o chão das várzeas
são de alegria estas lágrimas brilhantes
são diamantes que meus olhos choram
são loucos sentimentos cintilantes
2 628
José Bonifácio, o Moço
Desejos
"Ai! infância, que tempo ditoso!
Que saudades tudo isto me traz!"
X. Cordeiro
Quem me dera ser criança
Reviver tempo de outrora,
Não ter males como agora,
Ver no futuro uma aurora,
E no presente a esperança! —
Quem me dera os doces beijos
Das virgens que me beijavam,
Abraços que me alegravam;
Quem me dera o que me davam
Os meus volúveis desejos! —
Quem me dera as travessuras
Da minha quadra passada,
E a carreira tresloucada,
E a vida tão esmaltada
De tanto amor e doçuras! —
Quem me dera os contozinhos,
Que minha mãe me contava,
As orações que eu rezava,
Que o velho pai me ensinava,
E seu afago e carinhos.
Oh! que delícia tivera!
— Não conhecer outra idade,
Não saber o que é maldade,
Gozar sempre a f'licidade...
Senhor! Senhor! — Quem me dera!
Publicado no livro Rosas e Goivos (1848).
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. p.41-42. (Poesia, 5
Que saudades tudo isto me traz!"
X. Cordeiro
Quem me dera ser criança
Reviver tempo de outrora,
Não ter males como agora,
Ver no futuro uma aurora,
E no presente a esperança! —
Quem me dera os doces beijos
Das virgens que me beijavam,
Abraços que me alegravam;
Quem me dera o que me davam
Os meus volúveis desejos! —
Quem me dera as travessuras
Da minha quadra passada,
E a carreira tresloucada,
E a vida tão esmaltada
De tanto amor e doçuras! —
Quem me dera os contozinhos,
Que minha mãe me contava,
As orações que eu rezava,
Que o velho pai me ensinava,
E seu afago e carinhos.
Oh! que delícia tivera!
— Não conhecer outra idade,
Não saber o que é maldade,
Gozar sempre a f'licidade...
Senhor! Senhor! — Quem me dera!
Publicado no livro Rosas e Goivos (1848).
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. p.41-42. (Poesia, 5
1 665
Castro Alves
O Sol e o Povo
Le peuple a sa colére et le volcan sa lave.
V. Hugo
Ya desatado
El horrendo huracán silba contigo
¿ Qué muralla, qué abrigo
Bastaran contra ti?
M. Quintana
O sol, do espaço Briaréu gigante,
P’ra escalar a montanha do infinito,
Banha em sangue as campinas do levante.
Então em meio dos Saarás — o Egito
Humilde curva a fronte e um grito errante
Vai despertar a Esfinge de granito.
O povo é como o sol! Da treva escura
Rompe um dia co’a destra iluminada,
Como o Lázaro, estala a sepultura!...
Oh! temei-vos da turba esfarrapada,
Que salva o berço à geração futura,
Que vinga a campa à geração passada.
V. Hugo
Ya desatado
El horrendo huracán silba contigo
¿ Qué muralla, qué abrigo
Bastaran contra ti?
M. Quintana
O sol, do espaço Briaréu gigante,
P’ra escalar a montanha do infinito,
Banha em sangue as campinas do levante.
Então em meio dos Saarás — o Egito
Humilde curva a fronte e um grito errante
Vai despertar a Esfinge de granito.
O povo é como o sol! Da treva escura
Rompe um dia co’a destra iluminada,
Como o Lázaro, estala a sepultura!...
Oh! temei-vos da turba esfarrapada,
Que salva o berço à geração futura,
Que vinga a campa à geração passada.
2 872
Nauro Machado
Dança Herética
Sou ímpar:
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.
Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?
Sou ímpar em mim e par em Deus.
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.
Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?
Sou ímpar em mim e par em Deus.
2 024
Machado de Assis
Menina e Moça
A Ernesto Cibrão
Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.
Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem cousas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.
Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.
Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri.
Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.
Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.
Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.
Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando-se talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.
Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!
Ah! se nesse momento, alucinado, fores
Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar de teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.
É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!
Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.
Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem cousas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.
Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.
Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri.
Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.
Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.
Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.
Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando-se talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.
Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!
Ah! se nesse momento, alucinado, fores
Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar de teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.
É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!
1 975
Colombina
Posse
Abrindo o meu roupão de seda malva,
deslumbrado, contemplas a nudez,
magnífica da minha carne alva,
pela primeira vez.
Enlaçam-me os teus braços loucamente
e os teus lábios macios e sensuais
vão, no meu corpo — que é uma pira ardente —
deixando seus sinais.
Teus dedos, numa escala volutuosa,
percorrem-me as espáduas. Com ardor
une-se à minha a tua boca ansiosa
de amar com muito amor!
Oferenda de gozo aos teus anseios
(que, pálido e ofegante, à luz expões),
magnólias de luar meus brancos seios
te entregam seus botões.
E os róseos guizos, duros, empinados
pela lascívia, sugas com avidez...
Sou toda tua; teu, os meus pecados,
pela primeira vez!
Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987, p.33-10
deslumbrado, contemplas a nudez,
magnífica da minha carne alva,
pela primeira vez.
Enlaçam-me os teus braços loucamente
e os teus lábios macios e sensuais
vão, no meu corpo — que é uma pira ardente —
deixando seus sinais.
Teus dedos, numa escala volutuosa,
percorrem-me as espáduas. Com ardor
une-se à minha a tua boca ansiosa
de amar com muito amor!
Oferenda de gozo aos teus anseios
(que, pálido e ofegante, à luz expões),
magnólias de luar meus brancos seios
te entregam seus botões.
E os róseos guizos, duros, empinados
pela lascívia, sugas com avidez...
Sou toda tua; teu, os meus pecados,
pela primeira vez!
Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987, p.33-10
1 347
Artur de Azevedo
Miserável
A Carvalho Junior.
O noivo, como noivo, é repugnante:
Materialão, estúpido, chorudo,
Arrotando, a propósito de tudo,
O ser comendador e negociante.
Tem a viuvinha, a noiva interessante,
Todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
Alabastro, marfim, coral, veludo,
Azeviche, safira e tutti quanti.
Da misteriosa alcova a porta geme,
O noivo dorme n'um lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contem-me!
Ela deita-se... espera... Qual! Revolto,
O leito estala... Ela suspira... freme...,
E o miserável dorme a sono solto!...
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
O noivo, como noivo, é repugnante:
Materialão, estúpido, chorudo,
Arrotando, a propósito de tudo,
O ser comendador e negociante.
Tem a viuvinha, a noiva interessante,
Todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
Alabastro, marfim, coral, veludo,
Azeviche, safira e tutti quanti.
Da misteriosa alcova a porta geme,
O noivo dorme n'um lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contem-me!
Ela deita-se... espera... Qual! Revolto,
O leito estala... Ela suspira... freme...,
E o miserável dorme a sono solto!...
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
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