Poemas nesta obra
ALEGRIA
Que improvĂĄvel trazer
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
â dulcĂssimo perfume â
duras ervas daninhas
(pressinto na mandĂbula
as raĂzes que quebram
as pedras, ascendendo).
E entre tanta alegria
e entre tanta doçura
que improvĂĄvel trazer
a morte clandestina â
no homem a gravidez
dos terrenos baldios.
Que doĂdo plantar.
Que doĂdo deixar
de plantar: vivo ou morto
de mim nada precisa.
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
â dulcĂssimo perfume â
duras ervas daninhas
(pressinto na mandĂbula
as raĂzes que quebram
as pedras, ascendendo).
E entre tanta alegria
e entre tanta doçura
que improvĂĄvel trazer
a morte clandestina â
no homem a gravidez
dos terrenos baldios.
Que doĂdo plantar.
Que doĂdo deixar
de plantar: vivo ou morto
de mim nada precisa.
CLARIDADE
Se ao menos nĂŁo houvesse dĂșvidas:
Ă© aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo Ășmida,
tem como raĂzes  vĂsceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana DâArc Ă© queimada e ascende
ainda mais translĂșcida do que a brisa
desfeita pela fuligem â Ă© aquela hora
de ĂĄrvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplĂĄssemos: arde
a cidade e somos nĂłs os saqueadores,
nĂłs os negros, nĂłs os gregos, nĂłs as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que serĂĄ esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito â
mas nĂŁo: Ă© meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.
Ă© aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo Ășmida,
tem como raĂzes  vĂsceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana DâArc Ă© queimada e ascende
ainda mais translĂșcida do que a brisa
desfeita pela fuligem â Ă© aquela hora
de ĂĄrvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplĂĄssemos: arde
a cidade e somos nĂłs os saqueadores,
nĂłs os negros, nĂłs os gregos, nĂłs as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que serĂĄ esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito â
mas nĂŁo: Ă© meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.
LATITUDES
Fala-me Conrad de um tempo,
ou melhor, de uma latitude
que ultrapassada impede
qualquer regresso â
como se o destino de um homem
fosse descer por uma luz vacilante
degrau apĂłs degrau.
Sujamo-nos, nĂŁo hĂĄ outro caminho
que nĂŁo seja ter as mĂŁos sujas.
Sujamo-nos e sĂŁo as mĂŁos sujas
o Ășltimo elo a romper-se.
Por elas passa o ouro conseguido
a um custo indizĂvel,
o perfume de amores enlouquecidos,
as flores que colhemos quando
muito jovens ou muito cansados.
O Ășltimo elo a romper-se porque
da luz mais gasta permanece o pĂłlen.
ou melhor, de uma latitude
que ultrapassada impede
qualquer regresso â
como se o destino de um homem
fosse descer por uma luz vacilante
degrau apĂłs degrau.
Sujamo-nos, nĂŁo hĂĄ outro caminho
que nĂŁo seja ter as mĂŁos sujas.
Sujamo-nos e sĂŁo as mĂŁos sujas
o Ășltimo elo a romper-se.
Por elas passa o ouro conseguido
a um custo indizĂvel,
o perfume de amores enlouquecidos,
as flores que colhemos quando
muito jovens ou muito cansados.
O Ășltimo elo a romper-se porque
da luz mais gasta permanece o pĂłlen.
RODOVIA CÂNDIDO PORTINARI
1.
QuilĂŽmetro 1: os homens
jogam bola aprisionados.
QuilĂŽmetro 2: cuida-se
de passarinhos diz
a placa meio escondida.
2.
O lavrado campo de cana
Ă© plano e amarelo.
Os lavradores assinalando o horizonte
sĂŁo sombras magras na distĂąncia lĂșgubre
com uma leveza de pĂĄssaros negros:
campo de trigo com corvos
e os abutres que planam
tĂŁo perto do sol ofuscados incinerados
que no sĂșbito voo descendente haverĂĄ
quem pranteie a queda de Ăcaro.
3.
Repete-se o campo de trigo
com corvos com homens
no lugar dos corvos.
Na contraluz ontem eram
os lavradores no canavial.
Hoje foram os cĂĄrceres
roçando a relva bronze.
Um deles â chapĂ©u de palha â
parou o trabalho, olhos
no ĂŽnibus a desembarcar
as suas mulheres e crianças
também elas transformadas
em corvos em voo cego e raso.
Com o chapéu de palha, parecia
o holandĂȘs em autorretrato:
os olhos feridos, lĂșcido, mutilado.
QuilĂŽmetro 1: os homens
jogam bola aprisionados.
QuilĂŽmetro 2: cuida-se
de passarinhos diz
a placa meio escondida.
2.
O lavrado campo de cana
Ă© plano e amarelo.
Os lavradores assinalando o horizonte
sĂŁo sombras magras na distĂąncia lĂșgubre
com uma leveza de pĂĄssaros negros:
campo de trigo com corvos
e os abutres que planam
tĂŁo perto do sol ofuscados incinerados
que no sĂșbito voo descendente haverĂĄ
quem pranteie a queda de Ăcaro.
3.
Repete-se o campo de trigo
com corvos com homens
no lugar dos corvos.
Na contraluz ontem eram
os lavradores no canavial.
Hoje foram os cĂĄrceres
roçando a relva bronze.
Um deles â chapĂ©u de palha â
parou o trabalho, olhos
no ĂŽnibus a desembarcar
as suas mulheres e crianças
também elas transformadas
em corvos em voo cego e raso.
Com o chapéu de palha, parecia
o holandĂȘs em autorretrato:
os olhos feridos, lĂșcido, mutilado.
SABER ESCAVAR
Havia terra neles, e
escavavam.
Paul Celan
Saber escavar, escavar sempre
a terra podre e depois escavar
a sombra espessa. Respirar fundo
a noite escura, a noite sem vento,
sem vestĂgios argĂȘnteos do luar
(mesmo um luar imundo, encardido
de poeira e fumo, nĂŁo se percebe)
e sem murmĂșrio de mar diluĂdo
nas negras artérias da madrugada.
escavavam.
Paul Celan
Saber escavar, escavar sempre
a terra podre e depois escavar
a sombra espessa. Respirar fundo
a noite escura, a noite sem vento,
sem vestĂgios argĂȘnteos do luar
(mesmo um luar imundo, encardido
de poeira e fumo, nĂŁo se percebe)
e sem murmĂșrio de mar diluĂdo
nas negras artérias da madrugada.
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