Citações
Citações para inspirar e refletir
A ideia de que um jornalista escreva com a mesma correção sobre uma nova ópera quanto sobre um novo regulamento parlamentar tem algo de inquietante. Ele certamente também poderia dar lições a um bacteriólogo, a um astrónomo e talvez até a um pastor. E se um especialista em matemática superior lhe cruzasse o caminho, ele provar-lhe-ia que é versado em matemáticas ainda mais altas.
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Literatos alemães: os louros com que um sonha não deixam o outro dormir. Outro, por sua vez, sonha que os seus louros não deixam um outro dormir, e este não dorme porque o outro sonha com louros.
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O filósofo L. St., da Hungria: ele não é um líder, mas é o “primeiro-violino” entre os pensadores. Chamam-no à mesa e ele toca o transcendental aos ouvidos das pessoas.
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Um crítico literário que sempre encontra um juízo para as palavras certas.
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O seu marido permite que ela faça teatro — a boemia não teria permitido que ela casasse. Portanto, na sociedade ainda há mais liberdade do que na boemia, que tem as suas normas imutáveis.
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A polícia vigia com rigor para que apenas a velhice e a feiura se entreguem ao vício. Só é aceita num bordel aquela cuja corrupção datar de uma era policial anterior e cuja virtude tenha caído mais ou menos na mesma época em que caíram as muralhas da cidade. Ela precisa ser uma emeretriz... As inválidas cantam: “Eles nos sustentaram!”.
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Que cortejo estranho! Ela vai atrás dele como um cadáver que segue um enlutado.
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As camas de Hamburgo têm bordas altas. Estamos seguros de que não cairemos quando o mar estiver agitado. Um uso sem sentido, com o qual o povo conserva a tradição do camarote. O enjoo do mar reproduz-se em terra firme por gerações de marceneiros, e nada é mais doloroso ao acordar do que a recordação de que os hamburgueses são um povo de navegadores.
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Tive uma visão medonha: vi uma enciclopédia aproximar-se de um sabe-tudo e abri-lo.
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Nunca percebemos com tanta clareza a brutalidade da existência, a falta de fundamento de todas as coisas humanas do que quando temos a infelicidade de estar num veículo que precisa parar porque é envolvido pela música folclórica.
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Contar a piada inventada por uma pessoa engenhosa é o mesmo que apanhar uma seta do chão. A citação não diz como foi disparada.
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Emerson: filosofia alemã que, ao ser transportada através dos mares, absorveu um tanto da sua humidade.
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Uma verdade desprovida de arte acerca de um mal é um mal. Ela deve ser valiosa por si mesma. Assim ela reconcilia com o mal e com a dor de que haja males.
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Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida, e tão bem como se estivéssemos a estrear.
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É melhor que não nos roubem nada. Assim pelo menos não teremos problemas com a polícia.
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No começo era o exemplar para recensão, e alguém o recebeu da editora. Então escreveu uma recensão. Então escreveu um livro, que o editor aceitou e passou adiante como exemplar para recensão. O próximo que o recebeu fez o mesmo. Assim nasceu a literatura moderna.
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A ironia sentimental é um cão que ladra para a Lua enquanto mija sobre sepulturas.
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Há verdades cuja descoberta pode demonstrar que não se tem espírito.
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Espeto minha pena no cadáver da Áustria porque ainda acredito que ele viva.
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Heine é um Moisés que bateu com a vara na rocha da língua alemã. Porém, velocidade não é sortilégio; a água não brotou da rocha, mas ele apresentou-a com a outra mão, e era água de colónia.
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Quem quiser praticar ginástica cerebral, que procure reconstruir tão rápido quanto possível a conversa de um grupo quando, em dado momento, chamar a sua atenção o quanto essa conversa se afastou do tema original. Ele folheará essa enciclopédia e verá um caminho em ziguezague em cujas extremidades se encontram assuntos que fazem lembrar a divertida falta de relação dos títulos: De calefação a gótico e De Newton a pacífico.
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Temas jornalísticos: não importa o tamanho do alvo, mas a distância.
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Dificilmente haverá um escritor que em tão pouco tempo se tenha tornado tão desconhecido quanto esse X.
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Pensamentos próprios não precisam ser sempre novos. Mas quem tem um pensamento novo, pode facilmente tomá-lo de outro.
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Que são a consciência que um Nero tinha da sua força, o ímpeto destruidor de um Génghis Khan, a plenitude de poderes do Juízo Final comparados à altivez de um pequeno funcionário da Junta Geral de Alistamento do Distrito Judicial que, por desobediência a uma convocação para inscrição com fins de avaliação da taxação do imposto militar, nos condena a uma multa de duas coroas!
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“Escrever bem” sem personalidade pode bastar para o jornalismo. Na pior das hipóteses, para a ciência. Jamais para a literatura.
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Somos cultos o bastante para evitar restaurantes que são “instituições de engorda”. Porém o pensamento de se deixar arrebatar às esferas celestes na companhia de mais quinhentas pessoas não perturba nenhum dos cultos frequentadores de concertos. Não me oponho a satisfazer as necessidades da vida junto com os meus concidadãos, mas a preço nenhum deste mundo gostaria de me encontrar com um único deles na ilha dos bem-aventurados.
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O político está metido na vida, não se sabe onde. O esteta foge da vida, não se sabe para onde.
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Um bom estilista deve sentir o prazer de um Narciso durante o seu trabalho. Deve ser capaz de objetivar a sua obra de tal maneira que se surpreenda com um sentimento de inveja e somente pela memória se aperceba que ele próprio é o criador. Em suma, deve dar provas daquela objetividade suprema que o mundo chama de vaidade.
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A diferença entre psiquiatras e outros doentes mentais corresponde aproximadamente à relação entre loucura convexa e côncava.
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A evolução do escritor: no início não se está habituado e por isso as coisas correm às mil maravilhas. Mas depois vai ficando sempre mais difícil, e quando enfim pegamos o jeito, há muitas frases que não conseguimos concluir.
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Primeiro o cão fareja, depois levanta a perna. Contra essa falta de originalidade compreensivelmente não se pode objetar nada. Mas o facto de o literato ler antes de escrever é desolador.
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Antes os cenários eram de cartão e os atores eram de verdade. Agora os cenários são completamente convincentes, e os atores, de cartão.
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Compreender uma visão de mundo com um só olhar é arte. Porém, quanto não cabe num olho!
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Obras de arte são supérfluas. É necessário criá-las, é verdade, mas não é necessário mostrá-las. Quem possui arte em si não necessita da ocasião externa. Quem não a possui vê apenas a ocasião. A um o artista impõe-se, ao outro prostitui-se. Em ambos os casos, deveria envergonhar-se.
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O valor da formação revela-se da maneira mais nítida quando as pessoas cultas tomam a palavra para falar de um problema que se encontra fora do campo da sua formação.
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Quando lemos um dos seus ensaios mitológico-políticos aprendemos a odiar a cultura mais do que o absolutamente necessário.
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A ideia de que uma obra de arte possa ser alimento para o apetite do filisteu enche-me de pavor. Recuso-me a ser digerido pelo burguês. Mas ficar no seu estômago também não é tentador. O melhor, talvez, seja não se lhe servir de forma alguma.
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Quem emite opiniões não se pode deixar apanhar em contradição. Quem tem pensamentos também pensa entre as contradições.
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Quando a estupidez se manifesta numa cidade, deve-se declará-la contaminada. E nenhum caso deve ser ocultado. Com que facilidade pode acontecer que um imbecil frequente uma casa em que haja crianças! Nessas épocas, recomenda-se o encerramento das escolas e não, como se poderia pensar, a sua abertura.
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A crítica nem sempre demonstra a sua perspicácia habitual; com frequência, ignora os fenómenos mais insignificantes.
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Vi um poeta a correr atrás de uma borboleta num relvado. Pôs a rede sobre um banco em que um rapaz lia um livro. É uma infelicidade que normalmente seja o contrário.
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Ele domina a língua alemã — isso vale para o caixeiro. O artista é um criado da palavra.
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Há escritores que já conseguem dizer em vinte páginas aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas.
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O jogo de palavras, desprezível como fim em si mesmo, pode ser o recurso mais nobre de uma intenção artística na medida em que serve para abreviar uma intuição espirituosa. Ele pode ser um epigrama de crítica social.
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Não falemos publicamente sobre os problemas da vida sexual. Que a vivamos e lhe demos forma, mas nos calemos a respeito. Para resguardar a verdade é lícito ser hipócrita.
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Ter talento — ser um talento: essas coisas sempre são confundidas.
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Rir da vaidade dos atores, da sua necessidade de aplausos e afins é ridículo. As pessoas de teatro precisam do aplauso para representar melhor; e para isso, também basta o aplauso fingido. O sentimento de felicidade que alguns atores mostram quando são aplaudidos por aqueles que pagaram para o fazer é uma prova do seu génio artístico. Dificilmente alguém teria-se tornado um grande ator se o público tivesse vindo ao mundo sem mãos.
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