Pedro Oom

Pedro Oom

1926–1974 · viveu 47 anos PT PT

Pedro Oom foi um poeta português cuja obra se insere no contexto do modernismo. A sua poesia é marcada pela experimentação formal e pela exploração de temas urbanos e existenciais. Apesar de uma produção literária não extensa, deixou uma marca pela sua originalidade e pela forma como abordou a modernidade na poesia portuguesa.

n. 1926-06-24, Santarém · m. 1974-04-26, Lisboa

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Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
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Biografia

Identificação e contexto básico

Pedro Oom foi um poeta português, figura associada ao modernismo. Nasceu em Lisboa e a sua vida e obra estão intimamente ligadas ao ambiente urbano da capital portuguesa.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a sua infância e formação não são amplamente divulgadas, mas o seu percurso permitiu-lhe o contacto com as vanguardas artísticas e literárias do início do século XX, que viriam a influenciar a sua escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Pedro Oom foi marcado pela sua participação no movimento modernista português. Publicou poemas em revistas literárias da época, contribuindo para a renovação da linguagem poética. A sua obra, embora não vasta, distingue-se pela sua originalidade e pela vontade de experimentar.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Pedro Oom caracteriza-se pela sua aproximação ao modernismo. Os temas abordados incluem o quotidiano urbano, a fragmentação da experiência moderna e a introspeção. O seu estilo é marcado pela experimentação formal, pelo uso de uma linguagem inovadora e pela exploração de ritmos e sonoridades que refletem a modernidade. A sua voz poética procura capturar a complexidade do mundo contemporâneo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Pedro Oom viveu e produziu no contexto do modernismo português, um período de intensa efervescência cultural e artística que procurava romper com as tradições estéticas do passado. O seu trabalho dialoga com as propostas de outros artistas e escritores da sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes sobre a vida pessoal de Pedro Oom são escassos. Sabe-se que esteve inserido nos círculos literários do seu tempo, partilhando com outros artistas a busca por novas formas de expressão.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado a notoriedade de outros modernistas, Pedro Oom é reconhecido pela crítica especializada como um poeta importante dentro do movimento, pela sua contribuição para a experimentação e pela sua visão particular da poesia.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado pelas vanguardas europeias e pelo ambiente intelectual da Lisboa da época. O seu legado reside na sua participação na modernização da poesia portuguesa e na sua coragem experimental.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A análise crítica da obra de Pedro Oom foca-se na sua capacidade de incorporar elementos da vida moderna na poesia, utilizando recursos formais inovadores para expressar uma sensibilidade contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da sua vida não são amplamente disponíveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Os detalhes sobre a morte de Pedro Oom não são facilmente acessíveis, mas a sua obra permanece como um testemunho do seu contributo para o modernismo português.

Poemas

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Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
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Poema

Há um ar de espanto
no teu rosto em silêncio pequenas pausas
entre nós e as palavras
que desfiamos
Quando o silêncio (pausa mais longa
que nos contrai o peito)
cai bruscamente
duas mãos agitam-se meigamente as nossas
e os mendigos, todos os mendigos
espreitam ao postigo do teu pequeno apartamento
coroados de rosas e crisântemos
É o momento
em que afirmamos a realidade das coisas
não a que vemos na rua
e que sabemos fictícia
mas a outra
aurora cintilante
que põe estrelas no teu sorriso
quando acordas de manhã
com um sol de angústia na garganta
acredita
nada nos distingue
entre a multidão anónima a que pertencemos
embora
o fotógrafo teime sempre
em nos oferecer uma esperança
- fluido imaterial que nem mil anos
poderão condensar -
O nosso rasto
mal se apercebe na areia
condenados ao fracasso
pequena glória dos pequenos heróis deste tempo
ainda aspiramos
no entanto
a ser o índice deste século
único sinal humano, florescente e salubre
de contrário
seremos apenas
um halo de vento
arco-íris de luto
ou estrada para sedentários
É ocioso
preparar a objectiva
que nos vai condenar a um número
nesta cidade onde cada homem
é escravo de uma arma
Ocioso
avivar as flores do cenário
encher de luar o jardim do nosso afecto
Só um acaso
nos poderá revelar
por isso
fechemos o rosto
meu amor
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O Homem Bisado

Alegra-me ser todas as coisas e as sombras que elas projectam
ser a sombra dos teus seios e da tua boca
o criado de smoking branco que te agita os cabelos
para um cocktail estimulante e fresco
a mesa onde passo a ferro o teu corpo
as espádulas as coxas a curva macia dos joelhos
alegra-me ser o contorno da tua nuca e o binário motor dos teus braços
embora mais pequeno do que um corpúsculo celeste
sou os milhões de astros microrganismos estrelas
a rota de todos os navios perdidos
a angústia síntese de todos os suicidas
a forma de todos os animais conhecidos
o desenho rigoroso de toda a flora existente
Ontem em Paris hoje em Lisboa amanhã em Júpiter
caminho para a resolução de todos os problemas
sem a certeza de resolver qualquer deles
como se fosse uma máquina de somar parcelas
quatro vezes quatro oito vezes dez oitenta
sabe-me a vida ao que É
esta progressão assustadora de crocodilos bebendo limonada
Ontem fui a prostituta a quem paguei a noite
hoje serei talvez o inocente violentador frustrado
Sutmil é a cidade par aonde me evado todas as noites à aventura
e «os anéis de Saturno são a força centrífuga-centrípeta que me
agita os braços no espasmo amoroso»
a cabeça em Marte os pés na Terra
vindo «lá do fundo do horizonte lívido»
O comboio está na gare o comboio vai partir
apressemos o passo o momento é solene
somos o automóvel que sobe a avenida
a pulsação acelerada dos maquinismos
taxímetro de uma cidade de província
satélites de um satélite lunar
Tu és o aeroporto eu o avião que parte
e muito mais calmos entre éter e fogo
percorremos os sonhos de planeta em planeta desfolhando o futuro a flor sempre rara
e marcamos nos astros o nosso roteiro DEZ QUILÓMETROS
amanhã tirarei o curso de sonhador espacializado
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O coelhinho que nasceu numa couve

Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve. Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem, a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.
Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que ele passou a procurar a sua própria alimentação.
O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.
A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.
O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.
Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.
O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de se deslocar para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.
Mas já nada havia que se pudesse mastigar sobre aquelas terras.
Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro e faminto.
Então a mãe couve disse-lhe assim:
– Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução; assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?
O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma, não teve outro remédio, comeu a mãe.
Pedro Oom
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Sylvia Beirute é uma poeta portuguesa, nascida em 1984 no Porto, e residente no Algarve, sul de Portugal. Escreve regularmente para o seu espaço Uma Casa em Beirute.
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História do meu boneco

Cresceu comigo
neste espaço que se diz português
e neste tempo (histórico)
Maricas (era de esperar)
mas rebelde como um felino
ninguém se lhe pôs inteiro
ficou sempre um bocadinho
porque rangia a dentadura.
Depois de 45
afundou-se na continuidade
farfalhou o bigode, à guarda nacional antigo
e esperto como um corisco
instalou-se então, decidido
à mesa do orçamento.
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As virtudes dialogais

Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.
1 498

Idade sem razão

Os animais
cuja vivência
são as visitas
que todos temos feito
às girafas
ou o crocodilo
bastam para romper
a fascinação
idade
cartesiana
tanto
do direito
como do avesso
1 125

Poema

Tua boca
é um dia estreito
cheio de moscas
De noite
tem a cor azul-verde
dum veneno
como o mar.
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