Pedro Nava

Pedro Nava

1903–1984 · viveu 81 anos BR BR

Pedro Nava foi um médico e escritor brasileiro, conhecido pela sua obra autobiográfica e memorialista, que retrata com vivacidade a vida e os costumes do Brasil em diferentes épocas. A sua escrita, marcada por uma memória prodigiosa e um estilo envolvente, transporta o leitor para as suas experiências pessoais e para a história de sua família, oferecendo um retrato íntimo e detalhado do país.

n. 1903-01-01, Juiz de Fora · m. 1984-01-01, Rio de Janeiro, RJ

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O Defunto

A Afonso Arinos de Melo Franco


Quando morto estiver meu corpo
evitem os inúteis disfarces,
os disfarces com que os vivos,
só por piedade consigo,
procuram apagar no Morto
o grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
ou os ramalhetes distintos,
os superfinos candelabros
e as discretas decorações.

Eu quero a morte com mau gosto!

Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
angustiosas flores de pano,
enormes coroas maciças,
como enormes salva-vidas,
com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
que a vejam bem os amigos.
Que a não esqueçam os amigos
que ela perturbe os amigos
e que lance nos seus espíritos
a incerteza, o pavor, o pasmo...
E a cada um leve bem nítida
a idéia da própria morte.

Descubram bem esta cara!

Descubram bem estas mãos:
Não se esqueçam destas mãos!
— Meus amigos! Olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
em que sexos se demoraram
seus lábios quirodáctilos?
Foram nelas esboçados
todos os gestos malditos:
até furtos fracassados
e interrompidos assassinatos...

— Meus amigos! Olhem as mãos
que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam:
elas fugiram
da suprema purificação
dos possíveis suicídios...
— Meus amigos! Olhem as mãos,
as minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!

Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo
e até mesmo do meu corpo
as partes excomungadas,
as partes sujas sem perdão,
que eu esmagava nos sábados
e aos domingos renasciam!

— Meus amigos! Olhem as partes...
Fujam das partes...
Das punitivas, malditas partes...
— Meus amigos! Arranquem as suas...
Esmaguem as suas...
Amputem as suas...

Eu quero a morte nua, crua,
terrífica e habitual,
com o seu velório habitual

Ah, o seu velório habitual...
Não me envolvam num lençol:
a franciscana humildade,
bem sabeis que não se casa
com meu amor pela Carne
com meu apego ao Mundo.

Eu quero ir de casimira:
calça listrada, plastron...
com os mais altos colarinhos,
com jaquetão com debrum...

Dêem-me um terno de ministro
ou roupa nova de noivo...
E assim, solene e sinistro,
quero ser um tal defunto,
um morto tão acabado,
tão aflitivo e pungente,
que a sua lembrança evenene
o que restar aos meus amigos
de vida sem minha vida.

— Meus amigos! Lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto,
que vai se deitar para sempre,
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
os amantes despedidos,
como os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos! Tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também...

Rio de Janeiro, 23 julho de 1938

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Publicado no livro O Defunto (1967).

In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
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Biografia

Identificação e contexto básico

Pedro Nava foi um médico, escritor e memorialista brasileiro. Nasceu a 5 de junho de 1903, no Rio de Janeiro, e faleceu a 14 de janeiro de 1984, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Ficou célebre pela sua obra autobiográfica que narra a vida da sua família e os costumes do Brasil em diferentes épocas. Sua nacionalidade é brasileira e a língua de escrita o português. Viveu um período de grandes transformações no Brasil, desde a República Velha até o regime militar.

Infância e formação

Pedro Nava nasceu em uma família abastada e influente, o que lhe proporcionou uma infância privilegiada. A sua formação inicial ocorreu em colégios tradicionais no Rio de Janeiro. Posteriormente, formou-se em Medicina pela Universidade do Rio de Janeiro (atual UFRJ) em 1925. A sua juventude foi marcada por viagens e experiências que mais tarde seriam a base da sua escrita memorialista.

Percurso literário

Embora formado em medicina e com uma carreira profissional ativa, o percurso literário de Pedro Nava ganhou destaque mais tarde na vida. Começou a publicar suas memórias na década de 1940, mas foi a partir dos anos 1970 que sua obra alcançou maior reconhecimento e popularidade, com a publicação de "Baú de Memórias", "Chão de Flores" e "O Círio de Nazaré". Sua escrita, mais do que ficção, era um mergulho profundo em suas lembranças e na história de sua família e do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Pedro Nava, como "Baú de Memórias" (1973), "Chão de Flores" (1974), "O Círio de Nazaré" (1975), "A Capital da Sensatez" (1977) e "O Desate" (1978), são profundamente autobiográficas e memorialistas. Os temas centrais são a memória, a infância, a família, os costumes sociais brasileiros, a passagem do tempo e a história do país, especialmente do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem rica, detalhada e envolvente, uma memória prodigiosa que evoca com precisão cenas e sensações, e um tom que transita entre o nostálgico, o humorístico e o crítico. Nava utiliza recursos narrativos que criam uma forte conexão com o leitor, convidando-o a reviver o passado.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Pedro Nava produziu sua obra em um período de intensas transformações sociais e políticas no Brasil. Sua escrita oferece um olhar retrospectivo sobre a República Velha e as décadas subsequentes, retratando costumes, valores e cenários que estavam em processo de mudança ou desaparecimento. Ele dialogou com o contexto cultural de sua época, mas sua obra se destaca por resgatar um passado que muitas vezes corria o risco de ser esquecido.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Como médico, Pedro Nava teve uma carreira sólida. A sua vida pessoal foi marcada pela sua extensa família, cujos membros e histórias são centrais em sua obra. A memória era uma faceta fundamental da sua personalidade, e a dedicação à escrita memorialista tornou-se uma paixão que ocupou grande parte de seus anos mais maduros.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha tido uma carreira médica respeitada, o maior reconhecimento de Pedro Nava veio com a sua obra literária. A publicação de suas memórias foi um sucesso de público e crítica, especialmente a partir dos anos 1970. Sua capacidade de resgatar o passado com tanta vivacidade e detalhe garantiu-lhe um lugar de destaque na literatura brasileira, sendo considerado um dos grandes memorialistas do país.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Pedro Nava, com sua obra, influenciou a forma como o gênero memorialista é encarado no Brasil, valorizando a memória individual como chave para a compreensão da história coletiva. Seu legado reside na preservação de um painel rico e detalhado da vida brasileira de outrora, transmitindo a gerações futuras um conhecimento vívido e pessoal de um tempo passado. Sua escrita é um testemunho valioso da memória e da cultura.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Nava é frequentemente analisada sob a ótica da memória e da subjetividade, explorando como o passado é reconstruído e interpretado. A crítica destaca a sua habilidade em transformar experiências pessoais em narrativas universais sobre a passagem do tempo e a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Pedro Nava é a sua impressionante capacidade de memória, que lhe permitia recordar detalhes vívidos de sua infância e juventude. Sua escrita não era apenas um ato de rememoração, mas uma verdadeira arte de contar histórias, que prendia o leitor pela autenticidade e pela riqueza de detalhes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Pedro Nava faleceu em 1984, deixando um acervo literário que continua a ser lido e estudado. A sua obra perpetua a sua memória e a das épocas que retratou, garantindo que o seu testemunho e a sua visão sobre o Brasil permaneçam vivos.

Poemas

13

Educação Sentimental

P/Alberto Deodato


Mariquita fechou o Escrich
e teve vontade dum espanhol
com seu punhal
para matá-la...


In: REVISTA DE ANTROPOFAGIA, São Paulo, ano 1, n.9, p.2, jan. 192
1 626

Noite de São João

A Mário de Andrade


São João São João

o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra

mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos

Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus

Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições

Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)

e o vento agudo

e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas

(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)

São João São João

e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira

São João São João


In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
2 243

Noturno de Chopin

Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin

Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...

Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.

Os olhos de você, amor...

O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.


In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
1 524

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