Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos

1922–1991 · viveu 69 anos BR BR

Paulo Mendes Campos foi um poeta, cronista e jornalista brasileiro, conhecido pela sua poesia lírica e introspectiva, que aborda temas como o amor, a saudade, a efemeridade do tempo e as pequenas alegrias e tristezas do quotidiano. A sua obra destaca-se pela simplicidade da linguagem, pela musicalidade dos versos e por uma profunda ternura. Com um estilo que cativa pela sua delicadeza e pela capacidade de captar a essência das emoções humanas, Mendes Campos deixou um legado importante na literatura brasileira. As suas crónicas, igualmente apreciadas, revelam um olhar atento sobre a vida urbana e as relações humanas, consolidando-o como um autor multifacetado e querido pelo público.

n. 1922-02-28, Belo Horizonte · m. 1991-07-01, Rio de Janeiro

12 233 Visualizações

Poema Didático

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,
Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar ?

Meu instante agora é uma supressão de saudades. instante
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.
Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.
E não olhei a ferrovia - mas o homem que sangrou na ferrovia -
E não olhei a fábrica - mas o homem que se consumiu na fábrica -
E não olhei mais a estrela - mas o rosto que refletiu o seu fulgor.
Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ?
O mundo, companheiro, decerto não é um desenho
De metafísicas magnificas (como imaginei outrora)
Mas um desencontro de frustrações em combate.
nele, como causa primeira, existe o corpo do homem
- cabeça, tronco, membros, aspirações e bem estar...

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética
Ou vaga advinhação de poderes ocultos, rosa
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.
O mundo nasceu das necesidades. O caos, ou o Senhor,
Não filtraria no escuro um homem inconsequente,
Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem
É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -
Se podemos admiti-lo - não se redime em injustiça.
Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo
Entre os filhos da terra. Força - aos que o herdaram -
É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,
Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,
sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento
De todos: se multipliquei a minha dor,
Também multipliquei a minha esperança.

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Paulo Mendes Campos foi um poeta, cronista e jornalista brasileiro. Nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 12 de março de 1922, e faleceu no Rio de Janeiro, em 13 de setembro de 1991. É considerado um dos grandes nomes da poesia brasileira do século XX, associado à chamada "Geração de 45" ou "Segunda Geração Modernista".

Infância e formação

Paulo Mendes Campos passou a sua infância em Belo Horizonte, onde iniciou os seus estudos. Posteriormente, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde deu continuidade à sua formação e onde a sua carreira literária se desenvolveu plenamente. Foi um autodidata em muitos aspetos da sua formação intelectual e literária.

Percurso literário

O início da sua carreira literária deu-se com a publicação de poemas em jornais e revistas. A sua obra poética mais expressiva começou a consolidar-se a partir da década de 1940. Além da poesia, destacou-se como cronista, publicando regularmente em jornais de grande circulação, como o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil. Foi também tradutor e atuou como jornalista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras poéticas mais conhecidas de Paulo Mendes Campos incluem "Mundo Menor" (1947), "A Idade de Amor" (1951) e "Galos, Galos" (1959). Os temas centrais da sua poesia são o amor, a saudade, a melancolia, a fugacidade do tempo, a solidão e as cenas do quotidiano. O seu estilo é marcado por uma linguagem coloquial e acessível, mas carregada de lirismo e subtileza. Utiliza frequentemente o verso livre e uma estrutura que favorece a espontaneidade e a musicalidade. A voz poética é confessional, íntima e terna, capaz de evocar emoções universais a partir de experiências pessoais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mendes Campos viveu e escreveu num período de grandes transformações no Brasil, nomeadamente durante o Estado Novo e o subsequente período democrático. Fez parte de um grupo de escritores que buscava renovar a linguagem e as temáticas literárias, distanciando-se das vanguardas mais radicais do Modernismo e propondo uma poesia mais voltada para o lirismo e a intimidade. Teve contacto com outros importantes escritores e intelectuais da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Paulo Mendes Campos teve uma vida dedicada às artes e ao jornalismo. As suas experiências pessoais, em particular as suas vivências amorosas e a sua observação atenta da vida urbana, foram fontes de inspiração para a sua obra poética e cronística. Manteve uma relação próxima com a cidade do Rio de Janeiro, que frequentemente surge como cenário ou tema nas suas escritas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Paulo Mendes Campos obteve um reconhecimento significativo em vida, tanto pela sua poesia quanto pelas suas crónicas, que conquistaram um vasto público pela sua sensibilidade e proximidade com o leitor. A sua obra é amplamente estudada e valorizada no meio académico e literário brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas como Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles, mas desenvolveu uma voz poética muito própria. O seu legado reside na sua capacidade de traduzir sentimentos humanos universais numa linguagem singela e tocante, consolidando um lirismo intimista na poesia brasileira. As suas crónicas também deixaram uma marca indelével pela sua observação social e pelo seu humor subtil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Paulo Mendes Campos é frequentemente analisada pela sua exploração da melancolia e da efemeridade, contrastando a beleza do amor e da juventude com a inevitabilidade da perda e do tempo. A sua poesia convida à reflexão sobre as pequenas alegrias e dores que compõem a existência humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Paulo Mendes Campos era conhecido pela sua discrição e pela sua dedicação ao ofício de escrever. Há relatos sobre o seu método de trabalho meticuloso, onde selecionava cuidadosamente as palavras para alcançar a precisão emocional desejada.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Paulo Mendes Campos faleceu em 1991, deixando um acervo literário valioso. A sua obra continua a ser publicada e redescoberta, mantendo viva a sua memória como um dos mais sensíveis e importantes poetas brasileiros.

Poemas

4

Poema Didático

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,
Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar ?

Meu instante agora é uma supressão de saudades. instante
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.
Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.
E não olhei a ferrovia - mas o homem que sangrou na ferrovia -
E não olhei a fábrica - mas o homem que se consumiu na fábrica -
E não olhei mais a estrela - mas o rosto que refletiu o seu fulgor.
Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ?
O mundo, companheiro, decerto não é um desenho
De metafísicas magnificas (como imaginei outrora)
Mas um desencontro de frustrações em combate.
nele, como causa primeira, existe o corpo do homem
- cabeça, tronco, membros, aspirações e bem estar...

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética
Ou vaga advinhação de poderes ocultos, rosa
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.
O mundo nasceu das necesidades. O caos, ou o Senhor,
Não filtraria no escuro um homem inconsequente,
Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem
É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -
Se podemos admiti-lo - não se redime em injustiça.
Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo
Entre os filhos da terra. Força - aos que o herdaram -
É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,
Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,
sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento
De todos: se multipliquei a minha dor,
Também multipliquei a minha esperança.

3 654

Amor Condusse Noi Ad Nada

Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida

As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas

A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia

A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.

1 076

Translúcido

Rosas rara se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.

Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.

Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.

Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.

Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,

Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.

A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.

Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.

1 410

Os domingos

Os domingos

Todas as funções da alma
estão perfeitas neste domingo. O tempo inunda a
sala, os quadros, a fruteira. Não há um crédito
desmedido de esperança. Nem a verdade dos supremos
desconsolos - Simplesmente a tarde transparente, Os
vidros fáceis das horas preguiçosas, Adolescência
das cores, preciosas andorinhas. Na tarde –
lembro – uma árvore parada, A alma caminhava para os
montes, Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza. Domingo –
lembro – era o instante das pausas, O pouso dos
tristes, o porto do insofrido. Na tarde, uma valsa; na
ponte, um trem de carga; No mar, a desilusão dos que
longe se buscaram; No declive da encosta, onde a
vista não vai, Os laranjais de infindáveis doçuras
geométricas; Na alma, os azuis dos que se afastam, O
cristal intocado, a rosa que destoa. Dos meus
domingos sempre fiz um claustro. As pétalas caíam no
dorso das campinas, A noite aclarava os
sofrimentos, As crianças nasciam, os mortos se esqueciam
mortos, Os ásperos se calavam, os suicidas se
matavam. Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos. E uma
esperança que não tenho.

1 462

Citações

3

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.