Escritas

Lista de Poemas

lembrem de mim

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça


Publicado no livro Polonaises (1980).

In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
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Claro Calar sobre uma Cidade sem Ruínas (Ruinogramas)

Em Brasília, admirei.
Não a niemeyer lei,
a vida das pessoas
penetrando nos esquemas
como a tinta sangue
no mata borrão,
crescendo o vermelho gente,
entre pedra e pedra,
pela terra a dentro.

Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
criminoso por estar
fora da quadra permitida.
Sim, Brasília.
Admirei o tempo
que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.

Adeus, Cidade.
O erro, claro, não a lei.
Muito me admirastes,
muito te admirei.


Poema integrante da série Distraídos Venceremos.

In: LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 199
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apagar-me

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme


Publicado no livro Não Fosse Isso e Era Menos. Não Fosse Tanto e Era Quase (1980).

In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
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às vezes penso que as melhores inteligências

(...)

às vezes penso que as melhores inteligências como as nossas são
você riso caetano gil alice waly duda pedrinho sebastião
etc etc etc
etc etc
etc
não deviam se ocupar de arte/literatura/SIGNO
deviam partir para a militância
aplicar-se numa militância

A REVOLUÇÃO É SEMPRE NO PLANO PRAGMÁTICO DA MENSAGEM

o que interessa, o que a gente quer, no fundo, é MUDAR A VIDA
alterar as relações de propriedade a distribuição das riquezas
os equilíbrios de poder entre classe e classe nação e nação

este é o grande Poema: nossos poemas são índices dele
meramente

nossa poesia tem que estar a serviço de uma Utopia
ou como v. disse de uma ESPERANÇA
é isso que quero dizer quando falo
que o poeta para ser poeta tem que ser mais que poeta

é preciso deixar que a História chegue em você
dê choque em você
te chame te eleja te corteje
te envolva e te engaje

uma coisa pode ter certeza:
nascemos na classe errada

estou tomando o máximo de cuidado
para que tudo isso que estou dizendo
saia sem o menor resquício de stalinismo
sectarismo esquerdofrênico
and so on

mas não dá para jogar fora esse lance

nós que temos o know-how e o dont-know-how
temos que ter esse what
esse whatever it is
dont you think so?

chega de sutilezas críticas

com meia dúzia de slogans verdadeiros na cabeça
cerco a montanha
ponho cerco às fortificações
tomo a posição e a defendo

os patriarcas já teorizaram bastante por nós
foi seu martírio

estamos dentro de uma onda
uma grande vaga atlântica
me leva do pacífico
até as praias da Atlântida (a Terra Santa)

talvez não haja mais tempo
para grandes GESTOS INAUGURAIS
como a poesia concreta foi
a antropofagia foi
a tropicália foi

agora é tudo assim
ninguém sabe
as certezas se evaporam

que a estátua da liberdade
e a estátua do rigor
velem por todos nós

amor abraços

Leminski

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In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 42-44
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a propaganda meu meio de vida

(...)
a propaganda meu meio de vida
me dá algumas satisfações
afinal
todo layoutman é um pouco poeta concreto
e aliás é fantástico como os homens de arte das agências
entendem um trabalho concreto na hora
enquanto os literati dizem:
— o que é isso? que quer dizer? isso não é poesia.
só me dou com cartunistas fotógrafos cineastas desenhistas
tudo menos escritores
dos quais acabei por ter grande horror

o bom é que estar em propaganda
facilita enormemente as coisas para nós
em termos de letra-set execução produção fotografia papel
uma agência é um laboratório de mensagens

isso está muito bom
além disso me pagam bem
e eu disponho dos melhores homens de arte da praça
todos amigos meus
servo-mecânico para um senhor-mecanismo
conduzo com alguma elegância
meu destino de médico & monstro

fiz uma palestra/debate
proposta minha
na arquitetura daqui
sobre o tema O BELO VERSUS O NOVO

no qual desenvolvi a idéia seguinte
isso que se chama arte moderna
deslocou o centro da idéia de BELO
para a idéia de NOVO
q eu disse ser própria de sociedades industriais
em adiantado estado de consumismo
capitalistas ou socialistas
o pau que quebrou vou te contar

imensamente interessado em tudo que você
produz
me mande me diga me comunique

com toda a amizade

Leminski


In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 24-25
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Nada me demove

nada me demove
ainda vou ser
o pai dos irmãos Karamazov

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Apagar-me

Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.

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ver

ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
de experimentador

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KAWÁSU

"Kawásu" é "sapo", em japonês.
Imagino ter relação original com
"kawa", "rio". O batráquio é o animal
totêmico do haikai, desde aquele
memorável momento em que Mestre
Bashô flagrou que, quando um sapo
"tobikômu" ("salta-entra") no velho
tanque, o som da água.

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podem ficar com a realidade

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

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