Paulo F. Cunha

Paulo F. Cunha

Paulo F. Cunha é um poeta contemporâneo cuja obra se distingue pela profundidade lírica e pela exploração de temas universais como o amor, a solidão e a passagem do tempo. A sua escrita caracteriza-se por uma linguagem cuidada e pela capacidade de evocar imagens sensoriais fortes, convidando o leitor a uma reflexão introspectiva. As suas composições poéticas exploram a condição humana com uma sensibilidade aguçada, abordando as complexidades das relações interpessoais e a busca por significado num mundo em constante mudança. A sua poesia é um convite à contemplação e à redescoberta da beleza nas pequenas coisas do quotidiano.

n. , São Paulo, SP

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Elogio às putas de meu Recife

Que seria desta cidade sem suas putas?
Doces, dolentes,carinhosas putas da juventude
Quando só com elas tudo era permitido
Quando só haviam missas, aniversários
e -moças- de- família, nem sempre família?
Que seria de nós, imberbes ansiosos que,
destinados à Zona dela receàvamos e nela
tudo aprendíamos?
Putas, extensão universitária dos jovens
do meu tempo, aprendendo com elas
a difícil ciência das mulheres.
Das boas mulheres que, na cama,
aspiravam aperfeiçoamentos putológicos
para defender os maridos das putas verdadeiras
Que seria de nós, jovens do Recife
sem a geografia das escadas urinadas
e o chamamento das "professoras" dos balcões
dos velhos sobrados carcomidos,
( tão Recife eles eram )
Romances com putas não existem?
Existem sim nos dengos sem compromisso
e nas histórias que elas contavam
de como tinham caído "na vida"
e que nós gostávamos tanto de ouvir,
embora fosse sempre a mesma história.
Putas do Recife: eu, reconhecido, agradeço pois,
se não fossem vocês, a humanidade de vocês,
eu não deixaria de ser homem, é certo
mas quanta coisa eu deixaria de saber?

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Poemas

19

Recifetebas

Deito-me ao lado de Jocasta
sem remorsos
purificado por esta Recifetebas
da esfinge Jomard decifrada.
O’meu poeta que - bem mais que
tantos Penas, Bandeiras e Cabrais
me chega, por Recifetebas,
ao coração silente.
Pois me ensinaste como, quando
e onde amar de vez e melhor,
a mulher - cidade Recifenda
Há tanto abandonada, vilipendiada
com a metade má do amoródio
e , finalmente,(re)visitada
(re)conquistada, (re)morada.
Ah! Este reencontro com as ruas
da União, Concórdia, Creoulas, Sossego
Ah! O reencontro com o gosto da comida
e com o gosto do desgosto da chupada
da puta Rita, na praia, entre cinco dividida.
Obrigado meu poeta por decifrar-te
e ser Édipo sem remorso e sem cegueira
Comendo mangues, marés , coqueiros
desta sonhada cidade Recifetebas.

748

Insônia

Tanta insônia, tanta ,
o relógio passando eu ficando
que eu nem sabia para que
servia minha insônia.
Mas agora sei! Para que
encontre a multidão
que vive dentro de mim.
Noites silentes, tardias, cansadas,
que batiam à porta
do meu corpo.
E eu, ignaro a detestá-las
tanto quanto, agora, passo a amá-las
Não mais o “nhec-nhec”
das opiniões pre-fabricadas
pobres, secas, estioladas,
de quem não entende nada
da vida, das coisas, da gente.
Pensar que sabe :
eis a primeira e a ultima
ilusão do beócio que
repete o que lhe disseram,
sofre o que lhe fizeram,
e nunca chega a entender
que a pensar não pode pretender,
pois pensar é coisa de gente
gente que vê, lá na frente .
Pois mente demais o que pensa
que o que pensa é verdadeiro.
Mas só agora eu soube
que a insônia é meu dom
Não fosse ela eu jamais saberia
e que aquilo que tanto combatia,
era, na verdade , o que eu queria.

722

Sexus, Nexus Plexos

sexus , nexus , plexus
pensava Henry Miller .
Mas , para mim , mais que tudo ,
quero sexus sem muito nexus
e com muito , muito plexus
ou vários e inusitados amplexos .
Plexo solar , central , umbilical
e todas as adajacências acima e abaixo
descobertas e hiperfuncionais
ao simples toque dos dedos ,
curiosos , desejosos , ledos .
Quero sexus sem nexus algum ,
pois não há nexus nesse desejo
que me move amedronta e alimenta
na estrada tomentosa
em que me desacorrento

962

Última Vontade

Quero amar muito
antes que me façam odiar .
Quero dar tudo que tenho
antes que tomem de mim .
Quero receber todas as coisas
antes que deixem de me dar .
Quero que olhem o que há de claro
antes que o escuro se aproxime .
Quero o êxtase de todos os movimentos
antes que me paralisem .
Quero ver , cheirar , ouvir ,
quero tocar e provar
antes que me anestesiem os sentidos .
Quero me sentir livre e solto
antes das barras do cárcere .
Quero ser muito coração
antes que me roubem o cérebro .
Quero companhia na derrota
antes que me forcem à vitória .
E quero que tudo isso chegue logo
antes que eu me transforme
em odioso ,espoliado e trevoso
prisioneiro sem cadeias
que nada soube fazer
a não ser obedecer e vencer

674

Duplo

Poderia dizer que te amo
porque sofro.
Mas não , não sofro , tenho raiva.
Raiva de ti , a quem amo ?
E amorraiva ou raivamor ?

Chego a conclusão insofismável
que te amo porque tenho raiva
e , no momento em que te amo
tenho vontade de te odiar
e , no momento em que te odeio
morro de vontade de te amar

Sou duplo , amo e odeio a ti

1 024

Sou Só

Sou só
Sou infinitamente só
dentro de mim mesmo.
Não era, dependia, queria...
Mas aprendi nos ramos
da Árvore da Vida que
não se consegue ser todo
sem primeiro ser total
e profundamente só,
até que eu seja apenas
uma nuvem branca
levada pelos ventos
e mudando , ao leu, a forma.
Tantos degraus, tantos
galhos devo passar.
Talvez nunca chegue a sê-lo
Mas, em havendo vida, vou tentar

890

Ah!

Ah! A lembrança da moça
que me tirou o peso
da alma.
Ah , a lembrança da moça
que me soltou o coração

pôr um instante .
Ah , a lembrança da moça
que olhei e que me fez
homem
de novo
Ah , o instante ( horas , talvez)
que passou, ou me engano eu
quando penso
( e quero ? )
que pensam em mim .

que marcou
que ficou .
Ah , a impossibilidade do concreto
contra a extrema possibilidade
do momento
que virou passada fantasia
e que assim será lembrado

com minhas duas metades
e elas se encontram com as tuas
nas circunvoluções da nossa vida .

996

Cidade Desejo

Recife tem urgências de mulher
de mulher bela que mais
bela nua;nudez que ainda
não vi por inteiro , no máximo
envolta em nuvens .
Mas seus segredos mais guardados
que só se mostram no completp despir ,
seus imaginários recantos úmidos
das saliências e curvas dos seus rios ,
os pícaros leitosos , pequenos , apetitosos
de suas elevações e profundezas ,
estes ainda não vi .
Mas prometo jamais dormir
antes do alumbramento do poeta .

803

Te Quero

Te quero , te preciso .
Estás longe e te sinto perto ,
estás perto e te sinto longe .

Te quero , te preciso ,
e nada mais quero
que queiras à mim

Te quero , te preciso
e sei que me queres
mas não queres querer .

Te quero , te preciso ,
fogem passado e futuro
e fica o presente ... em ti .

Te quero , te preciso .
Te espero , te gosto , te amo ,
te olho , te abraço , te beijo

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Comentários (1)

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Orlando
Orlando

Prezados, esse na foto é o MARCO AURÉLIO CUNHA e não Paulo F. Cunha. A foto que aí está não remete a mesma pessoa.