Escritas

Lista de Poemas

Fala

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será.
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade)

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A Estrela da Tarde

A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume

A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima

Depois da estrela da tarde
so há:
o silêncio.

👁️ 1 769

Cisne

Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
- a presença do cisne?


Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e - humana -
é esplendor memória
e sangue.


E
resta
não o cisne: a
palavra


- a palavra mesmo
cisne.


do livro Alba (1983)
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Clima

Neste lugar marcado: campo onde
uma árvore única
se alteia


e o alongado
gesto
absorvendo
todo o silêncio - ascende e
imobiliza-se


(som antes da voz
pré-vivo
ou além da voz
e vida)


neste lugar marcado: campo
imoto
segredo cio cisma
o ser
celebra-se


- mudo eucalipto
elástico
e elíptico.


do livro Alba (1983)
👁️ 1 618

A um passo

A um passo
do pássaro
res
piro.

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São Sebastião

As setas
- cruas - no corpo


as setas
no fresco sangue


as setas
na nudez jovem


as setas
- firmes - confirmando
a carne.
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Esfinge

Não há perguntas. Selvagem
o silêncio cresce, difícil.


Publicado no livro Rosácea (1986).

In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
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Viagem

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.


Publicado no livro Rosácea (1986).

In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
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Poemetos

a) manhã
Ninguém ainda. As rosas me saúdam
e eu saúdo o silêncio
das rosas.

b) ausência
Aqui ninguém
e nuvens.

c) ave
Asas suspensas em
instanteluz.

d) lua
Integralidade.
Fixidez.

e) Narciso
A flor a água a face
a flor a água
a flor.

f) primavera
Da não-espera
acontecem as
flores.

g) lago
Tensão
fria
da água: paz - em - ser.

h) espera
As janelas abertas.
A porta apenas encostada...

i) vaso
mas incomunicante.

j) fim
A ausência das rosas. O caminho
Já sem ninguém, para o silêncio.


Publicado no livro Helianto (1973).

In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
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Hamlet

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