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Antonio Aury

Antonio Aury

Simples

Primeiro, como disse Brecht,

Levaram o meu café
Não reagí
Eu tinha leite
Depois levaram o meu deleite:meu futebol
Arturzão, Rivellino e Pelé
Não reagí
Confesso que chorei
E depois levaram o meu vôlei
Não reagí
Eu tinha leite
Me acomodei
Depois levaram o meu cigarro
e a minha cervejinha
Não reagí
Eu tinha leite
Disseram que melhorei
Depois levaram minha alegria e
minha felicidade
eu reagí
ainda,tenho leite
e os enfrento
Confesso ter uma raivinha
mesmo ao leo ,mesmo ao vento
arduamente
Ainda, sou livre
Em nada sou réu
Mas, alto lá!
Não vivo no céu
Vivo da e na Terra

Depois levaram minha ascendência
os construtores do chão
e edificadores da verdadeira teeerrrrrrrrra
Reagí
Eu tenho leite
Tenho decência
pois deles recebí

E por mais que me imponham limites
Sigo de cabeça erguida
Embora inúmeras as tentativas
nunca desistirei
dos meus sonhos e das mulheres
meus verdadeiros amores!
da igualdade por cima
meus verdadeiros valores!
E diante dos vencedores
sentirei pena deles
Algozes e covardes
Abutres e enganadores!

Pois eu tenho leite
Tenho como espelho a
Quem soube reagir

aury- dedicatória-em prelúdio a darcyribeiro e paulinho nogueira
esquecidos como são os grandes brasileiros
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Saul Leiva

Saul Leiva

Psico dispersão

O que escrever?, como te prender?

Qual idéia é necessária defender?

Procuramos nos distrair cada minuto

Divagação alienada, desvio absoluto,

Pessoas, objetos, músicas, dinheiro e drogas

Pensas que matas tédio?, apenas o negas

Consegues ficar sozinho, fazendo monólogo

Sem platéia, sei que teu circo vai pegar fogo,

Rodeado de ruído, para não se escutar

Voz da consciência, prefere não afrontar

Pois não se aguenta

Também, alma marrenta,

Fugindo da própria sombra

Mas como escapar de si?

Nossa vida, eterna penumbra

escondendo-se com frenesi,

Sois feliz na sua companhia?

"estar sozinho ou ser feliz?"

era a única decisão que você possuía?

Isso, Acabou sendo escolha de Sophia,

Gostas do que vês no espelho?

Sentes bem teu espírito velho?

Não sois completo, nem minimamente meio

Questionador tipo apanhador no campo de centeio,

Vida turbulenta, lidando com depressão e psicose

todo dia e noite, faz com que a confiança necrose

quer uma mão amiga?, esta perto do seu antebraço

se a encontrares, terás a resiliência forte como aço,

Tentas escapar como Alice

Tudo para evitar uma crise

Toca do coelho é seu refugio sagrado

Mas sem chapeleiro, rainhas ou gato,

Não escondas a sua sombra, para mais a noite

Porque infelizmente, é quando fica mais forte.



HENRIQUE SAUL LEIVA SALDIVAR
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Paulo Sérgio Rosseto

Paulo Sérgio Rosseto

AMIGA

Amiga, tens o fino sabor frutado de tâmaras
Tangerinas, ares das montanhas de Bourbon
Pêssegos do Sul
Misto de maçãs e as fartas uvas bordô
Das roxas terras da colina
Borbulhantes taças em cristais
Translucidas de desejos

Pela manhã dei-te poemas
Devolveste os olhos de Martin Brest
Chris O'Donnell, James Rebhorn, Gabrielle Anwar, Frank Slade
All Patino, Por Uma Cabeza
Gardel, em Perfume de Mulher
Nas cordas de Katika Illényl

Entre os acordes do teu tango
Decorei às cegas simples passos
Abertos em cinco mistérios
- Um para cada página que de ti se apossa
Rezando semitons onde cantam
Aprestadas hordas de teclas e acordes
Por meu singrado e arteiro bandoneon
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hh_cris

hh_cris

Perfeição


Todos os dias ela está presente,
Jamais ausente.
Sua bela perfeição,
Que nos traz a união.

O Sol e a chuva juntos,
Para o arco-íris criar,
O céu azul e branco
Que colorida está.

Os pássaros a voar e a cantar,
As nuvens no céu a brilhar.
A noite as estrelas vêm,
Para a escuridão iluminar.

Todos juntos formando a perfeição,
Que nos traz a afeição.
É ela, a tão adorada natureza,
Que nos oferece a sua beleza.
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-ltslima

-ltslima

Eternamente Vou Te Amar




Você fez nascer esse amor
Que trago em meu coração..
Foi você que fez nascer
Esse amor em mim

Que deus me deu para te dar
Você nasceu pra mim
Te amar é mais que te querer
O nosso amor é mais que a
Primavera em flor

Vai além da terra,céu e mar.
Eu e você somos a expressão
Em forma de amor

Sempre vou te querer.
Eternamente vou te amar!

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paula_frason

paula_frason

Agradecimento

Agradecimento



Eu lhe agradeço por ter me tido.

Mas também, por ter partido.



Eu lhe agradeço pelo início

Mas não pelo reinício.



Eu lhe agradeço pelo sim.

E também, pelo fim.
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Ricardo Santos de Souza

Ricardo Santos de Souza

CORAÇÃO MADURO

BASTOU POUCA CONVERSA ENTRE NÓS PARA DESCOBRIRMOS QUE ERAMOS UM DO OUTRO, MORÁVAMOS TÃO PERTO, NO MESMO CONDOMÍNIO E NUNCA HAVÍAMOS NOS VISTO, COMO FOI BOM TE CONHECER AQUELE DIA, VOCÊ ME OLHOU DE UM JEITO MUITO DIFERENTE, NAQUELE MOMENTO FIQUEI PERDIDAMENTE APAIXONADO, NÃO CONSEGUIA PENSAR EM MAIS NADA; COMEÇAMOS A SAIR, CURTIR A VIDA JUNTOS, NOS AMÁVAMOS COMO DOIS ADOLESCENTES, OU SEJA, SEM FREIO, LOUCOS PARA SE REENCONTRAR APÓS ALGUMAS HORAS DE DISTANCIA; SABÍAMOS APROVEITAR O NOSSO TEMPO LIVRE, QUE FOGO! NÃO TENHA DÚVIDAS DO MEU AMOR POR VOCÊ, SEMPRE TE AMAREI COM O FOGO E O FÔLEGO DE UM ADOLESCENTE E COM A RESPONSABILIDADE E O CARÁTER DE UM ADULTO EXPERIENTE, CUIDA BEM DE MIM, PORQUE EU SEI QUE NASCI PARA CUIDAR BEM DE VOCÊ!
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Cedric Constance

Cedric Constance

CORES DE AMOR

O sangue que há em mim,
É da mesma cor do seu.
Simplesmente nasci assim,
Somos iguais, você e eu.

Não suporto a violência,
Ver irmãos assassinados.
Seguimos na resistência,
Queremos ser respeitados.

Gays, lésbicas, bissexuais,
Todos querem ser felizes.
Travestis, héteros, transexuais,
Todos com suas cicatrizes.

Cada um tem o seu jeito,
Cada forma única de amar.
Coração bate forte no peito,
O ódio nunca vai nos calar.

Homofobia é uma chaga,
Preconceito é um atraso.
Discriminação é uma praga,
De gente com pensamento raso.

Respeitar a diversidade,
Do arco-íris as 7 cores.
Celebrar a humanidade,
E todas as formas de amores.

- Cedric Constance
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natalia nuno

natalia nuno

sem pressa...

Guardo a minha vida, em pedaços de papel
Vou rasgando alguns outros guardo.
Como guardo as rugas da minha pele.
Mas meu tempo é já pardo!
Tempo que continua a existir e a passar
Olho as palavras
Pássaros fechados sem voar.

Trago os passos desinteressados
Sem pressa!
Meus dias já tão multiplicados
Cansei! Deixei de lhes dar conversa.
Tenho tudo na memória
Desde quando me larguei um dia!?
Neste Mundo velho, perdido sem história
Que apenas mudou minha fisionomia.

Estou suspensa entre o hoje e o amanhã
Estou descendo é já grande o declive
Porquê o castigo? Senão comi a maçã?
Nem no paraíso alguma vez estive.

Mas quem me espia nesta viagem?
Quem se faz sombra ao meu lado?!
Numa placa escrevo:aqui estive de passagem,
Cheia dum sonho que hoje está despovoado.
Não invento, sei que tenho de voltar
Ao chão de onde um dia parti
Ah...mas disso não quero falar!
Triste de outra tristeza
Que neste pedaço de papel,agora escrevi.

rosafogo
natalia nuno

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=102251 © Luso-Poemas
222
natalia nuno

natalia nuno

estradas no tempo...

Rugas são estradas que o tempo traçou!
Caminhos perdidos que lembramos
São o azul do céu ou o azul do mar de quem amou
Pedaços bons e maus que caminhamos.

São rosas negras, pássaros madrugadores
São águas transparentes ou sombrias da vida
Longos silêncios, abismos, momentos de dores
São também a lembrança da chegada e da partida.

Rugas são recordações sempre presentes
Restos duma Primavera de espaço e luz
A bater violentamente nas nossas mentes
Sombras que vão durar e lembram a nossa cruz.

rosafogo
natalia nuno



Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=93229 © Luso-Poemas
307
Raquel Ordones

Raquel Ordones

A felicidade morava lá



Quando era criancinha e morava distante.
Tinha uma porteira na entrada da fazenda,
E tudo era simples, o amor era importante.
Café e bolo de fubá sobre toalha de renda.

Um pomar extenso cheio de frutos e flores,
Um córrego cristalino no fundo do quintal.
Vaca e cavalo no pasto, borboletas e cores
Uniformes tão pequenos e brancos no varal.

Um pé de santa Bárbara, nele havia balanço
Uma bica do lado de cá e de lá o galinheiro.
A galinha da angola voava sobre o chiqueiro.

O cachorrinho Tarzan companheiro e manso.
As tarefas da escola feitas à luz de lamparina
Que saudade tenho da minha estação menina!

ღRaquel Ordonesღ
Uberlândia MG
912
Cedric Constance

Cedric Constance

Amor Existe

Vem não sei de onde,
Nasce em qualquer lugar.
Ilumina os horizontes,
O amor te faz sonhar.

Pode nascer num olhar,
E num sorriso florescer.
Pode a vida transformar,
E como o sol aquecer.

O amor é inocente,
Incendeia o coração.
É sentir intensamente,
Te faz perder a razão.

É um lindo sentimento,
Pode crescer em segundos.
Invade seu pensamento,
E embeleza o mundo.

O amor não tem sentido,
Cura mágoas e rancores.
O amor é tão bonito,
Enche seu céu de cores.

Quando você se apaixonar,
Seu sentido será apenas amar,
Amar
E amar...

- Cedric Constance
438
fernanda_xerez

fernanda_xerez

ÀS VEZES DÓI ALGO EM NÓS

Às vezes dói algo em nós,
mas para seguir em frente, fingimos que está
tudo bem...

Seguir em frente,
(enfrentando as dores da vida), é tragicamente
mais doloroso do que fingir...

Fingir que não dói
é realmente para os fortes, para os que colocam
suas dores num cantinho do coração

(...) e da alma,
onde vão cicatrizando ou, pelo menos,
acalmando aquela dor que
lateja tanto...
228
-ltslima

-ltslima

Ma belle Dejur. Ma Vier.

Ma belle De Jour,
marcam momentos
como vôo de passarinhos
no girar das palavras.

Canção anuncia,
enredos sinfônicos
inspiram poemas, vagos
revelando imperfeições.

Meu ego inspira-se!

Em suas palavras desatentas
minhas primaveras, revelam-se.

Da ternura em sinfonia,
restou um desalento, sem cores
inspirados em seus momentos.

Ma belle De Jour,
és fragmentos da vida
não invadiste meu reino.

Em terras distantes pousei
Ma belle De Jour,Ma Vie
és matizes sem sol.

18.05.218



Ma belle de jour,
marquer des moments
comme des oiseaux qui volent
dans la rotation des mots.

La chanson annonce,
parcelles symphoniques
inspirer des poèmes, paresseux
révélant des imperfections.

Mon ego est inspiré!

Dans ses mots inattentifs
mes ressorts, ils se révèlent.

De la tendresse à la symphonie,
il y avait beaucoup de consternation,
pas de couleur
inspiré par leurs moments.

Ma belle de jour,
tu es des fragments de vie
Tu n'as pas envahi mon royaume.

Dans des contrées lointaines, j'ai atterri
Ma belle de jour, ma vie
sont des nuances sans soleil.

Tu m'as appris, j'ai appris.

18.05.218.


887
Raquel Ordones

Raquel Ordones

Precisa-se



Precisa-se de gente que doe sorriso sem permuta,
De gente com verdades e de palavras de verdade,
Precisa-se de gente que arregaça a manga vai luta,
De gente que não coloca cor nem sexo na amizade.

Precisa-se de gente de atitude, braços descruzados.
Precisa-se de gente que "seja" e não só que "tenha"
De gente que acredita e faz residência se abraçados
De gente que ousa e se joga e que nada o detenha.

Precisa-se de gente que grave estrela no céu alheio,
E risque horizonte em sua e em quaisquer paredes,
Precisa-se de gente que compartilhe os pães e redes.

Precisa-se de gente de bem, que mostre a que veio.
Precisa-se de gente que pinte jardins de toda a cor,
E que borde nas cortinas do coração somente amor.

ღRaquel Ordonesღ
Uberlândia MG
889
Antonio Danilo Herculles

Antonio Danilo Herculles

Do andante aforismático

Eu ando rodopiando o mundo-sem-fundo,
Dançante à entrincherar,
Para ao menos me sentir vivo, implicativo,
Com um escuro que eu possa iluminar, ou ao menos tentar..

Neste mundo-sem-fundo,
Um andante que caminha por entre a escuridão não é bastante, e por vezes,
Digno de evitação.
Talvez o seja assim tão temente por não aceitar o absurdo inevitável acontecer:
ação, movimento, devir, ou aquilo na qual acontece na vida sem cessar,
Tensão fenomênica, ou ainda, ato de acontecer como as águas.

O que se considera loucura neste mundo é o mesmo que compreendo como saudável,
O conservador da cultura desintegra
O que diferencia da ilusão do igual
Assim compreendo o ser louco, o fora de si, que assim, o é para o outro,
Mas seria necessariamente para si?

Penso que seja essa uma questão para ser resolvida,
Impessoalmente, comunitariamente, no axilio de bons reflexos
Quem é, portanto, aquele que detém, por fim, o fato verídico?
Há então um fato primordial/universal para nossa existência?

Para todos nós, existentes?
745
RicardoC

RicardoC

BOA VIZINHANÇA - O Homem do Saco e outros Contos

Pareceu-me um tipo bem apessoado, d'aqueles que pela simpatia logo conquistam: Sorria, respondendo positivamente a tudo quanto lhe dissessem. Enfim, queria sempre resolver o problema, existisse ou não.

Mudara-se há pouco para vizinhança e havia me procurado, enquanto eu me preparava para sair de casa. Era de manhã bem cedo e estava frio. Ele se aproximou, identificou-se como o novo vizinho e pediu-me ajuda com o hidrômetro: Após algumas horas de faxina, dissera, faltava-lhe água em casa... Embora estivesse vestido para o trabalho, fiquei sensibilizado e lhe fiz o obséquio de subir com ele ao castelo d'água de sua casa e lhe mostrei o reparo que devia fazer na boia da caixa. Ele, muito agradecido, me desejou um bom dia enquanto eu saía para cuidar da vida. Horas mais tarde, ele me cerca ao voltar com minha filha da escola: Pedia que lhe ajudasse com o gás de cozinha, pois não tinha ainda contactos na cidade. Mandei vir o gás e ele pagou o entregador. Quando saí do almoço para voltar ao trabalho, ele outra vez me chama e pede para ver o sinal da antena de TV enquanto ele a ajusta no telhado. Confesso que a boa vontade já estava no fim, mas não lhe neguei também esse pedido. Imagem na tela, já me dirigia à saída quando ele, com sua positividade característica, pediu-me que lhe ajudasse a instalar também o chuveiro. Aquilo me pareceu demasiado e lhe disse não. Argumentei que estava atrasado para o trabalho e ele assentiu.

Já de noite, topo com o vizinho na rua. Ele apenas esperava que eu chegasse para lhe emprestar a caixa de ferramentas e poder instalar seus trens. Havia pedido à minha esposa mais cedo, mas ela se escusou de fazê-lo, alegando que não mexia em minhas coisas. Cansado, fui até a garagem e peguei a bendita caixa. Ele gracejou algo que me pareceu exagerado e disse que devolvia assim que terminasse. De facto, tão logo entrei em casa já pude ouvir o zunido da furadeira e, após, as batidas do martelo. Da sua casa, parede-e-meia com a minha, dava-me a impressão de que trabalhava comigo dentro... E foi assim até bem tarde, n'uma faina ininterrupta até que lá pelas onze da noite fui forçado lhe bater na parede geminada e ele silenciou lá do lado d'ele. Mesmo assim, ainda pude ouvir sua movimentação ajeitando móveis madrugada adentro, n'uma insônia inoportuna e sem remédio... Como não conseguisse dormir, preparei-me para sair no dia seguinte ainda mais cedo que o rotineiro no sentido de evitá-lo, como já pressentisse que viria ter comigo. Dito e feito: Mal ponho os pés na calçada e lá estava ele, muito clamoso, pedindo-me desculpas pela algazarra da noite anterior. Civilizado, disse compreender. Eu ainda falava quando ele engatou um novo pedido, agora de carona ao Centro da cidade para ver a instalação do telefone... Como não me custava nada -- nada além do inconveniente de sua companhia, é claro -- dei-lhe a carona, embora visivelmente mal-humorado pela noite em claro. Ele, ao contrário, parecia jovial como sempre. Puxou assunto durante todo o percurso, ao que lhe respondia com monossílabos ou expressões genéricas. Se percebera minha irritação, fingiu não ser com ele. Despedi-o na avenida do comércio e segui com o auto para o meu trabalho mais adiante.

Tudo parecia conspirar contra mim n'aquele dia... Na hora de vir para almoçar em casa, topo com o farol do carro ligado e a bateria descarregada! Pedi para vir o eletricista e o mesmo só poderia me atender mais para o final da tarde. Liguei para casa e disse que não viria almoçar e tampouco pegaria nossa filha no colégio. À procura d'um restaurante, desço para o Centro a pé e entro no primeiro que identifico. Por mal dos pecados, topo com o vizinho se servindo ainda na fila da balança: Que maçada! Muito sorridente, o coitado me chama para sentar-me com ele à mesa. Sem qualquer alternativa razoável, aceito e sigo com ele para o mezanino do restaurante. Já antevia outra conversa inútil como a da manhã e ele não me decepcionou: Falou o tempo todo! Contou da cidade d'onde vinha, da família que tinha e da casa junto à minha!!! E eu, que seguramente não queria saber de nada daquilo, fui obrigado a lhe tolerar uma hora de conversa fiada. Nervoso, olhava continuamente para o relógio em busca d'um pretexto que me tirasse d'aquele lugar, mas não havia. Quando finalmente terminou sua refeição e pagamos, o dito cujo pergunta a que horas volto para o bairro pois passaria ainda o resto da tarde no Centro. Informo-lhe o horário, ao passo que o outro, com um sorriso aberto de orelha a orelha, já confirma a conveniência de me acompanhar. A contragosto, combino onde o pegaria e volto para o trabalho. De facto, n'esse meio tempo, o eletricista vinha com a bateria carregada para pôr o carro para funcionar, logo, sequer essa desculpa me livraria... Paguei o conserto e fui encontrar meu algoz para mais uma hora de companhia forçada. E ele estava lá, tal como combinado. Seu sorriso já me causava mal estar e sua conversa infindável já era evidentemente um suplício para mim. Quando chegamos, cheguei a sorrir com a perspectiva de me livrar d'ele, mas o vizinho, para minha surpresa e sem qualquer cerimônia, me acompanhou até dentro de casa e entabulou conversa com minha esposa! Ela, que não esperava a visita, foi logo preparando um café e o recebeu na cozinha mesmo, como já se fosse de casa... Fiquei ali, pasmo, assistindo aquele disparate e indeciso entre pô-lo para fora com alguma indisposição súbita ou acompanhar minha mulher em sua recepção improvisada. Decidi-me pela segunda opção que, embora desagradável, parecia a mais correta. A conversa enveredou para a pane da bateria do auto e os imprevistos subsequentes. Seco, narrava os factos resumidamente, enquanto nosso convidado parecia se deliciar em não só desenvolvê-los, mas ainda em analisá-los e interpretá-los à luz do Fado ou da História... Duas horas virando xícaras de café para rememorar um dia que parecia interminável! Quando eu já pensava que jamais se cansaria de nós, o vizinho, cheio de nove horas, decide finalmente se retirar.

Ao me deitar, desabafei com minha mulher o quanto me custava suportar aquela companhia constante do vizinho. Ela, como era de se esperar, me censurou veementemente. Disse que era um exagero meu; que eu vivia como um caramujo, insociável e impaciente etc... Enfim, arrumei para a cabeça, como diz o outro. Encerrei o assunto prometendo ser mais tolerante com o coitado que, de modo evidente para mim, precisava de novos amigos.

Dia seguinte, estranho a calma de sua casa e vou para o trabalho. Não há sinal d'ele ou de qualquer pessoa em sua casa. Tudo transcorre bem ao longo do dia e volto para casa no horário de sempre. Contudo, não suportando a curiosidade, aperto-lhe a campainha e, assim que me atende, vou logo lhe perguntando pelo dia e se precisava de alguma coisa.

Betim - 17 05 2018
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douglastavares

douglastavares

Venha me ver

Mais uma vez passei o dia pensando no seu rosto
O que se passa no meu coração?
Abri o meu mundo, deixei-me exposto
Ardo em amor, ou posso estar cego pela paixão.

Deixei de pensar naquela liberdade
Rezo todos os dias pra Deus
Seja você, abra seu coração e mostre a verdade
Só me diga até logo, mas nunca adeus.

Tenho mostrado dezenas de motivos pra ficar
Ainda é segunda-feira e nem sei o que fazer
Me dê um sinal de que ao meu lado quer estar
Não mate este sentimento, por favor, venha me ver.

-Douglas Tavares
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RicardoC

RicardoC

PASSADO UM ANO

De ti nada mais soube desde o dia
Que saíste de vez da minha vida...
Não houve rompimento ou despedida,
Apenas me negaste a companhia.

Tu jamais me soubeste, todavia,
O quanto a tua falta foi sentida.
Tampouco me viste a alma dividida
Em meio à realidade e à fantasia.

Certo é que me deixaste tão sozinho
Que mal posso lembrar do descaminho
Ao qual m'enveredei na noite escura.

Fuga que muito pouco me servira,
Enquanto repetia a vã mentira
Que foste apenas mais uma aventura.

Betim - 13 05 2018
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natalia nuno

natalia nuno

lembranças ditosas...

à noitinha o último canto da cotovia
e no meu coração como flor,
o amor nascia
os sons nostálgicos da tarde não morrem
vivem na memória de verdade
sou a jovem que recorda, o adulto que me ouve
sou a razão do meu coração pulsar
e aquela que com a saudade se comove,
trago ainda o odor do tomilho, o cheiro
da madrugada,
que são essência em mim enraizada
trago lembranças seduzindo-me com doçura
perfeitas, ditosas,
que são trinados de melros
com ternura...
abrem as portas do passado
trazem-me a brisa do salgueiro
o marulhar das águas do rio amado
e o sonho dum amor... o primeiro!

rememoro cada fruto silvestre
cada um com sua sensual fragrância
o êxtase de cada dia, o sol que ainda hoje
me veste enamorado, como quando eu era criança.
vive em mim toda esta felicidade
estremece a brisa quando me vê,
quando toca meu ouvido,
o tempo ficou longe, andam imagens rasgadas
sem sentido... mas será sempre eternidade
que levanta a primavera no meu coração
ajuda a sair desta saudade sem portas
até que minhas mãos estejam mortas.

o meu silêncio põe e dispõe
e assim me vai enclausurando
enquanto um cisne branco ma minha memória flui
e um lago de palavras vai murmurando
sedução que ao coração aflui...

natalia nuno
232
Tiago Paradiso de Oliveira Real

Tiago Paradiso de Oliveira Real

Evolução?

Da cognição e curiosidade do Homo Sapiens,
Surgiu a linguagem oral e escrita.
Homens e mulheres iniciaram conhecimentos
Sobre si, outros e o mundo em que viviam.
E não só: aprenderam a ensinar, souberam compreender.
Assim, floresceu a base cultural da humanidade.

Em cavernas, tugúrios e casebres,
Pessoas agruparam-se.
Da natureza, há o sustento; desafios também.
Podiam trocar caça por plantação,
Segurança por união.
Eis o escambo: estava selada a permuta,
A primeira modalidade contratual conhecida.

Sobre o solo já moravam.
Tinham um território.
Com a prática cultural,
Aparecera um povo.

A convivência entre pessoas,
Quando conquistada, uma dádiva;
Quando não, uma ameaça, podendo resultar em violência e até em morte.
"O homem é o lobo do homem", assim dizia Hobbes.
Temor!

Então, os ocupantes daquelas terras uniram-se em ideais.
Precisavam do estabelecimento de regras
A serem observadas, cumpridas; viés do Direito.
Determinaram um líder; um governante.
Avistava-se, ali, um dos aspectos do que Rousseau chamaria de teoria do Contrato Social.
Da necessidade de partilha, nascia a política.
Com território, povo e governante, revelara-se um Estado.

De convicções iluministas,
Clamadas em revolução:
"Liberdade, igualdade e fraternidade".
Derrubaram a tirania e o absolutismo.

De repente, um estrondoso clarão.
Novo grito iluminista?
Não! Infelizmente, o mundo conhecera a bomba atômica;
Um dos ápices da crueldade de nossa espécie.

O senso de condição humana
Tinha de ser resgatado.
Onde e quando se perdeu?

Finalmente surgira
A Declaração Universal dos Direitos Humanos,
Ideário de pacificação social e respeito à pessoa.

A segunda metade do século XX
Trouxe vasta extensão tecnológica,
Capaz de chegar à Fossa das Marianas, o ponto mais profundo dos oceanos;
E de percorrer longínquas partes da imensidão do universo.

E a evolução do ser?
A miséria, vezes tão próxima, ainda está presente.
Por maior tolerância e vida mais digna,
Anseiam os tempos atuais.
Esperança!

Tiago Paradiso de Oliveira Real
426
lcarlos coelho

lcarlos coelho

Esperando o passado passar

Não sei descrever
O passado passando
o presente perguntando
e o silencio ignorando
os traços da busca
pela ausencia de sentido
em esperar o passar do passado
para dar as mãos no agora
e caminharmos com os olhos
voltados para o passado presente
sendo a existencia um momento
de nao esquecer voce.

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590
Saul Leiva

Saul Leiva

Cortejo pra madrugada

O que você procura na madrugada?

Acompanhando a sua fiel insônia

Atormentado por uma idéia frustrada

Alter ego maldito, duvida desgraçada,

O que queremos?, se nos drogamos de distrações

Cortando as verdadeiras emoções nas relações

Livrar-se de sentimentos, para evitar todos os possíveis lamentos

Decorremos fragmentos, de "autenticidade" tornamo-nos sedentos,

A verdade que deslembramos e enterramos com areia fútil

Matando-a com fuzil, carregada e que atira coisa inútil

Todo dia é primeiro de Abril, todos se mentem a mil

Também a si mesmos, um tipo de suicídio mental sutil,

Todos com amor, amizade e confiança sempre relativos

E ainda com educação, respeito e tolerância inativos

Em lugar de cuidar dos outros, resultastes esmeril

Podias ser contra dores, doril, mas chegastes a ser febril,

Sei que dizer verdades, nem sempre vem te ajudado

Mas se a pessoa que amas, descobrir que mentistes

Pensas que depois disso, continuaras sendo amado?

De todos os defeitos, mentiroso, o mais difícil de ser perdoado.


370
RicardoC

RicardoC

À ESCRIVANINHA

Manuscritos a cair pela gaveta
E a pena sobre folhas espalhadas...
Palavras há décadas guardadas
Chegando aos quatro cantos do Planeta.

Onde o ofício estranhíssimo do poeta
Faz-se de ideias tão desencontradas.
Que logo após em versos transformadas
Assombram pela escolha mais correta.

No caos de sensações e sentimentos,
Expressa em filigranas todo o ser
Ao grafar no papel seus vãos momentos.

E indiferente a quanto fosse obter
À escrivaninha, enfim, sem mais intentos
Passou todos os dias a escrever...

Betim - 12 05 2018
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