Lista de Poemas

Pequena Ode a Tróia

Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.

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Dança Herética

Sou ímpar:
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.

Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?

Sou ímpar em mim e par em Deus.

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Ofício

Ocupo o espaço que não é meu, mas do universo.
Espaço do tamanho do meu corpo aqui,
enchendo inúteis quilos de um metro e setenta
e dois centímetros, o humano de quebra.
Vozes me dizem: eh, tu aí! E me mandam bater
serviços de excrementos em papéis caídos
numa máquina Remington, ou outra qualquer.
E me mandam pro inferno, se inferno houvesse
pior que este inumano existir burocrático.
E depois há o escárnio da minha província.
E a minha vida para cima e para baixo,
para baixo sem cima, ponte umbilical
partida, raiz viva de morta inocência.
Estranhos uns aos outros, que faço eu aqui?
E depois ninguém sabe mesmo do espaço
que ocupo, desnecessário espaço de pernas
e de braços preenchendo o vazio que eu sou.
E o mundo, triste bronze de um sino rachado,
o mundo restará o mesmo sem minha quota
de angústia e sem minha parcela de nada.

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Geografia Humana

Há em mim, 
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio  da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.

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O Parto

Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário
que me sofra e me solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência.

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Apenas uma Coisa

Existe amor?
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?

Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?

Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.

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IF

Há um se
na vida de cada um,
Um se de depois do fóceps
(no tempo em que a dor cumpria a Bíblia)

e um se de depois da cesariana
(no tempo em que apodrece o fruto
no gozo da emurchecida árvore).

Ah! Se o se negasse o se, e tudo
Fosse um único sim, certeza
De aceitarmos o ser e o fato

E o espelho reflita a imagem caída
Das mãos de imponderável Deus.

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Caxangá

Há um desespero
real na palavra
um desespero contra o desespero
enlouquecido em tudo que é palavra
incapaz de dizer o real nela,
e um desespero dentro, um desespero
da palavra assentada na palavra,
da palavra assentada nela mesma,
canal e boca de uma angustia virgem,
de um dia novo contra a noite fora
envolvendo de luto os nomes todos:
antônio, ténis, sonho, árvore, morte.
sombra dentro de sombra, mas girando
em rodopio eterno, o pião da sombra,
o que fazer da voz, senão clamar
em uivos de absurda sombra , á noite
geradora de braços e destroços
vogando intérminos no extinto brado?

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O Piano dos Afogados

Reténs
a forma para um outro espaço.
Nascem de ti as estranhas madrugadas.
Noturnas chuvas, dos céus mais órfãos,
banham-te as teclas de álgidos artelhos.
Nasce de ti a roupagem das vertentes
que a primeira mulher se despe intacta
para a ressurreição da sua inocência.
Ó azulejo, ó piano de outras mãos:
retém meu mundo pela última vez!
retém meu tempo que esgarça outro tempo!
Retém meu sopro de fugacidade.

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Cosa Mentale

Pode-se
viver de pensar?
Saber-se coisa dentre um corpo
Como animal de pensamento?
Do pó não pode haver nada:
Apenas mãos, do pó nascidas,
No pó se chamam mãos...Ó Nada!

Ó esplendoroso Nada em ti
na luz do ser após nascido
para a grande noite depois:
teu corpo é um quarto mobilado
sobre quem dispo o pensamento
de todas as suas gavetas.

Minha memória te destrói
- prego por prego - nos ferrolhos,
para tirar-te inteira ao dentro.
Pode-se viver de pensar:
a matéria atrapalha tudo
pelo hábito de acabar-se.

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