Lista de Poemas
A morte de calar
prenderam-se em redomasAo corpo das palavras. À morte de
calar.Do alfabeto meu ignoro as cristalinasFormas de
aladas letras nestes versos finais.São fantasmas de
sol. São fantasmas de sedeQue chegam alta noite
para nenhum lugar.Decifro nas entranhas das
trevas migradorasO solstício da vida além da morte
clara.Mas quem me vem cegar, com setas voadorasNega-me
agora a paz das secretas paisagens.Meus Irmãos
de astronaves, guiadas por um morto,Que me
esperam e estão, que me cantam e falam.Que na vazia
Cruz crucificam meu corpoE abandonam a flor, mesmo
a meio da sala.À janela rasgada, para as
cinzentas águas,Encostam-me, sem olhos, e deixam-me
ficar.Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.E
mesmo que tivesse, ninguém leria o mar.
Regresso
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.
Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...
Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.
Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!
As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Poema
Perdi estradas, perdi leito.
Na pedra aonde me deito
Nada fala de alvos linhos.
Se com cegos me aventuro,
a caminho rente aos muros,
é que meus olhos impuros
sonham Cristos nos caminhos.
Nada tive que era meu
e o corpo não quero eu.
Podia servir de embalo,
mas serve de sepultura.
Cemitério de asas finas,
tange e plange aladas crinas,
canto de praias sulinas
de infinitas amarguras ...
Fantasmas
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis ...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos ao vento ...
Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barcos sem rumo
e ouvidos nos temporais.
Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.
Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.
Tudo que em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
é que o aço nos irmana.
Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato
no movimento sem ato
que o Destino me destina.
O Rosto que não tem Rosto
no tempo do vendaval;
sob os olhos, flores geladas;
por sobre o espelho tremente
finas bagas de cristal.
O tempo do vendaval
governa ainda os meus dias.
E um arrais de neves frias
põe cansaços de metal
nas doces melancolias.
Nas noites de lume fosco
sobre a água corredia,
um rosto que não tem rosto
e que se esfuma no dia
preside ao branco cenário
de uma única harmonia ...
Vendaval de mãos tão frias:
deslaça-me estes cabelos,
abre-me os braços sem elos,
faz de mim águas sombrias,
sem canto de rouxinóis
nem folhagem protetora,
nem melodias de aurora,
nem mansos beijos de sóis.
Inunda-me estes ouvidos
de raízes muito velhas;
põe longe as festas vermelhas
que eu tive nos meus sentidos,
e de uma vez para sempre
livra-me toda de mim.
Assim
menosAssim por heroísmo e cobardia.Assim a tarde a noite
no momentoAssim pensar em mim quando
vivias.Assim os dedos longos nos cabelosDos mortos
abraçados e cativos.Assim esta miséria de estar
vivaE não saber estar viva quando vivo.Assim
nas brancas árvores o tempoAssim ter acabado o
meu destinoE ler-me noutros versos, noutros
nomesAssim desconhecer aonde habito.Assim por muito
mais e muito menosSe acaba, em vida, a vida ao
suicida.Assim por ser a hora mais cinzenta,O desamparo
assim da minha vida.
E levantam-se as pessoas
E levantam-se as
pessoascomo quem se adormecesse.Preparam-se para o
sonode uma vigília nas ruasnas casas e nos
empregos.E naufragam e sufocamnas avenidas do
Tempo.Conversam como quem fechacreches gaiolas
enterros-crianças aves e mortosNos sorrisos e nos
risosna lucidez dos reflexospensam os tristes dos
homensganhar os dias correndo.Mas são retidos nas
sombras.São amarrados aos ventosão sacudidos em
potrose forcas de entendimento.Eles que são
cabeleiras,nas chuvas de outros intentosnos rios e nas
goteiras.E levantam-se as pessoascomo quem fosse
viver.Dá o Sol por sobre o Diafaz o dia
apodrecer.(Maduro quer dizer Mortecom toda a
sabedoria)Deitam-se então as pessoaspara a morte de outro
dia.
Cor
prende.Esta amarra de ferro à palavra e ao som.Emudecer,
no espaço, o arco e a correnteE ser nesta
varanda um pouco só de cor.Não saber se uma flor é
mesmo uma criança.Se um muro de jardim é proa de
navio.Se o monumento fala, se o monumento dança.Se
esta menina cega é uma estátua de frio.Um pássaro
que voa pode ser um perfume.Uma vela no rio, um
lenço no meu rosto.Na tarde de Fevereiro estar um
dia de Outubro.Nos meus olhos de morta uma noite
de Agosto.É preciso soltar o ritmo das
marés,Das estações, do Amor, dos signos e das águas,Os
duendes das plantas, os génios dos rochedosNos
cabelos do Vento, as tranças de
arvoredos.Desordenai-me, luz! Que nada mais dependaDas águas, das
marés, dos signos e do Amor.É preciso calar o arco e
a correnteE ser nesta varanda um pouco só de
cor.
Canção do Verdadeiro Abandono
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.
Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.
Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
de bicho que sofre as pedras
e se desloca de rastos.
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