Lista de Poemas
O lado bom da vida
Acordar bem cedo, tomar café,
Beijo molhado, jabuticaba no pé,
Banho quentinho, pipa no céu,
Abraço de amigo, noiva com véu,
Chocolate preferido, filme de romance,
Mensagem da amada, ganhar uma chance,
Viagem com a família, música favorita,
Ver o nascer do sol, rosas e margaridas,
Mergulhar numa piscina, garotos jogando bola,
Ganhar no videogame, notas boas na escola,
Comer com muita fome, refletir na sua cama,
Ganhar um elogio, resolver o drama,
Ler um bom livro, "morrer de rir",
O conselho certo e o abraço antes de partir.
Prece da Saudade
Ah, se eu pudesse,
com vigor de minha prece,
resgatar o teu amor
em toda vida e fulgor.
Reviver teus olhos vivos,
sem abraços imprecisos.
Afogar-me em tua saudade
de paixões em igualdade.
Não olhar insidioso,
o desejo mais amistoso
de tomar-lhe pela alma
e amar-te em toda calma.
Ah, como quisera regressar,
ao tempo que amar,
não mandava cordialidade,
no beijo havia verdade.
Querer era estar,
percorrer sem viajar.
Anseio-me saudoso,
em pesar oneroso,
daquela paixão sincera,
dos pássaros na primavera,
pois realçam novamente,
nosso amor, que se fora de repente.
As Quatro Estações
Havia chegado a primavera,
e todos os ventos apontavam
para um horizonte belo e auspicioso.
As promessas eram vivas e verdadeiras.
Os olhos continham um fulgor
melódico e opulente,
como de uma pobre criança faminta.
Na primavera
o tempo engatinhava
e minha janela pairava sempre aberta.
O mel e a seiva acusavam sempre para o norte
onde os sonhos ganhavam asas.
A dança celestial entre os lírios,
impelia-me sempre avante.
Então veio o verão,
e o caminho tornou-se ínvio.
As pegadas deliam-se atrás de mim
num remoto deserto.
O ar tornou-se tórrido e sufocante.
O zênite, antes profícuo
parecia saltar as abóbodas do universo
a cada passada em seu ritmo.
Nem água, nem brisa.
Só fogo e labor.
Asas cansadas
temendo um último adejar.
Mas, não findava ali minha missão.
Chegara o outono,
entre as florestas secas e sombrias,
por lobos, minha alma foi afugentada.
Eram inumeráveis
como pontos no espaço.
As folhas, agora adotavam
um negrume funesto e lúgubre.
O mundo tornara-se inerte e incolor.
As paixões de outrora,
jaziam soturnas,
Junto à folhagem, já sem vida e cadavérica.
A escuridão à frente
entorpecia a menor esperança.
O céu agora acinzentado,
ignorava qualquer contato espectral.
Estava só entre feras sedentas...
Eis que chegou o inverno.
E com as últimas forças
galguei para o sul.
Lá, instalei-me entre loucos
e essa, foi a minha melhor estadia.
No frio estridente,
fui aquecido
pelos ternos abraços da loucura.
No mar insípido e sem vida
observei um pequeno peixe saltar.
Finalmente, encontrara vida.
Ironicamente, no lugar onde menos procurei.
O Útero do Mundo
Reconheço a mudança
de minha ênfase.
Que pulsa e celebra sua vitória
no beijo de minha aniquilação
enviesada pela vida mundana.
Esse amor a que chamarei de destino,
sobrepujando a inevitável morte.
Aí, reside o prazer de seu êxtase.
O impulso entorpecido
diante das atrocidades desmedidas
vociferam culpas, ironias
e anunciam panacéias.
A magnitude da falsa democracia,
onde o deus crucificado sangra
sobre vales desprovidos de qualquer amor.
Esfinges, Quimeras
flageladas e laceradas
por uma existência comum.
Não há ilusão a respeito do céu... Não mais!
Da felicidade vindoura
e da compensação capaz de aliviar
a escuridão mais densa,
do vazio que devora vidas
ou as retira do útero do mundo.
Onde adormecem inertes no fracasso,
amarguradas com o sabor da perda
e o abraço insípido da desilusão.
A tragédia destrói as formas,
e junto o meu apego,
libertando a verdadeira transformação.
Queda e ascensão,
eis as duas faces da dor,
eis o lume que arde invisivelmente.
O epitáfio
Não me fale de amor,
ele é um velho inimigo,
conhecemo-nos no passado,
mas ele jamais andou comigo.
Infeliz e traiçoeiro,
sujeitinho de poucos escrúpulos,
vivia me importunando,
mentia ao mundo inteiro.
Preferia não tê-lo conhecido,
até em sua feliz ausência,
o amor me incomodava,
mas hoje descobri, ele é falecido!
Meu fiel e terrível rival,
decompondo-se sob a terra,
e ninguém se importou,
ninguém foi ao seu funeral.
Seu epitáfio bem que dizia:
"Filho sem pai, não deixou herdeiros..."
era ali que descansava um ardiloso,
era ali que o grande vilão jazia.
O pescador
O pescador
Atentei-me com reverência
aos olhos temerários daquele simpático homem,
cujas cicatrizes e barba cerrada
acusavam-lhe o desembargo de uma perigosa jornada,
incursa pelos mares gélidos da solidão.
Mesmo diante dos dissabores
e dos Leviatãs, percebia-se pronto
para um novo e tempestuoso desafio.
A terra parecia queimar-lhe os pés.
O vento fisgava-lhe a alma.
E sem nenhuma honraria
ou engodo profícuo,
aquele humilde pescador,
partia sempre para oeste
em busca de um sol já poente.
Encantava-me a modéstia de sua voz,
e a sabedoria distorcida nos gestos.
Aquele velho pescador
jamais degustara os discursos socráticos
ou mesmo o cinismo de Diógenes.
No entanto, detinha o conhecimento dos deuses
no simples arquear de sua rede.
O mundo era seu navio.
Quando acossado pela tempestade
a qual navegava miseravelmente,
conservava no interior de seu olhar longínquo
um porto acolhedor,
em alguma terra auspiciosa.
Mas não me deixo enganar,
não era o porto seu autêntico lar.
O porto é compassivo,
há segurança, conforto
e principalmente companhia.
Toda aquela hospitalidade
revelava-se um risco para o seu navio.
Seu lar, sua família
eram o navio e as longas odisséias solitárias.
O mar era seu universo,
um palco despretensioso
e privado de qualquer platéia.
Suas façanhas, suas batalhas,
as quimeras vencidas
eram apenas de seu particular deleite.
"Enche as velas com todo ímpeto
para lançar-me da costa",
bradava o pescador a si mesmo.
Assim, combatia os ventos sorrateiros
que o impeliam de volta ás rochas da familiaridade.
Se falhasse, era sábio:
o naufrago inevitavelmente viria.
Era isso que amava:
seu único amigo
incorporado o mais mortal inimigo.
Nesse intrépido esforço
para crivar-se da terra servil,
é que consagrava sua verdadeira liberdade.
Conduze-te com austeridade
ó pescador! ó deus encarnado e inculto!
Navegava sobre as alturas,
entre a morte oceânica
rumo a sua eternidade.
A vida é um filme
A vida é um filme, e cada pessoa segue seu próprio roteiro.
Há vidas que são verdadeiros longas-metragens, já outras um breve documentário.
Há pessoas que vivem um autêntico romance, e outras um apavorante filme de terror.
Têm aquelas que vivem uma constante aventura, algumas vivem um filme de ação...
e existem sempre as pessoas que fazem de suas vidas um contagiante filme de comédia.
A história de cada filme, assim como de cada personagem, é única.
Cada pessoa é diretor e protagonista de sua própria história.
Deus é a ilustre platéia, platéia tão rigorosa que exige o mais belo dos espetáculos.
É preciso ter uma exibição de gala, bater todos os recordes de bilheteria, deixar o público boquiaberto.
Portanto surpreenda a platéia, encante-a,
Afinal o filme, o show tem que valer o preço do ingresso.
Os sinos
Os sinos tocam outra vez,
lá vão eles a seguir.
Cabisbaixos, mãos atadas sobre o dorso
Seguindo uníssonos o tilintar
Com seus pecados perdoáveis
E desejos indômitos.
Não são homens,
Não são mulheres
Apenas massas que caminham.
Movidos pela dor e pelo clamor
Privados de qualquer esperança.
Atentos aos sinos e trôpegos,
pois não avistam
o abismo diante de si.
Fracos, cansados, imundos
e bem trajados.
Sorrindo, cantando
sem qualquer paixão.
Mãos que se entrelaçam, vez por outra,
expelindo-se instantaneamente,
Pela denúncia desmedida
De uma alma fria e arredia.
Outrora o ódio era vivaz,
As flechas adejavam,
As tochas queimavam alhures
Nobres alijavam pobres
O filho, facínora
Denegria o pai.
Mas ao tocar dos sinos
Tudo se delia.
O vento pálido e cadavérico
A todos devorava e a tudo esquecia.
Comentários (1)
Parabéns!
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