Lista de Poemas

O que faz um poema?

O maior dilema
É saber se é um poema.
Rima, compasso, sentido,
Palavras libertas do dicionário…
Um conjunto de requisitos bem envolvido
Será obrigatório ou arbitrário?

O poema prescinde reconhecimentos,
Porque é composto pela ausência de pretensão,
Em que apenas as palavras são os filamentos
Despontantes de uma própria dimensão.

Não sei se percebo
Como o poema se move e espalha,
Por entre as linhas da realidade,
Mas agora aqui estou eu,
A sondar cada grão da sua existência,
E é bom...O que faz um poema?
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Como esboçar sonhos

As mãos ousadas
Desenharam na distância
Constelações representando histórias
De deuses olvidados,
Mas os deuses não responderam
Ao mosaico de narrativas radiosas.

As estrelas esperaram
E as mãos descansaram,
Até um movimento,
Solto pela tranquilidade azulejada,
Começar a contar
Os números cintilantes
Derramados pela noite,
Que não os poderia conter.

A noite não poderia conter
A vaga de números,
Embora quantos mais se apontassem,
Mais parecesse que se poderia
Pegar qualquer estrela.
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Cosmos

À deriva no cosmos,
Sobrevivendo na caça de prémios
Com uma filosofia esguia e esquiva,
Que nega a espera passiva
Por algo ou alguém
Que não preencha aquém.

No final de cada perseguição
Só fica a ausência de resolução,
Nada para alcançar,
Apenas o tempo para marcar.

O agridoce da história,
Do final de uma história,
Leva à procura de sinais
De uma vida legítima,
A ligação nos episódios triviais,
Que acima de tudo redima.
Uma busca além da conformidade,
Pelos passos da própria fragilidade.
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Verão

Escuta em redor
E aparta o ruído, estás abraçado
Por um murmúrio feito clamor
Ondulante e dourado.

Sente-lhe o sabor,
Num gesto despreocupado
Solta as mãos sem pudor,
Que o momento é imaculado.

A trovoada anuncia-se e não espera,
Os grãos tocam-te os dedos,
Está na hora da colheita.

A vontade é sincera,
Afasta quaisquer medos
Pela safra eleita.
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Águas da alma

Umas vezes à ligeira superfície,
Outras nas densas profundezas.
Umas vezes na confusa rebentação,
Outras na rasa tranquilidade.
Umas vezes em calmo embalo,
Outras na repentina tempestade.
Não é um percurso simples,
Muito menos de único sentido
E sempre sujeito a bamboleantes sentimentos.

Se as nossas almas
Fossem mesmo oceanos...
Quantos se atreveriam
A chegar ao leito da nossa existência?
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Quem somos quando ninguém nos vê?

Quem somos
Quando ninguém nos vê,
Quando transpiramos
A solidão que mais ninguém lê?
Essa fatalidade escondida
Por debaixo da nossa pele,
Enquanto habitamos o quotidiano
Com rol de papéis, à medida
De uma decência que as articule
Na escapatória de um lapso insano.

A forma do nosso segredo
Não se molda ao mundo todo,
Então fazemos a escolha correta
Longe de um vulto vigilante?
Como a intenção brota
Do nosso lugar mais significante?
Gostaria de explicar essa essência
Com toda a transparência,
Algo tão simples
E também tão profundo...
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Autoanálise

Que tipo de história é esta?
A origem de uma criação sublime,
Uma passagem simples e modesta,
Uma enchente de frustração que se comprime,
A envolvência de um romance,
Ou aventura de inesperado alcance?

Por vezes o capítulo apenas parece,
Como se a intriga se desvanecesse
Por linhas de valor impreciso,
Algo que não chega sequer ao improviso.
A aflição recapitula cada linha passada
Na busca de uma corrupção,
Mas é tudo ansiedade apressada
Para saber a próxima direção.
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