Lista de Poemas
Ângela
Ângela, quando te vi
pela primeira vez,
fiquei atordoado
e caí no chão, de joelhos,
para beber tua aura.
A fulgência do teu olhar de crisálida
penetrou-me, devassou minha carne,
devorou-a.
Não pude ver teu colo,
teu seio róseo que formava
um ângulo reto, inconcusso,
mas tua voz hipotenusa,
a simetria da tua face,
teu corpo congruente calculável a qualquer
distância, a partir de um ponto equidistante,
me fizeram amá-la.
Naquele instante,
ouvi réquiens e harpas líricas,
vi arcanjos descerem do céu,
o universo se contraindo para nos enfeixar linear-
mente, entre catetos e formas puras, fluidas.
Mas tu me deixaste de repente,
sem derramar lágrimas,
quando vendi para o sebo
os meus manuais de geometria plana.
(Poema extraído do meu ebook Pássaro Angular, disponível no Ubook e em outras lojas virtuais)
pela primeira vez,
fiquei atordoado
e caí no chão, de joelhos,
para beber tua aura.
A fulgência do teu olhar de crisálida
penetrou-me, devassou minha carne,
devorou-a.
Não pude ver teu colo,
teu seio róseo que formava
um ângulo reto, inconcusso,
mas tua voz hipotenusa,
a simetria da tua face,
teu corpo congruente calculável a qualquer
distância, a partir de um ponto equidistante,
me fizeram amá-la.
Naquele instante,
ouvi réquiens e harpas líricas,
vi arcanjos descerem do céu,
o universo se contraindo para nos enfeixar linear-
mente, entre catetos e formas puras, fluidas.
Mas tu me deixaste de repente,
sem derramar lágrimas,
quando vendi para o sebo
os meus manuais de geometria plana.
(Poema extraído do meu ebook Pássaro Angular, disponível no Ubook e em outras lojas virtuais)
👁️ 125
Não me representam
Odes cálidas não me representam.
Anjos caídos não me representam.
Virgens suicidas não me representam.
Gnomos cleptomaníacos não me representam.
Rimas lavradas, feitas a régua, não me representam.
Muros patriarcais não me representam.
Senzalas, hinos de louvor a Marte, pistolas
semi-automáticas, nada disso me representa.
Também não sou representado pelas gangues pútridas
encasteladas no Senado e na Câmara dos Deputados.
(Poema do ebook Prece à Minerva)
Anjos caídos não me representam.
Virgens suicidas não me representam.
Gnomos cleptomaníacos não me representam.
Rimas lavradas, feitas a régua, não me representam.
Muros patriarcais não me representam.
Senzalas, hinos de louvor a Marte, pistolas
semi-automáticas, nada disso me representa.
Também não sou representado pelas gangues pútridas
encasteladas no Senado e na Câmara dos Deputados.
(Poema do ebook Prece à Minerva)
👁️ 124
Metano-Alvorada
Quando abro as janelas,
não vejo o alvorecer,
pois lá fora são as roldanas,
o falcão arsênico,
a rosa liquefeita,
o jabuti-poliuretano,
a palmeira radioativa.
Das gaiolas erguidas no espaço
(hermeticamente grutas)
o ronco de mil gargantas nascidas
e o balido das guelras,
o voo das águias,
rugidos de ogros azuis,
deuses lantanídeos cobertos de pó e furor.
Ruge a masmorra onde evaporam os guaranis
e o jabuti no cárcere onde não há futuro
- só as polias convergindo grilhões, arrebatando
sombras, cachoeiras, juremas de hélio,
jacus de carbono secando ao sol.
E do seio das cataratas, como uma horda,
a força hercúlea que se desdobra de mil pavões,
na densa Jaguariúna
- puérperas são as vacas nuas, exangues de céu e de tatus.
(Poema extraído do ebook Prece à Minerva, disponível nas lojas virtuais da Amazon, Cultura, Ubook, entre outras)
não vejo o alvorecer,
pois lá fora são as roldanas,
o falcão arsênico,
a rosa liquefeita,
o jabuti-poliuretano,
a palmeira radioativa.
Das gaiolas erguidas no espaço
(hermeticamente grutas)
o ronco de mil gargantas nascidas
e o balido das guelras,
o voo das águias,
rugidos de ogros azuis,
deuses lantanídeos cobertos de pó e furor.
Ruge a masmorra onde evaporam os guaranis
e o jabuti no cárcere onde não há futuro
- só as polias convergindo grilhões, arrebatando
sombras, cachoeiras, juremas de hélio,
jacus de carbono secando ao sol.
E do seio das cataratas, como uma horda,
a força hercúlea que se desdobra de mil pavões,
na densa Jaguariúna
- puérperas são as vacas nuas, exangues de céu e de tatus.
(Poema extraído do ebook Prece à Minerva, disponível nas lojas virtuais da Amazon, Cultura, Ubook, entre outras)
👁️ 106
Virgem assimétrica
A virgem assimétrica,
gestada no polígono,
faleceu por falta de oxigênio
nas veias, disse o médico legista.
Mais tarde, porém, descobriu-se
que ela não era virgem e que
as veias eram ocas, como
a cabeça.
Então, quiseram saber
como ela fizera amor,
já que não tinha face
nem sentia desejos.
(Poema extraído do ebook Pássaro Angular, disponível no Ubook e em outras lojas virtuais)
gestada no polígono,
faleceu por falta de oxigênio
nas veias, disse o médico legista.
Mais tarde, porém, descobriu-se
que ela não era virgem e que
as veias eram ocas, como
a cabeça.
Então, quiseram saber
como ela fizera amor,
já que não tinha face
nem sentia desejos.
(Poema extraído do ebook Pássaro Angular, disponível no Ubook e em outras lojas virtuais)
👁️ 118
Desencanto
Cavalguei muitas auroras para chegar até aqui.
Mas o que vejo são águias atrozes, supersônicas,
sobrevoando o Atlântico Sul e os mares do Leste.
Bromélias ogivais colhidas no asfalto, sem pudor;
hortas de magnésio plantadas no algodoal,
sobre as ruínas.
Túmulos foram erguidos nas montanhas, ao longe,
para ajuntar as colheitas mortas.
Haverá colheitas futuras?
Galguei as noites do passado para dormir agora,
deitar-me na pedra
e contemplar, com tristeza,
os incêndios,
os cactos fendidos,
os séquitos blindados,
a Vênus eclipsada,
demônios nus a irradiar no céu,
como estrelas.
(Poema extraído do ebook Prece à Minerva, disponível nas lojas virtuais da Amazon, Cultura, Ubook, entre outras)
Mas o que vejo são águias atrozes, supersônicas,
sobrevoando o Atlântico Sul e os mares do Leste.
Bromélias ogivais colhidas no asfalto, sem pudor;
hortas de magnésio plantadas no algodoal,
sobre as ruínas.
Túmulos foram erguidos nas montanhas, ao longe,
para ajuntar as colheitas mortas.
Haverá colheitas futuras?
Galguei as noites do passado para dormir agora,
deitar-me na pedra
e contemplar, com tristeza,
os incêndios,
os cactos fendidos,
os séquitos blindados,
a Vênus eclipsada,
demônios nus a irradiar no céu,
como estrelas.
(Poema extraído do ebook Prece à Minerva, disponível nas lojas virtuais da Amazon, Cultura, Ubook, entre outras)
👁️ 111
Caos primordial
As belas mulheres do Guarujá, não existo para elas?
(...)
No início era o caos, a matéria escura informe, move-
diça. Até que o sopro de Deus, desatando os redemoi-
nhos, clareasse a face do abismo.
(Poema do ebook Prece à Minerva, disponível nas lojas virtuais da Amazon, Cultura, Ubook, entre outras)
(...)
No início era o caos, a matéria escura informe, move-
diça. Até que o sopro de Deus, desatando os redemoi-
nhos, clareasse a face do abismo.
(Poema do ebook Prece à Minerva, disponível nas lojas virtuais da Amazon, Cultura, Ubook, entre outras)
👁️ 114
Pássaro Angular
O pássaro angular,
forjado no compasso,
não voa nem assobia.
Enjaulado num triângulo,
no vértice de seus catetos,
aguarda ser liberto, um dia, pela
mulher niilista fecundada na equação.
(Poema do ebook Pássaro Angular, disponível no Ubook e em outras lojas virtuais)
forjado no compasso,
não voa nem assobia.
Enjaulado num triângulo,
no vértice de seus catetos,
aguarda ser liberto, um dia, pela
mulher niilista fecundada na equação.
(Poema do ebook Pássaro Angular, disponível no Ubook e em outras lojas virtuais)
👁️ 114
American way of life
A noite resgatará as nuvens que margeavam o litoral, insidiosas?
Leões persas aglutinaram-se nos montes para rugir, à espreita das
naus. Devotados à morte e à vida, eles regem os ventos e os ciclo-
nes que desatam aos borbotões na baía de Massachussets.
Ah! Se eu pudesse ir para lá!... O que eu faria lá, posso contá-lo?
Visitaria as bibliotecas e estudaria a gramática inglesa,
com furor;
seduziria as moças nova-iorquinas, amando-as como jamais fo-
ram nem poderão ser amadas neste mundo;
furtaria automóveis; iria aos cassinos para jogar blackjack e fa-
zer apostas;
andaria de skate no leito das avenidas;
dançaria com Minerva no cume dos arranha-céus;
pularia corda; galgaria colinas; assistiria aos jogos olímpicos
numa suíte do Central Park;
beberia conhaque; iria aos cinemas, aos estádios;
transporia as cidades do Sul montado num javali para
anunciar as boas-novas e a morte da Klu Klux Klan.
Depois, quando o tédio me compungisse,
a deusa mais bela, vestida de liberdade,
desceria à Terra para me consolar e dizer que não
há mal nenhum no coito entre deuses e humanos
(porque Zeus, possuindo Dânae, a fez mulher).
(Poema extraído do ebook Prece à Minerva, disponível nas lojas virtuais da Amazon, Cultura, Ubook, entre outras)
Leões persas aglutinaram-se nos montes para rugir, à espreita das
naus. Devotados à morte e à vida, eles regem os ventos e os ciclo-
nes que desatam aos borbotões na baía de Massachussets.
Ah! Se eu pudesse ir para lá!... O que eu faria lá, posso contá-lo?
Visitaria as bibliotecas e estudaria a gramática inglesa,
com furor;
seduziria as moças nova-iorquinas, amando-as como jamais fo-
ram nem poderão ser amadas neste mundo;
furtaria automóveis; iria aos cassinos para jogar blackjack e fa-
zer apostas;
andaria de skate no leito das avenidas;
dançaria com Minerva no cume dos arranha-céus;
pularia corda; galgaria colinas; assistiria aos jogos olímpicos
numa suíte do Central Park;
beberia conhaque; iria aos cinemas, aos estádios;
transporia as cidades do Sul montado num javali para
anunciar as boas-novas e a morte da Klu Klux Klan.
Depois, quando o tédio me compungisse,
a deusa mais bela, vestida de liberdade,
desceria à Terra para me consolar e dizer que não
há mal nenhum no coito entre deuses e humanos
(porque Zeus, possuindo Dânae, a fez mulher).
(Poema extraído do ebook Prece à Minerva, disponível nas lojas virtuais da Amazon, Cultura, Ubook, entre outras)
👁️ 111
Fluidez
Ontem, vi minha filha se maquilando. Saltei para trás, assustado. Isso está certo ou o erro está em mim, que estou envelhecendo? Fitei-a de longe, cismado, e ela me pareceu diferente da criança que vi nascer, há doze anos. Pintando as faces, olhava-se no espelho com enlevo, como se desfrutasse uma juventude perene, inesgotável.
Tal cena me fez lembrar duma assertiva do Marquês de Maricá. Político que viveu no Brasil Império, ele escreveu: “Ambos se enganam, o velho quando louva somente o passado, o moço quando só admira o presente”.
Como é ilusório o tempo! Um dia eu também fitara o espelho assim, com deleite. Fascinado pela minha beleza, queria pensar que jamais perderia as forças, que jamais envelheceria. Mas como eu era tolo! Muitos são como aquele menino que se desmanchara, sumindo para sempre. Pequenos, limitam-se a contar a vida pela duração do tempo, das horas, dos minutos. Avistam no horizonte a morte e, com ela, o término da vida, a queda no profundo vazio que é o nada (ou algo desconhecido e que, portanto, não interessa). Isso nos remete à citação do marquês. Se os velhos bendizem o passado, o fazem porque lamentam a proximidade do fim, e os moços, se louvam o presente, o fazem por não temerem a senilidade, que lhes avulta distante. Tanto uns como os outros estão aferrados ao tempo, à ilusão do tempo, pelo qual se medem o crescimento, o vigor, a degeneração.
Para nós, minúsculos seres arrastados para a morte, dia após dia, nos resta aceitar a vida como ela é, fluida e passageira. O jovem se gaba de sua força e beleza, mas existe uma beleza superior, mais profunda, que ele desconhece. Uma beleza que cresce com o tempo, na lavoura da alma, para ser colhida no fim da vida, no silêncio da última estação.
(Texto extraído do livro "A gata e outras crônicas (2020)", disponível em https://clubedeautores.com.br/livro/a-gata. No Youtube, acesse "A gata e outras crônicas - booktrailler")
(Texto extraído do livro "A gata e outras crônicas (2020)", disponível em https://clubedeautores.com.br/livro/a-gata. No Youtube, acesse "A gata e outras crônicas - booktrailler")
👁️ 120
Amanda
Amanda. Eu a trago comigo, como uma estrela que cabe na mão, alva e cintilante. Ela que não foi minha nem poderia ser. Estudávamos na mesma turma, numa escola municipal. Eu sentava no fundo da sala, porque assim era menos lembrado pela professora, enquanto ela, os olhos vivos e curiosos, sentava-se diante da lousa, sóbria e atenta às palavras ditas e escritas pela mestra.
Eu desprezava as letras, os números, o saber. Ela os amava. Era uma das poucas meninas, talvez a única de toda a escola, que lia as tragédias de Ésquilo. Também amava os astros, especialmente os planetas, gastando tanto tempo no seu estudo que já podia desafiar a professora, a qual a fitava com algum temor (ou uma profunda admiração que beirava o temor).
Essa guria que, por amor dos livros, esquecia-se da infância alegre e solta nas ruas, essa guria me amava. Logo eu que sentava no fundo da classe, perto dos baderneiros, e fui três vezes pra recuperação porque escrevia garranchos que a professora se recusava a decifrar. Como a Amanda, tão estudiosa, poderia gostar de mim? Eis um mistério que não posso compreender. E, em se tratando de amor, o que a razão explica?
Certa manhã, na escola, notei que havia, no canto da minha mesa, um pequeno bilhete. Escrito num papel amarelinho, com letras arredondadas, bem feitas, dizia: "Beijos de sua admiradora secreta". Oh! Senti um arrepio que acelerou o meu coração. Uma admiradora... No dia seguinte, vi na mesa outro bilhete. A frase, numa folhinha cor de rosa, era esta: "Beijos de sua admiradora nem tanto secreta. Boa noite!" Apesar do erro, pois não era noite, mas dia, adorei a mensagem e aguardei que viessem outras. E elas vieram ao longo do mês. Uma delas, curiosamente, era esta frase do Rubem Alves: "Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira". Outra mensagem era este versículo da Bíblia: "Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine".
Eu só pude descobrir sua remetente porque, por um acaso inexplicável, achei o caderno dela, que fora perdido numa quinta-feira. Quando lhe devolvi o caderno, fitei longamente seus olhos, olhos vivos e graúdos que faiscavam como pequenas estrelas. Quase eu lhe disse que estava feliz, quase. Sim, nesses olhos eu descobri o amor, o mais belo de todos, o mais puro. Certamente, o único amor ideal, eterno. Pois não carece do outro para amar, já que se nutre do pensamento, da matéria do pensamento.
(Texto extraído do livro A gata e outras crônicas (2020), disponível em https://clubedeautores.com.br/livro/a-gata. No Youtube, acesse: "A gata e outras crônicas - booktrailler".
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Eu me chamo Rodrigo Alencar, tenho 36 anos e já publiquei três livros: "Pássaro Angular" (2017), "Prece à Minerva" (2018) e "A gata e outras crônicas" (2020). Os dois primeiros são livros de poesia e o último, um livro de crônicas. Alguns desses textos foram publicados na revista eletrônica "Interpretações".
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