Escritas

Lista de Poemas

Ode aos surdos


às vezes é melhor ser surdo
do que ouvir certas coisas.

Invejo os surdos.

à eles não foi legado o absurdo
de ouvir a insanidade humana.
Estão simplesmente à deriva
em meio a toda essa discórdia
esse disse-me-disse
essa intolerância abusiva
essa hipocrisia covarde
e sem tamanho
dos dias de hoje.

Quisera eu ter a mesma sorte.

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Fala aí !

Eu não quero escrever sobre bunda, palavrão, pornografia, corrupção policial, política, favela, UPP, homossexualismo, bruxos, fadas, anjos, vampiros, zumbis, emos, adolescentes desajustados, viciados, auto-ajuda, teorias conspiratórias...

Dito isto, agora me digam:

Sobre o que é que eu vou escrever
se parece não ter sobrado mais nenhum outro assunto
que seja digno de nota?

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Você não se cansa, não?


Eu já sei o que você vai dizer
já ouvi essa historinha umas mil vezes
não quero mais saber
e antes que venha com aquele papo furado de religião, evangelizar
já parou para se perguntar uma vez só
se eu realmente estou afim de te escutar?
Se alguma vez eu te escutei
toda vez que você me importunou com essa ladainha
que se torna pior a cada vez que você repete?

Então?
Tá esperando o quê?
Um convite pra ir embora?

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Game over


Aquele beijo
poderia ter sido o último
ou o primeiro.
Dava na mesma.
Eu não senti nada.
Bem como seus carinhos
ou palavras de amor.
As serenatas então? Ihhh!!!
Não funcionaram.
Nada funcionou.
Você não estava lá.
Não de verdade.
Não de corpo presente.
O que eu vi lá foi uma miragem
um holograma muito bem feito
posto ali para me enganar.
E só.

Agora chega.

De que adianta
continuar perdendo tempo
com o que não aconteceu?
Você quer passar por isso?
Por todo esse sofrimento?
Quantas vezes mais?
Por quanto tempo mais
todas essas mentiras
proporcionadas pelas desculpas
que nós criamos um para o outro?
Reviver mais uma vez
o que não foi sentido
mas precisa de uma explicação?

Você é desses?
Eu não.

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Hoje, não


Há de chegar o dia
em que eu me renda a tudo isso que aí está
e aceite a burrice como modo de vida
derrotado
castrado diante de um imbecilismo torpe, vil.

Até lá...

Ah! a vida
sempre cheia de até lás
e sua eterna mania de corromper o óbvio.

Até lá
que me aturem
ou me esqueçam
deixem-me em paz
em meu canto
apreciando esse grande espetáculo humano
onde o ordinário e o infeliz
dançam alucinadamente.
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O meu refúgio


Preciso voltar a escrever
urgentemente.

Antes que tudo o mais
perca completamente o sentido
e as palavras
se tornem desnecessárias.

Parece tão próximo o dia
em que nos tornaremos ágrafos
de uma vez por todas.

E eu tenho medo
de não deixar registrada
toda a minha amargura
enquanto ainda é tempo...

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Pois é...


Eu tô naquela fase da vida
em que a própria vida
me colocou no banco de reservas
de um jogo das finais do campeonato
e me disse:
espera aí
que eu vou te colocar em campo
aos 30 minutos do segundo tempo...

...e eu tô aqui, esperando.
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Brasil made in anywhere


- Cê precisa dar um upgrade na tua vida...
- Tô tão down hoje. Não sei porquê.
- Vai ter um festival foodtruck hoje no Terreirão do Samba. Achei a ideia o must!
- Calma, my friend. Vai ficar pronto no prazo. Take it easy, man!

Não suporto essas pessoas que estrangeirizam a própria fala. Misturam língua-mãe com expressões de outros idiomas que viram, ouviram, copiaram em algum programa, novela, jornal, livro da vida. E depois batem no peito, orgulhosos, e falam alguma calhordice do tipo "sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" só porque viram a exibição do hino nacional durante o jogo da seleção brasileira de futebol. E põem a mão no peito e tudo...

Aff!!!

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Noite de estreia



O teatro, lotado.
Sentado à minha cadeira (que não era a que eu queria, mas fazer o quê, quem mandou comprar o ingresso em cima da hora?)
vejo o ator, moreno, vestes pretas, barbudo, barriga saliente,
falando de Kafka e da relação tumultuada que sempre teve com o pai.
O ambiente é soturno
o ar-condicionado um pouco acima do ideal
a plateia...
A plateia é outro departamento.
Na primeira fileira
Ah! a primeira fileira...
Eu era novo e inexperiente
estudante de colégio público
e já reclamava da primeira fileira.
Aqueles grandes enganadores
que passam a vida dissimulando
tentando convencer seus professores de que estão realmente interessados.
Pura balela!
No teatro a primeira fileira é aquele lugar sagrado
dos que querem acreditar piamente
- e com isso fazerem os demais acreditarem também -
que gostam (ou entendem) do assunto.
Outra vez: pura balela.
Os adolescentes que afobadamente se aboletaram
encabeçando a plateia
tiram selfies
fofocam
conversam paralelamente ao espetáculo
não entendem sequer 1% do que está sendo encenado.
É...
O meu professor de filosofia da faculdade estava certo:
não existe nada mais cruel e segregador do que o conhecimento.
E as palavras de Kafka
a sua mágoa
o seu ressentimento
a verdade que está escondida ali dentro
incomoda.
Não bastasse a indelicadeza e a intolerância da juventude
ainda preciso conviver com aqueles casais
que trazem os filhos pequenos
por não terem com quem os deixar.
Não existe pior plateia
do que pessoas que não atendem à classificação indicativa.
E a consequência disso é dividir o espetáculo
com seus ruídos, pitis, reclamações, enfado.
É aquele momento em que o corpo parece querer dizer
"vá embora agora!"
mas você simplesmente esnoba o comentário
e decide encarar a batalha de frente.
Lágrimas
berros
incomunicabilidade
o ator se desdobra no palco
apresenta um dos maiores gênios da literatura mundial
sob uma ótica nada tradicional.
Naquele momento
com aquela plateia discordante
Kafka sou eu.
E eu quero ser Kafka.
Eu tenho inveja do ator que encena o monólogo
eu quero que ele troque de lugar comigo.
Agora.
Ao fim de pouco mais de 70 minutos
os aplausos (mesmo os de quem não entendeu nada)
ele pede um pequeno intervalo
convida para o debate posterior
mas eu tenho um outro compromisso
e não poderei permanecer.
Pena!
Fica a curiosidade de saber o que aconteceu depois:
o festival ensandecido de
fotos+autógrafos+abraços+rasgação de seda
e as perguntas óbvias
e a puxação de saco
etc etc etc.
Quer saber?
Foi melhor assim.
Bendito compromisso.
Uma das gestoras do teatro vem ao palco
para anunciar as próximas atrações da casa:
Ionesco, Suassuna, Joyce.
Fico tentado em perguntar qual Joyce
mas ela desce do palco rapidamente
após agradecer a presença de todos.
E eu vou embora
tentando mais uma vez
compreender que mundo é esse
onde é tão difícil encontrar o silêncio...
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No retrovisor


Olho para trás.

Perda da virgindade.

Dirigir o carro do meu pai pela primeira vez e enfiá-lo num muro a 150 km/h.

O meu primeiro salário, que eu gastei numa jaqueta jeans que eu usei o quê?... Umas cinco vezes? Nem isso.

Rock in Rio 1985. Queen, Rod Stewart, AC/DC.

Eu e meus quatro amigos inseparáveis - Júlio, Ana, Robert e Gisele - numa saveiro apertada, radiador fodido, rumo a Buenos Aires para ver um dos últimos shows do The Police.

Eu, detida numa delegacia com um galho de maconha no bolso e liberada pelo delegado que tinha rabo preso com o advogado que o meu pai arranjou para me soltar. Deve ter estuprado alguém no colegial e entrou para a polícia pra se proteger. Provavelmente a mina que não dava mole pra ele - uma Joana da vida - e acabou virando atriz pornô por falta de opções profissionais.

Onde foi parar tudo isso, toda essa adrenalina?
Em que gaveta foi que eu deixei?

Parece que foi ontem. Parece que fazem séculos. Parece que eu tenho 100 anos. Quanto tempo? Perdi as contas. Faz tempo que eu perdi as contas.

Eu tô no túnel do tempo, cheio de ácido nos cornos e nem percebi...

E o que sobra? O que sobra é isso que está aí? Sério? Isso que não tem nome? Se bem que mesmo que tivesse eu ia me confundir todo na hora de pronunciar. Então é melhor nem pensar nisso...

Pra quê?
Eu não consigo esquecer o que passou.
E não consigo parar de pensar que não quero o que está valendo agora.
As regras mudaram e nada me interessa.

Eu quero o ontem de volta.
Porque está dentro de mim, tatuado, gravado a ferro e fogo. Não dá pra tirar. Não dá pra dizer "esquece! esquece agora".

Ainda tá aqui comigo
e por isso eu continuo aqui.

Olhando pra trás.
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