Lista de Poemas

O canto que devemos cantar

Somos todos, somos muitos, somos um,
tão parecidos, tão diferentes.
Muito nos aproxima de outros;
contudo, tão distintos.

Novos, praticamente as mesmas brincadeiras, a mesma curiosidade,
a mesma necessidade da descoberta do corpo;
mais tarde, tão diferentes.
Cada um tem e leva sua marca.

Única é a roupagem do tigre entre tantos, 
únicas são as listas da zebra entre muitas,
as manchas da girafa entre outras,
as marcas de nossos dedos entre todos.

Cada um com sua voz, seu jeito, seu canto
Todos os cantos, ao final, nos chamam para um só lugar.

Doce o canto do uirapuru, feliz de quem o escutou.
Triste é o canto do pavão e sentiu quem esteve só.
Meigo e forte é o canto das baleias e parou quem ouviu.
Todos tem seu canto único como o canto do sabiá-laranjeira. 

Mas de todos os cantos, só um tem um canto especial.
Nada é mais forte, mais sonoro, mais doce que este canto cheio de vontades, de amores e dores.
Nenhum canto chora a vida como ele, nenhum canto eleva a força como este.
De todos os cantos, só este faz sentido para humanizar.

Este é o canto dos homens.
Este é o canto que devemos cantar.
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Pássaro estranho

Trago em mim
Noites gordas de todos os homens
Como pássaro morto
De voos noturnos.

Há muito tento dar vida
A este pássaro estranho,
Na melodia surda e rouca
De meus cigarros sonâmbulos.

Mas em vão! Em  vão!

As águias famintas
Arrancaram meus olhos de sonhos
E todas as noites faço este voo
Sem árvore para descansar.

Chove lá fora!
O céu está chorando
Por todos os pássaros mortos.
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Aritmética Simples

A chuva é criança
O mar é velho
é a soma
de todas as nossas infâncias
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Pescaria

Você é a isca; eu, o lambari.
Você passa por mim, e nada,
você me instiga, você me chama.

Do remanso desta curva,
vejo-a na correnteza da vida,
saio e a persigo.

Ziguezagueia à minha frente.
Como capim brincando na água.
Dou voltas e me enrolo na sua linha.

Boquiaberto, agarro-a inteirinha.
Pronto! Você me fisgou.
Estou preso no anzol da paixão.
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Resumo

Quisera eu poder voltar o tempo,
para dedicar tudo que pensei,
(e não fiz) porém desd’ aquel’ momento,
sofro ao saber tudo que não passei.

Se sofro hoje aquilo que não passei,
É porque queria, sim, ter passado,
pelo tempo que não tive, chorei.
Marcas do que não fiz, sinto calado.

Embora calma, a vida é diferente.
Muitas tristezas, parcas alegrias,
Como colcha, cobrem-me o presente.

Ao revirar o quarto de esquecidos,
No meu resumo de vida, eu sei.
Poucos achados e muitos perdidos.
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O amor é branco

O amor é como roupa branca.
Tem que usar.
Não pode ficar engavetado,
tem que ser usado.

Quando usado com frequência,
Fica macio, gostoso, com nosso cheiro!
Depois de lavado, alvejado,
É como se fosse novo de novo.

Se não usar,
Fica amarelado, às vezes, até arisco.
Quando não usado por algum tempo,
Fica sem jeito, ressabiado.

Assim é o amor.
Quando não o tem diariamente,
Também fica encardido, amarelo,
E, um dia, você já não tem como usá-lo.
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Tempo


Meu olhar é prolongado nas coisas que vejo,
Meus ouvidos são prolongados nas coisas que ouço,
Minhas mãos, tão velhas talvez para o momento exato,
são prolongadas nas coisas que toco.

No corpo curtido de busca e desejo,
a insensatez mórbida de me completar
no tempo e no espaço,
e me agarro ao minuto presente.

Covarde! Duas horas se passaram.
Tento me completar nas coisas que faço.
Do hoje, sou quase tarde.
Que pena!
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Música Febril

Abaixo o tempo
de chuvas moles
e inconstantes!

Ouçam este poeta
de gavetas lacradas,
de livros guardados,
de sonhos perdidos,
cantar sua música febril
ao som tímido e solitário
de sua viola imaginária...
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