Lista de Poemas
ZOMBARIA
Um deus ameaçador e assassino
Cria um destino para a criatura:
Se a raça humana tiver o desatino
De nele descrer é uma raça impura.
Ele diz: "Sou uno, sou o verdadeiro!
Dos mil deuses do mundo sou o real".
Mata o filho na cruz como o primeiro
Torturado à verdade de seu mal.
Para o homem cria paraíso e inferno
Diz: "As ruindades da vida são tua culpa!"
Tal grande deus sempre tem desculpa.
Mata inocentes! Proclama sua bondade!
Cria castigos e decreta a insanidade
E ri e zomba! Este é nosso pai eterno!
Cria um destino para a criatura:
Se a raça humana tiver o desatino
De nele descrer é uma raça impura.
Ele diz: "Sou uno, sou o verdadeiro!
Dos mil deuses do mundo sou o real".
Mata o filho na cruz como o primeiro
Torturado à verdade de seu mal.
Para o homem cria paraíso e inferno
Diz: "As ruindades da vida são tua culpa!"
Tal grande deus sempre tem desculpa.
Mata inocentes! Proclama sua bondade!
Cria castigos e decreta a insanidade
E ri e zomba! Este é nosso pai eterno!
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NOITE DE BAR
Noite vazia em vertigem tão calada.
Mesa de bar sem um só companheiro.
Faço o soneto da tristeza descarada
Sob um gole de cerveja, derradeiro.
Diz o garçom: Esta vida é um nada!
Sem bebida, sem mulher, sem dinheiro!
E as cinzas da solidão descontrolada
Fazem o cigarro apagar-se no cinzeiro.
Meia-noite! Quero beber sofregamente!
Quero escrever o verso condizente
Com a dor desta maciça solidão!
E o dia nasce! E o bar fecha a porta!
O sol escala o céu e a noite morta
Marca encontro com o sono lá no chão!
Mesa de bar sem um só companheiro.
Faço o soneto da tristeza descarada
Sob um gole de cerveja, derradeiro.
Diz o garçom: Esta vida é um nada!
Sem bebida, sem mulher, sem dinheiro!
E as cinzas da solidão descontrolada
Fazem o cigarro apagar-se no cinzeiro.
Meia-noite! Quero beber sofregamente!
Quero escrever o verso condizente
Com a dor desta maciça solidão!
E o dia nasce! E o bar fecha a porta!
O sol escala o céu e a noite morta
Marca encontro com o sono lá no chão!
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ITINERÁRIOS
(I)
Pelo tempo hás de fazer itinerários
buscando o amor que meu corpo oferta.
Hei de deixar a minha porta aberta
e meu relógio parado e sem horários.
Podes chegar ainda hoje de surpresa
nalgum instante extraordinário.
Passar por mim no rumo contrário
se não vires a minha luz acesa.
Teus olhos buscam a poesia fugitiva
pintada em sonho para te fazer cativa
nos belos versos que eu nunca fiz:
- Dizendo meu amor em altos brados
conjugados nos verbos dos passados
loucos desejos de te fazer feliz.
(II)
No caminho quando os meus amores
marcarem os versos escritos a pedido
chorarás quando eu tiver partido
para o mundo escuro e sem cores.
Teu belo corpo lembrará (arrependido)
nada ter feito contra os dissabores.
Ter arrancado do jardim as flores
plantadas num poema entristecido.
E ao releres estes versos desleixados
conhecerás os desejos procurados
da eterna busca de um poeta aprendiz.
E a lágrima por teus olhos derramada
irá molhar a flor rubra abandonada
na tumba fria a tentar criar raiz.
(III)
Olho teu corpo adormecido na cama
marcando as curvas entre os lençóis
e sinto o quanto eu e tu fomos heróis
vivendo na vida o eterno drama
de saber: sempre curtindo sóis a sós.
Mas nossa louca paixão ainda chama
hoje trazendo apenas o holograma
do passado longínquo para nós.
Toco a pele! Sinto os lábios entreabertos
como à espera da água dos desertos
de um oásis a iludir o sonho feliz.
E aos beijos recriamos nossa história
indo ao longe e trazendo à memória:
- Essa vida é uma meretriz!
(IV)
Nos caminhos novos sangues recriados
marcam genes onde laboramos
durante as horas em que mergulhamos
na paixão louca dos apaixonados.
E se um dia itinerários lhes pensamos
eles seguem caminhos desmembrados
apagando seus rumos dos passados
abrindo rotas que não as criamos.
Mas algo resta desses seres insistentes
tal a ternura e o amor polivalentes
trazendo a nós o bem que lhes condiz:
- Belos filhos e pessoas consistentes
feitas das carnes e das nossas mentes
onde a paixão deixou marcada a cicatriz.
(V)
Relógio então parado e sem horários
há de restar na vida mais incerta
inda que eu deixe essa porta aberta
o tempo já marcou os itinerários.
Não mais precisa o amor da luz acesa.
Não vai passar no meu rumo contrário.
Já lá se foi o instante extraordinário.
A vida agora não mais nos traz surpresas.
Conjugamos nos verbos dos passados
paixão e amor em poemas delicados
e até hoje nada em vida nos desdiz:
- Tua mente agora da poesia é cativa
e recordo como era agressiva
quando chamava o poeta de infeliz.
.............................
Do livro "Loucura" - 2018
Pelo tempo hás de fazer itinerários
buscando o amor que meu corpo oferta.
Hei de deixar a minha porta aberta
e meu relógio parado e sem horários.
Podes chegar ainda hoje de surpresa
nalgum instante extraordinário.
Passar por mim no rumo contrário
se não vires a minha luz acesa.
Teus olhos buscam a poesia fugitiva
pintada em sonho para te fazer cativa
nos belos versos que eu nunca fiz:
- Dizendo meu amor em altos brados
conjugados nos verbos dos passados
loucos desejos de te fazer feliz.
(II)
No caminho quando os meus amores
marcarem os versos escritos a pedido
chorarás quando eu tiver partido
para o mundo escuro e sem cores.
Teu belo corpo lembrará (arrependido)
nada ter feito contra os dissabores.
Ter arrancado do jardim as flores
plantadas num poema entristecido.
E ao releres estes versos desleixados
conhecerás os desejos procurados
da eterna busca de um poeta aprendiz.
E a lágrima por teus olhos derramada
irá molhar a flor rubra abandonada
na tumba fria a tentar criar raiz.
(III)
Olho teu corpo adormecido na cama
marcando as curvas entre os lençóis
e sinto o quanto eu e tu fomos heróis
vivendo na vida o eterno drama
de saber: sempre curtindo sóis a sós.
Mas nossa louca paixão ainda chama
hoje trazendo apenas o holograma
do passado longínquo para nós.
Toco a pele! Sinto os lábios entreabertos
como à espera da água dos desertos
de um oásis a iludir o sonho feliz.
E aos beijos recriamos nossa história
indo ao longe e trazendo à memória:
- Essa vida é uma meretriz!
(IV)
Nos caminhos novos sangues recriados
marcam genes onde laboramos
durante as horas em que mergulhamos
na paixão louca dos apaixonados.
E se um dia itinerários lhes pensamos
eles seguem caminhos desmembrados
apagando seus rumos dos passados
abrindo rotas que não as criamos.
Mas algo resta desses seres insistentes
tal a ternura e o amor polivalentes
trazendo a nós o bem que lhes condiz:
- Belos filhos e pessoas consistentes
feitas das carnes e das nossas mentes
onde a paixão deixou marcada a cicatriz.
(V)
Relógio então parado e sem horários
há de restar na vida mais incerta
inda que eu deixe essa porta aberta
o tempo já marcou os itinerários.
Não mais precisa o amor da luz acesa.
Não vai passar no meu rumo contrário.
Já lá se foi o instante extraordinário.
A vida agora não mais nos traz surpresas.
Conjugamos nos verbos dos passados
paixão e amor em poemas delicados
e até hoje nada em vida nos desdiz:
- Tua mente agora da poesia é cativa
e recordo como era agressiva
quando chamava o poeta de infeliz.
.............................
Do livro "Loucura" - 2018
👁️ 451
BERÇO ESPLÊNDIDO (1985)
O país do futuro dorme
deitado em berço esplendido
nas camas dos banqueiros.
É liquidado diariamente
em grandes copos de uísque
e nas surubas
de desembargadores
e juízes e políticos
com notas de milheiros
saindo dos coletes
decorando os decotes
das socialites.
Do outro lado
deitado em camas rústicas
sobre lodaçais
com muriçocas e ratos
e surtos epidêmicos
o povo dorme
doente e pronto
para a escravidão
do dia seguinte
em ordem
e
em progresso.
........................
Do livro "Poemas dos Anos de Chumbo" - 2017
deitado em berço esplendido
nas camas dos banqueiros.
É liquidado diariamente
em grandes copos de uísque
e nas surubas
de desembargadores
e juízes e políticos
com notas de milheiros
saindo dos coletes
decorando os decotes
das socialites.
Do outro lado
deitado em camas rústicas
sobre lodaçais
com muriçocas e ratos
e surtos epidêmicos
o povo dorme
doente e pronto
para a escravidão
do dia seguinte
em ordem
e
em progresso.
........................
Do livro "Poemas dos Anos de Chumbo" - 2017
👁️ 400
O POETA E O VINHO
É uma coisa bem própria dos poetas
o beber vinho amargo como a vida
e amar a própria vida como um vinho
na amplidão de todas as mulheres.
É uma coisa muito própria dos poetas
perder as forças em todo amanhecer.
Ouvir o silêncio precisando de escuta
ao sabor do sangue de uvas entre os lábios.
Beber a vida é coisa própria de poetas.
Escutar pela saliva um aroma puro
de noites amplas onde o vinho é uma música
que torna um instante de hoje em dois instantes.
O poeta é um bêbado que sorve o hoje.
Não discute os problemas do amanhã.
É uma estrela mergulhada em um cálice
que a morte beberá após a vida.
.............
Do livro "Meio a Meio" - 1979
👁️ 426
TEMPO DE ARMAS
Tempos há que nos têm chegado
em espasmos de sal e maresias.
Tempos a se fazer de errantes
numa crônica ou numa poesia.
Tempos de ideias fabricadas
por ladrões e juízes
e governantes canalhas.
Tempos a vir terão de ser armados
com discursos e gritos roucos
e fogo e balas de canhão.
Tempos que se devem fazer presentes
nas ruas e nas esquinas e nos becos.
Tempos de ideais a serem concretizados
por homens e mulheres e crianças.
Para existir calmaria na terra
e calmaria no mar
temos de construir tempos armados.
Temos de erguer barricadas
ou morrer.
.............................
Do livro "Abismo das Máscaras" - 2017
em espasmos de sal e maresias.
Tempos a se fazer de errantes
numa crônica ou numa poesia.
Tempos de ideias fabricadas
por ladrões e juízes
e governantes canalhas.
Tempos a vir terão de ser armados
com discursos e gritos roucos
e fogo e balas de canhão.
Tempos que se devem fazer presentes
nas ruas e nas esquinas e nos becos.
Tempos de ideais a serem concretizados
por homens e mulheres e crianças.
Para existir calmaria na terra
e calmaria no mar
temos de construir tempos armados.
Temos de erguer barricadas
ou morrer.
.............................
Do livro "Abismo das Máscaras" - 2017
👁️ 430
FAQUIRES
Uma cama de pregos é o futuro
da próxima geração trabalhadora.
Todos serão faquires de si próprios
e ganharão manchetes internacionais
em
“Brazilians sleep in fakirs beds”
“Brasilianer schlafen in Fakirs Bettens”
“Los brasileños duermen en cama de faquires”
“Brasileiros dormem em camas de pregos”
Nenhum outro caminho surpreendente
estará mais próximo da realidade
dos tempos de agora.
As mulheres serão caniços prontos
para alinhar linhas de pesca
e as crianças
como caules desclorofilados
terão olhares tristes
como os dos peixes mortos.
........................
Do livro "Farol" - 2019
da próxima geração trabalhadora.
Todos serão faquires de si próprios
e ganharão manchetes internacionais
em
The Washington Post,
The New York Times,
The Wall Street Journal,
The Guardian,
Daily Mail,
Berliner Zeitung,
El Pais,
Correio da Manhã:
“Brazilians sleep in fakirs beds”
“Brasilianer schlafen in Fakirs Bettens”
“Los brasileños duermen en cama de faquires”
“Brasileiros dormem em camas de pregos”
Nenhum outro caminho surpreendente
estará mais próximo da realidade
dos tempos de agora.
As mulheres serão caniços prontos
para alinhar linhas de pesca
e as crianças
como caules desclorofilados
terão olhares tristes
como os dos peixes mortos.
........................
Do livro "Farol" - 2019
👁️ 405
DOS MEUS 67 ANOS EM DIANTE
Além do que pude ser gente tão jovem
buscando uma espaçonave na internet
para o voo interestelar entre planetas
com o Capitão Kirk no comando
da grandiosa nave Enterprise
tendo ao lado o orelhudo Spock
para me espelhar na sua lógica.
Dos meus 67 anos em diante
vou recordar coisas distantes e do antes
tentar atingir as nuvens
buscar sentir as paisagens
coisas de quando ainda
nem cabelos brancos tinha.
Histórias fantásticas
que ninguém escreveria.
Dos meus 67 anos do antes para o adiante
tentei até escrever um blog na internet
sobre quando ainda nem possuía
uma história de gente.
De quando ainda escrevia odes tímidas dedicadas às papoulas vermelhas
da casa dos meus velhos pais
em um bairro proletário.
Dos meus 67 anos em diante a vir do antes
vejo a mulher dormindo nua
sem oferecer promessas certas
para usufruir a carne crua.
Faço do espaço do tempo sexagenário
em diante e mais adiante e adiante mais
o que possa caber de poemas sobre a lua
bebendo a minha cerveja
em algum bar da minha rua.
Além do que pude ser:
intelectual radical de mim
com amigos radicais de si
com tantos espaços limitados
para imaginar os efeitos
do que fazer dos meus 67 anos
em diante e adiante lembrando o antes.
Como bem disse Pessoa
“O poeta é um fingidor”...
Vamos fingir!
“Filhos, filhos, filhos
melhor não tê-los”, disse Vinicius.
“Mas se não os temos como sabê-los?”
Como sofrer por eles quando velhos?
E esperá-los quase inerte
olhando relógios nos espelhos
a pensar se eles e eu somos iguais
e de onde a vida lhes traz
vertiginosos perigos?
Dos meus 67 anos em diante
não pretendo dissertar coisas amáveis.
Eu não sei os anos da frente.
Sei os 67 anos de antes
e as aventuras loucas concebidas
sem permissão de ninguém.
Conhecendo a dama de vermelho.
Trepando com a dama de vermelho.
Amando a dama de vermelho
com o consentimento do amigo.
Dos meus 67 anos em diante
não poderei dissertar história alguma
mas dos 67 anos do antes
lembro dos meus aniversários e das festas
de quando a minha mãe
era a mulher mais bela
de quando o meu pai
era meu indiscutível herói
de quando meus irmãos eram destinos
afetivos e amorosos e amigos
a cada passo de cada um e ao passo de todos.
Saudades!
Eram carnavais que nos faziam a vida
ser a cada dia mais relampejante.
Eram bocas iguais à boca da Regina
aquela fantasia feita de primeiro amor
que só beijei em uma noite de folia
sob a marchinha da lua
cantada por Ângela Maria.
Saudades!
Eram fugitivos dias nas praias da cidade.
Doses de vodca com laranjas
(coisas especiais).
Saudades!
Eram toques das mãos da piniqueira Suely
antes de sermos profissionais de punheta
atacados por maruins nos canaviais.
Dos meus 67 anos para o agora em diante
melhor dissertar os anos distantes
faltam poucas coisas para ver o sol poente.
Mas ainda faço um brinde
encho meu copo com a mais espumosa cerveja
e grito: Evoé, Baco!
E o mundo ainda me responde!
Evoé! Evoé!
Dos meus 67 anos para o agora em diante
sentindo as recordações distantes
hoje posso morrer sem medo
e usufruir as coisas proibidas
e gritar bem alto e de bom som
para os idiotas acadêmicos:
- Vão tomar no cu! -
Dos meus 67 anos para o agora em diante
eu sou dono de toda a minha história.
Busco a sabedoria como um Lama!
Sou revolução como um Guevara!
E, simplesmente, sou um homem!
Ainda estou vivo!
Desce à Terra a nave Enterprise.
Nosso mundo não está perdido.
Eu estou no comando junto com meu amigo.
O mundo jamais vai se acabar!
...........................
Do livro "Contos Delirantes com Versos em Bolero" - 2017
buscando uma espaçonave na internet
para o voo interestelar entre planetas
com o Capitão Kirk no comando
da grandiosa nave Enterprise
tendo ao lado o orelhudo Spock
para me espelhar na sua lógica.
Dos meus 67 anos em diante
vou recordar coisas distantes e do antes
tentar atingir as nuvens
buscar sentir as paisagens
coisas de quando ainda
nem cabelos brancos tinha.
Histórias fantásticas
que ninguém escreveria.
Dos meus 67 anos do antes para o adiante
tentei até escrever um blog na internet
sobre quando ainda nem possuía
uma história de gente.
De quando ainda escrevia odes tímidas dedicadas às papoulas vermelhas
da casa dos meus velhos pais
em um bairro proletário.
Dos meus 67 anos em diante a vir do antes
vejo a mulher dormindo nua
sem oferecer promessas certas
para usufruir a carne crua.
Faço do espaço do tempo sexagenário
em diante e mais adiante e adiante mais
o que possa caber de poemas sobre a lua
bebendo a minha cerveja
em algum bar da minha rua.
Além do que pude ser:
intelectual radical de mim
com amigos radicais de si
com tantos espaços limitados
para imaginar os efeitos
do que fazer dos meus 67 anos
em diante e adiante lembrando o antes.
Como bem disse Pessoa
“O poeta é um fingidor”...
Vamos fingir!
“Filhos, filhos, filhos
melhor não tê-los”, disse Vinicius.
“Mas se não os temos como sabê-los?”
Como sofrer por eles quando velhos?
E esperá-los quase inerte
olhando relógios nos espelhos
a pensar se eles e eu somos iguais
e de onde a vida lhes traz
vertiginosos perigos?
Dos meus 67 anos em diante
não pretendo dissertar coisas amáveis.
Eu não sei os anos da frente.
Sei os 67 anos de antes
e as aventuras loucas concebidas
sem permissão de ninguém.
Conhecendo a dama de vermelho.
Trepando com a dama de vermelho.
Amando a dama de vermelho
com o consentimento do amigo.
Dos meus 67 anos em diante
não poderei dissertar história alguma
mas dos 67 anos do antes
lembro dos meus aniversários e das festas
de quando a minha mãe
era a mulher mais bela
de quando o meu pai
era meu indiscutível herói
de quando meus irmãos eram destinos
afetivos e amorosos e amigos
a cada passo de cada um e ao passo de todos.
Saudades!
Eram carnavais que nos faziam a vida
ser a cada dia mais relampejante.
Eram bocas iguais à boca da Regina
aquela fantasia feita de primeiro amor
que só beijei em uma noite de folia
sob a marchinha da lua
cantada por Ângela Maria.
Saudades!
Eram fugitivos dias nas praias da cidade.
Doses de vodca com laranjas
(coisas especiais).
Saudades!
Eram toques das mãos da piniqueira Suely
antes de sermos profissionais de punheta
atacados por maruins nos canaviais.
Dos meus 67 anos para o agora em diante
melhor dissertar os anos distantes
faltam poucas coisas para ver o sol poente.
Mas ainda faço um brinde
encho meu copo com a mais espumosa cerveja
e grito: Evoé, Baco!
E o mundo ainda me responde!
Evoé! Evoé!
Dos meus 67 anos para o agora em diante
sentindo as recordações distantes
hoje posso morrer sem medo
e usufruir as coisas proibidas
e gritar bem alto e de bom som
para os idiotas acadêmicos:
- Vão tomar no cu! -
Dos meus 67 anos para o agora em diante
eu sou dono de toda a minha história.
Busco a sabedoria como um Lama!
Sou revolução como um Guevara!
E, simplesmente, sou um homem!
Ainda estou vivo!
Desce à Terra a nave Enterprise.
Nosso mundo não está perdido.
Eu estou no comando junto com meu amigo.
O mundo jamais vai se acabar!
...........................
Do livro "Contos Delirantes com Versos em Bolero" - 2017
👁️ 423
OLINDA
Olinda do frevo maior.
Ofício de minha canção,
onde buscando o amparo
fiz milagres nunca vistos,
pedindo ao carmo da virgem
o brilho da luz do farol.
No bairro novo do sonho
numa casa recém-caiada
em um varadouro sem fim
nasceu a história maciça
do jardim atlântico novo,
onde o doce rio desemboca
e de onde os bultrins da vida
chamam homens/mulheres pra mim.
..................
Do livro "Marcos do Tempo" - 2010
Ofício de minha canção,
onde buscando o amparo
fiz milagres nunca vistos,
pedindo ao carmo da virgem
o brilho da luz do farol.
No bairro novo do sonho
numa casa recém-caiada
em um varadouro sem fim
nasceu a história maciça
do jardim atlântico novo,
onde o doce rio desemboca
e de onde os bultrins da vida
chamam homens/mulheres pra mim.
..................
Do livro "Marcos do Tempo" - 2010
👁️ 423
ARITMÉTICA FINAL
A passagem do tempo enruga e tortura
Aperta saudades e lembra a loucura
Do ontem perdido que não mais se faz.
A passagem do tempo é madrasta da vida
Subtrai sonhos! Torna a alma dividida
Entre o fim e o jamais.
Que merda esses cálculos impostos
A nossos corpos a trazer desgostos
Como querendo imitar ciência e arte!
Nada mais de perder tempo na paisagem
O ideal é matar essa miragem
Em que a morte nos reparte.
Sentar à mesa de um bar e sorver a noite
Nos goles das cervejas e em pernoite
Na primeira mulher a nos chamar.
Cigarro nos lábios acendendo a vida.
Antes que ela se diga por perdida
Melhor se embriagar.
Idiota o homem que não sabe o caminho
E leva o corpo em oração até o ninho
Do mármore frio, branco e sepulcral.
Sábio o homem que se faz semente
E vive a dizer ao seu mundo demente:
A vida é casual!
Tão estranhos são esses logaritmos
Todos dançando fora dos ritmos
Da raiz quadrada universal.
Nem o filho nem a virgem nem o deus
Explicam esses motivos de adeus
Na aritmética final!
Assim eu chamo meus amigos e as amantes
Venham até junto a mim serem as bacantes
Da orgia do vinho e do prazer.
Daremos vivas e tilinto a nossos cálices
De mortais deslizando até os ápices
Dos anseios de viver.
Aperta saudades e lembra a loucura
Do ontem perdido que não mais se faz.
A passagem do tempo é madrasta da vida
Subtrai sonhos! Torna a alma dividida
Entre o fim e o jamais.
Que merda esses cálculos impostos
A nossos corpos a trazer desgostos
Como querendo imitar ciência e arte!
Nada mais de perder tempo na paisagem
O ideal é matar essa miragem
Em que a morte nos reparte.
Sentar à mesa de um bar e sorver a noite
Nos goles das cervejas e em pernoite
Na primeira mulher a nos chamar.
Cigarro nos lábios acendendo a vida.
Antes que ela se diga por perdida
Melhor se embriagar.
Idiota o homem que não sabe o caminho
E leva o corpo em oração até o ninho
Do mármore frio, branco e sepulcral.
Sábio o homem que se faz semente
E vive a dizer ao seu mundo demente:
A vida é casual!
Tão estranhos são esses logaritmos
Todos dançando fora dos ritmos
Da raiz quadrada universal.
Nem o filho nem a virgem nem o deus
Explicam esses motivos de adeus
Na aritmética final!
Assim eu chamo meus amigos e as amantes
Venham até junto a mim serem as bacantes
Da orgia do vinho e do prazer.
Daremos vivas e tilinto a nossos cálices
De mortais deslizando até os ápices
Dos anseios de viver.
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Rafael Rocha, jornalista, escritor e poeta natural do Recife, capital do estado de Pernambuco-Brasil. Cinco livros já lançados em sua vida de escritor. Meio a Meio (poesias), A Última Dama da Noite (romance), O Espelho da Alma Janela (contos), Marcos do Tempo (poesias) e Olhos Abertos para a Morte (romance). Seu livro de contos O Espelho da Alma Janela foi agraciado no ano de 1988 pela Academia Pernambucana de Letras com o prêmio Leda Carvalho, mas antes, em 1986, recebeu Menção Honrosa da Academia de Letras e Artes de Araguari (Minas Gerais-Brasil) pelo seu conto Grãos de Terra Sobre. No ano de 2011 foi novamente agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras, prêmio Vânia Souto Carvalho, pelo seu romance Olhos Abertos para a Morte.
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