Lista de Poemas
Espelhos
Gostava que não existisse espelhos
Quando as pessoas me olhassem com desdenho
Não saberia que era pelo meu rosto velho
Mesmo que tenha tentado ficar bonita com empenho
Pensaria que o problema não era meu
E que provavelmente era uma pessoa malvada
Que a sua cara já era assim quando nasceu
Iludindo-me que a minha não era errada
Viveria na ignorância
De ser a ovelha negra do imposto padrão
Como na minha infância
Quando brincar era a minha única preocupação
Como os espelhos existem
Sei do meu pequeno valor
E das pequenas inseguranças que insistem
Em ser o ápice da minha dor
O Inverno
O inverno é sinônimo de melancolia
Estação em que perco a noção do meu “eu”
Pois, a razão que antes via
Foi-se se apagando e desapareceu
Os nevoeiros de manhã são constantes
O frio e a chuva regressam como avalanches
E o problema que no verão pensei estar distante
Volta a atingir-me de forma vibrante e gigante
Penso que não vou viver daqui adiante
Até me lembrar que o inverno passado foi semelhante
A minha motivação é que o inverno vai acabar
A primavera vai chegar e desabrochar
E posso finalmente voltar a ansiar
Pelas estações que estão por chegar
Enquanto esse dia não acontecer
Os dias vão gradualmente escurecer
A minha vida vai me aborrecer
E lentamente vou entristecer
E assim vou permanecer
E a razão? É a estação que está a decorrer
O Outono
O outono vibra dentro de mim
Especialmente na minha mente
Quando este chega a um fim
A minha vida torna-se insignificante novamente
Gosto de ver as folhas a mudar de cor
Lembrando-me que existe espaço para a mudança
E que esta não implica necessariamente dor
Podendo ser tão natural como uma dança
Gosto de voltar a usar cachecóis
E todos os tipos de roupa aconchegante
E quando é de noite corro para os lençóis
Como uma ingénua amante
A passagem para o inverno é triste
Período que ninguém gosta de recordar
Pois, o que viveste e sentiste
Demorará ainda outro ano a chegar
A infância que queria recuperar
Os sonhos que tinha quando criança
Não sobreviveram à mudança
Envelhecer obriga-nos a ver
Que o mundo não é como pensávamos ser
Eu era irrealista e sonhadora
Pensava ter experiência no mundo
Mas era uma mera amadora
Com um desejo muito profundo
Desejava crescer rapidamente
Para que me tratassem de forma diferente
Este é o meu maior arrependimento
Querer crescer antes do tempo
Agora o meu desejo é poder voltar atrás
E dizer ao meu passado para não se precipitar na idade
O pequeno “eu” não sabia que as pessoas eram más
E nem sequer que existia algo chamado maldade
Fábula de Gente Real
Felizmente consegui perceber
Que o que me está a acontecer
Não é experiência única de um só ser
Mas de todos cuja 1ª vez é a viver
Podem tentar esconder
Para eu não conseguir ver
Que o mesmo sentimento os está a corroer
Por mais que a sensação seja de morrer
Partilhamos todos a mesma mágoa
E reagimos todos de maneira diferente
Foi o que me ensinou uma fábula
Mas em vez de ser com os animais, com gente
As portadas das janelas se abrirão
E apesar de a vista ser sempre igual
Nem sempre é a mesma estação
A nossa dor afinal, é normal.
Está Tudo Bem (Até Não Estar)
Está tudo bem não saber
Não estar seguro do que queremos ser
Mesmo que há um dia
Pensássemos que maior certeza não existia
Está tudo bem errar
Principalmente quando estamos a tentar acertar
Mesmo que tenhamos calculado
Todos os nossos passos com muito cuidado
Afinal, a vida é matreira
Podemos cair na ratoeira
Estamos propensos a falhar
Quando não há espaço para mudar
Não está tudo bem continuar
Numa infelicidade chamada lar
Temos que saber identificar
Quando nos devemos afastar
Nuvem Cinzenta
Uma nuvem cinzenta
Paira sobre mim
É uma dor que me atormenta
Uma dor que parece não ter fim
Sei que este sentimento
Veio para assombrar e ficar
É como se tivesse sido um juramento
De termos que andar par a par
Ao meu redor ninguém se identifica
Vivem todos por debaixo de um céu limpo
Será que eu fui a má da fita?
E esta realidade é o meu limbo?
Mas agora estou habituada
A ter esta nuvem comigo
Ela é a única que me faz parecer amada
Faz-me companhia como um amigo
Nela me abrigo de tudo
É como um escudo
Que me protege do resto do mundo
E evita de eu ir mais ao fundo
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